Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quinta-feira, setembro 17, 2015

FARPAS (III)

"Na acção governamental as dissenções são perpetuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não ha remedio, é necessario pagar a religião, o exercito, a centralisação, a lista civil, a diplomacia... - propõe um imposto.
«Caminhamos para a ruina! exclama o presidente do conselho. O deficit cresce! O paiz está pobre! A unica maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespêro, reune o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se d'agonia, e cada um alarga o callarinho na attitude d'um homem que vê desmoronar-se a patria!
- Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam-se carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! Cae o ministério histórico!
E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triumphante, occupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuiram mais, a opinião descreu mais mais, a moralidade publica abateu mais - mas finalmente cahiu aquelle ministerio desorganisador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.
Abre a sessão parlamentar. O novo ministerio regenerador vae falar.
Os senhores tachygraphos aparam as suas pennas velozes. O telegrapho está vibrante de impaciencia, para comunicar aos governadores civis e aos coroneis a regeneração da patria. Os senhores correios de secretaria teem os seus corceis sellados!
Porque, emfim, o ministerio regenerador vae dizer o seu programma, e todo o mundo se assôa com alegria e esperança!
- Tem a palavra o sr. presidente do conselho.
- O novo presidente: «Um ministerio nefasto (apoiado, apoiado! exclama a maioria historica da vespera) cahiu perante a reprovação do paiz inteiro. Porque, senhor presidente, o paiz esta desorganisado, é necessario restaurar o crédito. É a única maneira de nos salvarmos...»
Murmurios. Vozes: Ouçam! Ouçam!
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (attenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)».
- «Meus senhores, diz o presidente, com voz cava - o paiz esta perdido! O ministerio regenerador ainda hontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarchia e da oppressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o paiz a esta ultima desgraça! - Guerra ao imposto!...»
Não, não! com divergencias tão profundas é impossivel a conciliação dos partidos!"

[Maio de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

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