sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O OUTONO MORNO DE 2015

Ao contrário da maioria das opiniões situadas mais à direita no espectro político que tenho ouvido, eu não partilho mesmo nada da ideia de que um governo de esquerda seria ilegítimo para Portugal. Quanto a mim, não há defraudação dos resultados eleitorais alguma, muito menos um golpe de estado. Que eu saiba, os portugueses elegem deputados, deputados esses que são donos dos seu mandato e que têm por tarefa aprovar ou reprovar um programa de Governo. Em momento algum os portugueses foram chamados a eleger um Primeiro-Ministro: isso é, e sempre foi, tarefa do Parlamento. Que a generalidade dos cidadãos pense dessa forma, isso já será uma outra questão. Agora, que não haja dúvidas: qualquer solução parlamentar que consiga aprovar o seu programa de Governo, e rejeitar todos os outros, resulta da acção democrática dos portugueses. Aliás, muito me espanta que à direita se critique tanto uma solução parlamentar PS/CDU/BE quando todos se indignaram (e bem) com a famosa dissolução de um parlamento estável, com um um Governo assente numa maioria absoluta, levada a cabo pelo Presidente Sampaio. Se os mandatos dos deputados serviam em 2005 para um Governo novo e um Primeiro-Ministro novo por que razão não haveriam de servir agora? Sejamos coerentes. Aliás, alguém terá que o ser uma vez que a esquerda certamente não o é. Senão vejamos: em 2005, a maioria de direita no Parlamento não tinha legitimidade porque os portugueses não tinham votado em Santana Lopes para PM; mas agora António Costa tem toda a legitimidade para ser PM, mesmo tendo perdido umas eleições. Porquê? Porque é de esquerda. Aliás, ainda há um ano atrás, o Governo maioritário de Passos Coelho já não tinha legitimidade democrática porque não tinha apoio nas sondagens e todos clamavam pela dissolução da AR; mas, agora, um Governo apoiado pelo PS/CDU/BE tem toda a legitimidade mesmo que tenha sido sufragado por ninguém. Porquê? Porque é de esquerda. A esquerda é incoerente por natureza: só a incoerência poderá desejar, como a esquerda dos dias de hoje deseja, ter sol na eira e chuva no nabal: querem os serviços sociais, mas não querem pagar por eles; querem os direitos todos para todos, mas sem os correspondentes deveres; querem a solidariedade europeia, mas sem prestar contas a ninguém; e, naturalmente, acham também que podem ter uma coligação política onde se misturam um bando de lunáticos revolucionários anti-euro, anti-UE, anti-NATO e, lá está, anti-realidade, com um conjunto de socialistas moderados, europeístas convictos e portadores - sendo certo que numa dose limitada - de alguma réstia de bom-senso. Naturalmente, como tudo o resto, tal projecto é impossível - mesmo que democrático. Isto porque nem tudo o que é democrático é bom, uma lição que apenas fará bem aos portugueses para que passem a pensar duas vezes antes de oferecer mais de 15% dos votos à extrema-esquerda radical. Deixemos, portanto, a loucura para os loucos. Que chafurdem nela à vontade porque, e isto vale sobretudo para o PS, quanto mais o fizerem mais reforçarão a votação da PAF nas próximas eleições. Aliás, já foi esse chafurdanço que os fez perder as eleições legislativas agora: ao quererem competir com a extrema esquerda pelos 5% que andam ali entre o PS e o BE, perderam os 20% que andam entre o PS e o PSD. Claro está que os socialistas não percebem isto, pelo menos os mais excitados - que são muitos. Nos entretantos, das duas uma: ou daqui por uns dias lá andará o Dr. Costa a viabilizar, que é como quem diz a emperrar, o Governo PAF ou, num cenário em que o PS entre na insanidade completa de se colocar nas mãos de radicais de extrema-esquerda (que nunca quererão por seus impolutos rabos em assentos ministeriais) para governar, lá assistiremos aos ratings, juros, bancarrotas diversas, tudo muito rápido, tudo coisas do campo do real, uma coisa com a qual a actual esquerda tem muita dificuldade em lidar. No final, apenas variará o grau de repúdio dos portugueses face ao Dr. Costa, o grau de descrédito do PS ao centro e, consoante o peso na carteira, o número de arrependidos por no passado dia 4 não terem ido votar na PAF. Se o Dr. Costa pensa que com este jogo assusta o impassível Passos Coelho, está muito enganado. O irrevogável Paulo Portas explica.