sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A GRANDE ILUSÃO

O grande erro que grassa na mentalidade europeia dos dias de hoje consiste em pensar-se que os europeus contemporâneos são melhores, e mais evoluídos, do que aqueles que há uns anos atrás se esfacelaram e estropiaram em guerras, ou purgas, causadas por ideologias que, precisamente, se consideravam também elas melhores e mais evoluídas. Por mais difícil que seja de aceitar, nem os homens de hoje são diferentes dos da primeira metade do Século XX - quer os de um lado quer os do outro -, nem as ideias salvadoras, progressistas, e igualmente redentoras, deixaram de andar por aí. Iludirmo-nos que, fruto de uma evolução positiva, ou do progresso, estamos todos, de alguma forma, mais próximos da solução, mais perfeitos ou, simplesmente, melhores, é o caminho mais acelerado para aprendermos que mundos perfeitos, ou simplesmente melhores, nunca se fazem com as mesmas pessoas. E que as pessoas, para o melhor e para o pior, são sempre as de sempre - e por isso o mundo é o que é. Precisamente por esta razão, e fruto de muita ignorância, ocupam-se agora aqueles que mais ilusões progressistas vendem a explicar que essas ilusões nunca se concretizam, não por serem irrealizáveis, mas por culpa dos malvados bandidos que rejeitam a redenção. E assim, aos gritos, a chamar nomes, a encontrar culpados e a personalizar o mal nos seus opositores, se dão os primeiros passos rumo às mesmas guerras, e às mesmas purgas, que agora, por mera soberba, parecem tão lá longe, já perdidas nas trevas de uma História julgada irrepetível. O infeliz resultado desta grande ilusão, desta enorme arrogância intelectual, é, por um lado, o síndrome do fim da História e a terrível ideia de que, uma vez alcançadas as luzes da democracia, da liberdade e da paz, estas se mantêm sem que alguém tenha que fazer algo para as manter; e, por outro lado, a rejeição progressivamente mais violenta desse mundo que é anunciado como final e que, naturalmente, como todos, estará muito longe de ser satisfatório. Deste modo, enquanto, dormentes e preguiçosos, nos refastelamos no remanescente conforto da modernidade, também nos damos ao luxo de reclamar pela perfeição, pela redenção - pela salvação -, esquecendo-nos que essa se alcança pela dedicação ao aperfeiçoamento constante, pelo diálogo aberto face a um futuro partilhado, e não pela perfeição adquirida num único passo redentor: o do estabelecimento de uma nova ordem, uma nova ordem que, precisamente, e daí a purga ser sempre necessária, não pode incluir os malvados que agora, aos olhos dos idealistas, a impedem. No entanto, como a todos os arrogantes, entre os indolentes e os conspiradores, todos ignorantes mas todos profundamente cheios de razão, aconchegados no manto ilusório da nossa orgulhosa superioridade, porque o mundo é o que é, de uma forma ou de outra, lá acabaremos todos por aprender a lição. Mais uma vez.

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