Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

terça-feira, dezembro 29, 2015

PAULO PORTAS

Tirando os mal-intencionados dificilmente se poderá dizer que Paulo Portas não é um homem cheio de qualidades. Tirando os ingénuos, ou os deslumbrados, não se pode dizer que Paulo Portas não é um homem igualmente cheio de defeitos. Nos primeiros: a garra, a tenacidade, a energia, a alegria, a inteligência prática - a força; nos segundos: o oportunismo, o populismo, a maleabilidade teórica e o malabarismo ideológico - a fraqueza que teve a virtude de transformar em arma política. Das virtudes, beneficiou acima de tudo o CDS, mas também o país. O primeiro porque se viu alçado de um partido arredado do poder para os mais altos vôos políticos. Toda uma geração, hoje bem conhecida dos portugueses, faz vida, participa, trabalha para, e da, vida pública do país - e tudo isso graças ao génio de Portas, não tenhamos dúvidas. Já o país beneficiou igualmente: com um PSD por culpa própria incapaz de chegar a uma maioria absoluta sozinho, apenas com o CDS de Portas foi possível, especialmente na segunda versão, obter uma maioria estável que num momento particularmente difícil conseguiu "safar a coisa" e, de caminho, mostrar a muitos - tanto que venceram as eleições - que, e especialmente face às alternativas que agora nos governam, a direita foi, é e será o único caminho de estabilidade, seriedade e alguma remota possibilidade de prosperidade futura para o país. Já os defeitos espelham-se na mediocridade dos resultados práticos: um político brilhante? Talvez. Um reformador? Nem por isso, basta relembrarmo-nos da reforma do Estado que nunca aconteceu - nem no  papel. Um dirigente partidário de gabarito? Sem dúvida. Um homem de rasgo para o seu partido? Também. Um homem com uma visão clara para o país? Não, não mesmo: Portas foi anti-europeu, e pró-europeu. Defendeu uma visão liberal, e boicotou reformas liberais. Promoveu e deu espaço a novos liberais (Mesquita Nunes) e promoveu e deu espaço a novos-socialistas (Assunção Cristas). Aliás, e esse é o seu grande falhanço, em dezasseis anos de liderança, Portas não foi capaz de definir com força e clareza o posicionamento ideológico do seu partido: foi nacionalista, europeísta, conservador, liberal, democrata-cristão, social-democrata, tudo e o seu contrário. Do mesmo modo, à imagem do seu líder, no CDS couberam todos, desde que de direita - seja o que for que cada um entenda o que isso é. E esse é agora o principal risco que o CDS corre: um CDS de Cristas nada tem que ver com um CDS de Mesquita Nunes; um CDS de Anacoreta Correia nada tem a ver com um CDS de Nuno Melo. E, por esta razão, os apoiantes de cada uma das possibilidades verão nas alternativas que se lhes opõem o fim do partido: muito provavelmente será demasiada heterogeneidade para um partido pequeno. É comum dizer-se que após uma liderança forte e longa vem alguma espécie de caos. Portas - diz-nos ele - para evitar tal coisa ocupou-se a rejuvenescer com qualidade (o termo é "renovar") os quadros políticos do CDS. É verdade. Mas o outro lado do legado é que aquilo que foi o ás de trunfo de Portas na partidarite indígena - a sua maleabilidade ideológica - representa agora uma mão cheia de nada para o seu sucessor. A primeira tarefa no CDS deverá ser então definir se quer ser o partido do reformismo liberal que Portugal precisa ou o partido do socialismo católico. Enquanto não o fizer, na ausência de uma contribuição ideológica clara para o futuro do país, apenas o fantasma de Paulo Portas pairará sobre o abismo da guerrilha fraticida. E não esqueçamos: o homem não desapareceu - longe disso.