segunda-feira, 28 de março de 2016

ALGUMAS NOTAS SOBRE O TERRORISMO E O MOMENTO QUE VIVEMOS

1. Em primeiro lugar, é preciso compreender, ou melhor, aceitar, que quem reivindica os atentados é o Estado Islâmico, que quem os pratica são muçulmanos e que estes assumidamente o fazem em nome do Islão. Podemos falar de muitas razões socio-politico-culturais mas, factualmente, aquilo que resume, e abarca, todo o processo terrorista é uma defesa religiosa, radical e violenta de uma religião em particular: o Islamismo. O terrorismo a que assistimos é, portanto, terrorismo islâmico.

2. Ao contrário do que muitos possam pensar o nível de sofisticação dos atentados é extremamente baixo: os explosivos são rudimentares e frequentemente nem funcionam, os planos são básicos e pouco elaborados, os meios utilizados são reduzidos e pouco imaginativos, e as capacidades técnico-tácticas dos terroristas vão pouco mais longe da vontade básica de matar o maior número possível de pessoas inocentes para obter obter maior impacto mediático possível.

3. Os bombistas assassinos têm, regra geral, um cadastro acumulado ligado ao crime: desde assaltos, homicídios, tráfico de droga, etc., e estavam no radar das autoridades. Mesmo assim não foram impedidos.

4. Os serviços de segurança e informação dos países afectados têm constantemente evidenciado uma completa incapacidade de lidar com o problema. No caso belga, o pessoal militar que foi requisitado para defender pontos estratégicos é claramente não qualificado para essas funções específicas (é normal os militares estarem a falar ao telemóvel, a trocarem SMS ou simplesmente na galhofa uns com os outros), os serviços policiais nacionais não falam entre si (um departamento da polícia já tinha a morada onde Salah Abdeslam se escondia e a informação nunca chegou a quem de direito), os serviços de informação internacionais ainda menos o fazem e os sistemas judiciais pautam-se por um ingénuo utopismo que protege mais as alegadas boas-intenções dos potenciais terroristas do que a segurança da comunidade.

5. As declarações dos líderes políticos são de choque, repúdio e surpresa mas, atente-se, sempre com a preocupação de minimizar, ou mesmo negar, a ligação umbilical entre os atentados e a componente islâmica que lhes está na génese - e que é evidente para todos. Ao mesmo tempo, vimos altos responsáveis políticos a chorar em público que, apesar de demonstrar sensibilidade e afecto, não deixa de ser um sinal exterior de imensa fraqueza. Ou seja, há uma discrepância enorme entre aquilo que os líderes dizem e fazem e o que os eleitores esperariam que dissesse e fizessem.

6. As reacções populares são igualmente de indignação mas, contrariamente aos atentados de Paris, há muito maior enfoque social e mediático na inoperância das autoridades: na verdade, já se esperavam mais atentados, a profunda e manifesta incompetência das autoridades em impedi-los é que causou verdadeira surpresa.

7. Neste momento extremam-se as posições sobre um dos pontos basilares do consenso político pós guerra fria: o Multiculturalismo. De um lado, os ingénuos, ou aproveitadores, que negam a evidência da influência cultural e religiosa na génese da barbárie assassina a que vamos assistindo e que culpam as nossas próprias sociedades livres, abertas e plurais pelos atentados (ex.: o caso do PCP português); do outro, vemos os xenófobos que tomam a parte pelo todo e que vêem nos atentados a oportunidade para justificar a expulsão de todos os muçulmanos. Ambas as posições são ilógicas, superficialmente suportadas por não-argumentos mas baseiam-se no apelo a estímulos populares capazes de fazer granjear grandes apoios: de um lado, o apelo à fraternidade e ao humanismo global, do outro o apelo à defesa e segurança das nossas comunidades. Sendo ambas as posições profundamente superficiais e generalizantes tenderão a ser, por um lado, populares e fáceis de reproduzir e, por outro lado, ao serem absolutistas na sua simplicidade, incapazes de participar em consensos e compromissos políticos.

8. A Europa do pós-Guerra Fria assentou o seu compromisso politico e social em dois pilares fundamentais: o Estado-Social e o Multiculturalismo. O primeiro, motivado por má gestão, excessivo voluntarismo e factores de insustentabilidade social (envelhecimento) e económica (ausência de crescimento económico) encontra-se em crise profunda; o segundo, ao relativizar todas as religiões a uma espécie de igualdade prática reflectida num melting pot cultural e religioso onde minorias radicais (como a Muçulmana) são paternalmente vistas como tão ou mais legítimas do que
a base tradicional Cristã da Europa (que é recusada, vilipendiada e vista como impositiva por ser maioritária), começa agora a apresentar resultados muito preocupantes. Em nome de uma igualdade multicultural, minaram-se e atacaram-se os valores tradicionalmente europeus (e que geraram as sociedades democráticas e liberais que temos) ao mesmo tempo que se toleraram os radicalismos importados de sociedades afundadas em miséria, violência e recusa completa das liberdades europeias (ex.: a condição feminina no Islão).

9. Na ausência de acção política baseada num compromisso político socialmente abrangente duas coisas ocorrem: primeiro, os extremos tomarão a iniciativa e oferecerão "soluções" a quem anda desesperadamente à procura de uma; depois, o consenso social quebra-se e a capacidade de compromisso dissolve-se. As consequências serão imprevisíveis, mas passarão sempre por: maior instabilidade política (e, consequentemente, também económica), maior crispação social e política e maior dificuldade de gerar liderança e acção políticas.

10. A UE não tem os instrumentos institucionais, a legitimidade democrática ou circunstâncias internacionais favoráveis (ex.: crise económica, crise dos refugiados, etc.) para dar uma resposta rápida, eficaz e regeneradora a este problema. Nesse sentido cada vez mais o destino da UE se jogará a cada eleição num dos seus Estados-Membros, eleições as quais já evidenciam um aumento significativo do Eurocepticismo: em França, Le Pen; na Alemanha, a AfD; na Holanda, Geert Wilders, a título de exemplo.

11. Em suma: acrescentando à banalização do terrorismo uma crise económica mundial no horizonte, a incapacidade operacional da UE, a pressão urgente da questão dos refugiados, a instabilidade política (e ascensão da extrema-esquerda) dos países do sul, a expansão dos extremos nacionalistas, a fragilidade do Euro e dos mecanismos institucionais da UE, considerando ainda que toda e cada uma destas circunstâncias alimenta as outras, podemos estar a viver um momento de rápida deterioração da UE e prestes a entrar num período de enorme mudança e incerteza. Alguém diria em 1988 que a URSS iria desagregar-se em menos de cinco anos?


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