sexta-feira, 4 de março de 2016

DA INFANTILIZAÇÃO

É preciso desiludirmo-nos para aprendermos a lição mais importante da vida: que as coisas, nomeadamente os sonhos, não são, nem correm, sempre como nós quereríamos que fossem, ou corressem. Faz parte do processo de crescimento a percepção - que toma a forma de uma desilusão, sempre, uma desilusão - de que ter sol na eira e chuva no nabal é uma quimera e, como tal, algo impossível de obter. Apenas num mundo repleto de crianças explicar que o ideal não existe, que o óptimo é inimigo do bom e que este, já agora, é apenas, com sorte, amigo do possível, apenas num mundo onde este conhecimento - que deveria configurar o mais básico senso comum - está ausente do pensamento público, apenas aqui o mero acto de dizer o evidente se transforma num acto de sedição revolucionária. Mas, não nos iludamos, os revolucionários são os utópicos: revolucionários não contra aqueles que apenas se limitam a dizer que o rei vai nu mas, sim, revolucionários birrentos contra o mundo e contra a forma como as coisas são. Não espanta pois que os mais afoitos, e que mais enchem a boca com a miséria dos outros, são precisamente aqueles a quem nunca faltou nada a não ser, lá está, a desilusão. Ficaram crianças que, no seu mimo, no seu infantil egoísmo, acham legítimo impor as suas impetuosas e irreflectidas vontades, seja a bem, seja a mal, a todos os outros. No final sobrará, como sempre, a enorme desilusão, restando apenas a dúvida sobre o preço que ela custará - quer aos que se desiludem, quer aos que morrem a tentar derrotar os demónios que imaginam a cada canto, quer àqueles que - os mesmos de sempre - no final acabam a pagar a conta da brincadeira: o pagode.

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