sexta-feira, 11 de março de 2016

DA INVEJA

Poucas coisas serão mais evidentes para demonstrar a pequenez invejosa lusitana do que o achincalhar parolo da figura pouco sofisticada de Cavaco Silva. Só no país em que, a quem decide fazer, pensar ou assumir algo diferente, e que o distinga dos outros, está sempre fadado o destino da maledicência, do "puxa para baixo", do "quem é que este pensa que é para se armar em melhor do que os outros" - que não fazem nada -, apenas nesse triste país carunchado pela inveja se pode olhar para um dos melhores (e raríssimos) exemplos do self made man lusitano e, sem algum dia ter sequer chegado aos seus calcanhares, olhá-lo de cima, diminuí-lo, gozá-lo, porque, coitado, "não é ninguém" ou "não se sabe comportar". Cavaco, filho de gasolineiro, estudante aprimorado em tempos em que Lisboa ficava a um dia de viagem, triunfou na academia - doutorando-se em York com uma bolsa da Gulbenkian -, e na política. Foi o político mais influente dos últimos trinta anos, recordista absoluto do voto popular português com cinco vitórias em seis eleições, quatro dessas vitórias com mais de 50% dos votos (e a derrota com 48%). Sem ele, Portugal seria outra coisa, muito provavelmente muito pior. Por isso, querer resumir tamanha personagem aos seus modos à mesa, ou à forma como se veste, não é parolo, é mesquinho: próprio dos pequeninos que, perante a grandeza, em vez de tentarem aprender - e alçarem-se a voos mais altos - apenas ridicularizam para tentarem trazer para baixo quem se atreveu a tentar ser melhor. No país dos - como já dizia o Antero - fidalgos falidos que se escorrem pelas secretarias a mendigar tachos, Cavaco não foi apenas bom: foi genial. O resto é dor de cotovelo.

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