domingo, 18 de setembro de 2016

A AFIADORA DE FACAS

Quando me cruzo com as afirmações da deputada Mortágua logo Berlin me vem à cabeça: "single minded monists, ruthless fanatics, men possessed by an all-embracing coherent vision do not know the doubts and agonies of those who cannot wholly blind themselves to reality". Mesmo sem compreender nada do mundo, ou das pessoas, a senhora acha-se no direito de o vergar, a ele e a nós, à sua imaginada superior vontade. E do seu feliz desígnio, custe o que custar, nada resultará além da miséria daqueles os quais a senhora em seu nome se arroga de falar. Oiçamos a música do amolador: eles estão a afiar as facas. E o porco, mesmo que vegetariano, somos nós.

TAXTOON

 Via Luís Paixão Martins, no Facebook.

sábado, 17 de setembro de 2016

AS LIÇÕES DE VIDA DE FRASIER CRANE



Fazem hoje precisamente vinte e três anos que estreou na televisão norte-americana o primeiro episódio da série Frasier. Com um elenco de luxo composto por Kelsey Grammer, David Hyde Pierce, John Mahoney, Jane Leaves e Peri Gilpin, Frasier representa o mais bem sucedido spin off da história da televisão. Narrando as aventuras e desventuras de Frasier Crane após a sua saída de Boston e o decorrente abandono do bar Cheers, as onze temporadas de Frasier representam, por ventura apenas acompanhadas de Seinfeld, a época de ouro da sitcom americana. Naturalmente que séries como o já referido Cheers, ou Family Ties, ou ainda o revolucionário All in The Family com Archie Bunker, fazem todas parte do imaginário infantil de quem, como eu, nasceu e cresceu nos anos 70 e 80 do defunto Século XX. No entanto, Frasier, para mim, encontra-se uns quantos andares acima de todos os outros. Primeiro, e mais obviamente, pelos actores e enredos. Frasier apresenta um elenco de categoria inigualável: desde Grammer que, com a sua formação em Julliard e um percurso nascido no teatro regional e desaguado na Broadway, tinha explodido no panorama televisivo, transformando o irrelevante Frasier Crane numa das mais prezadas personagens do super sucesso da década de 80: Cheers; passando por David Hyde Piarce com seu imbatível talento para a comédia física repescado de uma obscura comédia (The Powers That Be, 1992-3) onde o neurótico Niles já existia ainda sem ninguém saber, não esquecendo John Mahoney, um late bloomer que apenas começou a actuar aos quarenta pela mão de John Malkovic, e terminando na componente feminina onde Jane Leeves, apesar do seu não muito bem conseguido sotaque de Manchester apenas evidente para quem conheça o sotaque de Manchester, sempre conseguiu encher o ecrã, em especial quando, de forma sempre inocente, se mantinha a leste do interesse latente, intrusivo, por vezes quase perverso, do tímido e altamente desajustado Niles, transformando os dois naquele que terá sido um dos mais bem conseguidos interesses românticos da TV. Finalmente, Peri Gilpin no papel de uma mulher independente propensa ao sexo ocasional mas longe, muito longe, do cinismo e superficialidade relacional próprios do sexo citadino do Século XXI, todos compõem um ramalhete de excelência que foi capaz de transportar para a televisão a finesse do teatro que, doze anos depois de terminado, ainda perdura como o paradigma da boa representação televisiva. Uma referência ainda para a qualidade dos actores convidados: desde a sempre fascinante Bebe Neuwirth no papel de ex-mulher de Frasier até aos outros trabalhadores da radio KACL (os actores que, por exemplo, dão vida a Bulldog Briscoe ou Gil Chesterton são sempre formidáveis), terminando naqueles que aparecem apenas por um ou dois episódios, uma participação em Frasier tornou-se num carimbo de qualidade interpretativa e uma medalha no peito de qualquer actor. Da mesma forma, o grupo de escritores, apesar de algumas mudanças entre as temporadas 8 e 10 felizmente corrigidas na brilhante temporada final, conseguiu manter o nível do enredo sempre entre o alto gabarito e o nada abaixo de genial: não conheço outra séria de televisão que consiga fazer uma piada mencionando o racionalismo panteísta de Espinosa ou um gewurztraminer de colheita tardia. Aliás, uma das características que separa Frasier de todos os outros é precisamente a profundidade intelectual: se, por um lado, é verdade que é um certo pedantismo cultural que preside à recriação do mundo de elite onde Frasier e Niles, normalmente sem sucesso, bem se tentam integrar, por outro lado, não deixa também de ser verdade que é a tensão entre o amor à excelência, ao belo, e ao transcendente da vida com a inescapável boçalidade humana que, agarrada ao ego, se banqueteia com o superficial, a imagem e com o que o outro pensa - no fundo a tensão entre o arauto da experiência do homus socialis e o abismo da mesquinhez da red carpet - que é responsável pelo brilhantismo de Frasier. Naturalmente, para escrever tamanha farsa social é fundamental que se tenha um profundo conhecimento das realidades que se procura retratar; e os autores de Frasier claramente têm: desde a música clássica, à ópera, ao vinho (a competição entre Frasier e Niles pelo título de Corkmaster será um pináculo da comédia televisiva), ao fine dining (quem nunca quis ir visitar o Le Cigare Volant?), passando pela pintura, literatura ou alta-costura, por todas as artes a série nos passeia oferecendo, por um lado, para quem as aprecia, um bónus cultural  que mais nenhuma série faz, quer, por outro lado, criando uma sátira social com uma profundidade inigualável: hoje, Frasier (ainda) será uma das melhores comédias da televisão; daqui por duzentos ou trezentos anos será uma enciclopédia que configurará um telescópio (mesmo que sem ser da Universidade de Cornell) directamente apontado sobre a sociedade americana (e não só) do final do Século XX. A esta intemporalidade ajuda a opção deliberada dos autores de evitarem as referências fáceis ao soundbyte pop do momento: nomes de pessoas famosas, eventos reais da altura ou caricaturas do que passava na TV, tudo isso é inexistente em Frasier. A série torna-se assim, tal como uma enorme peça de teatro clássico, numa sintetização do fundamental deixando de lado todo o ruído, ou lixo, com que todos temos que lidar no dia a dia. Uma espécie de transcendência ocorre aqui: identificamo-nos com a vida representada apesar de, e aqui reside o verdadeiro pretenciosismo da série, nos fazer olhar para cima, para a versão ideal, limpa, quase perfeita das interacções ridículas que as altamente imperfeitas personagens levam a cabo. No entanto, essas personagens são constantemente guiadas pelos mais nobres sentimentos e pelas mais belas virtudes. E aqui encontramos a verdadeira genialidade cómica de Frasier: na farsa e no ridículo que as melhores versões possíveis de nós próprios continuam a configurar. Neste sentido, Frasier é profundamente humano. E consolador: que resta fazer aquando da constatação do ridículo que somos para além de rirmos? Finalmente, e não menos importante, apesar de talvez ausente (tal como muitas das referências mais elevadas) para os espectadores mais jovens, em Frasier, encontro muitas das importantes lições de vida que são fundamentais a qualquer humano adulto. Na farsa social, por exemplo, torna-se evidente a infelicidade que uma vida orientada para a imagem e o superficial que os outros vêem em nós pode causar, apesar de o canto das sereias ser sempre apelativo aos egos de cada um. Mesmo que essa infelicidade seja terminar num beco traseiro no meio de abelhas e caixotes do lixo, e o canto das sereias fosse a importância de conseguir entrar na próxima - progressivamente mais restrita (e cara) - sala de um centro de spa, também aí nos identificamos com a caricaturada pulsão que motiva os comportamentos das personagens - e nos comiseramos com o triste fim que tal pulsão encontrou.  E se Frasier Crane se deixa seduzir pela fama, ou Niles pela ostentação, a tempo lá estará o enredo a fazê-los, mesmo contrariados, arrepiar caminho - ou, pelo menos, a falhar estrondosamente. E assim, na verdade, Frasier e Niles estão lá a sacrificar-se por nós: onde eles falham, nós, sem sair do sofá nem pagarmos os embaraços a que eles se sujeitam, podemos aprender que aquele não é o caminho. Outra lição será a importância da família que transparece sempre naquele apartamento: confortável (ou não configurasse ele em primeiríssimo plano uma réplica exacta do sofá que Coco Chanel tinha no seu atelier de Paris) mas, mais do que qualquer coisa, cheio de vida, de ligação emocional, de partilha, quer do bom quer do mau; uma casa cheia, e por isso bem capaz de oferecer companhia à solidão que tantas vezes sentimos. Aliás, tanto assim é não fosse Frasier toda uma série acerca da redenção da relação entre pai e filho, por um lado, e entre irmãos por outro. Mas, em última instância, para mim, a grande lição de Frasier encontra-se na falência última do perfeccionismo em que o nosso mundo é tão pródigo: às ambições mais que perfeitas de Frasier e Niles, ou aos interesses amorosos de Frasier, ou ainda à obsessão de suposto auto-conhecimento através da psiquiatria que ambos exercem, sempre a imperfeição do mundo se lhes coloca no caminho para lhes estragar os planos. A verdade é que num mundo imperfeito, cheio de falhas, - adulto, portanto - não há lugar para sonhos perfeitos. E é esse sonho perfeccionista infantil que impede sempre a cada momento a felicidade de Frasier: onde de outra forma ele poderia encontrar a felicidade, termina sempre a concentrar-se na falha que lhe lembra que o mundo não é perfeito - o que para um perfeccionista equivale a dizer que não é bom, harmónico ou belo. No entanto, a vida, sendo profundamente imperfeita, não deixa de ser a única coisa de jeito, ou de valor, que temos. Frasier transforma a incapacidade de lidar com a imperfeição em comédia e com isso relembra, ou ensina-nos, a mais bela das lições: na impossibilidade do perfeito, resta-nos amar a imperfeição - e rirmos com ela - sem nunca desistirmos de tentar fazer o melhor que conseguirmos com aquilo que temos. Frasier Crane nunca desistiu e quando, no último episódio, nos deixa, rumo ao desconhecido, com o poema Ulysses de Tennyson, é impossível não sentirmos nós também, tal como a sua família, a dor da separação. É por essa razão que a primeira coisa que faço quando vejo esse último, belo apesar de, porque não queremos nunca que o fim de algo inspirador chegue, altamente indesejável episódio, é voltar a ver o episódio-piloto, o tal que faz vinte e três anos hoje: é que se é verdade que Frasier nos ajuda a resolver e largar o imaginário infantil de vidas perfeitas, não deixa de ser verdade que ele próprio pode continuar a configurar aquele último refúgio de imaginária perfeição que a maioridade da minha idade ainda me permite usufruir.