Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

terça-feira, dezembro 13, 2016

FILHOS PRÓDIGOS

Nos tempos de hoje vive-se a noção de que evoluímos positivamente: fisicamente, de mamíferos menos evoluídos; intelectualmente, de antecessores menos inteligentes; socialmente, de comunidades menos avançadas. Aliás, a ideia é precisamente a de "avanço": progresso, desenvolvimento, evolução, tudo a aumentar de forma positiva do passado para o presente - e a promessa de que assim pode continuar rumo a um futuro que se imagina como virtuoso e cheio de maravilhas salvíficas. No entanto, esta ideia é uma ideia muito recente, filha bastarda do iluminismo e do racionalismo científico que lhe sucedeu. Antes disto tudo, e durante a maior parte da existência humana, a representação do sentido da História era a oposta, a de decadência: o passado é que era idílico e paradisíaco e a existência humana representava uma queda desse Olimpo divino, no caso Grego, ou do Paraíso de Adão e Eva, no caso bíblico. A queda na imperfeição humana separava-nos da perfeição divina e condenava-nos a aceitar a tragédia como parte da vida. Nos dias de hoje a intuição é a oposta: todos os problemas terão uma solução, o optimismo garante a salvação (a derrota é ser pessimista), não há limites para o futuro (científicos, físicos ou morais), a vida eterna pode ser aqui e agora, haja tempo e saúde para lá chegar. No entanto, no seu âmago, a realidade da vida humana é muito mais coerente com a visão antiga do que com a moderna: tornamo-nos seres conscientes durante o paraíso que é a infância, na terra dos sonhos e da magia, isto apenas para dela inesperadamente cairmos quando tomamos noção dos paradoxos, das limitações e das tragédias que compõem a vida adulta. Aliás, a maçã, símbolo da fertilidade, que a serpente, símbolo fálico, oferece a Eva, e que esta prova, é a perfeita representação para a inevitabilidade da puberdade e a obrigação de com ela perder-se o paraíso que é a infância. A adolescência é a queda; a vida adulta é o embate no chão, na base de tudo, ou seja, no tomar noção da condição humana: a morte dos próximos, as perdas múltiplas, a consciência da finitude, etc., etc. Ser adulto implica lidar com o facto de sermos aquilo que somos. Ser realista, portanto. Mas nos dias de hoje em que o regresso ao paraíso perdido na infância está sempre prometido no futuro sempre presente ao virar da próxima esquina não há razões para se ter que crescer: para quê aceitar o que nos magoa se no futuro aquilo que nos magoa pode ser simplesmente mudado, eliminado, ou seja: resolvido? E dessa forma adia-se o amadurecimento. E prolonga-se a infância. E pune-se o realismo: para quê falar dos perigos e das obrigações do mundo dos adultos quando tudo à nossa volta nos ensina a viver de, e para os, sonhos? A abundância que a revolução industrial, a grande filha do Iluminismo, nos trouxe permitiu banquetear-nos na indolência, na arrogância e no luxo de não vermos o mundo tal como ele é mas tal como nós gostaríamos que ele fosse. E, tal como o filho pródigo, nesse luxo, nessa arrogância, e nessa indolência, desbaratamos a abundância material, moral e civilizacional que nos foi legada. Resta saber se haverá tempo para a redenção.