quinta-feira, 23 de novembro de 2017

DAS TORRADAS COM MANTEIGA

Naquele dia, era de manhã e estávamos a tomar o pequeno-almoço. Sentados à mesa, eu de costas para a porta e de frente para um grande frigorífico branco, o meu pai de frente para mim. Não consigo precisar com exactidão a data daquele dia, imagino que seja algures durante a primeira metade da década de oitenta, mas tenho a ideia de ser fim-de-semana: afinal, tomávamos o pequeno-almoço com a tranquilidade e o tempo que as manhãs dos chamados dias úteis não permitiam. Como de costume, as torradas faziam parte do menu. Sempre fizeram, aliás, desde que eu me lembro. E felizmente porque, a bem dizer, torradas com manteiga serão certamente uma das coisas que ainda hoje tenho como preferidas na vida. Torradas daquele pão português, bem fininhas e tostadas a um ponto estaladiço e já acastanhado de perfeição culinária, justamente acompanhado por manteiga bem salgada, açoriana de preferência, que, derretendo-se, desliza levemente pela torrada e se vai escapando pelos buracos do pão, obrigando, por um lado, a uma necessária rapidez na degustação e, por outro, a aceitar a inevitabilidade de nos escorrer pelas mãos: os restos da manteiga que, disfarçadamente, sem os pais verem, se lambem dos dedos. Lembro-me bem daquelas torradas. Das torradas daquela cozinha, da cozinha da casa onde cresci. Lembro-me bem também de estar sentado àquela mesa, naquele banco, rodeado por aqueles azulejos azuis e brancos e os móveis de casquinha cor de mel com tampos de fórmica azul clarinha. As portas não tinham puxadores: eram molas que que as abriam e fechavam. E lembro-me bem, claro, do meu pai. Naquele dia, à frente de mim, à espera que as torradas ficassem prontas, vestido com um casaco azul escuro dos anos setenta, cheio de desenhos geométricos, e que eu estou convencido de ainda o ter guardado numa mala mais escondida. Naquele dia, quando as primeiras torradas saíram da torradeira, uma torradeira daquelas altas com uma porta com buracos rectangulares de cada lado, eu que sempre fui impaciente e garganeiro, especialmente com comida, logo me atirei a elas. De faca na mão, cortando pedaços de manteiga, em vão a tentei espalhar pela torrada. Como guardávamos a manteiga no frigorífico, esta estava rija e eu, na ânsia de me aviar, com o vigor da faca, a rigidez da manteiga e a fragilidade da torrada, estilhacei-a em vários pedaços. Talvez por comiseração perante o meu desapontamento, o meu pai, e aqui não me lembro bem dos pormenores, chamou-me a atenção e demonstrou como ele fazia: “eu faço assim”, disse-me ele, “corto pequenos bocados de manteiga e ponho-os em cima da torrada. Depois, espero: com o calor da torrada, a manteiga vai derretendo”. E ficámos os dois, por instantes, a olhar para a torrada dele. “Depois”, continuou, “quando ela já está ligeiramente mole é que espalho”. E assim fez. Foi uma torrada perfeita que saiu dali. E aquela foi uma técnica que eu adoptei desde aí. Por vezes, quando me esquecia e as ganas falavam mais alto, a dificuldade de espalhar a manteiga lá me fazia lembrar aquela lição banal que naquele dia eu aprendi. O meu pai já morreu vão alguns meses para além de doze anos. Uns anos após a sua morte, esta memória começou a ocorrer-me com alguma frequência: nós os dois, aquela cozinha, aquelas torradas. E, ultimamente, tenho dado por mim a pensar por que razão, entre tanta coisa para me lembrar do meu pai, haveria de ser esta memória em concrecto que tanto me aparece para relembrar aquela vida infantil que já lá vai – bem como a figura do meu pai em particular. Várias razões me ocorrem. Primeiro, a evidente: um momento de intimidade onde um pai ensina algo a um filho. Mas, parece-me, das sombras da pré-consciência infantil, aquele ensinamento em particular ganhou entretanto relevância porque na altura o compreendi. E é quando nos compreendemos que comunicamos. Aquela torrada foi, portanto, um momento de ligação com o meu pai e isso tem todo o valor do mundo. Depois, comecei a pensar que talvez houvesse mais por detrás daquele ensinamento para lá de uma questão técnica sobre manteiga e torradas. Talvez, ocorreu-me, pudesse esta memória, hoje com mais de trinta anos, um sonho quase portanto, representar um conhecimento mais profundo, mais inconsciente, e que se revela a mim, agora adulto e com filhos, como um gatilho para aprender, ou relembrar, mais qualquer coisa. E é verdade, parece-me que assim é. Daquela memória, hoje que me sento do outro lado da mesa, retiro o valor, ou a virtude, da paciência: saber esperar, saber levar a água ao nosso moinho, saber deixar a manteiga derreter na torrada antes de a espalhar. Ou, também, um princípio básico de defesa que é utilizar a força do adversário contra ele próprio: a defesa no aikido que consiste em rodar sobre nós próprios para que o adversário caia no chão movido única e exclusivamente pela sua própria velocidade; deixar o calor próprio da torrada derreter a manteiga que queremos ver derretida. Ou, ainda, como esta ideia se pode aplicar pela positiva: admitindo o princípio Aristotélico de que cada coisa tende para o seu propósito, deixar a torrada fazer o seu trabalho apenas sobrando para nós a tarefa de limitar, ou conduzir, a manteiga ao seu melhor destino. Depois, a inteligência: estudar a torrada e ver que é quente, estudar a manteiga e compreender que derrete e, na simplicidade óbvia da tarefa, agir utilizando este conhecimento em nosso proveito. E, finalmente, a passagem desse conhecimento de pai para filho. Tudo junto, e começo a perceber por que razão esta memória me vem assaltando a azáfama matinal: porque ser pai é ensinar, é ensinar tudo isto e muito mais, mas é também perceber que os filhos têm energia própria: para não os quebrar, muito pelo contrário, para lhes dar força, é preciso deixá-los utilizar a sua energia para derreterem os seus próprios problemas, as suas próprias manteigas. A extrema responsabilidade da paternidade, de estar do outro lado da mesa, de ser eu agora o criador de memórias futuras, é algo que nos põe em cheque: fazer o melhor que podemos, sempre, para sempre. Acredito agora ser precisamente por sentir a grandiosidade, e o peso, da tarefa que tenho diante de mim que, através da memória, o meu pai me vem visitar todos dias de manhã quando preparo as torradas com manteiga para os meus filhos. E, se Deus quiser, daqui por algum tempo, serei eu a ter a oportunidade, e o privilégio, de lhes mostrar as virtudes de deixar derreter a manteiga calmamente pelo calor do pão torrado.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

THEORY

                                                                Daqui.

DA LENHA

Aqui no Alentejo, por esta altura do ano, discute-se quando se começa a fazer lume. Eu comecei ontem. Um dos meus vizinhos dizia-me ontem lá em baixo no café que, mesmo esfriando, ainda irá esperar mais uns dias: queria ver, disse-me, se os quatro metros de lenha que comprou lhe duravam o Inverno inteiro. Custaram duzentos euros, explicou-me.

EUROCENTENAS

Aqui há dois dias cruzei-me com um indivíduo no aeroporto de Zaventem que circulava no tapete rolante em sentido contrário ao meu. Pareceu-me familiar e prestei-lhe atenção: dava ares de ser o Dr. Centeno. O homem olhava para os carros de alta cilindrada ali em exposição e sorria para o ar. A vida corre-lhe bem, pensei. Sei agora que o Dr. Centeno andou nos últimos dois dias a tratar da sua vida tendo em vista o Eurogrupo. Entretanto, noticia-se que faltam mil milhões de euros no serviço nacional de saúde português. Não parecia preocupado.

UEBESAMITE (II)

Em Portugal, desde mil quinhentos e picos que a prosperidade e o progresso material são coisas que nos acontecem, não são feitas por nós: tal como os turistas, vêm de fora, não são nossas. Pior: em muitas circunstâncias, tais como os tempos que vivemos, acontecem apesar de nós. Ocorreu-me isto ao ver aqueles dois palonços que mandam, um no governo do país, o outro no da câmara de Lisboa, a acenarem à populaça da Web Summit como se aquilo fosse obra deles.

TRISTE SINA

Na Expo, num ambiente de euforia pejada de frémitos de excitação deslumbrada, crê-se nas ilimitadas possibilidades do futuro, fala-se de investimento, financiamento, empreendorismo. A coisa, naturalmente, é tratada pelos governantes e pelos media de forma deslumbrada, pacóvia mesmo, é certo, mas, mal ou bem, é um mercado: há vendedores e há compradores, todos em liberdade, todos a tratarem das suas vidas - é o capitalismo. Do outro lado da cidade, ao mesmo tempo, no Coliseu, num ambiente de ainda maior fanatismo ignorante, discursa o secretário-geral do PCP dando largas à sua crença que o socialismo e o comunismo são o futuro iluminado da Humanidade. Louvando o passado, exalta a ex-URSS - omitindo os vinte milhões de assassinatos lá cometidos pelos seus correlegionários comunistas - como o exemplo de regime igualitário libertado de perigosos exploradores capitalistas. Se os primeiros, os da Expo, são ingénuos ou oportunistas, o futuro ou uma ilusão, não faço ideia, haverão de uns e de outros. Mas uma coisa é certa: esses não me atemorizam: compro-lhes as coisas que vendem apenas se, e quando, eu quiser. Já os outros, os comunistas, esses tratam da sua vida e dos seus interesses tanto como os outros. A diferença é que esses interesses, os comunistas, são abertamente contra todos nós, incluindo os da Web Summit: contra a nossa propriedade, contra a nossa liberdade e contra as nossas vidas. Seja por ignorância (não é), seja por fanatismo estúpido (é), são cúmplices e apologistas de assassinos, mortes e barbáries em massa. E gente psicopata desta, tal como fascistas e nazis - são todos iguais - não deveria ter lugar numa democracia liberal, menos ainda numa maioria parlamentar que governa Portugal. O poder e a importância do PCP é um sintoma do atraso português e uma vergonha para cada um de nós - é o caruncho que nos corrói por detrás da fachada "para inglês ver" das Web Summits da vida. Daqui por uns dias, os estrangeiros investidores vão à vida deles. E, enquanto esses levantam voo da Portela, os comunistas lá continuarão na Assembleia da República a ajudar a decidir o futuro dos que cá ficaram. Que tristeza.

UEBESAMITE

Estes pacóvios do governo português vão para a Web Summit pedinchar investimento num inglês constrangedor para, dizem, criar empregos e demais maravilhas para a população indígena. Nos entretantos, a frente de esquerda que governa o país e a câmara de Lisboa conspira contra o Alojamento Local que, só no ano passado, criou mais de quarenta mil empregos e gerou mais de oitocentos milhões de euros de retorno, isto só na área metropolitana de Lisboa. O melhor mesmo é encharcar os investidores em álcool e porco preto a ver se se distraem: só se mete nisto quem vem ao engano.

WEB GNR

Aterro ontem em Lisboa no meio de uma multidão de voluntários de T-shirt azul excitadíssimos com a Web Summit. Cartazes, flyers, carros, fanfarra moderna. Tudo muito bem. Melhor ainda, mesmo moderno, foi ao entrar no Uber que já esperava por mim à saída do aeroporto o motorista pedir-me para ir à frente porque, atente-se, a polícia estava a fazer uma operação Stop na rotunda à cata de Ubers. Perante a minha estranheza, explicou: "a malta da Web Summit chama toda um Uber". Meu dito, meu feito, na rotunda lá estavam uns GNR de boné e barriga a pararem viaturas para ver se aquelas eram uma coisa que nem sequer é ilegal. Mas, admitamos, faz sentido: que melhor cartão de visita para os empreendedores estrangeiros que, dizem-nos, vêm investir no país? Ficam já a saber o que os espera.

CASO PRÁCTICO

Tudo na vida se trata de equilibrar valores que não são, à partida, nem conciliáveis nem compatíveis. Veja-se o caso do meu mais novo talento: secar o cabelo a infantes. Não falando nas diversas capacidades técnico-tácticas envolvidas na actividade - o engodo, a imobilização do sujeito, a compreensão teórico-práctica das ondas térmicas, o conhecimento, e controlo, do confronto daquelas com as vibrações capilares e, não menos fundamental, o manuseamento eficaz do instrumento de secagem - atente-se nos valores que se gladiam na acção praticada: por um lado, o valor da eficiência energético-temporal, a rapidez portanto, com que se despacha a coisa; pelo outro, o valor igualmente pivotal do conforto do infante face ao choque térmico. Se puxo de um lado, pela temperatura para ser mais rápido, logo a manta se destapa do outro: a criança reclama. Se, pelo contrário, ajusto a temperatura tendo por base a vontade infantil, nem a criançada vai para a cama a horas nem eu vejo o Benfica. Na arte da secagem capilar, como na vida, não há almoços grátis.

POLITIQUICE

Sobre o amor ao PSD, é simples: dois homens casados discutem com as mulheres. Um, Santana, pondera o hipotético divórcio, o tal partido social liberal, que não concretiza: fica em casa e resolve as coisas. O outro, Rio, pula a cerca e vai namorar com a mulher do vizinho, que é como quem diz vai inventar um sucessor para a CMP contra o próprio partido, e passa uns anos fora de casa a falar mal da mulher mas sempre a dizer que, se ela quiser, desde que seja para mandar, até volta para casa. Quem é que, afinal, se portou mal?

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

DESESTRUTURAÇÃO

O Rui Ramos tem toda a razão no artigo que assina hoje no Observador. Escreve ele que
"Os vigilantes dos costumes pareceram mais empenhados em condenar hierarquias, do que em condenar comportamentos: o problema parece apenas o facto de haver homens em posições de poder. Percebe-se porquê: não é politicamente correcto tocar na chamada “libertação sexual” da década de 1960. Mas foi essa “libertação” que impôs o actual regime em que o sexo é concebido, simultânea e paradoxalmente, como a expressão mais profunda da personalidade, e como um divertimento inconsequente. Qualquer ética, em relação ao sexo, passou a nunca poder ser mais do que uma racionalização de inibições ou uma impostura. A “libertação sexual” dissipou muitos escrúpulos e aliviou bastantes consciências – ainda hoje se fazem filmes sobre isso –, mas também “libertou” muitos dos predadores. Convém recordar que, em nome dessa “libertação”, a pedofilia chegou a ter defensores públicos nos anos 70."
 Há a partir daqui alguns pontos importantes que gostaria de comentar. Primeiro, o paradoxo que está na origem da cultura sexual: por um lado, a ideia que está na base da libertação sexual e que assenta no pressuposto de que cada um deve ser livre de exprimir a sua identidade sexual da forma como muito bem entender e, por outro lado, a obsessão permanente para com essas mesmas identidades: são catalogadas, dão origem a movimentos, servem de agenda mediática, etc. Ou seja, e aqui reside o paradoxo, por um lado quer libertar-se os indivíduos do jugo opressor sexual, entenda-se a moral cristã repressiva mas, por outro, assenta-se a própria identidade pessoal na sua vertente sexual, dessa forma reduzindo pessoas inteiras apenas às suas preferências ou comportamentos sexuais. Parece-me a mim ser profundamente mais libertador viver num mundo onde ninguém tem nada que ver com a vida sexual de ninguém do que neste mundo actual onde tudo aquilo que parece contar é o sexo: por ele nos identificamos, rotulamos, vendemos e compramos.

Em segundo lugar, a questão da repressão versus libertação. Rui Ramos, e bem, alude a isto quando diz que com a libertação se aliviaram muitas consciências mas também se libertaram muitos predadores. É verdade, mas a essência do problema não reside tanto na libertação sexual per se mas muito mais no facto de numa comunidade onde o que regula os costumes serem as leis e não a "sociedade civil" ser impossível, tal como rui Ramos exemplifica, tipificar legalmente comportamentos tão complexos. Pegando nesta questão, parece-me, é necessário ir mais longe e demonstrar como, e precisamente utilizando como exemplo a questão sexual, as questões de costumes nunca podem ser resolvidas pelo Estado ou pelo corpo legal de uma comunidade. Atenção que falo de costumes, não de violência de uns indivíduos sobre outros. Nestes casos, um crime de violação, por exemplo, nunca poderá ter um tratamento diferente do que um crime de homicídio: a comunidade agirá sempre através da lei. Agora, assédios, piropos, convites, favores sexuais, etc., consistem uma área muito mais cinzenta e complexa onde a cegueira da justiça não poderá nunca querer entrar.

Em terceiro lugar, algo parece estar esquecido em toda esta polémica: as garantias do Estado de direito para com os acusados. Pessoas, independentemente de serem culpadas ou não - a minha posição sobre a matéria nunca poderá ser outra coisa além de uma mera opinião - estão a ser julgadas na praça pública, condenadas sem direito a defesa legal e a cumprirem sentenças sumárias (despedimentos, perdas de prémios anteriormente conquistados, etc.) apenas para agradar à maioria indignada. E aqui se pode constatar a diferença entre uma comunidade ordenada a priori por princípios morais e éticos que restringem os comportamentos dos indivíduos, minorando estes casos, por oposição à comunidade que temos hoje em dia que, na ausência dessa estrutura moral, se vê sem ter a quem recorrer: por um lado, o Estado meter-se no meio da corte sexual dos indivíduos só pode estragar - como dizia acima, não há lei que distinga a benevolência ou maldade de um olhar ou de um piropo - e, pior ainda, na altura de emendar os estragos não consegue garantir um dos mais fundamentais pilares de um Estado de Direito: a presunção de inocência. Conclui-se, portanto, que o Estado não apenas não evita este problema como não o consegue resolver: é a sociedade que está a faltar. Compreender isto é fundamental.

Finalmente, a questão da estrutura moral de uma sociedade. Esta "superestrutura" é o grande adversário dos marxistas e dos pós-estruturalistas (que, a bem dizer eram também marxistas). Durante os últimos cento e cinquenta anos o ataque a esta moralidade, ou ética, de inspiração cristã, tem representado o maior ataque intelectual aos alicerces da civilização ocidental. O problema não reside tanto no ataque à religião cristã mas, pior, na alternativa pela qual os "iluminados" racionalistas a pretenderam substituir: a crença na razão absoluta. A razão universal traduzida para o mundo moral-legal humano através de imperativos categóricos transformados em lei mais não fez do que substituir o indispensável julgamento humano, sempre individual, por uma pretensa solução universalmente válida que, primeiro, poderia decidir por nós e, depois, criar uma paz perpétua tão utópica como qualquer outro sonho de um paraíso na terra. Pelo contrário, porque a razão universal não existe, porque, precisamente, estamos como humanos que somos condenados a uma cacofonia infinita de entendimentos subjectivos, tantos quantos os indivíduos que existam, a ausência de uma estrutura unificadora no campo moral, ao ser substituída por uma mão cheia de ilusões, apenas nos pode legar o conflito perpétuo. Pior: como a História nos ensina, nos regimes em que a moralidade é tutelada pelo Estado apenas sobra o totalitarismo - e tanto quanto mais científico e racional pior ele foi.

Concluindo: Freud, por exemplo, sempre aludiu ao facto de por debaixo da capa civilizada do homem moderno continuarem a existir as forças inconscientes, e contraditórias, dos animais. O homem racional, em teoria, não seria suposto ser animal. Mas é. E, na ausência de um sistema de valores aceites comunitariamente como moralmente válidos, nada sobrará além da libertação das forças inconscientes que alimentam as vontades humanas. E, aí, no coração do Homem, onde há desejo de paz, harmonia e ordem também há desejo de destruição, guerra e poder. A quebra do consenso social acerca de quais são os valores moralmente partilhados e, por essa razão, aos quais nos submetemos, representa apenas o maior, e mais grave, indício de desagregação social. A questão sexual é apenas um sintoma, por ventura um dos menos importantes, desta doença muito maior.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

SOBRE AS ELEIÇÕES NO PSD

A minha primeira opção para Presidente do PSD seria, naturalmente, Pedro Passos Coelho. Pela sua coragem, desapego, resiliência, seriedade, tudo qualidades que não abundam no PS, mais ainda pela forma como lidou com o episódio "irrevogável" de Paulo Portas - a queda do governo teria sido catastrófica para o país - e, em particular, a forma como foi imune aos cantos das sereias do bloco central de interesses onde, e foi aí que conquistou o meu apoio, Passos Coelho foi o principal responsável por deixar cair o antigo "dono disto tudo", o infame Ricardo Salgado. O país perde muito com a saída de cena de Passos Coelho, uma saída de cena naturalmente celebrada em êxtase pelos poderosos oligarcas que mandam no país e que não querem perder o seu poder.

Posto isto, a vida continua. O PSD também. As duas candidaturas que se apresentaram são, pois, o futuro imediato do partido e uma delas será vencedora. Para inferir qual seria a melhor para o partido e para o país parece-me que são três os critérios fundamentais a analisar. Em primeiro lugar, qual a candidatura que melhor representa o posicionamento ideológico do partido. Em segundo lugar, qual a candidatura que melhor condições reúne para fortalecer o partido e, finalmente, em terceiro lugar, qual a candidatura que representa uma melhor alternativa à governação socialista e à Situação.

Como já aqui escrevi variadas vezes, considero que os valores do PSD são fundamentalmente compatíveis com a mudança de paradigma que é necessária para Portugal: a rejeição do socialismo. A social-democracia em Portugal afirmou-se não como o corolário de uma visão socialista para a sociedade mas, pelo contrário, como o contraponto liberalizante e ontologicamente conservador face ao socialismo moderado do Partido Socialista e ao socialismo radical da extrema-esquerda portuguesa. O PSD tem na génese uma coligação de valores que justificou o realismo pragmático que sempre assumiu e que ao qual o interesse nacional sempre obrigou. Essa coligação de valores congregou, desde a primeira hora, sectores tradicionalmente social-democratas da oposição ao regime de Salazar e Caetano mas também, não menos importante, significativos elementos da burguesia liberal, principalmente nortenha, bem como elementos conservadores que muito facilmente poderiam ser descritos como defensores da democracia-cristã europeia. A base ideológica do PSD congrega, portanto, um ideário social-democrata, democrata-cristão e, naturalmente, liberal.

Tal coisa também se revelou na prática. Primeiro, através de Sá Carneiro e a forma como visou libertar o país da influência militar; depois, com Cavaco Silva, no processo de liberalização – e o correspondente progresso material – que o PSD conseguiu implementar nos anos 80 e 90 do Século XX. Não será demais, nem despropositado, relembrar que foi precisamente nesses anos que – com a oposição feroz do PS e da extrema-esquerda – se conseguiram implementar reformas, na altura igualmente "neo-liberais" e heréticas para a esquerda, mas que eram tão evidentemente fundamentais, tais como os bancos, as seguradoras e os órgãos de comunicação social poderem existir fora da esfera do Estado. Não será igualmente demais, nem despropositado, relembrar que foram precisamente esses anos os de maior progresso material da democracia portuguesa. Essa é a matriz do PSD: reformar para dar força e liberdade à sociedade por oposição ao estatismo socialista.

O PSD não visa acabar com o Estado-Social ou, muito menos ainda, com o Estado. Ser pela liberdade não implica ser libertário. A mudança preconizada pelo PSD passa essencialmente por ter um Estado limitado pelos cidadãos ao invés de ter os cidadãos ao serviço do Estado e dos indivíduos que o controlam. Ou, por outras palavras, salvar o estado-social tornando-o mais eficaz, acessível, justo e menos dispendioso para os contribuintes. Este é o principal desígnio do PSD.

Neste sentido, o que se exige à liderança futura do PSD é um esforço de libertação face aos constrangimentos herdados do salazarismo e do fervor revolucionário marxista, nomeadamente os constitucionais, que obrigam o país a ir vivendo no pântano estatista da perpétua criação de dívida. Acima de tudo, mais uma vez, aquilo que se pede do PSD é que seja capaz de implementar uma política séria, credível e eficaz para voltar a colocar Portugal na rota da prosperidade e do progresso material. Para isto é forçoso que o PSD seja fiel às suas origens e rejeite o papel colaboracionista com o PS que a oligarquia de interesses instalada em Portugal gostaria de lhe ver atribuído. Da mesma forma, no discurso, é fundamental que se compreenda que é pela rejeição do modelo socialista que Portugal poderá reencontrar-se com o caminho da prosperidade. Fundamentalmente, ao PSD exige-se que seja a alternativa ideológica e pragmática face ao PS (que sonha com o Bloco Central) e à coligação de extrema-esquerda (incluindo parte do novo PS) que sonha com o regresso do PREC e das nacionalizações.

Ao mesmo tempo, a nova liderança do PSD não poderá rejeitar, sob pena de defraudar a legítima expectativa da maioria dos portugueses que deram uma vitória ao partido nas últimas eleições legislativas, o legado que Passos Coelho deixa. A vitória que teve em 2015 nas condições em que as eleições foram disputadas apenas comprova que grande parte do país compreende a necessidade de mudar de paradigma governativo. E a irresponsabilidade que a governação de esquerda tem posto em prática, num terrível regresso ao passado, apenas tornará mais evidente a curto prazo que a visão de Passos Coelho para o país mais não foi que uma continuação lógica, coerente e fundamental dos legados de Sá Carneiro e Cavaco Silva - e que era a correcta para o país.

Assim, tudo considerado, não posso deixar de considerar que a candidatura de Rui Rio não reúne as condições que considero pivotais para o futuro a médio prazo do PSD. Primeiro, erra quando quer fazer passar a mensagem que o PSD é um partido de centro-esquerda. Dessa forma, não assume a alternativa que o país precisa, não honra a história do partido e, mesmo de uma perspectiva eleitoral, não assume um posicionamento inteligente: centro-esquerda por centro-esquerda, os portugueses já têm o PS em quem votar. Depois, erra ao rodear-se daqueles que mais criticaram de forma pública a liderança de Passos Coelho nos momentos mais difíceis da governação 2011-2015. Dessa forma, não assume o legado de Passos Coelho, pelo contrário, procura repudiá-lo, bem como promove autênticos submarinos subversivos que, movidos por ódios pessoais, nunca tiveram pejo em aliar-se a comícios da extrema-esquerda ou em pagar as despesas da verdadeira oposição ao seu próprio partido. Uma liderança nascida em Azeitão com aqueles que mais mal fizeram ao PSD nos últimos anos nunca será uma liderança que conquiste o respeito das bases do partido. São os militantes de base que bem sabem da dificuldade que os últimos anos representaram para o país e para o partido.

Por outro lado, a candidatura de Santana Lopes parece-me configurar a melhor abordagem face aos critérios que acima anunciei: Santana assume representar o PSD na sua tradição reformista, não quer fazer do PSD aquilo que não é: um PS de segunda. Depois, Santana, melhor que ninguém, representa, como sempre representou, o sentir e o pulsar das bases do partido. E, em altura de crise, quando vem o toque a reunir, é um líder das bases que o PSD precisa: não de um representante de uma elite passada, ideologicamente próxima do PS e, aparentemente, mais preocupada com os seus ódios de estimação do que com aquilo que que o partido precisa. Finalmente, Santana parece-me defender  com profunda convicção que aquilo que o país precisa é de uma alternativa factual, substancial e corajosa à "frente de esquerda" que nos desgoverna. É preciso compreender que o adversário de Portugal, e consequentemente do PSD, é o ataque cerrado que a extrema-esquerda - e o PS cínico dos interesses oligárquicos que representa - faz ao nosso modo de vida, às instituições mais importantes da nossa sociedade, desde a família até à escola, e ao posicionamento histórico, e fundamental, do país no mundo (NATO, UE e Euro).

Ouvidas as duas apresentações de candidatura sinto-me esclarecido. E, ontem, enquanto ouvia o discurso de Santana Lopes, ocorreu-me que o pior discurso que lhe ouvi foi o da tomada de posse como Primeiro-Ministro em 2005. Os adversários dirão que essa é a sua grande fragilidade. Mas eu vejo aí uma coisa muito diferente: nesse dia ficou evidente que ao Santana Lopes a responsabilidade política pesa. E, ao contrário dos líderes que o PS ofereceu ao país nos últimos dez anos, é muito importante que se tenha como líder alguém a quem a responsabilidade política, de facto, lhes pese nos ombros. Apenas aos irresponsáveis ela não pesará. Em 2005, fruto das circunstâncias, por sacrifício, Santana Lopes aceitou aquilo que ele hoje nunca aceitaria: governar contra a oligarquia (que o atacou por todos os lados na comunicação social chegando ao ponto de dissolver uma Assembleia da República que tinha uma maioria estável e duradoura) sem ter a legitimidade do voto popular. Tem aqui, portanto, a sua oportunidade para preparar-se convenientemente para suportar o peso que a responsabilidade de governação exige. E para isso terá todo o meu apoio.

Em Janeiro, votarei no Pedro Santana Lopes.

FRESH START


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O PSD E A SOCIAL-DEMOCRACIA (II)

No que consiste então uma ruptura com o estatismo socialista?
É assumir que os indivíduos são donos do seu próprio destino, que não há soluções perfeitas para a sociedade, e que o Estado deverá ser meramente um instrumento dessa sociedade, não para a formar, dirigir, ou controlar, mas para a proteger garantindo o respeito pelos valores que essa mesma sociedade entende como fundamentais.
É assumir que o Estado não pode continuar a ser um monstro burocrático que, tudo controlando, se torna, como Burke muito bem avisava, demasiado poderoso e capaz de esmagar a frágil, porque individual, liberdade dos cidadãos.
É assumir que o motor da economia são as pessoas e que são estas apenas que, livremente, perseguindo os seus objectivos individuais, são capazes de gerar a riqueza.
É assumir que a igualdade de facto é impossível de ser atingida, quer no ponto de partida, quer no ponto de chegada da vida e que, como Rawls famosamente estabeleceu, apenas se pode garantir que quanto melhor estiverem os que mais têm, mais recompensados deverão ser também os que menos têm.
É assumir que tudo o que é humano é naturalmente falível e que, por essa razão, a responsabilidade das tentativas, dos sucessos e dos erros deverá ser dos cidadãos. Ao Estado, igualmente falível porque composto por pessoas, cabe apenas evitar no natural campo das disputas sociais abusos de uns indivíduos face aos outros. No fundo, assuma-se que liberdade é igual a responsabilidade e que a perda – ou recusa – da segunda implica a perda da primeira.
É assumir que o Estado não pode ser ele próprio instrumento de abuso de uns indivíduos sobre os outros e que, por essa razão, uma das principais obrigações da sociedade é garantir que o Estado é limitado, fiscalizado e controlado pelos cidadãos, e não o inverso.
Finalmente, é assumir que o caminho da felicidade reside no trabalho, no engenho e na perseverança individuais e não nos negócios, nas benesses, nas honrarias ou nas oportunidades que o Estado pode garantir.
São palavras simples aquelas que aqui se exprimem, mas revelam uma revolução tão difícil quanto fundamental para com o status quo socialista e oligárquico que prende Portugal à situação actual. Na prática, implicam uma política que assuma estes valores, cortando com os interesses económicos poderosos que controlam o Estado, apelando aos eleitores para que lutem – eles próprios! – pela sua liberdade mostrando-lhes que aqueles que vendem facilidades e sonhos mais não oferecem do que uma mão cheia de nada e uma outra, escondida, cheia de uma dívida que nos agrilhoa o futuro. Trata-se de assumir com verdade e frontalidade que um futuro de bem estar e prosperidade apenas é possível se mudarmos de paradigma, se cortarmos de facto com o socialismo estatista.
O PSD é o único partido capaz de representar essa alternativa em Portugal. E apenas o poderá fazer diferenciando-se do PS (que representa a "situação") apresentando a alternativa que aqui se descreve, nunca esbatendo as diferenças ideológicas profundas que separam os dois partidos e assumindo um discurso complacente com o modelo estatista e socialista que é imperativo rejeitar.

(adaptado parcialmente daqui)

O PSD E A SOCIAL-DEMOCRACIA

Os valores do PPD|PSD são fundamentalmente compatíveis com a mudança de paradigma que é necessária para Portugal: a rejeição do socialismo. A social-democracia em Portugal afirmou-se não como o corolário de uma visão socialista para a sociedade mas, pelo contrário, como o contraponto liberalizante e ontologicamente conservador face ao socialismo moderado do Partido Socialista e ao socialismo radical da extrema-esquerda portuguesa. De facto, apesar de, como Maritheresa Fraín nos lembra, “os fundadores do PSD [terem adoptado] um programa não ideológico e pragmático”[1] onde “a designação do partido como social-democrata ajudou a reforçar as... credenciais «esquerdistas» [do PSD] no período em que ser de direita poderia significar um suicídio político”[2], não deixa de ser igualmente certo que o PSD, como representante da direita emergente no pós-25 de Abril, “procurou representar os interesses económicos e sociais dos homens de negócios, dos proprietários agrícolas, das profissões liberais, da classe média e dos trabalhadores não-marxistas das cidades e dos meios rurais”[3]. Ao mesmo tempo, o pragmatismo do PPD|PSD corresponde a uma coligação de valores que justificava o realismo pragmático que assumiu e que a imperiosa salvação nacional obrigava. Essa coligação de valores congregava sectores tradicionalmente social-democratas da oposição ao regime de Salazar e Caetano mas também, não menos importante, significativos elementos da burguesia liberal, principalmente nortenha, bem como elementos conservadores que muito facilmente poderiam ser descritos como defensores da democracia-cristã europeia. Marcelo Rebelo de Sousa resume: “É, pois, da confluência destes legados – social-cristão, social-liberal com afloramentos social-democráticos e social-tecnocrático – que nasce, ideologicamente o PSD”[4]. Em suma, a base ideológica do PPD|PSD congrega um ideário social-democrata (segundo Rebelo de Sousa em minoria), democrata-cristão e, naturalmente, liberal.
Não será, portanto, extremanente polémico afirmar-se que a social-democracia portuguesa tem raízes, quer no campo dos valores, quer no campo das pessoas que visava representar, bem díspares das suas congéneres europeias que se identificam com o socialismo. Tal coisa também se revelou na prática. Primeiro, através de Sá Carneiro e a forma como visou libertar o país da influência militar; depois, com Cavaco Silva, no processo de liberalização – e o correspondente progresso material – que o PPD|PSD conseguiu implementar nos anos 80 e 90 do Século XX. Não será demais, nem despropositado, relembrar que foi precisamente nesses anos que – com a oposição feroz do PS e da extrema-esquerda – se conseguiram implementar reformas, na altura igualmente "neo-liberais" e heréticas para a esquerda, mas que eram tão evidentemente fundamentais, tais como os bancos, as seguradoras e os órgãos de comunicação social poderem existir fora da esfera do Estado. Não será igualmente demais, nem despropositado, relembrar que foram precisamente esses anos os de maior progresso material da democracia portuguesa.
A mudança de paradigma político não visa acabar com o Estado-Social ou, muito menos, com o Estado. Ser pela liberdade não implica ser libertário. A mudança preconizada pelo PPD|PSD passa essencialmente por ter um Estado limitado pelos cidadãos ao invés de ter os cidadãos ao serviço do Estado e dos indivíduos que o controlam. Ou, por outras palavras, salvar o estado-social tornando-o mais eficaz, acessível, justo e menos dispendioso para os contribuintes.
Neste sentido, o que se exige é um esforço de libertação face aos constrangimentos herdados do salazarismo e do fervor revolucionário marxista, nomeadamente os constitucionais, que obrigam o país a ir vivendo no pântano estatista da perpétua criação de dívida. Acima de tudo, mais uma vez, aquilo que se pede do PPD|PSD é que seja capaz de implementar uma política séria, credível e eficaz para voltar a colocar Portugal na rota da prosperidade e do progresso material. Para isto é forçoso que o PPD|PSD seja fiel às suas origens e rejeite o papel colaboracionista com o PS que a oligarquia de interesses instalada em Portugal gostaria de lhe ver atribuído. Da mesma forma, no discurso, é fundamental que se compreenda que é pela rejeição do modelo socialista que Portugal poderá reencontrar-se com o caminho da prosperidade.


[1] Maritheresa Fraín, PPD\PSD e a Consolidação do Regime Democrático, Editorial Notícias, 1998, p. 243
[2] Ibidem, p. 243
[3] Ibidem, p. 14
[4] Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, Editora Bertrand, 2000, Volume I, p. 15

(adaptado parcialmente daqui)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

PORTUGAL NO DIVÃ

Na ausência de explicações tradicionais para o estado de loucura generalizada em que o espaço público português vive parece-me que só falta uma visão psico-analítica para compor a coisa. Ora, cá está ela. São dois os arquétipos fundamentais que norteiam a vida humana, o arquétipo da Mãe e o do Velho Sábio, ou o do Pai. A Mãe é carinhosa, protectora, dá força, segurança e vitalidade. É o útero aconchegante. Em Portugal, a Mãe de todos nós é o PS. Dá empregos, estabilidade, promete que tudo vai correr bem e dá-nos sempre força para seguir no mesmo rumo. Daí, naturalmente, o país é do PS. Gosta de aeroportos, TGV's, estações de metro, fins da austeridade, reposição de rendimentos e demais guloseimas. A Mãe é boazinha e dá coisas. Guterres era bonzinho. Soares era bonacheirão. O outro arquétipo é a figura do Pai. Este é severo, austero, impõe limites e regras. Ensina-nos lições. Empurra-nos para a frente, mesmo se formos a berrar e a espernear. Em Portugal, o Pai é o PSD. Quer que cresçamos, exige trabalho e responsabilidade, fala de mudança. Quer regras e contas certas. Promete pouco, fala menos ainda. Cavaco foi o pai de toda uma geração de portugueses. Assim, o ciclo normal da coisa é o país escolher por regra o PS, a mãezinha que nos embala e diz que tudo vai ficar bem mas, quando o arquétipo maternal se transforma na sua variante negativa, o útero transformado num buraco escuro que nos engole, no nosso caso prático através da falência, então lá vamos nós a correr a pedir a ajuda, e a orientação, do Pai. O novo Pai é Passos coelho. O Pai que agora os infantes portugueses sonham matar como forma de afirmação adulta. Há algumas excepções, atenção, que confirmam a regra. Sócrates é a evidente: uma espécie de hermafrodita, juntou de forma megalánoma os dois arquétipos num só: a figura maternal do rosa PS com a postura inédita do governante austero. Resultado? A primeira maioria absoluta do PS e a maior falência do Estado dos últimos 40 anos. Outro hermafrodita arquetipal é Assunção Cristas: sobre a manta da direita conservadora (e austera) lá vai vendendo estações de metro ao quilo: é a Mãe Natal. Pelo que se vê, até agora a coisa vai resultando. António Costa, a mãe de todos nós, esse, vai de vento em poupa: até ao Quantitative Easing acabar. Quando a "Europa" deixar de comprar a dívida pública que sustenta a festa portuguesa, o útero gigante de Costa será, como sempre, substituído pela caverna abissal de uma nova falência. E os portugueses lá correrão atrás do paizinho, leia-se, o actual culpado de tudo o que há de errado no mundo, Passos Coelho. A questão é se ele ainda lá estará. Nos entretantos, as crianças lambuzam-se com o pote que a Mãe, às escondidas, lhes vai oferecendo. Deliciadas, sonham que durará para sempre. E, inconscientemente, dormem descansadas porque sabem que o Pai está ali ao virar da esquina para os vir safar do buraco em que, por teimosia infantil, se vão enfiando. Não, Portugal ainda não está pronto para matar Passos Coelho.

sábado, 30 de setembro de 2017

O CERCO (V)

Recebo a newsletter do Observador e, mesmo em dia de reflexão!, a segunda notícia em grande destaque, e única relativa à campanha autárquica, é para o facto de "a candidatura de Leal Coelho ter avisado [o observador] de que o PR ia passar na campanha", logo Leal coelho terá mentido quando afirmou que o encontro agora na berra seria casual. A seguir dá nota que Marcelo repudia Leal Coelho por esta dizer que o PR lhe teria ido dar uma palavra amiga. Este é o enredo ou, se preferirem, a "narrativa" da última polémica autárquica em Lisboa. Ora, três notas: (1) nem em dia de reflexão o Observador se abstém de, na única notícia relativa a eleições autárquicas, aproveitar para criticar Leal Coelho. (2) Um jornal revelar as informações que obtém de uma campanha por forma a obter notícias (neste caso que o PR ia passar) é, na essência, uma quebra de sigilo que as fontes esperam, legitimamente, ser respeitado por parte dos jornalistas. É um comportamento deplorável que mais não mostra do que a perseguição política que tem sido feita contra o PSD, Leal Coelho, tendo Passos Coelho como alvo máximo, pelo Observador na campanha autárquica de Lisboa. (3) Finalmente, quanto aos factos. O Observador foi lesto a apelidar Leal Coelho de mentirosa, reforçando a ideia com uma notícia em pleno dia de reflexão, e alicerçada na revelação de informação dada a título confidencial, mas esquece-se convenientemente de um pormenor: se foi avisado o Observador vinte minutos antes de que o PR ia ali passar, e se foi avisado pela campanha de Leal Coelho, então o PR terá avisado a campanha de Leal Coelho que iria ali passar. Isto é evidente e inegável. Se assim é, o PR avisaria Leal coelho, ou a sua campanha, de que iria visitar a sua campanha por que outra razão além de "dar uma palavra amiga"? Sobre isto o o Observador não se pergunta? Seria para quê a visita de Marcelo se não para dar uma palavra amiga? Seria para vilipendiar Leal Coelho? Para a criticar? Para lhe espetar uma facada nas costas? (esta talvez mas não seria anunciada) Ou seja, Leal Coelho, para proteger o PR, não diz que foi avisada, apesar de o ter sido, e o PR, para salvar a pele, acaba a fazê-la passar por mentirosa. Dez minutos depois o Observador larga a "notícia" de que Leal Coelho era mesmo mentirosa e a partir daí o palco está montado para mais um show "vamos todos bater na candidatura do PSD a Lisboa". O que vale é que todos sabemos que Marcelo não é dado a planos mirabolantes e maquiavélicos e que o Observador é um jornal independente. E assim se faz política (e suposto jornalismo) em Portugal. Chique a valer, hein?
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO (IV)

Tirando a névoa mediática, indo ao tutano, o facto mais relevante para o sistema político-partidário-económico português dos últimos anos foi a queda de Ricardo Salgado da sua posição central no (Prof. Marcelo dixit) "bloco central de interesses". Ponto. Desde aí, tudo o que se tem passado é uma tentativa de reorganização desse bloco que, para sua estabilidade, necessita de ver o grande responsável pela queda de Salgado, Passos Coelho, removido da sua posição central no sistema político português, sobrando o PS (sempre amigo dos poderosos que o sustentam) e Marcelo Rebelo de Sousa (amigo pessoal de Salgado). Daí a campanha negra mediática que está em curso contra ele, Passos Coelho, e, por arrasto, contra o PSD nestas autárquicas, levada a cabo pelos meios de comunicação social (detidos na sua larga maioria pelos poderosos oligarcas portugueses). É isto. Espantoso é ver a esquerda portuguesa, por conveniência, do lado do banqueiro arguido, unida em uníssono contra alguém que mais não fez do que a sua obrigação.
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO (III)

Consegue-se aferir o incómodo que alguém representa para a oligarquia de interesses instalada nos bastidores do estado-espectáculo português pelo nível de violência com o qual esse alguém é atacado na praça pública. Não tenho memória, sinceramente, de uma campanha negra concertada, tanto no nível político, como no partidário e, em particular, no mediático, tão violenta como aquela a que vou assistindo contra Passos Coelho. A nova intentona - de facto nova pois nunca tinha visto tal coisa - é uma candidata, sem se demitir, vir criticar o líder do partido pelo qual se candidata, tal como a sua própria cabeça de lista, na véspera das eleições. Na véspera das eleições, atente-se. Que outro motivo poderá haver para lá da pura e dura sabotagem? Salvo alguma incapacidade mental grave, que imagino não ser o caso, nenhum outro motivo se poderá imaginar. A oligarquia não brinca em serviço. No entanto, intuo eu, de tanto baterem no ceguinho, tal é o exagero, ainda o elevam a santo. E de santo a primeiro-ministro são apenas dois ou três Passos. Quanto mais batem no homem mais eu acredito que ele lá vai chegar outra vez.
#portugalnasmãosdosoligarcas

LINHAS DIREITAS T3




O Linhas Direitas, agora na crista da onda mediática, estará de regresso para a semana. Entretanto, fica aqui uma grande reportagem (3min) num programa de rádio de referência nacional sobre o iminente, e muito aguardado, regresso do Linhas Direitas para a sua terceira temporada.

PARADOXO

Existe algo intrinsecamente paradoxal no artista "rebelde", o roqueiro de longos e despenteados cabelos, com profusas tatuagens e cheio de piercings, que abre as portas de sua casa a jornalistas, apenas para mostrar as suas amplas salas confortavelmente atapetadas, plenas de cortinados de veludo, sofás almofadados de cor creme, paredes forradas com espelhos e quadros de talha dourada e muitas almofadinhas de decoração. Eu ainda sou do tempo em que os heróis, estes sim rebeldes, se finavam novos, exauridos, afogados em poças do seu próprio vómito, agarrados a garrafas ou seringas ou, ainda, com tiros auto-inflingidos, todos tragicamente auto-destruídos pelos excessos aos quais a sua recusa da normalidade os condenou. Eram os relembradores da tragédia. Sinceramente, quem é quer saber destes betinhos de hoje em dia, todos apologistas do saudável, todos muito salvadores do mundo, todos muito bonzinhos, e que se ofendem com umas bocas se forem "politicamente incorrectas", isto enquanto se ocupam a rodar anúncios televisivos que lhes rendem milhões para gastar em decoradoras de interiores?

O CERCO (II)

Já apenas por curiosidade, e considerando aquilo que aqui escrevi ontem, vou ao Observador ver a sua cobertura das eleições autárquicas. Sinceramente, a coisa está a tornar-se ridícula. Entre a notícia onde Costa diz que o país está a recuperar (uma "notícia autárquica", claro) e umas coisas do PCP no Alentejo, o destaque principal vai, naturalmente, para alguém que não é nem autarca nem candidato a alguma câmara: Rui Rio. Em grande manchete, lá nos vem relembrar que "o PSD está numa situação muito difícil". Muito obrigado. Depois, outra notícia de outro autarca: Morais Sarmento. Este diz que "Passos terá que prestar contas". Tudo muito autárquico. Mais abaixo, um título que faz pouco de Jerónimo de Sousa, de Rui Moreira e, claro está, da "sardinha" Leal Coelho. E isto tudo ainda antes de chegar ao caderno de Lisboa onde se relata a campanha na capital. Aí, duas notícias: a de ontem, sobre Cristas (a líder que consolida a liderança) e Leal Coelho (a amiga do líder, Passos Coelho, que fragiliza a sua liderança); e outro link, a notícia de hoje, onde se dá nota que Portas aparece para apoiar Cristas e que, no lado do PSD, aparece Fernando Negrão, qualificado imediatamente como, e cito, "o candidato a Lisboa que teve o pior resultado de sempre". Mas isto não chega, mais à frente, o subtítulo já é mais claro: o apoio de hoje de Leal Coelho, Negrão, é "o pior candidato de sempre". De facto, não é preciso mentir para se fazer campanha eleitoral - e péssimo jornalismo. O cerco a Passos Coelho continua e os seus adversários não são Morais Sarmento ou Rui Rio, os aliados circunstanciais do momento. Não, os adversários de Passos Coelho são os poderosos oligarcas do regime, os donos disso tudo, incluindo os jornais.
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO

Não há dia que a newsletter do Observador, o último resquício de imprensa portuguesa que acompanho, não me venha relembrar que a liderança de Passos Coelho está "fragilizada", "em risco" ou, como hoje, "em jogo". Ao mesmo tempo, recorrentemente, desde há anos, é anunciado o seu sucessor, Rui Rio, o homem que "ganha apoios", "reúne com apoiantes" ou "conta espingardas". E isto no Observador, supostamente um espaço mediático liberto do complexo de esquerda. Ao mesmo tempo, Cristas, a sucessora de Portas e fiel executante da sua estratégia de substituir o PSD como o grande partido da "direita", oferecendo-se como o pilar direito para sustentar, junto com o PS, o bloco central de interesses que alimenta a oligarquia vigente, essa, Cristas, aparece-me todos os dias em grande: a andar de mota, a andar de metro, a visitar isto e aquilo, enquanto, e passo a citar, "consolida a sua liderança". A luta autárquica é assim, convenientemente, reduzida a dois movimentos proporcionais e, querem fazer-nos crer, interligados: o enfraquecimento de Passos e o fortalecimento de Cristas. Só por isto, estivesse eu em Lisboa, e já votaria (apesar do posicionamento sobre o alojamento local) em Leal Coelho. Isto por uma razão: aquilo que permite que o CDS se queira tristemente alçar a ser a pata direita da oligarquia de interesses portuguesa é porque Passos Coelho representa, precisamente, o grande adversário dessa mesma oligarquia dos interesses: afinal, foi ele que deixou cair Salgado. Sobre isto, curiosamente, ninguém fala. E assim temos uma situação onde o apoio a Passos Coelho se revela como necessário e imprescindível: é ele o herói derradeiro que, sem complexos, representa a maior ameaça para a rede de interesses que comanda o país e da qual Costa, tal como Sócrates, nunca mais almejou além do que dela fazer parte e, dessa forma, colher os seus frutos. Passos Coelho, com todos os seus defeitos, é a alternativa. E por isso, com toda a força, a oligarquia vigente através dos media que largamente controla, o ataca, dia após dia, com todas as suas armas. Quanto mais oiço, leio e vejo o ataque cerrado, concertado e global ao líder do PSD mais me convenço que ele é o único que, de facto, representa uma alternativa à pouca vergonha que tomou conta do país. Terá, portanto, todo o meu apoio.
#portugalnasmãosdosoligarcas

UM EMBARAÇO

A ideia de que partilho o meu Teravô, um peixe perdido algures no Oceano Pantalássico, com seres como o António Costa ou a Catarina Martins atormenta-me o espírito e representa um embaraço para a família.

ABJECTO

Se tivessem um professor na escola a perguntar ao vosso filho se não se sentiria melhor deixando crescer o cabelo, ou à vossa filha se não preferiria que esta rapasse o cabelo, eram capazes de pensar que o professor tinha perdido o tino e que não tinha nada que andar a importunar os vossos filhos sobre a forma como estes preferem ter o cabelo. Na verdade, ninguém tem nada que ver com o assunto e perguntas indiscretas, pessoais mesmo, deste género seriam rapidamente reportadas como abusivas. Se isto é assim, então, por que raio haveremos de achar normal que andem professores primários a perguntar aos nossos filhos se se sentem bem como rapazes ou às nossas filhas se sentem bem como raparigas? E que isto faça parte do curriculum da escola pública? Não será isto um abuso, uma perversão asquerosa mesmo, ter professores a indagar acerca do sexo dos nossos filhos? É que é isto que a extrema-esquerda europeia acha que é o progresso.

DO IRREVOGÁVEL

Estava eu a perorar sobre a decadência do jornalismo quando tenho aqui um exemplo de que nem tudo estará perdido. Irei, certamente, adquirir o livro. Nos entretantos, a ser verdade o que aqui se diz, explica-se muita coisa e tiram-se algumas notas:
Primeiro, que Portas compreendeu que a via para cumprir o seu sonho (substituir o PSD como o grande partido da "direita") passa mais por ser o parceiro dos negócios da oligarquia vigente, e um dos pilares do status quo, do que pelo voto eleitoral que nunca conseguiu conquistar;
Segundo, que Cristas e a sua ligação angolana, a imediata ruptura com a coligação que levou a cabo mal foi eleita, bem como a sua candidatura a Lisboa, representam a continuação dessa estratégia;
Consequentemente, em terceiro lugar, percebe-se que o objectivo do CDS é mesmo uma aliança futura com o PS, nem que seja mais disfarçada e meramente no plano da gestão dos interesses partidários de ambos (que são coincidentes: isolar e neutralizar o PSD);
Finalmente, em conclusão, torna-se evidente que Passos Coelho representa hoje a derradeira alternativa ao bloco central dos interesses dos poderosos oligarcas que mandam em Portugal. Foi com ele que se conseguiu impedir que a factura da fraude do BES caísse em cima dos contribuintes e que Salgado, o Dono Disto Tudo, continuasse, impune, o seu reinado de bastidores. E assim se percebe porquê toda a imprensa (toda mesmo) mais não faz do que criticar e bater em Passos Coelho, do que publicar notícias sobre a sucessão de Passos Coelho ou anunciar a sua morte política: é ele o derradeiro adversário a abater. A oligarquia poderosa que manda não brinca em serviço.
Sim, sim, isto explica muita coisa.
#portugalnasmãosdosoligarcas

ZEITGEIST (II)

Leio no Observador, a propósito das eleições alemãs, que "a extrema-direita entra no parlamento alemão pela primeira vez desde 1945". Ou seja, para a jornalista, a AfD ou o Nacional-Socialismo de Hitler são uma e a mesma coisa. Para se pensar de tal modo ou se é profundamente ignorante (sobre a AfD e\ou o Nacional-Socialismo) ou se quer, disfarçada mas conscientemente, passar a mensagem de que o inimigo que assola a Europa são os nazis intolerantes agora súbita e misteriosamente ressuscitados. Seja ignorância seja intenção, no fundo, a conclusão é que no jornalismo mainstream lêem todos da mesma cartilha simplista e papagueiam todos as mesmas banalidades sem um pingo de reflexão sobre o filme que lhes passa mesmo em frente do nariz. Ou seja, são terreno fértil para a propaganda multiculturalista do status quo, sempre impingida nas entrelinhas do politicamente correcto, e cuja falência, essa sim, está na origem da subida eleitoral daqueles que a rejeitam. Comparar este fenómeno com o racismo bélico e expansionista do totalitarismo Nazi é, do ponto de vista intelectual, um atentado. Poucas coisas serão tão sintomáticas da decadência democrática como o proto-desaparecimento do jornalismo crítico, independente e inteligente. Mas a vida é assim: todos os defuntos precisam das suas carpideiras.

ZEITGEIST

Que na Alemanha a AfD tenha tido 13% dos votos e a CDU e o SPD, parceiros na política governamental aberta de imigração recente, tenham tido, ambos!, o pior resultado individual dos últimos 60 anos, tudo isto só poderá ser uma enorme coincidência. A culpa será, para a inteligência multicultural mediática, naturalmente, de Hitler e/ou da contemporânea intolerância supostamente neo-liberal. Nada que mais uns quantos programas sociais de desradicalização dos refugiados/imigrantes não resolvam, pensarão eles. Para esses iluminados nada pode travar o sucesso da ideologia multicultural: mesmo que o preço a pagar seja a destruição, a curto prazo, do projecto europeu e, a longo prazo, o desmoronar da civilização ocidental. Senão vejamos: aí no burgo, certamente, a extrema-esquerda, agora governamental, continuará a sua propaganda em frente de um silêncio mediático apropriado, mas, igualmente triste, é que na Alemanha, tal como em França, ou na Holanda, apenas os anti-europeístas se manifestem contra a destruição dos valores europeus. Daí o inevitável deitar fora o bebé junto com a água suja. Com o silêncio do centro sobram então dois extremos: de um lado, os marxistas das mudanças de sexo aos 12 ou 16 anos e os vivas às virtudes islâmicas, do outro, as chamadas extremas direitas. Quem acham que, a tempo, ganhará? E, mais importante, entre uns e outros, a ter que escolher, no segredo da cabine de voto, quem preferirão os europeus? Não me parece que a resposta seja muito difícil. Triste, sem dúvida. E, nos entretantos, tal como em França, celebra-se mais uma "vitória da democracia". Abram o espumante, é beber enquanto é tempo.

189

Oiço na Antena 2 que este ano os hóspedes do Airbnb já gastaram em Lisboa 189 milhões de euros em restaurantes. Uma vergonha! O melhor seria acabar com isto e por a malta toda que vive desse dinheiro em casa a receber os 700 euros por mês que o governo quer dar aos jovens que nem estudam nem trabalham. Isso e trazer as saudosas prostitutas de volta ali para as ruínas agora recuperadas da zona do Cais do Sodré. Turista é fascista, Portugal é para os portugueses (e refugiados).

COMMUNISM KILLS




Destas vítimas as Catarinas, os Bernardinos e restante tropa fandanga não têm pena nenhuma. E, não tenhamos dúvidas, tal como o vizinho Iglesias e demais aliados de Chávez e Maduro, tendo o poder, acabariam a fazer exactamente a mesma coisa. Se há um facto historicamente comprovado é este: onde o socialismo radical e o comunismo triunfaram, triunfou igualmente a violência, a miséria e a morte. Isto, digam o que disserem estes mentirosos oportunistas, é um facto.

LOGOS

É o Trump contra o Rocket Man norte-coreano na ONU e o André Ventura contra o Bernardino em Loures. Isto está tudo ligado.

OS INIMIGOS ESTÃO DENTRO DO CASTELO





O grande objetivo desta gente da extrema-esquerda é a destruição da civilização ocidental. Para isso é forçoso (Burke explica) isolar o indivíduo que, sozinho, nada poderá contra o poderoso Estado. Isolar o indivíduo implica hoje a destruição da família tradicional. Simples. A família ninguém a legislou, ninguém a criou, ninguém a impôs. É o ambiente natural onde os humanos, no seu ninho, se sentem seguros e onde se preparam para enfrentar as agruras da vida. É uma criação natural. Já este ataque contínuo em nome do homem novo é legislado, pensado e imposto por uns quantos iluminados que se arrogam, e imaginam, como uma espécie de vanguarda do progresso. Mas não são mais do que homens e mulheres, carecendo portanto de qualquer legitimidade para o fazerem para lá da sua própria ideologia totalitária. Tão totalitária que quer regular o sexo das pessoas. O absurdo desta proposta não se limita à ideia dos 16 anos, ou seja, indivíduos aos quais nem sequer lhes é reconhecida a maturidade suficiente para votar(!!!) já teriam maturidade para poder "mudar de sexo". Mas, repare-se, é também estapafúrdia, mas nada inocente, na noção de que o Estado pode entrar pela esfera privada da família e, colocando-se entre pais e filhos, impor esta possibilidade de "mudança de sexo" a todos, repito: todos, os adolescentes. Em seguida, através da escola pública, anunciar e inculcar essa possibilidade às crianças. É isto que queremos para os nossos filhos? Ah, podem bem ter a certeza que não. Isto para não falar no engodo ideológico que é toda a história da "mudança de sexo". Qualquer pessoa com um mínimo conhecimento de biologia sabe muito bem que os humanos nascem, e morrem, ou homens ou mulheres. A "mudança de sexo" não muda sexo algum que, cromossomaticamente, é impossível de ser mudado. Apenas disfarça e mascara, através de mutilações, implantes e hormonas, um sexo em outro sexo. Muda, portanto, a aparência do sexo, não muda o sexo em si. Ou seja: não existe mudança de sexo. E quer esta gente colocar adolescentes de 16 anos a poder tomar decisões sozinhos sobre um processo tão violento como este em nome de uma ideologia? E quer esta gente entrar pela nossa casa dentro e colocar esta violência na cabeça dos nossos filhos? Esta gente tem que ser derrotada. Não tenhamos dúvidas sobre isto.

MANICÓMIO

Como as eleições autárquicas são no próximo dia 1 de Outubro, não vá o diabo tecê-las, o regresso a Bruxelas está marcado para dia 23 de Setembro. Mesmo assim, estou a pisar gelo fino: algum percalço e ainda sou forçado a escolher entre três candidatos contra o alojamento local, e essa pérfida invasão turística, e dois pretensos marxistas que, tirando o sucesso com o público feminino, mais não pretendem do que contribuir para a destruição, tijolo a tijolo, da civilização ocidental. Dizem que são as eleições autárquicas e que isto é uma espécie de democracia. Diria eu que mais parece um manicómio mas, enfim, é que há. Adeusinho e até ao Natal.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O PARADOXO PROGRESSISTA

Existem duas ideias centrais ao progressismo contemporâneo que podem ser sumarizadas nos dois seguintes pontos:

1) Todas as culturas são igualmente válidas na sua diversidade, todas representam legítimas formas de expressão humana e nenhuma, em particular a Ocidental, pode ser considerada superior, ou mais evoluída, face às demais;

2) Através da ciência e da razão, tal como nas disciplinas ditas naturais (química, física, astronomia, etc.), é possível descortinar um conjunto de leis que norteiam o mundo das ciências humanas, portanto as actividades humanas, que uma vez descobertas permitem organizar de forma correcta, ou pelo menos melhorada, a sociedade, as regras sociais, ou seja, o mundo moral e político. Estas regras, porque científicas, representam o natural avanço da Humanidade face ao obscurantismo de um passado ignorante porque afundado em religiões, mitos e crenças.

No entanto, estas duas ideias, apesar de simultaneamente aceites pelo zeitgeist cultural e político em que vivemos, são absolutamente contraditórias entre si. Se, por um lado, aceitarmos a noção de que existem regras racionais e científicas, logo tendencial e progressivamente mais verdadeiras do que as que as antecederam (daí a noção de "progresso"), que podem ser descobertas por forma a ordenar de forma mais aperfeiçoada e correcta a sociedade então essas regras, a serem cientificamente válidas, terão que ser igualmente universais, ou seja, terão que ser igualmente verdadeiras e mais correctas para todas as culturas humanas - mesmo aquelas que são diferentes da nossa, que partilham outros valores e que recusam a razão, a ciência e o nosso modo de vida. Não pode uma coisa ser cientificamente verdadeira para mim e não o ser para outra pessoa: o pressuposto fundamental da verdade científica é que essa verdade é universal.

Assim, a ser aceite o ponto 2, as culturas que sigam essas regras científicas (as regras que sociólogos, politólogos, psicólogos, etc., tanto se esforçam por descobrir) serão por definição mais avançadas do que aquelas que, quer voluntária quer involuntariamente, não o fazem. Ou seja, o ponto 2, ao ser aceite, desmente o ponto 1 e impede a simultânea advocacia dos dois pontos.

E vice-versa: se aceitarmos a ideia expressa no ponto 1 de que todas as culturas são igualmente válidas e nenhuma é mais avançada do que a outra, então não poderá existir um critério universal, logo científico, que ofereça regras mais correctas sobre a forma como uma sociedade deve organizar-se. Onde as diferentes culturas são tidas como igualmente válidas tudo o resto terá que ser igualmente válido, logo aceite, fazendo do critério científico-racional dos progressistas apenas mais um entre muitos outros critérios, todos eles igualmente válidos. Assim sendo, aceitando-se o ponto 1, nada se pode impor a ninguém - precisamente a conduta oposta do movimento progressista que, paulatinamente, advoga uma crescente imposição do seu "correcto", porque supostamente científico, modo de vida à sociedade. A propósito desta imposição a coberto da ciência, a título de exemplo, ocorre-me lembrar toda a ideologia de género que tão na moda está.

No entanto, considerando o exposto, a conclusão evidente é que o progressismo contemporâneo transporta na sua origem uma incoerência intrínseca e encerra dentro de si próprio uma contradição insanável. Ao melhor estilo do anseio infantil por ter sol na eira e chuva no nabal, também os progressistas procuram unir os revolucionários do mundo e os descontentes com o Ocidente apregoando uma coisa e o seu contrário consoante o interesse do momento. É esta contradição que explica, por exemplo, que os mesmos que lutam pelos direitos dos homossexuais são muitas vezes os mesmos que lutam simultaneamente pela aceitação de culturas que perseguem, prendem e matam homossexuais, inclusive defendendo-as por oposição a outras culturas que toleram e aceitam os homossexuais.

É também esta contradição que demonstra que o progressismo contemporâneo não tem, de facto, uma base sustentável para oferecer um modo de vida viável ao mundo. Por debaixo desta enorme contradição intelectual, uma contradição apenas possível num mundo político onde reina a superficialidade panfletária e onde nada é aprofundado aos pressupostos implícitos nas ideias e propostas que se advogam, se torna evidente que nada mais tem o progressismo contemporâneo para oferecer ao mundo além da prometida destruição do modo de vida ocidental.

domingo, 4 de junho de 2017

ESTRANGEIROS? HÁ OS BONS E OS MAUS

O mais curioso é que a malta portuguesa que acha que os atentados terroristas são resultado das sociedades europeias não acomodarem devidamente as hordas de imigração islâmica que assolam a Europa (estrangeiros que, segundo eles, temos todos a obrigação moral de acomodar) também acha, grosso modo, que bandos de estrangeiros de passagem, todos de carteira bem recheada na mão a despejar euros para cima dos tugas, representam uma ameaça descabida e imoral ao bom viver das cidades portuguesas: estrangeiros que são bons são os outros, já estes, os que reabilitaram os centros históricos das cidades, os que povoam restaurantes, tascas, lojas e bares, os que visitam museus e monumentos, ou que enchem os cofres dos metros, autocarros, táxis, uber's e barcos, estes estrangeiros que transformaram centros históricos decrépitos pejados de prostitutas e prédios em ruína em locais que granjeiam os mais rasgados elogios internacionais, ó pá, estes estrangeiros o melhor é correr com eles. Não é à toa que o termo 'turismo' acaba em 'ismo', é coisa que, em nome da moral, da verdade, da igualdade e da fraternidade se condena, ou se deveria condenar, como vil e indesejável. Eu, por mim, alinho: vou trocar os turistas indesejáveis que passam por minha casa no centro de Lisboa por um grupo de refugiados: a assembleia de condóminos agradece, imagino eu.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FREAKOUT

                                                                        Daqui.

domingo, 7 de maio de 2017

TONS ROSA EM FUNDO DE VERMELHO ESCURO*

Tivessem os nossos planos sido bem sucedidos e hoje estaria a família toda a acordar debaixo do bom sol português. Infelizmente, um bicho microscópico qualquer nos foi fazendo tombar, um a um, nas camas e nos sofás, adiando a viagem. Aproveito o descanso forçado para dar uma vista de olhos pelos jornais lá da tugaria. Primeiro, a entrevista do Alberto Gonçalves ao i que andava a guardar há uns dias. Esclarecedora. Nela, por entre várias considerações plenas de bom senso - uma raridade! - acaba o Alberto Gonçalves a relatar que um dos problemas do seu patrão Baldaia - uma tosca figurinha que se especializou em lavar com cuspo as fraldas dos donos daquilo tudo - com as suas crónicas era que "havia quem só fosse à página do “DN” por minha causa [do Alberto Gonçalves] e ficasse confuso com o resto do jornal". Ora, a ser verdade que muitos acessos ao DN fossem por via dos artigos do Alberto Gonçalves, e imagino que o seja uma vez que eu próprio tal como muitos outros que conheço o faziam, o Sr. Baldaia apenas se equivoca a pensar que os leitores se quedavam confusos e perplexos. Eu, por exemplo, nunca fiquei confundido com nada por duas razões: primeiro, porque há muito que nem abria outra página no DN que não fosse um artigo do Alberto Gonçalves; segundo, porque, ao contrário do que o Sr. Baldaia parece pensar, há muitos portugueses que sabem perfeitamente distinguir entre, por um lado, jornalismo, opinião livre e bom trabalho e; por outro, favores, incompetência e videirice. O Sr. Baldaia, que parece não perceber a diferença, perante a hipotética confusão entre uma e outra, optou por desfazer-se da primeira. Por mim, que não leio o pasquim ou o Sr. Baldaia, parece-me excelente: e, a continuar assim o caminho, cada vez menos portugueses ficarão confundidos com o que quer que seja (como, por exemplo, o que raio fazia o Alberto Gonçalves numa zurrapa como o DN?) e, melhor ainda, menos perderão tempo a ler as sebosices do Sr. Baldaia. Depois, seguindo o périplo pela imprensa portuguesa, tenho que estugar o passo para fugir ao spin do sistema para branquear a enorme asneirada que o partido do regime, o PS, fez no Porto. Só no Observador conto três manchetes:  PS. Moreira é "partididofóbico" com "ego galático"Pizarro: "Não aceito que haja becos sem saída" e Costa: "O PS entra sempre em jogo para ganhar". Os três títulos ocupam página inteira o que, dado o destaque da coisa, permite imaginar que sobraria espaço para um título com a réplica. Infelizmente, não deu. Menos espaço, muito menos, tem o PSD, ainda assim com três noticiazinhas. Naturalmente, mesmo no dia após o discurso de meia hora de Passos Coelho no aniversário do PSD, cai-lhe apenas um titulozinho a dizer que ele, Passos, graças a Deus - acrescento eu -, "não muda uma linha". Os outros dois títulos, ainda de forma mais natural, vão direitinhos para a oposição (a Passos, naturalmente): o Rio de sempre e o Pedro Duarte a apelar à mudança. O que vale é que, dizem as más línguas, o Observador é de direita e está contra o governo. Já enjoado, aguento-me um pouco mais porque, vá lá, é dia de ler o Vasco Pulido Valente no único vislumbre que resta da lufada de ar fresco que o Observador até ainda há pouco tempo representava na imprensa portuguesa: a sua coluna de opinião. Termina o Vasco Pulido Valente a sua crónica a dizer que "as coisas – principalmente a imprensa e a televisão – começam a adquirir aquele tom uniforme e ruço, típico da tropa e do socialismo". Tem razão.

*Título adaptado de um dos romances de Joaquim Paço d'Arcos que integra a Crónica da Vida Lisboeta. Infelizmente, hoje, como no tempo dele, se faz Portugal dos Laurentinos da nossa vida. Vamos a ver e o Sr. Baldaia não acaba ainda como banqueiro. Não ficaria admirado.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O CURRAL

Longe vão os tempos em que eu vibrava e, de forma muito atenta e permanente, seguia, e participava em, com a paixão própria dos vinte anos, os acontecimentos políticos do quotidiano. Hoje em dia, a custo, leio alguns títulos de jornal, nunca vejo televisão não-ficional, e mesmo a outra muito raramente sem ser pela Internet, e fujo a sete pés do mais ínfimo vislumbre de qualquer noticiário - aquele sotaque de jornalista aprendido, forçado, repetido ad nauseum é insuportável. Oiço, para praticar o Francês, as notícias matinais pela rádio e, durante o resto do dia, através do Facebook ou do Reddit, com um lapso temporal de duas ou três horas, a não ser que seja durante o sono, logo fico a saber da histeria do momento. Por regra, são coisas que não me interessam, às quais não atribuo qualquer importância e que me aborrecem. Outras vezes, ainda bastantes, são coisas que me indignam profundamente mas que, normalmente, ou não indignam ninguém ou, quando indignam, desaparecem passado um dia. E, nos entretantos, assalta-me todo um manancial constante de sinais, de sintomas e, cada vez mais, de verdadeiras doenças, que vão afligindo o país e a nossa civilização, e sempre sem que algo se discuta com seriedade, como se estivesse eu fadado a assistir a um filme de terror, um filme onde estamos todos enfiados mas, paradoxalmente, um filme ao qual muito pouca gente assiste: preferem estar lá fora, no recreio. No final, sobra uma sensação de profunda impotência, de crescente irrelevância, como que um torpor hipotérmico que, levemente, vai prostrando, vergando e afundando todo um modo de viver, um modo de vida que chamo de meu, e nosso, e que me entristece profundamente pensar que não chegará aos meus filhos. Aos gritos, os porcos chafurdam, e triunfam, no curral em que se transformou o espaço público e mediático. Jornalismo? Uma anedota: um bando maioritariamente composto por assalariados dos fazedores de factos públicos. Comentário público? Insuportável: uma trupe de retransmissores acéfalos do interesse que vão servindo, excepção seja feita a dois ou três articulistas de valor. A governação? Asquerosa: uma vergonha que só engana quem quer ser enganado ou a quem lhe dá jeito. E, depois, sempre, a patrulha do politicamente correcto: armados em sabedores, arrogados de saberem a verdade e a imporem a estupidificação generalizada a quem se atreve a pensar de forma diferente. Nojo. Um curral? Certamente. E, com os meus quase quarenta, entre chafurdar na lama e sentar-me, à distância, a olhar o mundo tal como ele é, a opção é evidente. Depois, claro está, sobra-me a invasão de um pessimismo existencial: de tudo o que há de feio no mundo, o pior está dentro de nós: a cegueira que deriva na estupidez que, por sua vez, deriva na arrogância e, finalmente, na prepotência, tudo, claro está, alimentado pela ambição egótica de, na pequenez, reduzir a infinitude do mundo à nossa pequena e limitada condição. No final, se é para isto, então não se perde grande coisa. Ao menos isso.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

DA ACTUALIDADE

"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos que se conquista o internamento no manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação".

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 175, Assírio & Alvim, 2009, p. 194

terça-feira, 4 de abril de 2017

DO IDEAL

"... e, com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda desta caravana da Humanidade, que se vai demandando a Meca da perfectibilidade".

in: A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco, Ulisseia, 1986, p. 132

domingo, 26 de março de 2017

SECURITY

                                                                         Daqui.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O CAFÉ

Aqui há uns quantos anos atrás, mais de vinte já, ainda miúdos, à noite costumávamos parar sempre ali pelo Deck, no Estoril. O dinheiro, normalmente curto, durava mais investido em latas de cerveja vendidas na antiga Mobil e, de costas largas por sermos mais de vinte a almoçarmos todos os dias da semana ali no Deck, dávamo-nos ao luxo de as ir beber para o final da esplanada, por debaixo de uma árvore grande que ainda lá está, não lhe sei o tipo nem o nome, mas larga umas bolotas rijas e peganhentas. O Sr. Victor, o dono do Deck, tolerava a coisa. Afinal, vinte miúdos ali a almoçar cinco dias por semana dão jeito, a esplanada era grande e não estava cheia.
No entanto, houve um dia, algures durante a primeira metade dos anos 90, em que, talvez irritado com outra coisa qualquer, o Sr. Victor mandou o Quim dizer-nos para consumirmos alguma coisa. O Quim era o empregado mais novo do Deck: todo jovem gostava de mostrar que era quase tão novo como nós, dizia piadas enquanto dava cotoveladas e piscadelas para comprovar a cumplicidade etária. Naquela noite, estava encavacado. Pouco à vontade, lá nos disse que o Sr. Victor dizia que não podíamos estar ali a beber cervejas compradas noutro sítio, que pedíssemos alguma coisa. Éramos uns dez, talvez, já não me lembro. Em resposta, um do grupo, armado em esperto, cheio de preguiçosa insolência disse que, se era para pedir alguma coisa, então queria um café. Ninguém quis mais nada. O Quim lá foi em busca do tal café e a conversa retomou. Passam uns minutos, e nada de café. Por fim, lá vem o Quim de novo mas não traz o café na mão. Curiosos, aguardamos pela chegada dele, parecia uns centímetros mais baixo, vinha ainda mais encolhido. Quando chega alguém pergunta pelo café. E ele responde: "o Sr. Victor manda dizer para irem buscar o café onde foram buscar as cervejas". E vai-se embora, aliviado da missão. O grupo agita-se e indigna-se. "Então", diz um, "mas a gente vem para aqui todos os dias, somos sei lá quantos aqui a almoçar e agora é isto?". Concórdia geral. "Se é para ir buscar o café a outro lado então vamos todos", incita outro. Assentimento unânime.
Levantamo-nos, ofendidos, e, alçando as pernas sobre o varandim de ferro que dividia o Deck do seu concorrente vizinho, o Yate, trocamos de esplanada. Logo veio o Sr. Rodrigues, um galego que falava um português perfeito, perguntar-nos se queríamos alguma coisa, lá veio o café, pelo caminho verificou se as latas estavam vazias, as que estavam cheias ficavam, as vazias levantava-as. Encantamento geral, aquilo sim era serviço! Nos entretantos, mais alguns se juntavam ao grupo, e logo se repetia a estória, e logo se indignava o recém-chegado.
Do outro lado da cerca, o Sr. Victor, de braços cruzados, olhava lá de longe, encostado à goela da porta do Deck. Do Yate, de soslaio, o grupo vigiava e conspirava: exigia-se acção. Ora, a medida proposta era a evidente: os almoços passariam a ser tomados no Yate. Alguém relembrou o principal problema logístico: o bitoque do Yate custava 800 escudos, mais 100 que o do Deck. No entanto, retorquiu outro, até acabava por valer a pena porque o bitoque do Yate era de vaca, em vez do bitoque de porco do Deck, tinha mais batatas fritas e o molho era melhor. E foi assim que nos mudámos de armas e bagagens para o Yate, aliás, não tenho ideia de ter voltado a almoçar no Deck, e já lá vão mais de vinte anos. À Quarta-Feira o Yate fechava e nem aí dávamos a mão à palmatória, aproveitando a folga para ir comer uma pizza ao Don Formaggio.
Pelo caminho, foram ficando alguns momentos dignos de maior registo, como o dia em que os deuses nos deram razão na contenda com o Sr. Victor e choveu no Deck e no Yate não. Foi a única vez que vi o fim da chuva, e foi mesmo ali naquela divisória de ferro pintada de azul. Noutra ocasião, motivo de orgulho meu, bati o record de permanência na esplanada do Yate, mesmo que continuássemos a apelidar a actividade por "estar no Deck", tendo chegado após o jantar e saindo apenas depois do almoço do dia seguinte. E nunca estive sozinho, apenas que variava a companhia.
Os anos passaram, a coisa ficou e a estória, por alguma razão, passou a merecer o estatuto de estória para contar. Creio ter sido algures por 98 que, acompanhando uma namorada, fui a um jantar de aniversário de uma amiga dela onde eu não conhecia ninguém. Fiquei ao lado de um tipo simpático que, tal como eu, "era de Cascais". "Ah é?", interessei-me eu, "então e de onde", perguntei. Era de S. João. E eu? Eu era do Estoril, e depois lá surgiu a referência aos Salesianos do Estoril, "ah, andavas nos Salesianos?", pergunta ele, "andava, pois", respondo eu, e logo ele afirma que se eu tinha andado nos Salesianos então isso queria dizer que costumava ir ao Deck. Na mouche, pensei eu, e logo lhe disse que sim, que era isso mesmo, horas e horas passadas no Deck, apenas para logo corrigir e dizer "quer dizer, Deck não, Yate". O interlocutor, creio que se chama Miguel, ficou curioso: "por que não o Deck?". E, claro, satisfeito por haver tema de conversa, lá lhe contei a estória do café, não me poupando a nenhum pormenor, e terminando, ufano, com a moral da estória: "sei lá quanto é que o Sr. Victor perdeu em almoços com o ter-nos mandado ir buscar o café onde tínhamos ido buscar as cervejas". Como se a cara dele denotasse algum trejeito ou expressão que não decifrei bem perguntei-lhe se ele conhecia bem o Deck. Ao que ele me responde, "sim, sim, conheço muito bem. É que, sabes, o Sr. Victor é o meu pai".
Nesse dia, quem aprendeu uma lição fui eu: com desconhecidos, é melhor guardar as estórias para mim. No outro dia, aqui há uns meses, passei pela primeira vez em alguns anos pela frente da esplanada do Yate e do Deck. Foi com muita surpresa que vi que o Yate fechou e é agora o jardim de cerveja Deck-Beer. A cerca de ferro já não está lá e é o Miguel, um tipo simpático e que, com o passar os anos se vê perfeitamente que é a cara do pai, que montou o negócio e produz a cerveja artesanal. Anteontem, de passagem pelo Estoril, fui lá ter com uns amigos. Quem nos serviu as cervejas foi o Quim, que lá continua com a mesma farda e com o mesmo ar jovial. Mas, o que me sobressaiu mesmo foram as rugas que agora lhe decoram a cara, afinal, vinte anos já é algum tempo, e tenho ideia de que já não o via há mais cinco anos. Passados uns minutos depois de ter-me sentado, lá apareceu o meu insolente amigo que naquela noite, com o seu pedido atrevido, acabou por espoletar esta estória toda. Sentou-se e, de casaco de pele, todo bem-posto na vida, cruzou a perna, disse olá ao Quim e pediu um café.

LE VENT NOUS PORTERA



Noir Désir, 'Le Vent nous Portera', Des Visages des Figures, 2001

sábado, 4 de março de 2017

O PADRECO FRANCISCO

Em 1927, Freud defendia a importância da religião que, mesmo tida como uma ilusão, garantia uma forma de controlar os instintos auto-destrutivos da própria humanidade. Para ele, para podermos imaginar uma sociedade europeia sem religião seria preciso uma doutrina alternativa que, por um lado, mantivesse as características psicológicas religiosas do Cristianismo e que, por outro, garantisse o carácter sacro, formal e rígido da religião - o dogma, portanto. Passados quase cem anos não deixa de ser interessante ver como a hipótese freudiana se confirmou: primeiro, é verdade que a Europa deixou, grosso modo, de ser religiosa: a matriz cristã está lá mas a crença em Deus, no código moral da igreja ou na importância dos seus agentes é residual; segundo, há, de facto, uma doutrina alternativa que substituiu a religião mantendo todas as suas características fundamentais: a Democracia. Com as suas instituições altamente formais, o seu carácter salvífico e a crença que nela, na Democracia, reside a salvação da sociedade, assim a Europa encontrou o equivalente terreno e material para a transcendência religiosa: onde a salvação antes seria no outro mundo, a salvação agora garante-se no aqui e agora - e a Democracia é a forma de o garantir. Assim, em nome dessa crença, importa-se o dogma religioso para o plano da teoria política: as coisas ou são boas, porque democráticas, ou são anti-democráticas, e por isso más; o Bem e o Mal definem-se pela sua equivalência com o padrão democrático. E quem decide o que é democrático, ou bom, e o que não é? Os intérpretes da verdade religiosa, perdão, democrática, naturalmente. E a essência de Democracia - a discussão popular, o compromisso entre visões diferentes, a tolerância com os pontos de vista adversos, etc. - é liminarmente substituída pela imposição do ponto de vista desses arautos do democraticamente correcto através dos meios de propaganda oficial: os grandes grupos mediáticos que se alimentam, e vivem, do status quo substituindo na antecâmara digital as antigas igrejas. A Democracia, dizem eles, os bispos da nova doutrina, é a sua causa, é a sua missão. Mas logo a pervertem dando palco a quem lhes paga, ou interessa, a quem os chefes mandam falar. E depois sobram os padres e padrecos. A benzerem os fiéis (os militantes), a jurarem sobre as bíblias (os programas eleitorais) e dos seus palanques, agora púlpitos, anunciam sempre a boa-nova - a salvação! - que apesar de tardar a chegar se encontra sempre ao virar da esquina, desde que cumpram os devotos o seu dever de os eleger. Melhor exemplo de padreco não há que o Francisco Louçã: sempre compungido, de profecia em profecia, curvado e com o sermão na ponta da língua, o arauto moralista dos novos tempos caminha pela comunicação social como Jesus sobre a água: não interessa que seja contra a liberdade individual (é comunista), não interessa que seja contra a democracia (é comunista) ou contra a propriedade privada (é comunista). Não. Aquilo que interessa é que ele sabe o que é democrático, e por isso bom, e aquilo que é anti-democrático, e por isso mau. Que o que é mau coincida com o que os seus adversários fazem e o que é bom com o que os seus correligionários praticam, isso já não interessa nada. E agora, no seu auge, o Banco de Portugal. Nada mais apropriado para um Totskista inimigo da propriedade privada (o principal alicerce de uma verdadeira democracia pois os consumidores votam com a carteira sobre o que querem ver produzido) e adversário da economia de mercado no conselho consultivo de um banco central. Mas nada mais coerente! Porque, tal como muitos outros, também Louçã, apesar da sua cátedra, se deixa deslumbrar pelas lascivas curvas do grande capital - tal como os seus camaradas bloquistas que aturam as maiores safadezas do PS apenas porque lhes dá jeito. E é assim que, tal como muitos padrecos antes dele, Louçã, o maior moralista da nossa praça, vai deliciar-se nos cadeirões de couro do poder. No final, tal como Lampedusa profetizou, tudo muda para que tudo fique na mesma: afinal não é Louçã nem mais nem menos do que um Padre Amaro da política portuguesa. Deus o tenha.

quarta-feira, 1 de março de 2017

DRILL

                                                                              Daqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ABSTRACTIONISM

"It is only by reducing people of flesh and blood to a mere idea that one can ignore the will of the majority in the name of democracy and institute a dictatorship in the name of freedom".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132

SOL DE INVERNO (V)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CHOOSING VALUES

"Some inequalities (say, those based on birth) are condemned as arbitrary and irrational, others (say, those based on efficiency) are not, which seems to indicate that values other than equality for its own sake affect the ideals even of passionate egalitarians. A part of what we mean by rationality is the art of applying, and combining, reconciling, choosing among general principles in a manner for which complete theoretical explanation (or justification) can never, in principle, be given".

Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83

NEXT LEVEL

                                                                       Daqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O TEMPO NOVO

Durante as últimas décadas, as democracias europeias têm sido governadas por dirigentes políticos que, ao invés de se preocuparem a governar em nome do povo, se têm ocupado a convencer o povo sobre o que é que este deve querer, ou não, para si próprio. Através de todos os meios, principalmente através de um meio mediático medíocre e corrupto, por todo o continente se tem propagandeado que o que está certo é advogar-se uma Europa multi-cultural, multi-religiosa e aberta a todas as civilizações exógenas, mesmo as mais hostis e violentas, tidas todas como iguais. Quem não concordasse com o axioma oficial logo era enlameado na praça pública como racista, xenófobo ou proto-assassino. A Europa multi-cultural, diziam-nos, é terra de paz, prosperidade e fraternidade - para todos no mundo. Esqueceram-se, no entanto, daqueles que já cá estavam.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.