quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O PSD E A SOCIAL-DEMOCRACIA (II)

No que consiste então uma ruptura com o estatismo socialista?
É assumir que os indivíduos são donos do seu próprio destino, que não há soluções perfeitas para a sociedade, e que o Estado deverá ser meramente um instrumento dessa sociedade, não para a formar, dirigir, ou controlar, mas para a proteger garantindo o respeito pelos valores que essa mesma sociedade entende como fundamentais.
É assumir que o Estado não pode continuar a ser um monstro burocrático que, tudo controlando, se torna, como Burke muito bem avisava, demasiado poderoso e capaz de esmagar a frágil, porque individual, liberdade dos cidadãos.
É assumir que o motor da economia são as pessoas e que são estas apenas que, livremente, perseguindo os seus objectivos individuais, são capazes de gerar a riqueza.
É assumir que a igualdade de facto é impossível de ser atingida, quer no ponto de partida, quer no ponto de chegada da vida e que, como Rawls famosamente estabeleceu, apenas se pode garantir que quanto melhor estiverem os que mais têm, mais recompensados deverão ser também os que menos têm.
É assumir que tudo o que é humano é naturalmente falível e que, por essa razão, a responsabilidade das tentativas, dos sucessos e dos erros deverá ser dos cidadãos. Ao Estado, igualmente falível porque composto por pessoas, cabe apenas evitar no natural campo das disputas sociais abusos de uns indivíduos face aos outros. No fundo, assuma-se que liberdade é igual a responsabilidade e que a perda – ou recusa – da segunda implica a perda da primeira.
É assumir que o Estado não pode ser ele próprio instrumento de abuso de uns indivíduos sobre os outros e que, por essa razão, uma das principais obrigações da sociedade é garantir que o Estado é limitado, fiscalizado e controlado pelos cidadãos, e não o inverso.
Finalmente, é assumir que o caminho da felicidade reside no trabalho, no engenho e na perseverança individuais e não nos negócios, nas benesses, nas honrarias ou nas oportunidades que o Estado pode garantir.
São palavras simples aquelas que aqui se exprimem, mas revelam uma revolução tão difícil quanto fundamental para com o status quo socialista e oligárquico que prende Portugal à situação actual. Na prática, implicam uma política que assuma estes valores, cortando com os interesses económicos poderosos que controlam o Estado, apelando aos eleitores para que lutem – eles próprios! – pela sua liberdade mostrando-lhes que aqueles que vendem facilidades e sonhos mais não oferecem do que uma mão cheia de nada e uma outra, escondida, cheia de uma dívida que nos agrilhoa o futuro. Trata-se de assumir com verdade e frontalidade que um futuro de bem estar e prosperidade apenas é possível se mudarmos de paradigma, se cortarmos de facto com o socialismo estatista.
O PSD é o único partido capaz de representar essa alternativa em Portugal. E apenas o poderá fazer diferenciando-se do PS (que representa a "situação") apresentando a alternativa que aqui se descreve, nunca esbatendo as diferenças ideológicas profundas que separam os dois partidos e assumindo um discurso complacente com o modelo estatista e socialista que é imperativo rejeitar.

(adaptado parcialmente daqui)

O PSD E A SOCIAL-DEMOCRACIA

Os valores do PPD|PSD são fundamentalmente compatíveis com a mudança de paradigma que é necessária para Portugal: a rejeição do socialismo. A social-democracia em Portugal afirmou-se não como o corolário de uma visão socialista para a sociedade mas, pelo contrário, como o contraponto liberalizante e ontologicamente conservador face ao socialismo moderado do Partido Socialista e ao socialismo radical da extrema-esquerda portuguesa. De facto, apesar de, como Maritheresa Fraín nos lembra, “os fundadores do PSD [terem adoptado] um programa não ideológico e pragmático”[1] onde “a designação do partido como social-democrata ajudou a reforçar as... credenciais «esquerdistas» [do PSD] no período em que ser de direita poderia significar um suicídio político”[2], não deixa de ser igualmente certo que o PSD, como representante da direita emergente no pós-25 de Abril, “procurou representar os interesses económicos e sociais dos homens de negócios, dos proprietários agrícolas, das profissões liberais, da classe média e dos trabalhadores não-marxistas das cidades e dos meios rurais”[3]. Ao mesmo tempo, o pragmatismo do PPD|PSD corresponde a uma coligação de valores que justificava o realismo pragmático que assumiu e que a imperiosa salvação nacional obrigava. Essa coligação de valores congregava sectores tradicionalmente social-democratas da oposição ao regime de Salazar e Caetano mas também, não menos importante, significativos elementos da burguesia liberal, principalmente nortenha, bem como elementos conservadores que muito facilmente poderiam ser descritos como defensores da democracia-cristã europeia. Marcelo Rebelo de Sousa resume: “É, pois, da confluência destes legados – social-cristão, social-liberal com afloramentos social-democráticos e social-tecnocrático – que nasce, ideologicamente o PSD”[4]. Em suma, a base ideológica do PPD|PSD congrega um ideário social-democrata (segundo Rebelo de Sousa em minoria), democrata-cristão e, naturalmente, liberal.
Não será, portanto, extremanente polémico afirmar-se que a social-democracia portuguesa tem raízes, quer no campo dos valores, quer no campo das pessoas que visava representar, bem díspares das suas congéneres europeias que se identificam com o socialismo. Tal coisa também se revelou na prática. Primeiro, através de Sá Carneiro e a forma como visou libertar o país da influência militar; depois, com Cavaco Silva, no processo de liberalização – e o correspondente progresso material – que o PPD|PSD conseguiu implementar nos anos 80 e 90 do Século XX. Não será demais, nem despropositado, relembrar que foi precisamente nesses anos que – com a oposição feroz do PS e da extrema-esquerda – se conseguiram implementar reformas, na altura igualmente "neo-liberais" e heréticas para a esquerda, mas que eram tão evidentemente fundamentais, tais como os bancos, as seguradoras e os órgãos de comunicação social poderem existir fora da esfera do Estado. Não será igualmente demais, nem despropositado, relembrar que foram precisamente esses anos os de maior progresso material da democracia portuguesa.
A mudança de paradigma político não visa acabar com o Estado-Social ou, muito menos, com o Estado. Ser pela liberdade não implica ser libertário. A mudança preconizada pelo PPD|PSD passa essencialmente por ter um Estado limitado pelos cidadãos ao invés de ter os cidadãos ao serviço do Estado e dos indivíduos que o controlam. Ou, por outras palavras, salvar o estado-social tornando-o mais eficaz, acessível, justo e menos dispendioso para os contribuintes.
Neste sentido, o que se exige é um esforço de libertação face aos constrangimentos herdados do salazarismo e do fervor revolucionário marxista, nomeadamente os constitucionais, que obrigam o país a ir vivendo no pântano estatista da perpétua criação de dívida. Acima de tudo, mais uma vez, aquilo que se pede do PPD|PSD é que seja capaz de implementar uma política séria, credível e eficaz para voltar a colocar Portugal na rota da prosperidade e do progresso material. Para isto é forçoso que o PPD|PSD seja fiel às suas origens e rejeite o papel colaboracionista com o PS que a oligarquia de interesses instalada em Portugal gostaria de lhe ver atribuído. Da mesma forma, no discurso, é fundamental que se compreenda que é pela rejeição do modelo socialista que Portugal poderá reencontrar-se com o caminho da prosperidade.


[1] Maritheresa Fraín, PPD\PSD e a Consolidação do Regime Democrático, Editorial Notícias, 1998, p. 243
[2] Ibidem, p. 243
[3] Ibidem, p. 14
[4] Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, Editora Bertrand, 2000, Volume I, p. 15

(adaptado parcialmente daqui)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

PORTUGAL NO DIVÃ

Na ausência de explicações tradicionais para o estado de loucura generalizada em que o espaço público português vive parece-me que só falta uma visão psico-analítica para compor a coisa. Ora, cá está ela. São dois os arquétipos fundamentais que norteiam a vida humana, o arquétipo da Mãe e o do Velho Sábio, ou o do Pai. A Mãe é carinhosa, protectora, dá força, segurança e vitalidade. É o útero aconchegante. Em Portugal, a Mãe de todos nós é o PS. Dá empregos, estabilidade, promete que tudo vai correr bem e dá-nos sempre força para seguir no mesmo rumo. Daí, naturalmente, o país é do PS. Gosta de aeroportos, TGV's, estações de metro, fins da austeridade, reposição de rendimentos e demais guloseimas. A Mãe é boazinha e dá coisas. Guterres era bonzinho. Soares era bonacheirão. O outro arquétipo é a figura do Pai. Este é severo, austero, impõe limites e regras. Ensina-nos lições. Empurra-nos para a frente, mesmo se formos a berrar e a espernear. Em Portugal, o Pai é o PSD. Quer que cresçamos, exige trabalho e responsabilidade, fala de mudança. Quer regras e contas certas. Promete pouco, fala menos ainda. Cavaco foi o pai de toda uma geração de portugueses. Assim, o ciclo normal da coisa é o país escolher por regra o PS, a mãezinha que nos embala e diz que tudo vai ficar bem mas, quando o arquétipo maternal se transforma na sua variante negativa, o útero transformado num buraco escuro que nos engole, no nosso caso prático através da falência, então lá vamos nós a correr a pedir a ajuda, e a orientação, do Pai. O novo Pai é Passos coelho. O Pai que agora os infantes portugueses sonham matar como forma de afirmação adulta. Há algumas excepções, atenção, que confirmam a regra. Sócrates é a evidente: uma espécie de hermafrodita, juntou de forma megalánoma os dois arquétipos num só: a figura maternal do rosa PS com a postura inédita do governante austero. Resultado? A primeira maioria absoluta do PS e a maior falência do Estado dos últimos 40 anos. Outro hermafrodita arquetipal é Assunção Cristas: sobre a manta da direita conservadora (e austera) lá vai vendendo estações de metro ao quilo: é a Mãe Natal. Pelo que se vê, até agora a coisa vai resultando. António Costa, a mãe de todos nós, esse, vai de vento em poupa: até ao Quantitative Easing acabar. Quando a "Europa" deixar de comprar a dívida pública que sustenta a festa portuguesa, o útero gigante de Costa será, como sempre, substituído pela caverna abissal de uma nova falência. E os portugueses lá correrão atrás do paizinho, leia-se, o actual culpado de tudo o que há de errado no mundo, Passos Coelho. A questão é se ele ainda lá estará. Nos entretantos, as crianças lambuzam-se com o pote que a Mãe, às escondidas, lhes vai oferecendo. Deliciadas, sonham que durará para sempre. E, inconscientemente, dormem descansadas porque sabem que o Pai está ali ao virar da esquina para os vir safar do buraco em que, por teimosia infantil, se vão enfiando. Não, Portugal ainda não está pronto para matar Passos Coelho.

sábado, 30 de setembro de 2017

O CERCO (V)

Recebo a newsletter do Observador e, mesmo em dia de reflexão!, a segunda notícia em grande destaque, e única relativa à campanha autárquica, é para o facto de "a candidatura de Leal Coelho ter avisado [o observador] de que o PR ia passar na campanha", logo Leal coelho terá mentido quando afirmou que o encontro agora na berra seria casual. A seguir dá nota que Marcelo repudia Leal Coelho por esta dizer que o PR lhe teria ido dar uma palavra amiga. Este é o enredo ou, se preferirem, a "narrativa" da última polémica autárquica em Lisboa. Ora, três notas: (1) nem em dia de reflexão o Observador se abstém de, na única notícia relativa a eleições autárquicas, aproveitar para criticar Leal Coelho. (2) Um jornal revelar as informações que obtém de uma campanha por forma a obter notícias (neste caso que o PR ia passar) é, na essência, uma quebra de sigilo que as fontes esperam, legitimamente, ser respeitado por parte dos jornalistas. É um comportamento deplorável que mais não mostra do que a perseguição política que tem sido feita contra o PSD, Leal Coelho, tendo Passos Coelho como alvo máximo, pelo Observador na campanha autárquica de Lisboa. (3) Finalmente, quanto aos factos. O Observador foi lesto a apelidar Leal Coelho de mentirosa, reforçando a ideia com uma notícia em pleno dia de reflexão, e alicerçada na revelação de informação dada a título confidencial, mas esquece-se convenientemente de um pormenor: se foi avisado o Observador vinte minutos antes de que o PR ia ali passar, e se foi avisado pela campanha de Leal Coelho, então o PR terá avisado a campanha de Leal Coelho que iria ali passar. Isto é evidente e inegável. Se assim é, o PR avisaria Leal coelho, ou a sua campanha, de que iria visitar a sua campanha por que outra razão além de "dar uma palavra amiga"? Sobre isto o o Observador não se pergunta? Seria para quê a visita de Marcelo se não para dar uma palavra amiga? Seria para vilipendiar Leal Coelho? Para a criticar? Para lhe espetar uma facada nas costas? (esta talvez mas não seria anunciada) Ou seja, Leal Coelho, para proteger o PR, não diz que foi avisada, apesar de o ter sido, e o PR, para salvar a pele, acaba a fazê-la passar por mentirosa. Dez minutos depois o Observador larga a "notícia" de que Leal Coelho era mesmo mentirosa e a partir daí o palco está montado para mais um show "vamos todos bater na candidatura do PSD a Lisboa". O que vale é que todos sabemos que Marcelo não é dado a planos mirabolantes e maquiavélicos e que o Observador é um jornal independente. E assim se faz política (e suposto jornalismo) em Portugal. Chique a valer, hein?
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO (IV)

Tirando a névoa mediática, indo ao tutano, o facto mais relevante para o sistema político-partidário-económico português dos últimos anos foi a queda de Ricardo Salgado da sua posição central no (Prof. Marcelo dixit) "bloco central de interesses". Ponto. Desde aí, tudo o que se tem passado é uma tentativa de reorganização desse bloco que, para sua estabilidade, necessita de ver o grande responsável pela queda de Salgado, Passos Coelho, removido da sua posição central no sistema político português, sobrando o PS (sempre amigo dos poderosos que o sustentam) e Marcelo Rebelo de Sousa (amigo pessoal de Salgado). Daí a campanha negra mediática que está em curso contra ele, Passos Coelho, e, por arrasto, contra o PSD nestas autárquicas, levada a cabo pelos meios de comunicação social (detidos na sua larga maioria pelos poderosos oligarcas portugueses). É isto. Espantoso é ver a esquerda portuguesa, por conveniência, do lado do banqueiro arguido, unida em uníssono contra alguém que mais não fez do que a sua obrigação.
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO (III)

Consegue-se aferir o incómodo que alguém representa para a oligarquia de interesses instalada nos bastidores do estado-espectáculo português pelo nível de violência com o qual esse alguém é atacado na praça pública. Não tenho memória, sinceramente, de uma campanha negra concertada, tanto no nível político, como no partidário e, em particular, no mediático, tão violenta como aquela a que vou assistindo contra Passos Coelho. A nova intentona - de facto nova pois nunca tinha visto tal coisa - é uma candidata, sem se demitir, vir criticar o líder do partido pelo qual se candidata, tal como a sua própria cabeça de lista, na véspera das eleições. Na véspera das eleições, atente-se. Que outro motivo poderá haver para lá da pura e dura sabotagem? Salvo alguma incapacidade mental grave, que imagino não ser o caso, nenhum outro motivo se poderá imaginar. A oligarquia não brinca em serviço. No entanto, intuo eu, de tanto baterem no ceguinho, tal é o exagero, ainda o elevam a santo. E de santo a primeiro-ministro são apenas dois ou três Passos. Quanto mais batem no homem mais eu acredito que ele lá vai chegar outra vez.
#portugalnasmãosdosoligarcas

LINHAS DIREITAS T3




O Linhas Direitas, agora na crista da onda mediática, estará de regresso para a semana. Entretanto, fica aqui uma grande reportagem (3min) num programa de rádio de referência nacional sobre o iminente, e muito aguardado, regresso do Linhas Direitas para a sua terceira temporada.

PARADOXO

Existe algo intrinsecamente paradoxal no artista "rebelde", o roqueiro de longos e despenteados cabelos, com profusas tatuagens e cheio de piercings, que abre as portas de sua casa a jornalistas, apenas para mostrar as suas amplas salas confortavelmente atapetadas, plenas de cortinados de veludo, sofás almofadados de cor creme, paredes forradas com espelhos e quadros de talha dourada e muitas almofadinhas de decoração. Eu ainda sou do tempo em que os heróis, estes sim rebeldes, se finavam novos, exauridos, afogados em poças do seu próprio vómito, agarrados a garrafas ou seringas ou, ainda, com tiros auto-inflingidos, todos tragicamente auto-destruídos pelos excessos aos quais a sua recusa da normalidade os condenou. Eram os relembradores da tragédia. Sinceramente, quem é quer saber destes betinhos de hoje em dia, todos apologistas do saudável, todos muito salvadores do mundo, todos muito bonzinhos, e que se ofendem com umas bocas se forem "politicamente incorrectas", isto enquanto se ocupam a rodar anúncios televisivos que lhes rendem milhões para gastar em decoradoras de interiores?

O CERCO (II)

Já apenas por curiosidade, e considerando aquilo que aqui escrevi ontem, vou ao Observador ver a sua cobertura das eleições autárquicas. Sinceramente, a coisa está a tornar-se ridícula. Entre a notícia onde Costa diz que o país está a recuperar (uma "notícia autárquica", claro) e umas coisas do PCP no Alentejo, o destaque principal vai, naturalmente, para alguém que não é nem autarca nem candidato a alguma câmara: Rui Rio. Em grande manchete, lá nos vem relembrar que "o PSD está numa situação muito difícil". Muito obrigado. Depois, outra notícia de outro autarca: Morais Sarmento. Este diz que "Passos terá que prestar contas". Tudo muito autárquico. Mais abaixo, um título que faz pouco de Jerónimo de Sousa, de Rui Moreira e, claro está, da "sardinha" Leal Coelho. E isto tudo ainda antes de chegar ao caderno de Lisboa onde se relata a campanha na capital. Aí, duas notícias: a de ontem, sobre Cristas (a líder que consolida a liderança) e Leal Coelho (a amiga do líder, Passos Coelho, que fragiliza a sua liderança); e outro link, a notícia de hoje, onde se dá nota que Portas aparece para apoiar Cristas e que, no lado do PSD, aparece Fernando Negrão, qualificado imediatamente como, e cito, "o candidato a Lisboa que teve o pior resultado de sempre". Mas isto não chega, mais à frente, o subtítulo já é mais claro: o apoio de hoje de Leal Coelho, Negrão, é "o pior candidato de sempre". De facto, não é preciso mentir para se fazer campanha eleitoral - e péssimo jornalismo. O cerco a Passos Coelho continua e os seus adversários não são Morais Sarmento ou Rui Rio, os aliados circunstanciais do momento. Não, os adversários de Passos Coelho são os poderosos oligarcas do regime, os donos disso tudo, incluindo os jornais.
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO

Não há dia que a newsletter do Observador, o último resquício de imprensa portuguesa que acompanho, não me venha relembrar que a liderança de Passos Coelho está "fragilizada", "em risco" ou, como hoje, "em jogo". Ao mesmo tempo, recorrentemente, desde há anos, é anunciado o seu sucessor, Rui Rio, o homem que "ganha apoios", "reúne com apoiantes" ou "conta espingardas". E isto no Observador, supostamente um espaço mediático liberto do complexo de esquerda. Ao mesmo tempo, Cristas, a sucessora de Portas e fiel executante da sua estratégia de substituir o PSD como o grande partido da "direita", oferecendo-se como o pilar direito para sustentar, junto com o PS, o bloco central de interesses que alimenta a oligarquia vigente, essa, Cristas, aparece-me todos os dias em grande: a andar de mota, a andar de metro, a visitar isto e aquilo, enquanto, e passo a citar, "consolida a sua liderança". A luta autárquica é assim, convenientemente, reduzida a dois movimentos proporcionais e, querem fazer-nos crer, interligados: o enfraquecimento de Passos e o fortalecimento de Cristas. Só por isto, estivesse eu em Lisboa, e já votaria (apesar do posicionamento sobre o alojamento local) em Leal Coelho. Isto por uma razão: aquilo que permite que o CDS se queira tristemente alçar a ser a pata direita da oligarquia de interesses portuguesa é porque Passos Coelho representa, precisamente, o grande adversário dessa mesma oligarquia dos interesses: afinal, foi ele que deixou cair Salgado. Sobre isto, curiosamente, ninguém fala. E assim temos uma situação onde o apoio a Passos Coelho se revela como necessário e imprescindível: é ele o herói derradeiro que, sem complexos, representa a maior ameaça para a rede de interesses que comanda o país e da qual Costa, tal como Sócrates, nunca mais almejou além do que dela fazer parte e, dessa forma, colher os seus frutos. Passos Coelho, com todos os seus defeitos, é a alternativa. E por isso, com toda a força, a oligarquia vigente através dos media que largamente controla, o ataca, dia após dia, com todas as suas armas. Quanto mais oiço, leio e vejo o ataque cerrado, concertado e global ao líder do PSD mais me convenço que ele é o único que, de facto, representa uma alternativa à pouca vergonha que tomou conta do país. Terá, portanto, todo o meu apoio.
#portugalnasmãosdosoligarcas

UM EMBARAÇO

A ideia de que partilho o meu Teravô, um peixe perdido algures no Oceano Pantalássico, com seres como o António Costa ou a Catarina Martins atormenta-me o espírito e representa um embaraço para a família.

ABJECTO

Se tivessem um professor na escola a perguntar ao vosso filho se não se sentiria melhor deixando crescer o cabelo, ou à vossa filha se não preferiria que esta rapasse o cabelo, eram capazes de pensar que o professor tinha perdido o tino e que não tinha nada que andar a importunar os vossos filhos sobre a forma como estes preferem ter o cabelo. Na verdade, ninguém tem nada que ver com o assunto e perguntas indiscretas, pessoais mesmo, deste género seriam rapidamente reportadas como abusivas. Se isto é assim, então, por que raio haveremos de achar normal que andem professores primários a perguntar aos nossos filhos se se sentem bem como rapazes ou às nossas filhas se sentem bem como raparigas? E que isto faça parte do curriculum da escola pública? Não será isto um abuso, uma perversão asquerosa mesmo, ter professores a indagar acerca do sexo dos nossos filhos? É que é isto que a extrema-esquerda europeia acha que é o progresso.

DO IRREVOGÁVEL

Estava eu a perorar sobre a decadência do jornalismo quando tenho aqui um exemplo de que nem tudo estará perdido. Irei, certamente, adquirir o livro. Nos entretantos, a ser verdade o que aqui se diz, explica-se muita coisa e tiram-se algumas notas:
Primeiro, que Portas compreendeu que a via para cumprir o seu sonho (substituir o PSD como o grande partido da "direita") passa mais por ser o parceiro dos negócios da oligarquia vigente, e um dos pilares do status quo, do que pelo voto eleitoral que nunca conseguiu conquistar;
Segundo, que Cristas e a sua ligação angolana, a imediata ruptura com a coligação que levou a cabo mal foi eleita, bem como a sua candidatura a Lisboa, representam a continuação dessa estratégia;
Consequentemente, em terceiro lugar, percebe-se que o objectivo do CDS é mesmo uma aliança futura com o PS, nem que seja mais disfarçada e meramente no plano da gestão dos interesses partidários de ambos (que são coincidentes: isolar e neutralizar o PSD);
Finalmente, em conclusão, torna-se evidente que Passos Coelho representa hoje a derradeira alternativa ao bloco central dos interesses dos poderosos oligarcas que mandam em Portugal. Foi com ele que se conseguiu impedir que a factura da fraude do BES caísse em cima dos contribuintes e que Salgado, o Dono Disto Tudo, continuasse, impune, o seu reinado de bastidores. E assim se percebe porquê toda a imprensa (toda mesmo) mais não faz do que criticar e bater em Passos Coelho, do que publicar notícias sobre a sucessão de Passos Coelho ou anunciar a sua morte política: é ele o derradeiro adversário a abater. A oligarquia poderosa que manda não brinca em serviço.
Sim, sim, isto explica muita coisa.
#portugalnasmãosdosoligarcas

ZEITGEIST (II)

Leio no Observador, a propósito das eleições alemãs, que "a extrema-direita entra no parlamento alemão pela primeira vez desde 1945". Ou seja, para a jornalista, a AfD ou o Nacional-Socialismo de Hitler são uma e a mesma coisa. Para se pensar de tal modo ou se é profundamente ignorante (sobre a AfD e\ou o Nacional-Socialismo) ou se quer, disfarçada mas conscientemente, passar a mensagem de que o inimigo que assola a Europa são os nazis intolerantes agora súbita e misteriosamente ressuscitados. Seja ignorância seja intenção, no fundo, a conclusão é que no jornalismo mainstream lêem todos da mesma cartilha simplista e papagueiam todos as mesmas banalidades sem um pingo de reflexão sobre o filme que lhes passa mesmo em frente do nariz. Ou seja, são terreno fértil para a propaganda multiculturalista do status quo, sempre impingida nas entrelinhas do politicamente correcto, e cuja falência, essa sim, está na origem da subida eleitoral daqueles que a rejeitam. Comparar este fenómeno com o racismo bélico e expansionista do totalitarismo Nazi é, do ponto de vista intelectual, um atentado. Poucas coisas serão tão sintomáticas da decadência democrática como o proto-desaparecimento do jornalismo crítico, independente e inteligente. Mas a vida é assim: todos os defuntos precisam das suas carpideiras.

ZEITGEIST

Que na Alemanha a AfD tenha tido 13% dos votos e a CDU e o SPD, parceiros na política governamental aberta de imigração recente, tenham tido, ambos!, o pior resultado individual dos últimos 60 anos, tudo isto só poderá ser uma enorme coincidência. A culpa será, para a inteligência multicultural mediática, naturalmente, de Hitler e/ou da contemporânea intolerância supostamente neo-liberal. Nada que mais uns quantos programas sociais de desradicalização dos refugiados/imigrantes não resolvam, pensarão eles. Para esses iluminados nada pode travar o sucesso da ideologia multicultural: mesmo que o preço a pagar seja a destruição, a curto prazo, do projecto europeu e, a longo prazo, o desmoronar da civilização ocidental. Senão vejamos: aí no burgo, certamente, a extrema-esquerda, agora governamental, continuará a sua propaganda em frente de um silêncio mediático apropriado, mas, igualmente triste, é que na Alemanha, tal como em França, ou na Holanda, apenas os anti-europeístas se manifestem contra a destruição dos valores europeus. Daí o inevitável deitar fora o bebé junto com a água suja. Com o silêncio do centro sobram então dois extremos: de um lado, os marxistas das mudanças de sexo aos 12 ou 16 anos e os vivas às virtudes islâmicas, do outro, as chamadas extremas direitas. Quem acham que, a tempo, ganhará? E, mais importante, entre uns e outros, a ter que escolher, no segredo da cabine de voto, quem preferirão os europeus? Não me parece que a resposta seja muito difícil. Triste, sem dúvida. E, nos entretantos, tal como em França, celebra-se mais uma "vitória da democracia". Abram o espumante, é beber enquanto é tempo.

189

Oiço na Antena 2 que este ano os hóspedes do Airbnb já gastaram em Lisboa 189 milhões de euros em restaurantes. Uma vergonha! O melhor seria acabar com isto e por a malta toda que vive desse dinheiro em casa a receber os 700 euros por mês que o governo quer dar aos jovens que nem estudam nem trabalham. Isso e trazer as saudosas prostitutas de volta ali para as ruínas agora recuperadas da zona do Cais do Sodré. Turista é fascista, Portugal é para os portugueses (e refugiados).

COMMUNISM KILLS




Destas vítimas as Catarinas, os Bernardinos e restante tropa fandanga não têm pena nenhuma. E, não tenhamos dúvidas, tal como o vizinho Iglesias e demais aliados de Chávez e Maduro, tendo o poder, acabariam a fazer exactamente a mesma coisa. Se há um facto historicamente comprovado é este: onde o socialismo radical e o comunismo triunfaram, triunfou igualmente a violência, a miséria e a morte. Isto, digam o que disserem estes mentirosos oportunistas, é um facto.

LOGOS

É o Trump contra o Rocket Man norte-coreano na ONU e o André Ventura contra o Bernardino em Loures. Isto está tudo ligado.

OS INIMIGOS ESTÃO DENTRO DO CASTELO





O grande objetivo desta gente da extrema-esquerda é a destruição da civilização ocidental. Para isso é forçoso (Burke explica) isolar o indivíduo que, sozinho, nada poderá contra o poderoso Estado. Isolar o indivíduo implica hoje a destruição da família tradicional. Simples. A família ninguém a legislou, ninguém a criou, ninguém a impôs. É o ambiente natural onde os humanos, no seu ninho, se sentem seguros e onde se preparam para enfrentar as agruras da vida. É uma criação natural. Já este ataque contínuo em nome do homem novo é legislado, pensado e imposto por uns quantos iluminados que se arrogam, e imaginam, como uma espécie de vanguarda do progresso. Mas não são mais do que homens e mulheres, carecendo portanto de qualquer legitimidade para o fazerem para lá da sua própria ideologia totalitária. Tão totalitária que quer regular o sexo das pessoas. O absurdo desta proposta não se limita à ideia dos 16 anos, ou seja, indivíduos aos quais nem sequer lhes é reconhecida a maturidade suficiente para votar(!!!) já teriam maturidade para poder "mudar de sexo". Mas, repare-se, é também estapafúrdia, mas nada inocente, na noção de que o Estado pode entrar pela esfera privada da família e, colocando-se entre pais e filhos, impor esta possibilidade de "mudança de sexo" a todos, repito: todos, os adolescentes. Em seguida, através da escola pública, anunciar e inculcar essa possibilidade às crianças. É isto que queremos para os nossos filhos? Ah, podem bem ter a certeza que não. Isto para não falar no engodo ideológico que é toda a história da "mudança de sexo". Qualquer pessoa com um mínimo conhecimento de biologia sabe muito bem que os humanos nascem, e morrem, ou homens ou mulheres. A "mudança de sexo" não muda sexo algum que, cromossomaticamente, é impossível de ser mudado. Apenas disfarça e mascara, através de mutilações, implantes e hormonas, um sexo em outro sexo. Muda, portanto, a aparência do sexo, não muda o sexo em si. Ou seja: não existe mudança de sexo. E quer esta gente colocar adolescentes de 16 anos a poder tomar decisões sozinhos sobre um processo tão violento como este em nome de uma ideologia? E quer esta gente entrar pela nossa casa dentro e colocar esta violência na cabeça dos nossos filhos? Esta gente tem que ser derrotada. Não tenhamos dúvidas sobre isto.

MANICÓMIO

Como as eleições autárquicas são no próximo dia 1 de Outubro, não vá o diabo tecê-las, o regresso a Bruxelas está marcado para dia 23 de Setembro. Mesmo assim, estou a pisar gelo fino: algum percalço e ainda sou forçado a escolher entre três candidatos contra o alojamento local, e essa pérfida invasão turística, e dois pretensos marxistas que, tirando o sucesso com o público feminino, mais não pretendem do que contribuir para a destruição, tijolo a tijolo, da civilização ocidental. Dizem que são as eleições autárquicas e que isto é uma espécie de democracia. Diria eu que mais parece um manicómio mas, enfim, é que há. Adeusinho e até ao Natal.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O PARADOXO PROGRESSISTA

Existem duas ideias centrais ao progressismo contemporâneo que podem ser sumarizadas nos dois seguintes pontos:

1) Todas as culturas são igualmente válidas na sua diversidade, todas representam legítimas formas de expressão humana e nenhuma, em particular a Ocidental, pode ser considerada superior, ou mais evoluída, face às demais;

2) Através da ciência e da razão, tal como nas disciplinas ditas naturais (química, física, astronomia, etc.), é possível descortinar um conjunto de leis que norteiam o mundo das ciências humanas, portanto as actividades humanas, que uma vez descobertas permitem organizar de forma correcta, ou pelo menos melhorada, a sociedade, as regras sociais, ou seja, o mundo moral e político. Estas regras, porque científicas, representam o natural avanço da Humanidade face ao obscurantismo de um passado ignorante porque afundado em religiões, mitos e crenças.

No entanto, estas duas ideias, apesar de simultaneamente aceites pelo zeitgeist cultural e político em que vivemos, são absolutamente contraditórias entre si. Se, por um lado, aceitarmos a noção de que existem regras racionais e científicas, logo tendencial e progressivamente mais verdadeiras do que as que as antecederam (daí a noção de "progresso"), que podem ser descobertas por forma a ordenar de forma mais aperfeiçoada e correcta a sociedade então essas regras, a serem cientificamente válidas, terão que ser igualmente universais, ou seja, terão que ser igualmente verdadeiras e mais correctas para todas as culturas humanas - mesmo aquelas que são diferentes da nossa, que partilham outros valores e que recusam a razão, a ciência e o nosso modo de vida. Não pode uma coisa ser cientificamente verdadeira para mim e não o ser para outra pessoa: o pressuposto fundamental da verdade científica é que essa verdade é universal.

Assim, a ser aceite o ponto 2, as culturas que sigam essas regras científicas (as regras que sociólogos, politólogos, psicólogos, etc., tanto se esforçam por descobrir) serão por definição mais avançadas do que aquelas que, quer voluntária quer involuntariamente, não o fazem. Ou seja, o ponto 2, ao ser aceite, desmente o ponto 1 e impede a simultânea advocacia dos dois pontos.

E vice-versa: se aceitarmos a ideia expressa no ponto 1 de que todas as culturas são igualmente válidas e nenhuma é mais avançada do que a outra, então não poderá existir um critério universal, logo científico, que ofereça regras mais correctas sobre a forma como uma sociedade deve organizar-se. Onde as diferentes culturas são tidas como igualmente válidas tudo o resto terá que ser igualmente válido, logo aceite, fazendo do critério científico-racional dos progressistas apenas mais um entre muitos outros critérios, todos eles igualmente válidos. Assim sendo, aceitando-se o ponto 1, nada se pode impor a ninguém - precisamente a conduta oposta do movimento progressista que, paulatinamente, advoga uma crescente imposição do seu "correcto", porque supostamente científico, modo de vida à sociedade. A propósito desta imposição a coberto da ciência, a título de exemplo, ocorre-me lembrar toda a ideologia de género que tão na moda está.

No entanto, considerando o exposto, a conclusão evidente é que o progressismo contemporâneo transporta na sua origem uma incoerência intrínseca e encerra dentro de si próprio uma contradição insanável. Ao melhor estilo do anseio infantil por ter sol na eira e chuva no nabal, também os progressistas procuram unir os revolucionários do mundo e os descontentes com o Ocidente apregoando uma coisa e o seu contrário consoante o interesse do momento. É esta contradição que explica, por exemplo, que os mesmos que lutam pelos direitos dos homossexuais são muitas vezes os mesmos que lutam simultaneamente pela aceitação de culturas que perseguem, prendem e matam homossexuais, inclusive defendendo-as por oposição a outras culturas que toleram e aceitam os homossexuais.

É também esta contradição que demonstra que o progressismo contemporâneo não tem, de facto, uma base sustentável para oferecer um modo de vida viável ao mundo. Por debaixo desta enorme contradição intelectual, uma contradição apenas possível num mundo político onde reina a superficialidade panfletária e onde nada é aprofundado aos pressupostos implícitos nas ideias e propostas que se advogam, se torna evidente que nada mais tem o progressismo contemporâneo para oferecer ao mundo além da prometida destruição do modo de vida ocidental.

domingo, 4 de junho de 2017

ESTRANGEIROS? HÁ OS BONS E OS MAUS

O mais curioso é que a malta portuguesa que acha que os atentados terroristas são resultado das sociedades europeias não acomodarem devidamente as hordas de imigração islâmica que assolam a Europa (estrangeiros que, segundo eles, temos todos a obrigação moral de acomodar) também acha, grosso modo, que bandos de estrangeiros de passagem, todos de carteira bem recheada na mão a despejar euros para cima dos tugas, representam uma ameaça descabida e imoral ao bom viver das cidades portuguesas: estrangeiros que são bons são os outros, já estes, os que reabilitaram os centros históricos das cidades, os que povoam restaurantes, tascas, lojas e bares, os que visitam museus e monumentos, ou que enchem os cofres dos metros, autocarros, táxis, uber's e barcos, estes estrangeiros que transformaram centros históricos decrépitos pejados de prostitutas e prédios em ruína em locais que granjeiam os mais rasgados elogios internacionais, ó pá, estes estrangeiros o melhor é correr com eles. Não é à toa que o termo 'turismo' acaba em 'ismo', é coisa que, em nome da moral, da verdade, da igualdade e da fraternidade se condena, ou se deveria condenar, como vil e indesejável. Eu, por mim, alinho: vou trocar os turistas indesejáveis que passam por minha casa no centro de Lisboa por um grupo de refugiados: a assembleia de condóminos agradece, imagino eu.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FREAKOUT

                                                                        Daqui.

domingo, 7 de maio de 2017

TONS ROSA EM FUNDO DE VERMELHO ESCURO*

Tivessem os nossos planos sido bem sucedidos e hoje estaria a família toda a acordar debaixo do bom sol português. Infelizmente, um bicho microscópico qualquer nos foi fazendo tombar, um a um, nas camas e nos sofás, adiando a viagem. Aproveito o descanso forçado para dar uma vista de olhos pelos jornais lá da tugaria. Primeiro, a entrevista do Alberto Gonçalves ao i que andava a guardar há uns dias. Esclarecedora. Nela, por entre várias considerações plenas de bom senso - uma raridade! - acaba o Alberto Gonçalves a relatar que um dos problemas do seu patrão Baldaia - uma tosca figurinha que se especializou em lavar com cuspo as fraldas dos donos daquilo tudo - com as suas crónicas era que "havia quem só fosse à página do “DN” por minha causa [do Alberto Gonçalves] e ficasse confuso com o resto do jornal". Ora, a ser verdade que muitos acessos ao DN fossem por via dos artigos do Alberto Gonçalves, e imagino que o seja uma vez que eu próprio tal como muitos outros que conheço o faziam, o Sr. Baldaia apenas se equivoca a pensar que os leitores se quedavam confusos e perplexos. Eu, por exemplo, nunca fiquei confundido com nada por duas razões: primeiro, porque há muito que nem abria outra página no DN que não fosse um artigo do Alberto Gonçalves; segundo, porque, ao contrário do que o Sr. Baldaia parece pensar, há muitos portugueses que sabem perfeitamente distinguir entre, por um lado, jornalismo, opinião livre e bom trabalho e; por outro, favores, incompetência e videirice. O Sr. Baldaia, que parece não perceber a diferença, perante a hipotética confusão entre uma e outra, optou por desfazer-se da primeira. Por mim, que não leio o pasquim ou o Sr. Baldaia, parece-me excelente: e, a continuar assim o caminho, cada vez menos portugueses ficarão confundidos com o que quer que seja (como, por exemplo, o que raio fazia o Alberto Gonçalves numa zurrapa como o DN?) e, melhor ainda, menos perderão tempo a ler as sebosices do Sr. Baldaia. Depois, seguindo o périplo pela imprensa portuguesa, tenho que estugar o passo para fugir ao spin do sistema para branquear a enorme asneirada que o partido do regime, o PS, fez no Porto. Só no Observador conto três manchetes:  PS. Moreira é "partididofóbico" com "ego galático"Pizarro: "Não aceito que haja becos sem saída" e Costa: "O PS entra sempre em jogo para ganhar". Os três títulos ocupam página inteira o que, dado o destaque da coisa, permite imaginar que sobraria espaço para um título com a réplica. Infelizmente, não deu. Menos espaço, muito menos, tem o PSD, ainda assim com três noticiazinhas. Naturalmente, mesmo no dia após o discurso de meia hora de Passos Coelho no aniversário do PSD, cai-lhe apenas um titulozinho a dizer que ele, Passos, graças a Deus - acrescento eu -, "não muda uma linha". Os outros dois títulos, ainda de forma mais natural, vão direitinhos para a oposição (a Passos, naturalmente): o Rio de sempre e o Pedro Duarte a apelar à mudança. O que vale é que, dizem as más línguas, o Observador é de direita e está contra o governo. Já enjoado, aguento-me um pouco mais porque, vá lá, é dia de ler o Vasco Pulido Valente no único vislumbre que resta da lufada de ar fresco que o Observador até ainda há pouco tempo representava na imprensa portuguesa: a sua coluna de opinião. Termina o Vasco Pulido Valente a sua crónica a dizer que "as coisas – principalmente a imprensa e a televisão – começam a adquirir aquele tom uniforme e ruço, típico da tropa e do socialismo". Tem razão.

*Título adaptado de um dos romances de Joaquim Paço d'Arcos que integra a Crónica da Vida Lisboeta. Infelizmente, hoje, como no tempo dele, se faz Portugal dos Laurentinos da nossa vida. Vamos a ver e o Sr. Baldaia não acaba ainda como banqueiro. Não ficaria admirado.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O CURRAL

Longe vão os tempos em que eu vibrava e, de forma muito atenta e permanente, seguia, e participava em, com a paixão própria dos vinte anos, os acontecimentos políticos do quotidiano. Hoje em dia, a custo, leio alguns títulos de jornal, nunca vejo televisão não-ficional, e mesmo a outra muito raramente sem ser pela Internet, e fujo a sete pés do mais ínfimo vislumbre de qualquer noticiário - aquele sotaque de jornalista aprendido, forçado, repetido ad nauseum é insuportável. Oiço, para praticar o Francês, as notícias matinais pela rádio e, durante o resto do dia, através do Facebook ou do Reddit, com um lapso temporal de duas ou três horas, a não ser que seja durante o sono, logo fico a saber da histeria do momento. Por regra, são coisas que não me interessam, às quais não atribuo qualquer importância e que me aborrecem. Outras vezes, ainda bastantes, são coisas que me indignam profundamente mas que, normalmente, ou não indignam ninguém ou, quando indignam, desaparecem passado um dia. E, nos entretantos, assalta-me todo um manancial constante de sinais, de sintomas e, cada vez mais, de verdadeiras doenças, que vão afligindo o país e a nossa civilização, e sempre sem que algo se discuta com seriedade, como se estivesse eu fadado a assistir a um filme de terror, um filme onde estamos todos enfiados mas, paradoxalmente, um filme ao qual muito pouca gente assiste: preferem estar lá fora, no recreio. No final, sobra uma sensação de profunda impotência, de crescente irrelevância, como que um torpor hipotérmico que, levemente, vai prostrando, vergando e afundando todo um modo de viver, um modo de vida que chamo de meu, e nosso, e que me entristece profundamente pensar que não chegará aos meus filhos. Aos gritos, os porcos chafurdam, e triunfam, no curral em que se transformou o espaço público e mediático. Jornalismo? Uma anedota: um bando maioritariamente composto por assalariados dos fazedores de factos públicos. Comentário público? Insuportável: uma trupe de retransmissores acéfalos do interesse que vão servindo, excepção seja feita a dois ou três articulistas de valor. A governação? Asquerosa: uma vergonha que só engana quem quer ser enganado ou a quem lhe dá jeito. E, depois, sempre, a patrulha do politicamente correcto: armados em sabedores, arrogados de saberem a verdade e a imporem a estupidificação generalizada a quem se atreve a pensar de forma diferente. Nojo. Um curral? Certamente. E, com os meus quase quarenta, entre chafurdar na lama e sentar-me, à distância, a olhar o mundo tal como ele é, a opção é evidente. Depois, claro está, sobra-me a invasão de um pessimismo existencial: de tudo o que há de feio no mundo, o pior está dentro de nós: a cegueira que deriva na estupidez que, por sua vez, deriva na arrogância e, finalmente, na prepotência, tudo, claro está, alimentado pela ambição egótica de, na pequenez, reduzir a infinitude do mundo à nossa pequena e limitada condição. No final, se é para isto, então não se perde grande coisa. Ao menos isso.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

DA ACTUALIDADE

"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos que se conquista o internamento no manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação".

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 175, Assírio & Alvim, 2009, p. 194

terça-feira, 4 de abril de 2017

DO IDEAL

"... e, com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda desta caravana da Humanidade, que se vai demandando a Meca da perfectibilidade".

in: A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco, Ulisseia, 1986, p. 132

domingo, 26 de março de 2017

SECURITY

                                                                         Daqui.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O CAFÉ

Aqui há uns quantos anos atrás, mais de vinte já, ainda miúdos, à noite costumávamos parar sempre ali pelo Deck, no Estoril. O dinheiro, normalmente curto, durava mais investido em latas de cerveja vendidas na antiga Mobil e, de costas largas por sermos mais de vinte a almoçarmos todos os dias da semana ali no Deck, dávamo-nos ao luxo de as ir beber para o final da esplanada, por debaixo de uma árvore grande que ainda lá está, não lhe sei o tipo nem o nome, mas larga umas bolotas rijas e peganhentas. O Sr. Victor, o dono do Deck, tolerava a coisa. Afinal, vinte miúdos ali a almoçar cinco dias por semana dão jeito, a esplanada era grande e não estava cheia.
No entanto, houve um dia, algures durante a primeira metade dos anos 90, em que, talvez irritado com outra coisa qualquer, o Sr. Victor mandou o Quim dizer-nos para consumirmos alguma coisa. O Quim era o empregado mais novo do Deck: todo jovem gostava de mostrar que era quase tão novo como nós, dizia piadas enquanto dava cotoveladas e piscadelas para comprovar a cumplicidade etária. Naquela noite, estava encavacado. Pouco à vontade, lá nos disse que o Sr. Victor dizia que não podíamos estar ali a beber cervejas compradas noutro sítio, que pedíssemos alguma coisa. Éramos uns dez, talvez, já não me lembro. Em resposta, um do grupo, armado em esperto, cheio de preguiçosa insolência disse que, se era para pedir alguma coisa, então queria um café. Ninguém quis mais nada. O Quim lá foi em busca do tal café e a conversa retomou. Passam uns minutos, e nada de café. Por fim, lá vem o Quim de novo mas não traz o café na mão. Curiosos, aguardamos pela chegada dele, parecia uns centímetros mais baixo, vinha ainda mais encolhido. Quando chega alguém pergunta pelo café. E ele responde: "o Sr. Victor manda dizer para irem buscar o café onde foram buscar as cervejas". E vai-se embora, aliviado da missão. O grupo agita-se e indigna-se. "Então", diz um, "mas a gente vem para aqui todos os dias, somos sei lá quantos aqui a almoçar e agora é isto?". Concórdia geral. "Se é para ir buscar o café a outro lado então vamos todos", incita outro. Assentimento unânime.
Levantamo-nos, ofendidos, e, alçando as pernas sobre o varandim de ferro que dividia o Deck do seu concorrente vizinho, o Yate, trocamos de esplanada. Logo veio o Sr. Rodrigues, um galego que falava um português perfeito, perguntar-nos se queríamos alguma coisa, lá veio o café, pelo caminho verificou se as latas estavam vazias, as que estavam cheias ficavam, as vazias levantava-as. Encantamento geral, aquilo sim era serviço! Nos entretantos, mais alguns se juntavam ao grupo, e logo se repetia a estória, e logo se indignava o recém-chegado.
Do outro lado da cerca, o Sr. Victor, de braços cruzados, olhava lá de longe, encostado à goela da porta do Deck. Do Yate, de soslaio, o grupo vigiava e conspirava: exigia-se acção. Ora, a medida proposta era a evidente: os almoços passariam a ser tomados no Yate. Alguém relembrou o principal problema logístico: o bitoque do Yate custava 800 escudos, mais 100 que o do Deck. No entanto, retorquiu outro, até acabava por valer a pena porque o bitoque do Yate era de vaca, em vez do bitoque de porco do Deck, tinha mais batatas fritas e o molho era melhor. E foi assim que nos mudámos de armas e bagagens para o Yate, aliás, não tenho ideia de ter voltado a almoçar no Deck, e já lá vão mais de vinte anos. À Quarta-Feira o Yate fechava e nem aí dávamos a mão à palmatória, aproveitando a folga para ir comer uma pizza ao Don Formaggio.
Pelo caminho, foram ficando alguns momentos dignos de maior registo, como o dia em que os deuses nos deram razão na contenda com o Sr. Victor e choveu no Deck e no Yate não. Foi a única vez que vi o fim da chuva, e foi mesmo ali naquela divisória de ferro pintada de azul. Noutra ocasião, motivo de orgulho meu, bati o record de permanência na esplanada do Yate, mesmo que continuássemos a apelidar a actividade por "estar no Deck", tendo chegado após o jantar e saindo apenas depois do almoço do dia seguinte. E nunca estive sozinho, apenas que variava a companhia.
Os anos passaram, a coisa ficou e a estória, por alguma razão, passou a merecer o estatuto de estória para contar. Creio ter sido algures por 98 que, acompanhando uma namorada, fui a um jantar de aniversário de uma amiga dela onde eu não conhecia ninguém. Fiquei ao lado de um tipo simpático que, tal como eu, "era de Cascais". "Ah é?", interessei-me eu, "então e de onde", perguntei. Era de S. João. E eu? Eu era do Estoril, e depois lá surgiu a referência aos Salesianos do Estoril, "ah, andavas nos Salesianos?", pergunta ele, "andava, pois", respondo eu, e logo ele afirma que se eu tinha andado nos Salesianos então isso queria dizer que costumava ir ao Deck. Na mouche, pensei eu, e logo lhe disse que sim, que era isso mesmo, horas e horas passadas no Deck, apenas para logo corrigir e dizer "quer dizer, Deck não, Yate". O interlocutor, creio que se chama Miguel, ficou curioso: "por que não o Deck?". E, claro, satisfeito por haver tema de conversa, lá lhe contei a estória do café, não me poupando a nenhum pormenor, e terminando, ufano, com a moral da estória: "sei lá quanto é que o Sr. Victor perdeu em almoços com o ter-nos mandado ir buscar o café onde tínhamos ido buscar as cervejas". Como se a cara dele denotasse algum trejeito ou expressão que não decifrei bem perguntei-lhe se ele conhecia bem o Deck. Ao que ele me responde, "sim, sim, conheço muito bem. É que, sabes, o Sr. Victor é o meu pai".
Nesse dia, quem aprendeu uma lição fui eu: com desconhecidos, é melhor guardar as estórias para mim. No outro dia, aqui há uns meses, passei pela primeira vez em alguns anos pela frente da esplanada do Yate e do Deck. Foi com muita surpresa que vi que o Yate fechou e é agora o jardim de cerveja Deck-Beer. A cerca de ferro já não está lá e é o Miguel, um tipo simpático e que, com o passar os anos se vê perfeitamente que é a cara do pai, que montou o negócio e produz a cerveja artesanal. Anteontem, de passagem pelo Estoril, fui lá ter com uns amigos. Quem nos serviu as cervejas foi o Quim, que lá continua com a mesma farda e com o mesmo ar jovial. Mas, o que me sobressaiu mesmo foram as rugas que agora lhe decoram a cara, afinal, vinte anos já é algum tempo, e tenho ideia de que já não o via há mais cinco anos. Passados uns minutos depois de ter-me sentado, lá apareceu o meu insolente amigo que naquela noite, com o seu pedido atrevido, acabou por espoletar esta estória toda. Sentou-se e, de casaco de pele, todo bem-posto na vida, cruzou a perna, disse olá ao Quim e pediu um café.

LE VENT NOUS PORTERA



Noir Désir, 'Le Vent nous Portera', Des Visages des Figures, 2001

sábado, 4 de março de 2017

O PADRECO FRANCISCO

Em 1927, Freud defendia a importância da religião que, mesmo tida como uma ilusão, garantia uma forma de controlar os instintos auto-destrutivos da própria humanidade. Para ele, para podermos imaginar uma sociedade europeia sem religião seria preciso uma doutrina alternativa que, por um lado, mantivesse as características psicológicas religiosas do Cristianismo e que, por outro, garantisse o carácter sacro, formal e rígido da religião - o dogma, portanto. Passados quase cem anos não deixa de ser interessante ver como a hipótese freudiana se confirmou: primeiro, é verdade que a Europa deixou, grosso modo, de ser religiosa: a matriz cristã está lá mas a crença em Deus, no código moral da igreja ou na importância dos seus agentes é residual; segundo, há, de facto, uma doutrina alternativa que substituiu a religião mantendo todas as suas características fundamentais: a Democracia. Com as suas instituições altamente formais, o seu carácter salvífico e a crença que nela, na Democracia, reside a salvação da sociedade, assim a Europa encontrou o equivalente terreno e material para a transcendência religiosa: onde a salvação antes seria no outro mundo, a salvação agora garante-se no aqui e agora - e a Democracia é a forma de o garantir. Assim, em nome dessa crença, importa-se o dogma religioso para o plano da teoria política: as coisas ou são boas, porque democráticas, ou são anti-democráticas, e por isso más; o Bem e o Mal definem-se pela sua equivalência com o padrão democrático. E quem decide o que é democrático, ou bom, e o que não é? Os intérpretes da verdade religiosa, perdão, democrática, naturalmente. E a essência de Democracia - a discussão popular, o compromisso entre visões diferentes, a tolerância com os pontos de vista adversos, etc. - é liminarmente substituída pela imposição do ponto de vista desses arautos do democraticamente correcto através dos meios de propaganda oficial: os grandes grupos mediáticos que se alimentam, e vivem, do status quo substituindo na antecâmara digital as antigas igrejas. A Democracia, dizem eles, os bispos da nova doutrina, é a sua causa, é a sua missão. Mas logo a pervertem dando palco a quem lhes paga, ou interessa, a quem os chefes mandam falar. E depois sobram os padres e padrecos. A benzerem os fiéis (os militantes), a jurarem sobre as bíblias (os programas eleitorais) e dos seus palanques, agora púlpitos, anunciam sempre a boa-nova - a salvação! - que apesar de tardar a chegar se encontra sempre ao virar da esquina, desde que cumpram os devotos o seu dever de os eleger. Melhor exemplo de padreco não há que o Francisco Louçã: sempre compungido, de profecia em profecia, curvado e com o sermão na ponta da língua, o arauto moralista dos novos tempos caminha pela comunicação social como Jesus sobre a água: não interessa que seja contra a liberdade individual (é comunista), não interessa que seja contra a democracia (é comunista) ou contra a propriedade privada (é comunista). Não. Aquilo que interessa é que ele sabe o que é democrático, e por isso bom, e aquilo que é anti-democrático, e por isso mau. Que o que é mau coincida com o que os seus adversários fazem e o que é bom com o que os seus correligionários praticam, isso já não interessa nada. E agora, no seu auge, o Banco de Portugal. Nada mais apropriado para um Totskista inimigo da propriedade privada (o principal alicerce de uma verdadeira democracia pois os consumidores votam com a carteira sobre o que querem ver produzido) e adversário da economia de mercado no conselho consultivo de um banco central. Mas nada mais coerente! Porque, tal como muitos outros, também Louçã, apesar da sua cátedra, se deixa deslumbrar pelas lascivas curvas do grande capital - tal como os seus camaradas bloquistas que aturam as maiores safadezas do PS apenas porque lhes dá jeito. E é assim que, tal como muitos padrecos antes dele, Louçã, o maior moralista da nossa praça, vai deliciar-se nos cadeirões de couro do poder. No final, tal como Lampedusa profetizou, tudo muda para que tudo fique na mesma: afinal não é Louçã nem mais nem menos do que um Padre Amaro da política portuguesa. Deus o tenha.

quarta-feira, 1 de março de 2017

DRILL

                                                                              Daqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ABSTRACTIONISM

"It is only by reducing people of flesh and blood to a mere idea that one can ignore the will of the majority in the name of democracy and institute a dictatorship in the name of freedom".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132

SOL DE INVERNO (V)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CHOOSING VALUES

"Some inequalities (say, those based on birth) are condemned as arbitrary and irrational, others (say, those based on efficiency) are not, which seems to indicate that values other than equality for its own sake affect the ideals even of passionate egalitarians. A part of what we mean by rationality is the art of applying, and combining, reconciling, choosing among general principles in a manner for which complete theoretical explanation (or justification) can never, in principle, be given".

Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83

NEXT LEVEL

                                                                       Daqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O TEMPO NOVO

Durante as últimas décadas, as democracias europeias têm sido governadas por dirigentes políticos que, ao invés de se preocuparem a governar em nome do povo, se têm ocupado a convencer o povo sobre o que é que este deve querer, ou não, para si próprio. Através de todos os meios, principalmente através de um meio mediático medíocre e corrupto, por todo o continente se tem propagandeado que o que está certo é advogar-se uma Europa multi-cultural, multi-religiosa e aberta a todas as civilizações exógenas, mesmo as mais hostis e violentas, tidas todas como iguais. Quem não concordasse com o axioma oficial logo era enlameado na praça pública como racista, xenófobo ou proto-assassino. A Europa multi-cultural, diziam-nos, é terra de paz, prosperidade e fraternidade - para todos no mundo. Esqueceram-se, no entanto, daqueles que já cá estavam.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

POPULISMO

O populismo de Trump é directamente proporcional ao populismo dos que histrionicamente o criticam. Mas não só: em Portugal, Sócrates foi populista. Costa é populista. Marcelo é populista. Já Passos, que fala do mundo real, nada tem de populista. Logo, é impopular. Porque é a sociedade destes tempos que vivemos que é ela própria populista: gritam todos muito alto pelos seus direitos sem ter a mínima preocupação de os alicerçar na realidade, ao mesmo tempo que esperneiam cada vez que a coisa não corre como cada um quer. Parecenças com Trump não são meras coincidências. Os jornais são populistas. As TV's são populistas. E por isso gostam muito do BE, que é populista. A Le Pen também é populista e, como tal, porque bons vendedores de banha da cobra não se preocupam com esquerda e direita, prometem ambos, a Le Pen e o BE, exactamente a mesma coisa: o sol na eira e a chuva no nabal. Ou seja, mundos e fundos que não há como pagar. E o discurso da mentira, da propaganda, da artimanha, só cola porque foram anos e anos de governações medíocres, arrogantes, moralmente superiores, tudo cheio de terceiras vias infalíveis, de fins da história. E isso também foi populismo, porque não era, nem nunca poderia ter sido, real. E, no meio de tanta merda, depois de tanto engano, o povo diz que se farta. E entre os populistas de um lado, os populistas do outro, ou os do meio, venha nem que seja o diabo, desde que seja diferente. Foi assim com Trump. E tudo indica será assim com Le Pen.

POLITICAL ENTITY

"Every religious, moral, economic, ethical, or other antithesis transforms into a political one if it is sufficiently strong to group human beings effectively according to friend and enemy. The political does not reside in the battle itself, which possesses its own technical, psychological, and military laws, but in the mode of behaviour which is determined by this possibility, by clearly evaluating the concrete situation and thereby being able to distinguish correctly the real friend and the real enemy. A religious community which wages wars against members of other religious communities or engages in other wars is already more than a religious community; it is a political entity".

Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37

THE LARGEST NUMBER


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FREAKSHOW

Mais um episódio do podcast sensação da Direita.

GIBBERISH

                                                                             Daqui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A PROPÓSITO DAS BICICLETAS

Na cidade onde vivo, Bruxelas, existe uma enorme obsessão por bicicletas. Por todo o lado existem ciclovias e às bicicletas são conferidos direitos especiais: circulam na estrada, circulam nas passadeiras, passam sinais encarnados, andam em ruas de trânsito proibido e podem circular, tanto no sentido do trânsito automóvel, como em sentido oposto ao permitido aos carros, mesmo quando as ruas são de sentido único. Ao mesmo tempo, incentiva-se fortemente a utilização da bicicleta, inclusive por pais com filhos bebés, quer em cadeiras especiais, quer em reboques ou acrescentes para o efeito, quer seguindo as crianças nas suas próprias bicicletas, pelas ruas, atrás dos pais.
A razão por detrás de tudo isto é que a bicicleta é tida como um meio de transporte saudável, não poluente e sustentável. E é. No entanto, também é verdade que numa cidade de trânsito caótico, como Bruxelas, cheia de automóveis, e onde se conduz por regra geral mal, torna-se perigoso andar de bicicleta: 28% dos mortos na estrada na Bélgica em 2015 foram ciclistas; ou, a título de exemplo, no Reino Unido um ciclista tem 17 vezes mais probabilidades de morrer na estrada do que um automobilista.
No entanto, estes factos não parecem ter impacto algum, quer nos cuidados a ter por parte das pessoas, quer em medidas eventuais a tomar por parte das autoridades. Não seria melhor obrigar os ciclistas a um comportamento igualmente responsável, tal como se obriga aos automobilistas, por forma a garantir a sua segurança, e a dos seus filhos quando é o caso, em vez de, ao privilegiar por absoluto a bicicleta face aos automóveis, ter como efeito secundário uma menor segurança rodoviária? E o que dizer dos pais que, apesar dos facínoras diversos que poluem as estradas belgas, andam livremente pelas ruas com os seus filhos como se de um calmo e seguro passeio pelo parque fosse? Ao valor que atribuímos ao facto de a bicicleta ser um meio de transporte mais sustentável não deveríamos contrapor o valor ainda mais importante da segurança rodoviária, especialmente no caso das crianças? E isso não obrigaria a perceber que a defesa por absoluto da bicicleta e a demonização do automóvel não contribui para a segurança rodoviária, incluindo em especial a dos próprios ciclistas?
Muito pelo contrário. Como é apanágio do tempo em que vivemos, vá alguém criticar os exageros - atente-se que falo apenas dos exageros e não da causa em si - absolutizantes dos cavaleiros da verdade, neste caso a "verdade" do axioma "os automóveis estão a destruir o planeta Terra", e será apelidado de "retrógrado", "burro", "egoísta" ou, talvez, "assassino ecológico". Vá alguém reclamar do perigo, em particular para os próprios, que representa a condução absolutamente irresponsável de bicicletas na cidade - como abunda por aqui - e, naturalmente, em caso de acidente, a culpa será do automobilista porque, lá está, é um automobilista. Nos entretantos, fecham-se as ruas ao trânsito, incentiva-se a fundo a "mobilidade sustentável" e, nem por um momento, se pára para pensar que, por melhor que seja para o ambiente uma bicicleta, e é verdade que o é, não deixa de ser um valor que deverá ser negociado, complementado e mitigado com outros valores, nomeadamente o da segurança, que são igualmente fundamentais. A grande verdade que a Esquerda, e boa parte da Direita também, se recusa a aceitar é que os valores nunca são absolutos: eles conflictam, colidem entre si. E cabe ao julgamento humano escolher sobre a forma como quer resolver, a cada passo, tais conflitos. É um inevitabilidade da condição humana que qualquer um pode verificar por si próprio desde que se muna de algum bom senso.
Aliás, a essência da Democracia encontra-se precisamente na capacidade de negociar conflitos de valores e ideias diferentes, que interessam a diferentes pessoas de forma diferente, e que podem ter diferentes resoluções. No entanto, ao assumirmos que a verdade é una, que os valores são absolutos e que aqueles que não concordam com as premissas da moda são "bárbaros", "retrógrados" ou "pouco evoluídos" e que, por serem maus, devem ver as suas ideias desconsideradas, então não estamos apenas a tomar más decisões: estamos a matar a Democracia. Precisamente aquela palavra em nome da qual os paladinos da verdade única tanto gostam de afirmar agir.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

DAMNATION

                                                                              Daqui.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A WILD DANCE

"[According to Hamman] Nature is no ordered whole: so-called sensible men are blinkered beings who walk with a firm tread because they are blind to the true and profoundly disturbing character of reality, sheltered from it by their man-made contraptions; if they glimpse it as it is - a wild dance - they would go out of their minds. How dare these pathetic pedants impose on the vast world of continuous, fertile, unpredictable, divine creation their own narrow, desiccated categories?"

Isaiah Berlin, 'Hume and German Anti-Rationalism', in: Isaiah Berlin, Against the Current: Essays in History of Ideas, Oxford University Press, 1981, p. 169

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A ASCENÇÃO E A QUEDA (II)

O sucesso da civilização ocidental representa, ou deveria representar, naturalmente, um orgulho para aqueles que dela fazem parte; no entanto, tal orgulho obriga a uma responsabilidade acrescida de tentar compreender as razões do sucesso. O que permitiu ao Ocidente chegar onde nenhuma outra civilização tinha chegado antes? Em primeiro lugar, o conhecimento da história que permitiu aprender com os erros dos outros. Os humanos, como todos os  seres vivos, aprendem por tentativa e erro: apenas vendo onde as coisas correram mal podemos emendar a mão, corrigirmos, e aprender a fazer melhor. A civilização ocidental não nasce por acaso, fruto de teorizações abstractas levadas a cabo por alguns homens de génio: a civilização ocidental nasce em cima dos escombros das civilizações passadas; foi fazendo do seu conhecimento conhecimento nosso, foi apropriando-nos do que vimos de bom e rejeitando o que vimos como mau que nos construímos gradual e lentamente a nós próprios. Adaptando a frase famosa de Kant, foi nos ombros de grandes civilizações passadas que construímos a nossa. O acesso ao conhecimento e, acima de tudo, a sua disseminação foram absolutamente fundamentais na construção da nossa civilização: apenas numa comunidade em que o conhecimento (e através dele a capacidade de correctamente interpretar a realidade das coisas) foi oferecido gradualmente a cada vez mais pessoas se pôde erigir uma comunidade alicerçada na força de todos, e não apenas no rasgo e na força do líder. É essa característica principal que permite que, ao contrário das outras, a civilização ocidental tenha evoluído para uma cultura de participação ao invés de uma cultura de subordinação: e apenas uma cultura onde todos são chamados a participar poderia permitir prosperidade económica junto com democracia política, a base da liberdade tal como a conhecemos. É o grande legado dos nossos antepassados uma sociedade norteada pela liberdade de, e para, pensar, agir e trocar; onde impera a defesa dos indivíduos alicerçada nos seus direitos e na sua esfera única, e inviolável, de acção individual (protegida pelo direito à propriedade privada).

Em segundo lugar, a especificidade que o Cristianismo ofereceu ao Ocidente, ou seja: os seus valores. A tolerância, a solidariedade, o necessário balanço da liberdade com a igualdade, ao contrário do que a muitos possa parecer a uma primeira vista, incorpora na perfeição os valores e ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a seu tempo, souberam também os nossos antepassados separar o temporal do secular. Essa separação soube dar o espaço para os indivíduos tratarem dos assuntos terrenos como melhor lhes aprouvesse. Mas o desígnio divino que os orientava continuava presente dando, por um lado, sentido ao mundo e, por outro, garantindo valor a esse mesmo mundo material que não poderia ser desprezado porque, tendo sido o local de encarnação de Deus feito homem (e matéria), ganhava uma dignidade inestimável. Deste modo, fornecidos de um sentido para a vida, motivados para conquistar e melhorar o mundo (a obra de Deus), organizados em função de valores funcionais, justos e reconhecidos como tal, souberam os nossos antepassados construir uma civilização próspera, poderosa e, a seu tempo, que soube oferecer a maior dádiva que uma comunidade pode garantir aos seus membros: paz e segurança.


Uma vez aí chegados, e para impedir a decadência, sobra proteger o que herdámos. E para isso impôs-se uma luta centenária entre aqueles que tudo queriam mudar em nome de valores ou ideias que entendiam ser melhores e os outros, aqueles que se apoiavam no valor da tradição como forma de proteger aquilo que já havia sido conquistado. As instituições, sólidas, respeitadas, transmitiram por gerações as leis e os conhecimentos do passado; as famílias fizeram o mesmo, mas em especial com os valores. Mas a cultura de participação e de crescente afirmação e florescimento da liberdade individual permitiu incorporar a mudança num processo gradativo de melhoramento generalizado das condições de vida das pessoas. As instituições visaram sempre manter; quem obrigou à mudança foram os indivíduos, que armados da crescente liberdade para o poder fazer; souberam conquistar, por si próprios, um futuro melhor para os seus filhos. E aqui residia a força civilizacional: numa multidão que pelo trabalho e dedicação escalava a montanha social rumo a uma melhor situação de vida.

Mas, acima de tudo, também, ocuparam-se as pessoas de aceitar o sentido para a vida e para o mundo que o transcendente comum e partilhado lhes oferecia. O mundo, e as suas dificuldades, era aceite tal como ele era, a justiça suprema encontrava-se apenas no além e a melhor forma para lidar com as agruras da vida era aceitá-las como naturais e imutáveis. Com a serenidade que ter o futuro para além da morte definido garante, com a força que a união espiritual dos povos consagra e com uma postura realista perante o mundo, a civilização prosperou até atingir o grau de riqueza do qual, salvo excepções, ainda beneficiamos hoje.

(Continua)

ON TYRANNY

"On the other hand, when we were brought face to face with tyranny - with a kind of tyranny taht surpassed the boldest imagination of the most powerful thinkers of the past - our political science failed to recognize it".

Leo Strauss, On Tyranny, in: On Tyranny, University Chicago Press, 2013, p.23

SOL DE INVERNO (IV)


SOL DE INVERNO (III)


SOL DE INVERNO (II)


SOL DE INVERNO


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MARKETINGMICON

                                                                                            Daqui.

A ASCENÇÃO E A QUEDA (I)

A civilização ocidental representa o momento onde a espécie humana conheceu a melhor qualidade de vida da sua história: nunca tantos viveram tanto e tão bem como hoje no Ocidente. Este triunfo civilizacional não foi alcançado do nada. Pelo contrário: foi fruto de todo um processo árduo de evolução da barbárie para um mundo onde se pode viver em paz, segurança e liberdade. Hoje, por regra, um ocidental, nem depende da sorte para sobreviver num mundo que não controla, nem vive num clima de conflito permanente onde a sua vida esteja de forma constante em risco. Pelo contrário: o homem ocidental pode viver a sua vida explorando os seus desejos, dando-se ao luxo de manifestar livremente as suas vontades e moldar a sua vida da forma como muito bem entende. Aliás, os grandes debates do Século XXI no Ocidente centram-se precisamente em todos os direitos, garantias e liberdades que se devem dar como adquiridas por parte de todos os cidadãos ocidentais por igual. E de tal forma triunfante a civilização ocidental é que muitos no seu seio advogam que esses direitos, liberdades e garantias devem ser oferecidos ao mundo inteiro, a todos por igual e sem excepção. Tal desiderato é absolutamente inédito na história universal.

Diz o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e, naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir. Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade, uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores partilhados.

Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.

(Continua