A civilização ocidental representa o momento onde a espécie humana
conheceu a melhor qualidade de vida da sua história: nunca tantos
viveram tanto e tão bem como hoje no Ocidente. Este triunfo
civilizacional não foi alcançado do nada. Pelo contrário: foi fruto de
todo um processo árduo de evolução da barbárie para um mundo onde se
pode viver em paz, segurança e liberdade. Hoje, por regra, um ocidental,
nem depende da sorte para sobreviver num mundo que não controla, nem
vive num clima de conflito permanente onde a sua vida esteja de forma
constante em risco. Pelo contrário: o homem ocidental pode viver a sua
vida explorando os seus desejos, dando-se ao luxo de manifestar
livremente as suas vontades e moldar a sua vida da forma como muito bem
entende. Aliás, os grandes debates do Século XXI no Ocidente centram-se
precisamente em todos os direitos, garantias e liberdades que se devem
dar como adquiridas por parte de todos os cidadãos ocidentais por igual.
E de tal forma triunfante a civilização ocidental é que muitos no seu
seio advogam que esses direitos, liberdades e garantias devem ser
oferecidos ao mundo inteiro, a todos por igual e sem excepção. Tal
desiderato é absolutamente inédito na história universal.
Diz
o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser
verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será
estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal
fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada
um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas
para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou
desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor
cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines
dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e,
naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência
estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder
no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores
civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a
ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu
apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a
melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os
contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá
atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir.
Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma
civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros
dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se
faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a
arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma
comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se
quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se
de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro
da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é
comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma
civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade,
uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que
construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos
exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo
aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores
partilhados.
Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um
viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por
esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser
diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de
blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando
esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar
plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de
forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os
últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do
compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o
todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do
que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre
si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio
se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os
valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de
os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.
(Continua)
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