sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

BREVES NOTAS SOBRE A LIBERDADE: O Neo-Esclavagismo Racionalista

Se, por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma crença inabalável nos méritos do Homem, por outro lado, esse imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões intelectuais da nossa História, é bem capaz de encerrar dentro de si próprio as sementes da nossa própria destruição. Que ilusão é essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou poderemos superar, a violência da nossa condição humana - aquela que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de setenta anos - e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre a progredir, sempre a melhorar, rumo a um ideal de progresso e florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na sua plenitude, se encontra no topo dessa mesma escada. De acordo com essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e, acima de tudo, mais evoluídos do que aqueles outros humanos que nos antecederam, seres perdidos na História e na barbárie hoje definitivamente ultrapassada. O rumo, pensa-se - ou talvez fosse melhor dizer: intui-se -, é por definição sorridente: se a evolução nos trouxe até aqui, e o aqui é infinitamente melhor do que o que já fomos no passado, então o futuro só pode trazer mais evolução, mais progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e melhorias. Sonham-se com os avanços tecnológicos do amanhã e imaginam-se os mundos quase perfeitos que os nosso filhos e, quiçá, fruto dos descobrimentos medicinais, nós também ainda teremos o prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.
Esta ilusão progressista, uma mera promessa, serve de isco para uma ideia anterior que a sustenta: a noção que, de algum modo, há um destino, um telos, uma finalidade, para o universo e, consequentemente, para os homens também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, da existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse porvir era oferecido pela religião, e era conhecido tanto pela fé como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a razão. Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal como na nossa capacidade de controlar o mundo, deriva de olharmos para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a nossa racionalidade. E, cheios de convicção nos méritos da nossa razão, assumimos que essa razão tem um carácter divino: aquilo que ela estabelece, tal como a antiga palavra de Deus, é aquilo que é verdade. Consequentemente, algo que é racional, por definição, é tido como algo que é verdadeiro (mesmo no nosso linguarejar, "ter razão" implica afirmar algo que é verdade e que deve ser aceite como tal por todos); e como uma coisa que é verdadeira não pode ser falsa, também uma coisa que é racional não o pode ser. E assim chegamos à noção de que dois postulados racionalmente válidos não podem ser contraditórios pois, como uma verdade não pode entrar em conflito com outra verdade, se dois postulados são igualmente racionais, e por isso verdadeiros, então terão que ser compatíveis entre si. Esta compatibilidade, ou melhor será dizer: a busca por essa compatibilidade, norteia muito do nosso tempo: para cada conflito, para cada percalço, para cada questão, recorrendo à nossa racionalidade, a custo, lá encontraremos a solução. E de solução em solução evoluímos, e dessa forma, porque convencidos do ritmo seguro e infalível da nossa razão, antevemos cheios de certeza que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima de tudo, mais verdadeiro. É dessa verdade que achamos ir descobrindo que vem o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade racional que imaginamos dentro de nós que vem o carácter proto-divino que nos arrogamos de possuir. Assim, o absoluto, eterno e divino, para o homem contemporâneo herdeiro de Kant, é o racional que temos dentro de nós. Nietzsche exclamou pelo morte de Deus mas, na verdade, na boa tradição Tomista, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença na harmonia racional do universo.
No entanto, se é verdade que a ideia de não contradição entre duas hipóteses igualmente racionais é uma noção válida no campo das ciências abstractas e matemáticas, também não será menos verdade que no campo das vidas dos homens, das suas morais e dos seus dilemas, representa uma noção que não poderia ser mais errada. E a vida dos homens, ao contrário dos robôs, não se faz apenas de matemática. No mundo moral, o valores colidem. No mundo dos homens, postulados igualmente válidos podem ser incompatíveis ou concorrentes. É tão racionalmente válido eu desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre - mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra; eu posso querer ser corajoso - mas a prudência não deixa de ser fundamental a uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a justiça a presidir à organização social da minha comunidade - mas a solidariedade e a clemência também são valores importantes numa comunidade. No final, implica perceber-se que se os valores colidem entre si mais do que descobrir qual a receita certa, ou verdadeira, para o dilema social, a verdadeira questão é escolher qual a combinação de valores que desejamos para as nossas vidas.
E a diferença é abissal.
Isto porque acreditar-se numa solução pressupõe sempre que as coisas são de alguma forma predeterminadas: uma solução que é a certa, e por isso verdadeira, será uma solução que terá que estar de acordo com um padrão universal de verdade, padrão esse que nos antecede a nós humanos que apenas nos pretendemos aproximar dele. A verdade é eterna, imutável e divina, a verdade é verdade independentemente de nós. Mas, mais do que isso, a verdade é apenas uma. E deste modo chegamos à implicação determinista, a grande consequência não falada dos modelos racionalistas. Sem o arbítrio de Deus, onde apenas a razão é verdadeira e universal, onde o que é verdadeiro e universal antecede a consciência humana, e onde a solução que pretendemos para o dilema moral é racional, então a solução que se persegue será verdadeira, universal e antecede a consciência humana.. Assim sendo, a solução já existirá antes de ser conhecida pelos humanos. Nada se cria, apenas se descobre. Nada se decide por nós próprios, apenas se revela o que devemos fazer. Em suma: não somos livres para escolher, apenas para perceber o que é suposto que nós façamos. É a morte da liberdade.
A alternativa é a do livre-arbítrio: assumir que escolher implica criar. Escolher verdadeiramente sem soluções pré-definidas como boas ou más implica assumir-se que o mundo é nosso para criar por entre as opções que temos pela frente - e não limitados pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados. E com essa profunda liberdade vem a correspondente responsabilidade. Já o determinismo racionalista retira o jugo da responsabilidade do pescoço humano e coloca-o num pseudo-critério racional que, sendo universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana para passar a ser cósmica, universal, racional. Determinismo implica fatalismo, destino e fado. Já a liberdade implica criar, fazer e sonhar.
O paradoxo é que o determinismo, ao vender a ilusão de solução universal, sendo esta falsa, acaba por aprisionar-nos a um rumo que, não sendo necessariamente o melhor, condiciona-nos aos caprichos daqueles que nos garantem ter descoberto as soluções para os dilemas dos homens. São os novos messias: os heróis racionalistas que definem o que é racional, ou bom, o que se deve fazer, ou não, sempre cheios de certezas, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que os últimos estudos garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas ou ideias. Já o caminho da verdadeira liberdade, a de pensar, escolher e criar, essa apenas oferece a vertigem do abismo: um universo sem sentido oferecido a priori e que, por isso mesmo, assusta. Muito. Mas também abre a vida à infinitude de destinos que as nossas escolhas podem criar. 
Assim, concluindo, por um lado, temos o falso conforto temporário (porque as "soluções" esbarram sempre na próxima esquina) que a ilusão de uma certeza sobre o sentido para a vida nos oferece - e a sensação de controlo que dela deriva, tanto a individual como a comunitária; por outro lado, temos a vertigem, e a responsabilidade, de termos os nossos próprios destinos, quaisquer que sejam, nas nossas mãos. Do primeiro, deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo; do segundo, a espontaneidade, a autonomia, a criatividade, a diversidade. Entre um e outro, como sempre, se faz a diferença - enorme! - entre escravos e homens-livres. Mesmo que a esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de razão.

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