quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ABSTRACTIONISM

"It is only by reducing people of flesh and blood to a mere idea that one can ignore the will of the majority in the name of democracy and institute a dictatorship in the name of freedom".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132

SOL DE INVERNO (V)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CHOOSING VALUES

"Some inequalities (say, those based on birth) are condemned as arbitrary and irrational, others (say, those based on efficiency) are not, which seems to indicate that values other than equality for its own sake affect the ideals even of passionate egalitarians. A part of what we mean by rationality is the art of applying, and combining, reconciling, choosing among general principles in a manner for which complete theoretical explanation (or justification) can never, in principle, be given".

Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83

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sábado, 11 de fevereiro de 2017

O TEMPO NOVO

Durante as últimas décadas, as democracias europeias têm sido governadas por dirigentes políticos que, ao invés de se preocuparem a governar em nome do povo, se têm ocupado a convencer o povo sobre o que é que este deve querer, ou não, para si próprio. Através de todos os meios, principalmente através de um meio mediático medíocre e corrupto, por todo o continente se tem propagandeado que o que está certo é advogar-se uma Europa multi-cultural, multi-religiosa e aberta a todas as civilizações exógenas, mesmo as mais hostis e violentas, tidas todas como iguais. Quem não concordasse com o axioma oficial logo era enlameado na praça pública como racista, xenófobo ou proto-assassino. A Europa multi-cultural, diziam-nos, é terra de paz, prosperidade e fraternidade - para todos no mundo. Esqueceram-se, no entanto, daqueles que já cá estavam.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

POPULISMO

O populismo de Trump é directamente proporcional ao populismo dos que histrionicamente o criticam. Mas não só: em Portugal, Sócrates foi populista. Costa é populista. Marcelo é populista. Já Passos, que fala do mundo real, nada tem de populista. Logo, é impopular. Porque é a sociedade destes tempos que vivemos que é ela própria populista: gritam todos muito alto pelos seus direitos sem ter a mínima preocupação de os alicerçar na realidade, ao mesmo tempo que esperneiam cada vez que a coisa não corre como cada um quer. Parecenças com Trump não são meras coincidências. Os jornais são populistas. As TV's são populistas. E por isso gostam muito do BE, que é populista. A Le Pen também é populista e, como tal, porque bons vendedores de banha da cobra não se preocupam com esquerda e direita, prometem ambos, a Le Pen e o BE, exactamente a mesma coisa: o sol na eira e a chuva no nabal. Ou seja, mundos e fundos que não há como pagar. E o discurso da mentira, da propaganda, da artimanha, só cola porque foram anos e anos de governações medíocres, arrogantes, moralmente superiores, tudo cheio de terceiras vias infalíveis, de fins da história. E isso também foi populismo, porque não era, nem nunca poderia ter sido, real. E, no meio de tanta merda, depois de tanto engano, o povo diz que se farta. E entre os populistas de um lado, os populistas do outro, ou os do meio, venha nem que seja o diabo, desde que seja diferente. Foi assim com Trump. E tudo indica será assim com Le Pen.

POLITICAL ENTITY

"Every religious, moral, economic, ethical, or other antithesis transforms into a political one if it is sufficiently strong to group human beings effectively according to friend and enemy. The political does not reside in the battle itself, which possesses its own technical, psychological, and military laws, but in the mode of behaviour which is determined by this possibility, by clearly evaluating the concrete situation and thereby being able to distinguish correctly the real friend and the real enemy. A religious community which wages wars against members of other religious communities or engages in other wars is already more than a religious community; it is a political entity".

Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37

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