domingo, 26 de março de 2017

SECURITY

                                                                         Daqui.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O CAFÉ

Aqui há uns quantos anos atrás, mais de vinte já, ainda miúdos, à noite costumávamos parar sempre ali pelo Deck, no Estoril. O dinheiro, normalmente curto, durava mais investido em latas de cerveja vendidas na antiga Mobil e, de costas largas por sermos mais de vinte a almoçarmos todos os dias da semana ali no Deck, dávamo-nos ao luxo de as ir beber para o final da esplanada, por debaixo de uma árvore grande que ainda lá está, não lhe sei o tipo nem o nome, mas larga umas bolotas rijas e peganhentas. O Sr. Victor, o dono do Deck, tolerava a coisa. Afinal, vinte miúdos ali a almoçar cinco dias por semana dão jeito, a esplanada era grande e não estava cheia.
No entanto, houve um dia, algures durante a primeira metade dos anos 90, em que, talvez irritado com outra coisa qualquer, o Sr. Victor mandou o Quim dizer-nos para consumirmos alguma coisa. O Quim era o empregado mais novo do Deck: todo jovem gostava de mostrar que era quase tão novo como nós, dizia piadas enquanto dava cotoveladas e piscadelas para comprovar a cumplicidade etária. Naquela noite, estava encavacado. Pouco à vontade, lá nos disse que o Sr. Victor dizia que não podíamos estar ali a beber cervejas compradas noutro sítio, que pedíssemos alguma coisa. Éramos uns dez, talvez, já não me lembro. Em resposta, um do grupo, armado em esperto, cheio de preguiçosa insolência disse que, se era para pedir alguma coisa, então queria um café. Ninguém quis mais nada. O Quim lá foi em busca do tal café e a conversa retomou. Passam uns minutos, e nada de café. Por fim, lá vem o Quim de novo mas não traz o café na mão. Curiosos, aguardamos pela chegada dele, parecia uns centímetros mais baixo, vinha ainda mais encolhido. Quando chega alguém pergunta pelo café. E ele responde: "o Sr. Victor manda dizer para irem buscar o café onde foram buscar as cervejas". E vai-se embora, aliviado da missão. O grupo agita-se e indigna-se. "Então", diz um, "mas a gente vem para aqui todos os dias, somos sei lá quantos aqui a almoçar e agora é isto?". Concórdia geral. "Se é para ir buscar o café a outro lado então vamos todos", incita outro. Assentimento unânime.
Levantamo-nos, ofendidos, e, alçando as pernas sobre o varandim de ferro que dividia o Deck do seu concorrente vizinho, o Yate, trocamos de esplanada. Logo veio o Sr. Rodrigues, um galego que falava um português perfeito, perguntar-nos se queríamos alguma coisa, lá veio o café, pelo caminho verificou se as latas estavam vazias, as que estavam cheias ficavam, as vazias levantava-as. Encantamento geral, aquilo sim era serviço! Nos entretantos, mais alguns se juntavam ao grupo, e logo se repetia a estória, e logo se indignava o recém-chegado.
Do outro lado da cerca, o Sr. Victor, de braços cruzados, olhava lá de longe, encostado à goela da porta do Deck. Do Yate, de soslaio, o grupo vigiava e conspirava: exigia-se acção. Ora, a medida proposta era a evidente: os almoços passariam a ser tomados no Yate. Alguém relembrou o principal problema logístico: o bitoque do Yate custava 800 escudos, mais 100 que o do Deck. No entanto, retorquiu outro, até acabava por valer a pena porque o bitoque do Yate era de vaca, em vez do bitoque de porco do Deck, tinha mais batatas fritas e o molho era melhor. E foi assim que nos mudámos de armas e bagagens para o Yate, aliás, não tenho ideia de ter voltado a almoçar no Deck, e já lá vão mais de vinte anos. À Quarta-Feira o Yate fechava e nem aí dávamos a mão à palmatória, aproveitando a folga para ir comer uma pizza ao Don Formaggio.
Pelo caminho, foram ficando alguns momentos dignos de maior registo, como o dia em que os deuses nos deram razão na contenda com o Sr. Victor e choveu no Deck e no Yate não. Foi a única vez que vi o fim da chuva, e foi mesmo ali naquela divisória de ferro pintada de azul. Noutra ocasião, motivo de orgulho meu, bati o record de permanência na esplanada do Yate, mesmo que continuássemos a apelidar a actividade por "estar no Deck", tendo chegado após o jantar e saindo apenas depois do almoço do dia seguinte. E nunca estive sozinho, apenas que variava a companhia.
Os anos passaram, a coisa ficou e a estória, por alguma razão, passou a merecer o estatuto de estória para contar. Creio ter sido algures por 98 que, acompanhando uma namorada, fui a um jantar de aniversário de uma amiga dela onde eu não conhecia ninguém. Fiquei ao lado de um tipo simpático que, tal como eu, "era de Cascais". "Ah é?", interessei-me eu, "então e de onde", perguntei. Era de S. João. E eu? Eu era do Estoril, e depois lá surgiu a referência aos Salesianos do Estoril, "ah, andavas nos Salesianos?", pergunta ele, "andava, pois", respondo eu, e logo ele afirma que se eu tinha andado nos Salesianos então isso queria dizer que costumava ir ao Deck. Na mouche, pensei eu, e logo lhe disse que sim, que era isso mesmo, horas e horas passadas no Deck, apenas para logo corrigir e dizer "quer dizer, Deck não, Yate". O interlocutor, creio que se chama Miguel, ficou curioso: "por que não o Deck?". E, claro, satisfeito por haver tema de conversa, lá lhe contei a estória do café, não me poupando a nenhum pormenor, e terminando, ufano, com a moral da estória: "sei lá quanto é que o Sr. Victor perdeu em almoços com o ter-nos mandado ir buscar o café onde tínhamos ido buscar as cervejas". Como se a cara dele denotasse algum trejeito ou expressão que não decifrei bem perguntei-lhe se ele conhecia bem o Deck. Ao que ele me responde, "sim, sim, conheço muito bem. É que, sabes, o Sr. Victor é o meu pai".
Nesse dia, quem aprendeu uma lição fui eu: com desconhecidos, é melhor guardar as estórias para mim. No outro dia, aqui há uns meses, passei pela primeira vez em alguns anos pela frente da esplanada do Yate e do Deck. Foi com muita surpresa que vi que o Yate fechou e é agora o jardim de cerveja Deck-Beer. A cerca de ferro já não está lá e é o Miguel, um tipo simpático e que, com o passar os anos se vê perfeitamente que é a cara do pai, que montou o negócio e produz a cerveja artesanal. Anteontem, de passagem pelo Estoril, fui lá ter com uns amigos. Quem nos serviu as cervejas foi o Quim, que lá continua com a mesma farda e com o mesmo ar jovial. Mas, o que me sobressaiu mesmo foram as rugas que agora lhe decoram a cara, afinal, vinte anos já é algum tempo, e tenho ideia de que já não o via há mais cinco anos. Passados uns minutos depois de ter-me sentado, lá apareceu o meu insolente amigo que naquela noite, com o seu pedido atrevido, acabou por espoletar esta estória toda. Sentou-se e, de casaco de pele, todo bem-posto na vida, cruzou a perna, disse olá ao Quim e pediu um café.

LE VENT NOUS PORTERA



Noir Désir, 'Le Vent nous Portera', Des Visages des Figures, 2001

sábado, 4 de março de 2017

O PADRECO FRANCISCO

Em 1927, Freud defendia a importância da religião que, mesmo tida como uma ilusão, garantia uma forma de controlar os instintos auto-destrutivos da própria humanidade. Para ele, para podermos imaginar uma sociedade europeia sem religião seria preciso uma doutrina alternativa que, por um lado, mantivesse as características psicológicas religiosas do Cristianismo e que, por outro, garantisse o carácter sacro, formal e rígido da religião - o dogma, portanto. Passados quase cem anos não deixa de ser interessante ver como a hipótese freudiana se confirmou: primeiro, é verdade que a Europa deixou, grosso modo, de ser religiosa: a matriz cristã está lá mas a crença em Deus, no código moral da igreja ou na importância dos seus agentes é residual; segundo, há, de facto, uma doutrina alternativa que substituiu a religião mantendo todas as suas características fundamentais: a Democracia. Com as suas instituições altamente formais, o seu carácter salvífico e a crença que nela, na Democracia, reside a salvação da sociedade, assim a Europa encontrou o equivalente terreno e material para a transcendência religiosa: onde a salvação antes seria no outro mundo, a salvação agora garante-se no aqui e agora - e a Democracia é a forma de o garantir. Assim, em nome dessa crença, importa-se o dogma religioso para o plano da teoria política: as coisas ou são boas, porque democráticas, ou são anti-democráticas, e por isso más; o Bem e o Mal definem-se pela sua equivalência com o padrão democrático. E quem decide o que é democrático, ou bom, e o que não é? Os intérpretes da verdade religiosa, perdão, democrática, naturalmente. E a essência de Democracia - a discussão popular, o compromisso entre visões diferentes, a tolerância com os pontos de vista adversos, etc. - é liminarmente substituída pela imposição do ponto de vista desses arautos do democraticamente correcto através dos meios de propaganda oficial: os grandes grupos mediáticos que se alimentam, e vivem, do status quo substituindo na antecâmara digital as antigas igrejas. A Democracia, dizem eles, os bispos da nova doutrina, é a sua causa, é a sua missão. Mas logo a pervertem dando palco a quem lhes paga, ou interessa, a quem os chefes mandam falar. E depois sobram os padres e padrecos. A benzerem os fiéis (os militantes), a jurarem sobre as bíblias (os programas eleitorais) e dos seus palanques, agora púlpitos, anunciam sempre a boa-nova - a salvação! - que apesar de tardar a chegar se encontra sempre ao virar da esquina, desde que cumpram os devotos o seu dever de os eleger. Melhor exemplo de padreco não há que o Francisco Louçã: sempre compungido, de profecia em profecia, curvado e com o sermão na ponta da língua, o arauto moralista dos novos tempos caminha pela comunicação social como Jesus sobre a água: não interessa que seja contra a liberdade individual (é comunista), não interessa que seja contra a democracia (é comunista) ou contra a propriedade privada (é comunista). Não. Aquilo que interessa é que ele sabe o que é democrático, e por isso bom, e aquilo que é anti-democrático, e por isso mau. Que o que é mau coincida com o que os seus adversários fazem e o que é bom com o que os seus correligionários praticam, isso já não interessa nada. E agora, no seu auge, o Banco de Portugal. Nada mais apropriado para um Totskista inimigo da propriedade privada (o principal alicerce de uma verdadeira democracia pois os consumidores votam com a carteira sobre o que querem ver produzido) e adversário da economia de mercado no conselho consultivo de um banco central. Mas nada mais coerente! Porque, tal como muitos outros, também Louçã, apesar da sua cátedra, se deixa deslumbrar pelas lascivas curvas do grande capital - tal como os seus camaradas bloquistas que aturam as maiores safadezas do PS apenas porque lhes dá jeito. E é assim que, tal como muitos padrecos antes dele, Louçã, o maior moralista da nossa praça, vai deliciar-se nos cadeirões de couro do poder. No final, tal como Lampedusa profetizou, tudo muda para que tudo fique na mesma: afinal não é Louçã nem mais nem menos do que um Padre Amaro da política portuguesa. Deus o tenha.

quarta-feira, 1 de março de 2017

DRILL

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