sábado, 4 de março de 2017

O PADRECO FRANCISCO

Em 1927, Freud defendia a importância da religião que, mesmo tida como uma ilusão, garantia uma forma de controlar os instintos auto-destrutivos da própria humanidade. Para ele, para podermos imaginar uma sociedade europeia sem religião seria preciso uma doutrina alternativa que, por um lado, mantivesse as características psicológicas religiosas do Cristianismo e que, por outro, garantisse o carácter sacro, formal e rígido da religião - o dogma, portanto. Passados quase cem anos não deixa de ser interessante ver como a hipótese freudiana se confirmou: primeiro, é verdade que a Europa deixou, grosso modo, de ser religiosa: a matriz cristã está lá mas a crença em Deus, no código moral da igreja ou na importância dos seus agentes é residual; segundo, há, de facto, uma doutrina alternativa que substituiu a religião mantendo todas as suas características fundamentais: a Democracia. Com as suas instituições altamente formais, o seu carácter salvífico e a crença que nela, na Democracia, reside a salvação da sociedade, assim a Europa encontrou o equivalente terreno e material para a transcendência religiosa: onde a salvação antes seria no outro mundo, a salvação agora garante-se no aqui e agora - e a Democracia é a forma de o garantir. Assim, em nome dessa crença, importa-se o dogma religioso para o plano da teoria política: as coisas ou são boas, porque democráticas, ou são anti-democráticas, e por isso más; o Bem e o Mal definem-se pela sua equivalência com o padrão democrático. E quem decide o que é democrático, ou bom, e o que não é? Os intérpretes da verdade religiosa, perdão, democrática, naturalmente. E a essência de Democracia - a discussão popular, o compromisso entre visões diferentes, a tolerância com os pontos de vista adversos, etc. - é liminarmente substituída pela imposição do ponto de vista desses arautos do democraticamente correcto através dos meios de propaganda oficial: os grandes grupos mediáticos que se alimentam, e vivem, do status quo substituindo na antecâmara digital as antigas igrejas. A Democracia, dizem eles, os bispos da nova doutrina, é a sua causa, é a sua missão. Mas logo a pervertem dando palco a quem lhes paga, ou interessa, a quem os chefes mandam falar. E depois sobram os padres e padrecos. A benzerem os fiéis (os militantes), a jurarem sobre as bíblias (os programas eleitorais) e dos seus palanques, agora púlpitos, anunciam sempre a boa-nova - a salvação! - que apesar de tardar a chegar se encontra sempre ao virar da esquina, desde que cumpram os devotos o seu dever de os eleger. Melhor exemplo de padreco não há que o Francisco Louçã: sempre compungido, de profecia em profecia, curvado e com o sermão na ponta da língua, o arauto moralista dos novos tempos caminha pela comunicação social como Jesus sobre a água: não interessa que seja contra a liberdade individual (é comunista), não interessa que seja contra a democracia (é comunista) ou contra a propriedade privada (é comunista). Não. Aquilo que interessa é que ele sabe o que é democrático, e por isso bom, e aquilo que é anti-democrático, e por isso mau. Que o que é mau coincida com o que os seus adversários fazem e o que é bom com o que os seus correligionários praticam, isso já não interessa nada. E agora, no seu auge, o Banco de Portugal. Nada mais apropriado para um Totskista inimigo da propriedade privada (o principal alicerce de uma verdadeira democracia pois os consumidores votam com a carteira sobre o que querem ver produzido) e adversário da economia de mercado no conselho consultivo de um banco central. Mas nada mais coerente! Porque, tal como muitos outros, também Louçã, apesar da sua cátedra, se deixa deslumbrar pelas lascivas curvas do grande capital - tal como os seus camaradas bloquistas que aturam as maiores safadezas do PS apenas porque lhes dá jeito. E é assim que, tal como muitos padrecos antes dele, Louçã, o maior moralista da nossa praça, vai deliciar-se nos cadeirões de couro do poder. No final, tal como Lampedusa profetizou, tudo muda para que tudo fique na mesma: afinal não é Louçã nem mais nem menos do que um Padre Amaro da política portuguesa. Deus o tenha.

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