domingo, 7 de maio de 2017

TONS ROSA EM FUNDO DE VERMELHO ESCURO*

Tivessem os nossos planos sido bem sucedidos e hoje estaria a família toda a acordar debaixo do bom sol português. Infelizmente, um bicho microscópico qualquer nos foi fazendo tombar, um a um, nas camas e nos sofás, adiando a viagem. Aproveito o descanso forçado para dar uma vista de olhos pelos jornais lá da tugaria. Primeiro, a entrevista do Alberto Gonçalves ao i que andava a guardar há uns dias. Esclarecedora. Nela, por entre várias considerações plenas de bom senso - uma raridade! - acaba o Alberto Gonçalves a relatar que um dos problemas do seu patrão Baldaia - uma tosca figurinha que se especializou em lavar com cuspo as fraldas dos donos daquilo tudo - com as suas crónicas era que "havia quem só fosse à página do “DN” por minha causa [do Alberto Gonçalves] e ficasse confuso com o resto do jornal". Ora, a ser verdade que muitos acessos ao DN fossem por via dos artigos do Alberto Gonçalves, e imagino que o seja uma vez que eu próprio tal como muitos outros que conheço o faziam, o Sr. Baldaia apenas se equivoca a pensar que os leitores se quedavam confusos e perplexos. Eu, por exemplo, nunca fiquei confundido com nada por duas razões: primeiro, porque há muito que nem abria outra página no DN que não fosse um artigo do Alberto Gonçalves; segundo, porque, ao contrário do que o Sr. Baldaia parece pensar, há muitos portugueses que sabem perfeitamente distinguir entre, por um lado, jornalismo, opinião livre e bom trabalho e; por outro, favores, incompetência e videirice. O Sr. Baldaia, que parece não perceber a diferença, perante a hipotética confusão entre uma e outra, optou por desfazer-se da primeira. Por mim, que não leio o pasquim ou o Sr. Baldaia, parece-me excelente: e, a continuar assim o caminho, cada vez menos portugueses ficarão confundidos com o que quer que seja (como, por exemplo, o que raio fazia o Alberto Gonçalves numa zurrapa como o DN?) e, melhor ainda, menos perderão tempo a ler as sebosices do Sr. Baldaia. Depois, seguindo o périplo pela imprensa portuguesa, tenho que estugar o passo para fugir ao spin do sistema para branquear a enorme asneirada que o partido do regime, o PS, fez no Porto. Só no Observador conto três manchetes:  PS. Moreira é "partididofóbico" com "ego galático"Pizarro: "Não aceito que haja becos sem saída" e Costa: "O PS entra sempre em jogo para ganhar". Os três títulos ocupam página inteira o que, dado o destaque da coisa, permite imaginar que sobraria espaço para um título com a réplica. Infelizmente, não deu. Menos espaço, muito menos, tem o PSD, ainda assim com três noticiazinhas. Naturalmente, mesmo no dia após o discurso de meia hora de Passos Coelho no aniversário do PSD, cai-lhe apenas um titulozinho a dizer que ele, Passos, graças a Deus - acrescento eu -, "não muda uma linha". Os outros dois títulos, ainda de forma mais natural, vão direitinhos para a oposição (a Passos, naturalmente): o Rio de sempre e o Pedro Duarte a apelar à mudança. O que vale é que, dizem as más línguas, o Observador é de direita e está contra o governo. Já enjoado, aguento-me um pouco mais porque, vá lá, é dia de ler o Vasco Pulido Valente no único vislumbre que resta da lufada de ar fresco que o Observador até ainda há pouco tempo representava na imprensa portuguesa: a sua coluna de opinião. Termina o Vasco Pulido Valente a sua crónica a dizer que "as coisas – principalmente a imprensa e a televisão – começam a adquirir aquele tom uniforme e ruço, típico da tropa e do socialismo". Tem razão.

*Título adaptado de um dos romances de Joaquim Paço d'Arcos que integra a Crónica da Vida Lisboeta. Infelizmente, hoje, como no tempo dele, se faz Portugal dos Laurentinos da nossa vida. Vamos a ver e o Sr. Baldaia não acaba ainda como banqueiro. Não ficaria admirado.

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