sábado, 30 de setembro de 2017

PARADOXO

Existe algo intrinsecamente paradoxal no artista "rebelde", o roqueiro de longos e despenteados cabelos, com profusas tatuagens e cheio de piercings, que abre as portas de sua casa a jornalistas, apenas para mostrar as suas amplas salas confortavelmente atapetadas, plenas de cortinados de veludo, sofás almofadados de cor creme, paredes forradas com espelhos e quadros de talha dourada e muitas almofadinhas de decoração. Eu ainda sou do tempo em que os heróis, estes sim rebeldes, se finavam novos, exauridos, afogados em poças do seu próprio vómito, agarrados a garrafas ou seringas ou, ainda, com tiros auto-inflingidos, todos tragicamente auto-destruídos pelos excessos aos quais a sua recusa da normalidade os condenou. Eram os relembradores da tragédia. Sinceramente, quem é quer saber destes betinhos de hoje em dia, todos apologistas do saudável, todos muito salvadores do mundo, todos muito bonzinhos, e que se ofendem com umas bocas se forem "politicamente incorrectas", isto enquanto se ocupam a rodar anúncios televisivos que lhes rendem milhões para gastar em decoradoras de interiores?

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