segunda-feira, 2 de outubro de 2017

PORTUGAL NO DIVÃ

Na ausência de explicações tradicionais para o estado de loucura generalizada em que o espaço público português vive parece-me que só falta uma visão psico-analítica para compor a coisa. Ora, cá está ela. São dois os arquétipos fundamentais que norteiam a vida humana, o arquétipo da Mãe e o do Velho Sábio, ou o do Pai. A Mãe é carinhosa, protectora, dá força, segurança e vitalidade. É o útero aconchegante. Em Portugal, a Mãe de todos nós é o PS. Dá empregos, estabilidade, promete que tudo vai correr bem e dá-nos sempre força para seguir no mesmo rumo. Daí, naturalmente, o país é do PS. Gosta de aeroportos, TGV's, estações de metro, fins da austeridade, reposição de rendimentos e demais guloseimas. A Mãe é boazinha e dá coisas. Guterres era bonzinho. Soares era bonacheirão. O outro arquétipo é a figura do Pai. Este é severo, austero, impõe limites e regras. Ensina-nos lições. Empurra-nos para a frente, mesmo se formos a berrar e a espernear. Em Portugal, o Pai é o PSD. Quer que cresçamos, exige trabalho e responsabilidade, fala de mudança. Quer regras e contas certas. Promete pouco, fala menos ainda. Cavaco foi o pai de toda uma geração de portugueses. Assim, o ciclo normal da coisa é o país escolher por regra o PS, a mãezinha que nos embala e diz que tudo vai ficar bem mas, quando o arquétipo maternal se transforma na sua variante negativa, o útero transformado num buraco escuro que nos engole, no nosso caso prático através da falência, então lá vamos nós a correr a pedir a ajuda, e a orientação, do Pai. O novo Pai é Passos coelho. O Pai que agora os infantes portugueses sonham matar como forma de afirmação adulta. Há algumas excepções, atenção, que confirmam a regra. Sócrates é a evidente: uma espécie de hermafrodita, juntou de forma megalánoma os dois arquétipos num só: a figura maternal do rosa PS com a postura inédita do governante austero. Resultado? A primeira maioria absoluta do PS e a maior falência do Estado dos últimos 40 anos. Outro hermafrodita arquetipal é Assunção Cristas: sobre a manta da direita conservadora (e austera) lá vai vendendo estações de metro ao quilo: é a Mãe Natal. Pelo que se vê, até agora a coisa vai resultando. António Costa, a mãe de todos nós, esse, vai de vento em poupa: até ao Quantitative Easing acabar. Quando a "Europa" deixar de comprar a dívida pública que sustenta a festa portuguesa, o útero gigante de Costa será, como sempre, substituído pela caverna abissal de uma nova falência. E os portugueses lá correrão atrás do paizinho, leia-se, o actual culpado de tudo o que há de errado no mundo, Passos Coelho. A questão é se ele ainda lá estará. Nos entretantos, as crianças lambuzam-se com o pote que a Mãe, às escondidas, lhes vai oferecendo. Deliciadas, sonham que durará para sempre. E, inconscientemente, dormem descansadas porque sabem que o Pai está ali ao virar da esquina para os vir safar do buraco em que, por teimosia infantil, se vão enfiando. Não, Portugal ainda não está pronto para matar Passos Coelho.

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