segunda-feira, 23 de outubro de 2017

SOBRE AS ELEIÇÕES NO PSD

A minha primeira opção para Presidente do PSD seria, naturalmente, Pedro Passos Coelho. Pela sua coragem, desapego, resiliência, seriedade, tudo qualidades que não abundam no PS, mais ainda pela forma como lidou com o episódio "irrevogável" de Paulo Portas - a queda do governo teria sido catastrófica para o país - e, em particular, a forma como foi imune aos cantos das sereias do bloco central de interesses onde, e foi aí que conquistou o meu apoio, Passos Coelho foi o principal responsável por deixar cair o antigo "dono disto tudo", o infame Ricardo Salgado. O país perde muito com a saída de cena de Passos Coelho, uma saída de cena naturalmente celebrada em êxtase pelos poderosos oligarcas que mandam no país e que não querem perder o seu poder.

Posto isto, a vida continua. O PSD também. As duas candidaturas que se apresentaram são, pois, o futuro imediato do partido e uma delas será vencedora. Para inferir qual seria a melhor para o partido e para o país parece-me que são três os critérios fundamentais a analisar. Em primeiro lugar, qual a candidatura que melhor representa o posicionamento ideológico do partido. Em segundo lugar, qual a candidatura que melhor condições reúne para fortalecer o partido e, finalmente, em terceiro lugar, qual a candidatura que representa uma melhor alternativa à governação socialista e à Situação.

Como já aqui escrevi variadas vezes, considero que os valores do PSD são fundamentalmente compatíveis com a mudança de paradigma que é necessária para Portugal: a rejeição do socialismo. A social-democracia em Portugal afirmou-se não como o corolário de uma visão socialista para a sociedade mas, pelo contrário, como o contraponto liberalizante e ontologicamente conservador face ao socialismo moderado do Partido Socialista e ao socialismo radical da extrema-esquerda portuguesa. O PSD tem na génese uma coligação de valores que justificou o realismo pragmático que sempre assumiu e que ao qual o interesse nacional sempre obrigou. Essa coligação de valores congregou, desde a primeira hora, sectores tradicionalmente social-democratas da oposição ao regime de Salazar e Caetano mas também, não menos importante, significativos elementos da burguesia liberal, principalmente nortenha, bem como elementos conservadores que muito facilmente poderiam ser descritos como defensores da democracia-cristã europeia. A base ideológica do PSD congrega, portanto, um ideário social-democrata, democrata-cristão e, naturalmente, liberal.

Tal coisa também se revelou na prática. Primeiro, através de Sá Carneiro e a forma como visou libertar o país da influência militar; depois, com Cavaco Silva, no processo de liberalização – e o correspondente progresso material – que o PSD conseguiu implementar nos anos 80 e 90 do Século XX. Não será demais, nem despropositado, relembrar que foi precisamente nesses anos que – com a oposição feroz do PS e da extrema-esquerda – se conseguiram implementar reformas, na altura igualmente "neo-liberais" e heréticas para a esquerda, mas que eram tão evidentemente fundamentais, tais como os bancos, as seguradoras e os órgãos de comunicação social poderem existir fora da esfera do Estado. Não será igualmente demais, nem despropositado, relembrar que foram precisamente esses anos os de maior progresso material da democracia portuguesa. Essa é a matriz do PSD: reformar para dar força e liberdade à sociedade por oposição ao estatismo socialista.

O PSD não visa acabar com o Estado-Social ou, muito menos ainda, com o Estado. Ser pela liberdade não implica ser libertário. A mudança preconizada pelo PSD passa essencialmente por ter um Estado limitado pelos cidadãos ao invés de ter os cidadãos ao serviço do Estado e dos indivíduos que o controlam. Ou, por outras palavras, salvar o estado-social tornando-o mais eficaz, acessível, justo e menos dispendioso para os contribuintes. Este é o principal desígnio do PSD.

Neste sentido, o que se exige à liderança futura do PSD é um esforço de libertação face aos constrangimentos herdados do salazarismo e do fervor revolucionário marxista, nomeadamente os constitucionais, que obrigam o país a ir vivendo no pântano estatista da perpétua criação de dívida. Acima de tudo, mais uma vez, aquilo que se pede do PSD é que seja capaz de implementar uma política séria, credível e eficaz para voltar a colocar Portugal na rota da prosperidade e do progresso material. Para isto é forçoso que o PSD seja fiel às suas origens e rejeite o papel colaboracionista com o PS que a oligarquia de interesses instalada em Portugal gostaria de lhe ver atribuído. Da mesma forma, no discurso, é fundamental que se compreenda que é pela rejeição do modelo socialista que Portugal poderá reencontrar-se com o caminho da prosperidade. Fundamentalmente, ao PSD exige-se que seja a alternativa ideológica e pragmática face ao PS (que sonha com o Bloco Central) e à coligação de extrema-esquerda (incluindo parte do novo PS) que sonha com o regresso do PREC e das nacionalizações.

Ao mesmo tempo, a nova liderança do PSD não poderá rejeitar, sob pena de defraudar a legítima expectativa da maioria dos portugueses que deram uma vitória ao partido nas últimas eleições legislativas, o legado que Passos Coelho deixa. A vitória que teve em 2015 nas condições em que as eleições foram disputadas apenas comprova que grande parte do país compreende a necessidade de mudar de paradigma governativo. E a irresponsabilidade que a governação de esquerda tem posto em prática, num terrível regresso ao passado, apenas tornará mais evidente a curto prazo que a visão de Passos Coelho para o país mais não foi que uma continuação lógica, coerente e fundamental dos legados de Sá Carneiro e Cavaco Silva - e que era a correcta para o país.

Assim, tudo considerado, não posso deixar de considerar que a candidatura de Rui Rio não reúne as condições que considero pivotais para o futuro a médio prazo do PSD. Primeiro, erra quando quer fazer passar a mensagem que o PSD é um partido de centro-esquerda. Dessa forma, não assume a alternativa que o país precisa, não honra a história do partido e, mesmo de uma perspectiva eleitoral, não assume um posicionamento inteligente: centro-esquerda por centro-esquerda, os portugueses já têm o PS em quem votar. Depois, erra ao rodear-se daqueles que mais criticaram de forma pública a liderança de Passos Coelho nos momentos mais difíceis da governação 2011-2015. Dessa forma, não assume o legado de Passos Coelho, pelo contrário, procura repudiá-lo, bem como promove autênticos submarinos subversivos que, movidos por ódios pessoais, nunca tiveram pejo em aliar-se a comícios da extrema-esquerda ou em pagar as despesas da verdadeira oposição ao seu próprio partido. Uma liderança nascida em Azeitão com aqueles que mais mal fizeram ao PSD nos últimos anos nunca será uma liderança que conquiste o respeito das bases do partido. São os militantes de base que bem sabem da dificuldade que os últimos anos representaram para o país e para o partido.

Por outro lado, a candidatura de Santana Lopes parece-me configurar a melhor abordagem face aos critérios que acima anunciei: Santana assume representar o PSD na sua tradição reformista, não quer fazer do PSD aquilo que não é: um PS de segunda. Depois, Santana, melhor que ninguém, representa, como sempre representou, o sentir e o pulsar das bases do partido. E, em altura de crise, quando vem o toque a reunir, é um líder das bases que o PSD precisa: não de um representante de uma elite passada, ideologicamente próxima do PS e, aparentemente, mais preocupada com os seus ódios de estimação do que com aquilo que que o partido precisa. Finalmente, Santana parece-me defender  com profunda convicção que aquilo que o país precisa é de uma alternativa factual, substancial e corajosa à "frente de esquerda" que nos desgoverna. É preciso compreender que o adversário de Portugal, e consequentemente do PSD, é o ataque cerrado que a extrema-esquerda - e o PS cínico dos interesses oligárquicos que representa - faz ao nosso modo de vida, às instituições mais importantes da nossa sociedade, desde a família até à escola, e ao posicionamento histórico, e fundamental, do país no mundo (NATO, UE e Euro).

Ouvidas as duas apresentações de candidatura sinto-me esclarecido. E, ontem, enquanto ouvia o discurso de Santana Lopes, ocorreu-me que o pior discurso que lhe ouvi foi o da tomada de posse como Primeiro-Ministro em 2005. Os adversários dirão que essa é a sua grande fragilidade. Mas eu vejo aí uma coisa muito diferente: nesse dia ficou evidente que ao Santana Lopes a responsabilidade política pesa. E, ao contrário dos líderes que o PS ofereceu ao país nos últimos dez anos, é muito importante que se tenha como líder alguém a quem a responsabilidade política, de facto, lhes pese nos ombros. Apenas aos irresponsáveis ela não pesará. Em 2005, fruto das circunstâncias, por sacrifício, Santana Lopes aceitou aquilo que ele hoje nunca aceitaria: governar contra a oligarquia (que o atacou por todos os lados na comunicação social chegando ao ponto de dissolver uma Assembleia da República que tinha uma maioria estável e duradoura) sem ter a legitimidade do voto popular. Tem aqui, portanto, a sua oportunidade para preparar-se convenientemente para suportar o peso que a responsabilidade de governação exige. E para isso terá todo o meu apoio.

Em Janeiro, votarei no Pedro Santana Lopes.

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