quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CASO PRÁCTICO

Tudo na vida se trata de equilibrar valores que não são, à partida, nem conciliáveis nem compatíveis. Veja-se o caso do meu mais novo talento: secar o cabelo a infantes. Não falando nas diversas capacidades técnico-tácticas envolvidas na actividade - o engodo, a imobilização do sujeito, a compreensão teórico-práctica das ondas térmicas, o conhecimento, e controlo, do confronto daquelas com as vibrações capilares e, não menos fundamental, o manuseamento eficaz do instrumento de secagem - atente-se nos valores que se gladiam na acção praticada: por um lado, o valor da eficiência energético-temporal, a rapidez portanto, com que se despacha a coisa; pelo outro, o valor igualmente pivotal do conforto do infante face ao choque térmico. Se puxo de um lado, pela temperatura para ser mais rápido, logo a manta se destapa do outro: a criança reclama. Se, pelo contrário, ajusto a temperatura tendo por base a vontade infantil, nem a criançada vai para a cama a horas nem eu vejo o Benfica. Na arte da secagem capilar, como na vida, não há almoços grátis.

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