quinta-feira, 23 de novembro de 2017

DAS TORRADAS COM MANTEIGA

Naquele dia, era de manhã e estávamos a tomar o pequeno-almoço. Sentados à mesa, eu de costas para a porta e de frente para um grande frigorífico branco, o meu pai de frente para mim. Não consigo precisar com exactidão a data daquele dia, imagino que seja algures durante a primeira metade da década de oitenta, mas tenho a ideia de ser fim-de-semana: afinal, tomávamos o pequeno-almoço com a tranquilidade e o tempo que as manhãs dos chamados dias úteis não permitiam. Como de costume, as torradas faziam parte do menu. Sempre fizeram, aliás, desde que eu me lembro. E felizmente porque, a bem dizer, torradas com manteiga serão certamente uma das coisas que ainda hoje tenho como preferidas na vida. Torradas daquele pão português, bem fininhas e tostadas a um ponto estaladiço e já acastanhado de perfeição culinária, justamente acompanhado por manteiga bem salgada, açoriana de preferência, que, derretendo-se, desliza levemente pela torrada e se vai escapando pelos buracos do pão, obrigando, por um lado, a uma necessária rapidez na degustação e, por outro, a aceitar a inevitabilidade de nos escorrer pelas mãos: os restos da manteiga que, disfarçadamente, sem os pais verem, se lambem dos dedos. Lembro-me bem daquelas torradas. Das torradas daquela cozinha, da cozinha da casa onde cresci. Lembro-me bem também de estar sentado àquela mesa, naquele banco, rodeado por aqueles azulejos azuis e brancos e os móveis de casquinha cor de mel com tampos de fórmica azul clarinha. As portas não tinham puxadores: eram molas que que as abriam e fechavam. E lembro-me bem, claro, do meu pai. Naquele dia, à frente de mim, à espera que as torradas ficassem prontas, vestido com um casaco azul escuro dos anos setenta, cheio de desenhos geométricos, e que eu estou convencido de ainda o ter guardado numa mala mais escondida. Naquele dia, quando as primeiras torradas saíram da torradeira, uma torradeira daquelas altas com uma porta com buracos rectangulares de cada lado, eu que sempre fui impaciente e garganeiro, especialmente com comida, logo me atirei a elas. De faca na mão, cortando pedaços de manteiga, em vão a tentei espalhar pela torrada. Como guardávamos a manteiga no frigorífico, esta estava rija e eu, na ânsia de me aviar, com o vigor da faca, a rigidez da manteiga e a fragilidade da torrada, estilhacei-a em vários pedaços. Talvez por comiseração perante o meu desapontamento, o meu pai, e aqui não me lembro bem dos pormenores, chamou-me a atenção e demonstrou como ele fazia: “eu faço assim”, disse-me ele, “corto pequenos bocados de manteiga e ponho-os em cima da torrada. Depois, espero: com o calor da torrada, a manteiga vai derretendo”. E ficámos os dois, por instantes, a olhar para a torrada dele. “Depois”, continuou, “quando ela já está ligeiramente mole é que espalho”. E assim fez. Foi uma torrada perfeita que saiu dali. E aquela foi uma técnica que eu adoptei desde aí. Por vezes, quando me esquecia e as ganas falavam mais alto, a dificuldade de espalhar a manteiga lá me fazia lembrar aquela lição banal que naquele dia eu aprendi. O meu pai já morreu vão alguns meses para além de doze anos. Uns anos após a sua morte, esta memória começou a ocorrer-me com alguma frequência: nós os dois, aquela cozinha, aquelas torradas. E, ultimamente, tenho dado por mim a pensar por que razão, entre tanta coisa para me lembrar do meu pai, haveria de ser esta memória em concrecto que tanto me aparece para relembrar aquela vida infantil que já lá vai – bem como a figura do meu pai em particular. Várias razões me ocorrem. Primeiro, a evidente: um momento de intimidade onde um pai ensina algo a um filho. Mas, parece-me, das sombras da pré-consciência infantil, aquele ensinamento em particular ganhou entretanto relevância porque na altura o compreendi. E é quando nos compreendemos que comunicamos. Aquela torrada foi, portanto, um momento de ligação com o meu pai e isso tem todo o valor do mundo. Depois, comecei a pensar que talvez houvesse mais por detrás daquele ensinamento para lá de uma questão técnica sobre manteiga e torradas. Talvez, ocorreu-me, pudesse esta memória, hoje com mais de trinta anos, um sonho quase portanto, representar um conhecimento mais profundo, mais inconsciente, e que se revela a mim, agora adulto e com filhos, como um gatilho para aprender, ou relembrar, mais qualquer coisa. E é verdade, parece-me que assim é. Daquela memória, hoje que me sento do outro lado da mesa, retiro o valor, ou a virtude, da paciência: saber esperar, saber levar a água ao nosso moinho, saber deixar a manteiga derreter na torrada antes de a espalhar. Ou, também, um princípio básico de defesa que é utilizar a força do adversário contra ele próprio: a defesa no aikido que consiste em rodar sobre nós próprios para que o adversário caia no chão movido única e exclusivamente pela sua própria velocidade; deixar o calor próprio da torrada derreter a manteiga que queremos ver derretida. Ou, ainda, como esta ideia se pode aplicar pela positiva: admitindo o princípio Aristotélico de que cada coisa tende para o seu propósito, deixar a torrada fazer o seu trabalho apenas sobrando para nós a tarefa de limitar, ou conduzir, a manteiga ao seu melhor destino. Depois, a inteligência: estudar a torrada e ver que é quente, estudar a manteiga e compreender que derrete e, na simplicidade óbvia da tarefa, agir utilizando este conhecimento em nosso proveito. E, finalmente, a passagem desse conhecimento de pai para filho. Tudo junto, e começo a perceber por que razão esta memória me vem assaltando a azáfama matinal: porque ser pai é ensinar, é ensinar tudo isto e muito mais, mas é também perceber que os filhos têm energia própria: para não os quebrar, muito pelo contrário, para lhes dar força, é preciso deixá-los utilizar a sua energia para derreterem os seus próprios problemas, as suas próprias manteigas. A extrema responsabilidade da paternidade, de estar do outro lado da mesa, de ser eu agora o criador de memórias futuras, é algo que nos põe em cheque: fazer o melhor que podemos, sempre, para sempre. Acredito agora ser precisamente por sentir a grandiosidade, e o peso, da tarefa que tenho diante de mim que, através da memória, o meu pai me vem visitar todos dias de manhã quando preparo as torradas com manteiga para os meus filhos. E, se Deus quiser, daqui por algum tempo, serei eu a ter a oportunidade, e o privilégio, de lhes mostrar as virtudes de deixar derreter a manteiga calmamente pelo calor do pão torrado.

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