quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

DA TRADIÇÃO

A noção de que existe uma determinada solução definitiva para a sociedade política, logo moral, dos humanos revela-se desde logo, a priori, como profundamente incoerente para com a própria natureza absolutamente dinâmica da vida humana: não vivemos uma condição estática, permanente ou imutável, muito pelo contrário. A vida humana, desde a profunda vulnerabilidade do seu estado de necessária dependência dos progenitores entre a concepção e os primeiros anos de vida, passando por um gradual processo de, primeiro, conquista de autonomia e, depois, de independência, até, finalmente, de maturação, resulta de forma evidente num conjunto consequencial de estados, todos eles diferentes entre si, que implicam uma condição de mudança dinâmica cuja única constância reside, precisamente, na impossibilidade de se parar esse processo de constante transformação.
A pessoa humana olha para o mundo com os olhos que tem, ou seja, a perspectiva que cada qual tem do mundo altera-se na exacta medida em que essa perspectiva evolui - e esta evolui na exacta medida em que o estado de maturação do ser humano se altera. Crescemos, amadurecemos - em tese - e, com este processo, o nosso mundo cresce e amadurece connosco. Não poderá ser nada mais além de uma evidência salientar que o mundo, e os problemas que nele identificamos, tal como as soluções que imaginamos para estes, estão desta forma directamente interligados: assim como vamos crescendo vamos também modificando a forma como vemos o mundo.
No início, existimos no caos. Luzes, cores, formas sem significado, a vida acontece-nos sem que se alcance sequer o que se passa. Com o tempo, os conceitos, e com estes a segurança do conhecido, vão aparecendo: primeiro, o espaço; depois, o tempo. As divisões da casa, as ruas, os caminhos. Os dias da semana, os meses, os anos. As cidades, os países e, finalmente, os planetas. O passado e o futuro. As relações familiares. As emoções, os conflitos; as vitórias e as derrotas. Novas vidas dos que chegaram depois de nós. A morte de alguns que foram primeiro. E com esta experiência, finalmente, o conhecimento consciente do processo que orienta e limita a nossa própria vida: nascimento, crescimento, amadurecimento, envelhecimento e, no cair do pano, a morte - a definitiva e intransponível fronteira entre o conhecido e o desconhecido.
Ao longo deste processo vamos assimilando um fluir de constante nova informação, uma informação que apreendemos e organizamos numa conceptualização cada vez mais complexa do mundo que nos rodeia. Na adolescência, com os primeiros passos verdadeiramente autónomos, criamos um mapa que nos permite navegar no mundo: é um mapa tosco, profundamente superficial, necessariamente incompleto, mas não obstante é um mapa - e, mais importante, será o primeiro mapa que - mesmo que não o seja - sentimos como sendo mesmo nosso, que não nos foi imposto ou dado por alguém. Daqui decorre a arrogância de quem imagina já ter aquilo do qual necessita para triunfar no mundo até aí desconhecido: precisamente porque o mapa é simultaneamente simples e abrangente torna-se fácil a crença na sua infalibilidade. Na adolescência, com a arrogância de quem descobriu algo novo que imagina melhor que tudo o resto, tudo aparenta ter uma solução. Melhor ainda: uma solução simples, evidente e fácil de implementar. Com a vantagem emocional configurada por um mapa que permite uma navegação minimamente eficiente no mundo, e esta coadjuvada pela ausência de necessidade de ter que fazer qualquer coisa para além de navegar, e criticar, o mundo que os outros fizeram, ou seja, armado de um fogacho de liberdade e preservado à necessidade das responsabilidades, o adolescente imagina ter percebido o mundo que agora quer conquistar.
No entanto, há um dia em que a rudeza superficial do mapa adolescente se revela na auto-insuficiência perante os acontecimentos, normalmente trágicos, subitamente ocorridos na vida. É o regresso do caos, do desconhecido - e o reconhecimento que a sensação de segurança que a posse do mapa que nos orientava na vida não era mais do que uma infante ilusão. São as dores do crescimento, do amadurecimento, estas que nos vêm agora rasgar as certezas que tivemos um dia. Aqui separam-se os corajosos dos demais: no reconhecimento da insuficiência dos nossos sistemas de navegação no mundo urge agir, urge criar um novo mapa, um mapa nascido das cinzas do anterior mas que ofereça maior definição ao mundo, mais profundidade, uma melhor capacidade de orientação.
Contudo, também este novo mapa conhecerá o seu fim: cada novo tempo necessita de um novo mapa porque a adopção de cada novo mapa, apesar deste configurar uma continuação, ou um aprofundamento, do mapa anterior, ao impôr uma transformação impõe também a perda do momento anterior. Na perseguição do amadurecimento, com o velho a dar lugar ao novo, enfrentamos então uma tragédia constante que se revela na necessidade de permanentemente largar para trás aquilo que um dia tivemos como mais precioso: tal como as roupas preferidas que se vão acumulando no sótão porque foram ficando pequenas demais, também o crescimento intelectual e emocional nos força a deixarmos para trás os mapas que tanto conforto e segurança nos deram um dia. Ao mesmo tempo, cada momento de transformação representa sempre um salto no desconhecido: largar o mapa que nos segura no mundo armado apenas com a esperança de encontrar uma melhor representação consiste num acto de coragem, uma coragem tanto mais difícil de reunir quanto menor for a nossa capacidade de identificar a inescapável condição em que nos encontramos. Com o tempo, com a habituação a esta condição, a coragem integra-se no ser adulto e maduro: a vida passa a incluir este ritual de constante renovação; tal como a cobra que anualmente perde a sua pele também os seres humanos, perante o mundo hostil e a tragicomédia que o compõe, são forçados a renovar-se de forma constante. É este o reflexo interior da mudança exterior que vamos percebendo nos espelhos e que nos acompanha a vida inteira, uma mudança que na maior parte dos casos não desejamos - porque nos atemoriza o seu resultado final  - mas que somos forçados a aceitar como fazendo parte do nosso próprio ser.
Há aqui, então, uma nuance que importa ressaltar: não somos nós apenas a imagem do estado material que vemos reflectida no espelho, tal como não somos nós também apenas o estado interior que, no espírito, acompanha esse estado material. A essa soma de estados materiais e espirituais devemos nós também acrescentar o processo de transformação dos estados de ontem, tal como de todos os anteriores, nos de hoje, e nos de todos os amanhãs. Isto porque sendo o Eu algo que gostamos de imaginar constante, e sendo que, como vimos, a única constância em nós ser precisamente o processo de transformação, então, por definição, será também nesse processo que, a existir algo de constante em nós, residirá a constância do nosso ser. Somos, então, a soma do que fomos, e do que somos, com o próprio acto de transformação. Somos, na essência, também a própria mudança que opera dentro de nós.
Assim sendo, a maturidade passa pela aceitação desta essência transformadora que nos forma, que nos faz. Conhecermo-nos, tanto a nós como ao mundo, passa por identificar - reconhecer - a mudança como uma inevitabilidade da vida. Do mesmo modo, esta mudança, precisamente porque representa tudo o que há de constante na natureza humana, está presente no consciente e inconsciente colectivo humano desde sempre. Está presente nos nossos mitos criadores, nas nossas religiões, nas nossas tradições. De facto, mais do que qualquer outra coisa, as nossas tradições representam o resumo - um meta-mapa - que os nossos antepassados, de uma forma ou de outra, nos legaram sobre a forma como eles próprios lidaram com esta constância trágica da vida: o processo de transformação e amadurecimento dos seres humanos face ao mundo. Ora, precisamente porque este processo é constante então as tradições, quer na sua simbologia quer no seu conhecimento primordial, revelam-se como fundamentais como agentes facilitadores de integração de cada novo ser humano no mundo: seguir as tradições da nossa civilização representa enfrentar o desconhecido acompanhado pela multidão que, mais estando próxima de nós - e que por essa razão mais partilha connosco da nossa própria perspectiva sobre o mundo -, nos ajuda a superar a espinhosa missão. Assim, uma tradição civilizacional representa um modo de vida, e um modo de vida representa uma forma particular de lidar com o desconhecido; representa uma base, não apenas para um mapa particular, mas, muito mais importante, para um modo de existência que facilita, e potencia, o nosso necessário processo individual de constante e consecutiva substituição de mapas mais rudimentares por outros mais eficientes. Representa também uma companhia, um laço de solidariedade intemporal entre pessoas que partilham uma mesma condição ao longo dos milénios: a de humanos frágeis e igualmente desprotegidos que, largados no imenso desconhecido, persistem no seu labor contra, e com, o mundo.
A modernidade trouxe com ela um conjunto enorme de novas ferramentas com as quais os humanos, em particular os Ocidentais, foram capazes de transformar o mundo. Essa transformação permitiu melhorias materiais formidáveis, tremendas mesmo, melhorias de tal magnitude que a luz legada pelos holofotes do desenvolvimento nos ofuscou a nossa própria condição - que apesar de tudo se mantém inalterada: nascemos, vivemos, morremos. No entanto, o manto diáfano tecnológico que nos envolve esconde-nos essa realidade. Paradoxalmente, é no mundo admirável do progresso e mudança constante que se perdeu a noção de que essa constante mudança que vemos desenrolar-se no mundo também não cessa de operar dentro de nós. Hoje, fruto dos ideais racionalistas e materialistas, anseia-se por soluções racionais, definitivas e imutáveis para os problemas humanos; soluções que necessariamente não existem, nem poderiam existir, porque se os seres humanos não são imutáveis, definitivos ou sequer, já agora, plenamente racionais então nunca o mundo dos humanos poderá ser outra coisa além do que um prolongamento colectivo da sua condição individual: a de constante transformação.
Aquilo que de novo surgiu com o advento da revolução tecnológica representa um paralelo perfeito com o estado adolescente que acima foi descrito: armados de uma nova tecnologia que nos garante maior autonomia, uma autonomia que não imaginávamos poder vir a ter, vemo-nos agora apetrechados com um novo mapa para o universo que imaginamos que nos poderá resolver todos os problemas persistentes nas nossas vidas. A arrogância deste novo conhecimento faz-nos levantar os narizes e desvalorizar o conhecimento primordial dos nossos antepassados: as tradições são hoje estúpidas, postulados irracionais, coisas sem valor e as quais o nosso novo mapa  - a ciência e a tecnologia que agora imaginamos dominar - permite ultrapassar. Exigem-se agora direitos sem deveres, benesses sem sacrifícios. Ao mesmo tempo, proclama-se inventar e descobrir que a condição do homem é superior à violência do reino animal, um reino do qual, no conforto do supermercado citadino, imagina-se o homem dele não precisar para se alimentar; do mesmo modo, na sua superioridade arrogante, se consideram muitos como estando para lá da biologia e da limitação física: a imaginação identitária não aparenta ter fim, um processo cada vez mais - ilusoriamente, claro - longínquo da trágica realidade da limitação da nossa condição. Afinal, pode muito a transformação humana mas não tanto que passem a ser os homens, e não o mundo, a controlar essa transformação e a decidir com as vontades espúrias do momento no que há-de o homem ser transformado amanhã.
Ao mesmo tempo, a ilusão do pensamento racionalista propõe-se desde a Revolução Francesa a destruir todo o legado civilizacional Ocidental em nome do triunfo da Razão, o supremo mapa para o mundo moral contemporâneo. Não obstante, o mundo é o que é: a tragédia da nossa condição acabará sempre por revelar-se para nos forçar a integrar o novo conhecimento e prosseguir o processo de amadurecimento. Ao virar da esquina, o Caos espreita sempre.
Hoje, no meio da cacofonia que nos vende segurança e conforto, a condição humana revela-se na solidão com que os indivíduos, despidos dos seus laços intemporais, enfrentam o desconhecido universal. Esmagados entre a propaganda do admirável mundo novo e a realidade da condição existencial que sentem nos ossos, cada vez mais o processo de amadurecimento dos seres humanos é interrompido, cortado, amputado. Artificialmente imposta, esta adolescência colectiva representa um perigo tremendo, isto porque uma regra universal se revela como verdadeira a quem se atreva a olhar o passado: primeiro, sempre que abandonámos o bom senso de trilharmos caminhos novos amparados nos ombros dos nossos antepassados sempre o resultado foi violento e mortífero; depois, que a dimensão dessa tragédia humana é sempre directamente proporcional à magnitude da imposição dos supostos novos princípios que visam substituir o conhecimento milenar entretanto acumulado - bem como da distância que separa os primeiros face ao segundo. Quanto mais negarmos a realidade da nossa condição mais forte será o elemento trágico que nos voltará a revelar o mundo tal como ele é.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

UM FOGACHO

Que excelente entrevista do Miguel Morgado. Será provavelmente o único exemplo de alguém no PSD - incluindo a sua direcção - a aparecer na comunicação social com a capacidade de fazer um diagnóstico correcto e exaustivo da situação, a apontar um caminho estratégico, bem como um conjunto de ideias “federadoras”, para uma direita em plena ebulição. Pela positiva, por princípios, com coerência e coragem, contando com todos, este é o caminho da direita e do PSD contra a frente de esquerda que vai esfrangalhando o país - de novo - na mentira e no embuste ideológico da extrema-esquerda. Aos críticos que logo se levantam com as pedras do costume contra tudo o que não são exaltações ao seu chefe, o Dr. Rio, deixo uma nota: triste é que seja apenas do espaço que não se reconhece na estratégia da direcção actual do PSD que saia uma proposta consistente para um rumo estratégico, não apenas do partido mas, atente-se, de todo o espaço não-socialista português. Traição, ao contrário do que já vi escrito por aí, não será falar o que se pensa mas sim o cínico vergar do PSD à agenda socialista sempre à espera do dia em que lhe caia podre o poder nas mãos, isto sem ter a coragem de cumprir a sua obrigação de oferecer uma alternativa clara aos eleitores portugueses. Muito bem o Miguel Morgado, e obrigado.

HÁ-DE LEVANTAR

Aqui há uns dias viajei de carro de Bruxelas para Portugal. Porque não queria ir sozinho desafiei um grande amigo para vir passar uns dias cá a casa e a acompanhar-me na viagem. Pelo caminho falámos de muita coisa, livros e citações que nos impressionam entre elas. Dizia-me ele que a Mensagem do Fernando Pessoa é algo a que ele regressa sempre, e sempre com passagens que, confiou-me ele, o fazem quase chorar. Deu-me vontade de revisitar a Mensagem. Hoje, de regresso a Bruxelas, dei ganas à vontade. Diz-me o Pessoa, a propósito de D. Sebastião, que “louco, sim, louco, porque quis grandeza qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?” Serei, de facto, como todos, aliás, um cadáver adiado que procria, um louco que acredita. Há sempre em nós um revolucionário, não duvidem, mesmo nos mais conservadores. Português, pois claro, e, mesmo atolado no nevoeiro, com muito orgulho. Um dia esse nevoeiro há-de levantar.

MURALHA

No meu escritório tenho vindo, a pouco e pouco, a construir uma muralha. Sim, uma muralha. É linda.

XI JIPING

O activismo que há em mim está indignado: o maior (em termos de PIB internacional) atropelador intercontinental de direitos humanos está em Portugal e nem uma manifzinha, apenas artigos sobre os luxos do imperador fascista no Ritz. O Louçã vai lá beijar a mão? E vai vestido de smoking? O laço combina com a faixa? Coisas importantes.

COERÊNCIA

Coisas sobre as quais o Dr. Rio não fala: as aldrabices do actual governo, as mentiras do actual Primeiro-Ministro, as suas ideias para o país no momento em que o assunto está na ordem do dia, as razões pelas quais os portugueses deveriam substituir o actual Primeiro-Ministro pelo Presidente do PSD, as questiúnculas onde os seus amigos e aliados se veem constantemente enredados, as suas próprias contradições.
Coisas sobre as quais o Dr. Rio fala: cenários eleitorais onde o PSD perde as próximas eleições, os malandros militantes do PSD que o criticam, os malandros portugueses que não pensam como o Dr. Rio, como o Dr. Rio é melhor do que todos os outros porque não é como todos os outros, diversos assuntos em alemão.

REALISMO

Se o Monopólio fosse um jogo realista a cada vez que se passasse na casa de Saída o Estado retirava a cada jogador metade dos ganhos daquela volta.

IDIOTAS ÚTEIS

Analistas, jornalistas, políticos, cromos em geral, quem quer que seja que se refira, de forma normalmente histérica, à ameaça democrática representada pela suposta “extrema-direita” mas que se cala perante os conspiradores anti-democráticos da extrema-esquerda marxista - em Portugal e Espanha, atente-se, estão presentes nas maiorias governamentais - não pode ser levado a sério: são os chamados idiotas úteis, uns pobres de espírito que, seja por cegueira ideológica, estupidez intelectual, interesse próprio ou lavagem cerebral mediática, não vislumbram um palmo na frente do nariz. Na maior parte dos casos, a ameaça democrática, e não só: civilizacional também, são esses tristes desgraçados.

HUN


UM PRECONCEITO

Tenho o defeito, quiçá a virtude, de ser preconceituoso contra tudo aquilo que me é impingido. Começou com as modas passageiras que todos imitavam ainda na escola secundária, depois as músicas - todas iguais - que se repetiam de forma incessante na rádio e, em seguida, os filmes que nos vendiam bilhetes de cinema e que, asseguravam-nos os especialistas, "tínhamos" mesmo que ver - destes, o catalisador foi provavelmente o Titanic de 1997, essa estrumeira fumegante plasmada em película que revelou o completo embuste da indústria cinematográfica estado-unidense e que evitei visualizar até, numa triste tarde ressacada de final de semana algures pelo meio da década de 00, sucumbir à televisão que o transmitiu. Finalmente, o preconceito alargou-se a tudo o que é órgão de comunicação social. Se todos gritam em uníssono, seja por uma proclamada desgraça ou por um virtuoso anseio, desconfio e tendo a preferir intuitivamente - daí o preconceito - o oposto. Pior ainda se o coro de indignação, ou de proclamação que também os há, é político: rejeito de imediato. A seguir, após inspecção, logo vejo se devo alterar a posição de recusa. Hoje em dia, raramente acabo por rever o preconceito, pelo contrário: por regra, este revela-se como a atitude que, num mundo tristemente enlouquecido, se comprova como a mais saudável, ou pelo menos aquela que me permite a ilusão de manutenção da minha sanidade mental. A nova moda que agora anda por aí é, em nome da democracia, veicular muita preocupação pela sobrevivência económica dos órgãos de comunicação social portugueses - isto sem compreenderem que foram precisamente estes que mataram a democracia. Querem os democratas do regime meter-nos a nós através do dinheiro confiscado em impostos a pagar os jornais que ninguém quer ler, ou as televisões que cada vez menos alguém quer ver. Pagarmos, portanto, pela propaganda que nos quer justificar o pagamento que pagámos é capaz de ser o maior hino à estupidez humana: alguém fora dos provincianos círculos lisboetas de patetas armados em intelectuais compra tamanho disparate? Quem quer o Governo a controlar ainda mais o que será a indignação de amanhã? Eu não. Por mim, assumo-o, podem arder os virtuosos órgãos de comunicação social do regime todos no Inferno: que as chamas do pretensiosismo, da propaganda e da ignorante arrogância os consumam e, no processo, libertem a população portuguesa das garras dos programas de debate futebolístico, bem como dos histéricos analistas que mais não sabem do que papaguear o que o patrão oligarca lhes escreveu no guião que receberam no telefone. Quanto à democracia, não vos preocupeis: ressuscitá-la começará precisamente com a morte da propaganda do regime. Um dia, talvez, lá chegaremos.

UMA CONSTANTE VIRTUDE

Aqui no Alentejo, enquanto bebo o medronho cá da quinta e observo o fogo pujante a crepitar na lareira, um fogo que dança uma entusiasmante sinfonia do Joly Braga Santos na Antena 2, ocorre-me que uma tragédia necessária da vida é esta sina de educarmos os nossos filhos para um mundo largado, ou seja, não para o mundo onde crescemos mas, por força da necessidade, para o novo mundo no qual eles, de facto, vão crescer - um mundo que até poderá vir a não ser o nosso. Fina, muito fina, é a fronteira cuja percepção permite distinguir entre o constante ecoar da natureza humana e as particulares vicissitudes, por mais loucas que sejam, de cada tempo. Uma constante virtude? Talvez esta terra que lhes legarei, terra onde cresce vida e que lhes garante liberdade. No fundo, bem no fundo, foi por essa razão maior que para aqui vim. Isto porque liberdade, a verdadeira, apenas está ao alcance de quem, tendo a terra e trabalhando-a, pode colher dela os frutos magníficos que permitem a vida. A bem dizer, e esta é uma singela verdade, as finas varandas pombalinas de Lisboa, ou as de Bruxelas, havendo a necessidade, revelam-se como um espaço bem limitado para galinhas, porcos, alfaces ou batatas.

PROGRESSO

Progresso é o tipo atrás do balcão preparar a sandes com a mesma mão com que recebe o teu dinheiro mas, atenção, envergando umas belas luvas azuis de látex.

O PROBLEMA FOI O BUFO

O autismo no PSD continua: este fim de semana saiu uma entrevista do Secretário-Geral Silvano a afirmar que a polémica em torno das suas “assinaturas” falsas faz parte de uma cabala montada por adversários internos do Dr. Rui Rio. Dessa suposição partiu para um aviso sério: se o PSD não se acalmar internamente vai ter um mau resultado eleitoral em 2019. Ora, a ideia é verdadeiramente extraordinária: para Silvano, repare-se, grave não é receber indevidamente dinheiro dos contribuintes por presenças falsas na Assembleia da República mas, pelo contrário, que alguém tenha ido bufar a ilegalidade para os jornais. A teoria passa a ser então que ele, Silvano, é uma vítima, que o Dr. Rio configura o verdadeiro alvo da perfídia e o chibo, esse sim, é o verdadeiro criminoso que urge punir de forma exemplar. Como estratégia, em tese, passar da defesa para o ataque na tentativa de manutenção do segundo Secretário-Geral do Dr. Rio a coisa até poderia fazer sentido. No entanto, um problema subsiste: os portugueses que não alinham na desonestidade intelectual e política que forma a coligação de esquerda que governa o país não apreciam ser tomados como parvos. Daqui se retira que, tirando o enterro oficial do banho de ética prometido e apregoado pelo Dr. Rio, o Secretário-Geral Silvano hoje, e para o futuro, não representa, nem representará, nada mais além de um embaraço e um problema. Perante isto, culpar a “oposição interna”, se é que tal coisa existe de forma organizada, pelos futuros maus resultados do PSD pode ser uma coisa apelativa para a liderança do PSD mas apenas cheira a esturro. O verdadeiro problema do Dr. Rio é que um líder que se preze impõe-se pela sua coragem, e a das suas ideias, ao partido, e não através da vitimização do líder face aos seus adversários internos, ou da exigência de uma fidelidade silenciosa a um líder que, apesar de o ser formalmente, ainda não demostrou na prática liderar o quer que seja para além de uma aparente rejeição de todo o trabalho levado a cabo pelo anterior líder, Pedro Passos Coelho. Ora, este ataque ao legado governativo do PSD representa tudo menos coragem, pelo contrário: é visto como capitulação e cobardia. Em cima disto, apostar na vitimização apenas demonstrará de forma mais visível que o Dr. Rio não tem nem as unhas, ou sequer a guitarra, para tocar a musica que o PSD de Sá Carneiro, Cavaco Silva e Passos Coelho gostaria de ouvir. Nos entretantos, a direita multiplica-se em alternativas ao voto no PSD: desde o CDS que, apesar do socialismo encapotado de Assunção Cristas, se voltou a posicionar à direita, passando pelas novas formações liberais, pelo Aliança, e culminando no “populismo“ de André Ventura com o seu Chega, todos eles defensores do legado de Passos, entre tantas alternativas e num novo tempo político onde o que conta para governar é conseguir eleger uma maioria de deputados à direita, a pergunta que muitos eleitores da PAF em 2015, e foram 40%, se deverão estar a colocar é por que razão, mesmo votando à direita, haverão eles de votar no Dr. Rio. Até agora, convenhamos, o próprio não apresentou muitas - e quanto mais persistir neste caminho pior será. Boa sorte com isso.

DAMN REGULATIONS


SOBRE JORDAN PETERSON

Aqui já há uns tempos atrás comecei, a propósito da minha investigação académica, a prestar atenção ao trabalho do Carl Jung. Apesar de, verifiquei mais tarde, a coisa não ter forma de colar com a minha tese, não obstante, a minha investigação legou frutos. Primeiro, desde logo, ler Jung é por si só uma experiência fascinante: a descodificação que faz do processo de maturidade do ser humano e a transposição desse mesmo processo para um conjunto meta-psicológico que inclui a condição humana como um todo é algo que, parece-me, pode muito bem revelar-se como uma porta entreaberta para o futuro, não apenas da psicologia analítica mas, eventualmente, da própria filosofia.
Assim, além do prazer da leitura de Jung, sobrou-me também um conjunto alargado de ideias para uma investigação futura que, além da área da metafísica e a relação desta com a filosofia política - a minha área de trabalho académico actual -, inclua também uma incursão no terreno do sagrado, do mitológico e no processo de maturação psicológica. Só por isto o meu tempo já teria sido muito bem empregue. No entanto, ainda ganhei mais com a minha incursão por terrenos Jungianos. Refiro-me, naturalmente, a Jordan Peterson, um estudioso de Jung que tinha publicado diversas palestras sobre o assunto no Youtube.
Ao contrário do que activistas ignorantes e mal-intencionados, bem como ressentidos intelectuais, possam fazer parecer, Peterson não é apenas um "professor de psicologia". É um professor de psicologia, é certo, mas não é um professor qualquer: é um dos mais prestigiados investigadores académicos no seu ramo estando no top 1% de citações académicas, tem inúmeros artigos publicados, uma obra compreensiva e extremamente original também ela publicada - "Maps of Meaning" - e foi o detentor da cadeira de psicologia analítica em Harvard até, pelo próprio pé, ter decidido ir para a Universidade de Toronto. Não é, convenhamos, um currículo qualquer.
No que concerne à substância, Peterson não deixa de ser igualmente notável: aliou a sua formação de base em psicologia com uma investigação prolongada sobre o fenómeno da adição, coisa que lhe permitiu entrar no campo da neuro-psicologia, e daqui na neuro-biologia. Cruzar o campo psicológico com o biológico dirigiu-lhe a vontade para uma procura de uma base intelectual que fosse, por um lado, fiel no pragmatismo à tradição norte-americana mas que, por outro, conseguisse sustentar argumentos sólidos contra o relativismo moral cada vez mais dominante. Esta abordagem, só por si, é inovadora e representa um desafio para qualquer pessoa preocupada com a temática da ética, da moral e/ou da teoria política.
Finalmente, Peterson, motivado desde muito novo pelos horrores do nazismo e do comunismo, focou em particular a sua atenção nas razões que levam sociedades inteiras a abraçarem soluções que, pela sua violência e trágica mortandade, maldade mesmo, nos parecem hoje como modelos aberrantes. No entanto, e Peterson não se cansa de afirmar isto, tanto os comunistas como os nazis não deixaram de ser pessoas, bem como de gerar movimentos imensamente populares, o que nos deverá forçar a pensar estes fenómenos com maior profundidade do que apenas a noção maniqueísta do bem contra o mal. Pelo contrário, devemos tentar compreender o que está dentro de todos nós, na nossa condição humana, que nos possa levar a abraçar o autoritarismo violento como uma solução para o mundo - e dessa forma aprendermos a controlar essas pulsões para garantir que não se repitam os horrores do Século XX.
Ora, neste projecto as suas grandes influências são, desde logo, precisamente Jung, que trabalhou a vida inteira nesse sentido, mas, também, Nietzsche, cujo trabalho conhece com bastante profundidade, bem como o existencialismo literário russo do século XIX, em particular Dostoievski, do qual retira - tal como, por exemplo, Isaiah Berlin também fez - o registo literário descritivo dos modelos psicológicos e sociais que acabaram por estar na base do totalitarismo soviético.
Peterson é um verdadeiro académico, mas também um pensador eclético que oferece originalidade, mais do que por grandes rasgos de inovação, pela capacidade de juntar os campos da psicologia analítica, da neuro-biologia e da filosofia (esta q.b) e, desta junção, apresentar um todo que é coerente, relevante bem como uma contribuição importante para as grandes questões do Século XXI.
As suas teses acabam por centrar-se na apologia da liberdade individual como força criadora da Humanidade mas, também, como o único tampão que protege a liberdade da sociedade face à necessariamente sempre presente componente tirânica do colectivo. O indivíduo, para Peterson, é necessariamente a unidade de medida política, bem como a base da identidade social, devendo por essa razão rejeitarem-se todas as formas mais ou menos encapotadas de identificar pessoas como meros membros de determinados grupos sociais que partilham determinadas características identitárias. É aqui que se insere a rejeição das quotas, por exemplo. Para Peterson, qualquer transferência da legitimidade política individual para uma pretensa igualdade de grupo perante a lei representa um passo na direcção do fortalecimento do colectivo sobre o indivíduo, logo um aumento da possibilidade do autoritarismo, bem como um convite imediato para a invasão do Estado - um elemento sempre tirânico na manutenção da ordem - na esfera privada dos indivíduos.
Do mesmo modo, a liberdade individual implica a responsabilidade por si próprio, bem como pelos outros, tal como a aceitação de que o mundo, tal como a vida, é necessariamente injusto e que a atenuação dessa injustiça passa por um processo gradual mas constante no qual se exige a participação de todos, mas não a imposição de soluções salvíficas que coloquem em causa a base fundamental filosófica do Ocidente: a soberania do indivíduo, a única coisa que nos protege das tragédias dos autoritarismos (quer de esquerda quer de direita).
A par disto, devido a uma inabalável coerência entre a sua conduta particular e pessoal e os princípios éticos e políticos que advoga - uma raridade nos dias de hoje -, viu-se arrastado para uma polémica sobre liberdade de expressão no Canadá, e daí para a o palco mundial. Nesse processo tem mantido grande serenidade bem como fidelidade aos princípios que advogava mesmo quando ninguém fora da Academia sabia quem ele era. O ano passado publicou o "12 Rules for Life", um livro que descodifica a sua primeira obra e procura tornar acessível a um público mais alargado o seu pensamento através de uma operacionalização prática das ideias presentes em "Maps of Meaning".
Em suma, concordando mais ou menos, Jordan Peterson representa uma mais-valia para a Academia e para o debate público Ocidental, um debate, aliás, que se tem paulatinamente transferido dos jornais e televisões para a Internet, razão pela qual nos poucos segundos, ou linhas, que o mainstream mediático prestou ao pensamento de Peterson, as suas ideias surgirem normalmente deturpadas, simplificadas ou, como foi o caso em Portugal de um artigo absolutamente ridículo da Revista Sábado, deliberadamente adulteradas por forma a integrarem a narrativa politicamente correcta actual.
Podem, portanto, chamá-lo de burro à vontade, como a Maria João Marques fez ontem repetidamente no Facebook, mas duvido que haja muita gente no planeta, incluindo neste toda a Academia internacional, que detenha, primeiro, um currículo com o gabarito do de Peterson, depois, que seja responsável por uma contribuição tão relevante para a academia como, goste-se ou não, ele é, bem como, finalmente, que detenha uma bagagem intelectual tão estratosférica para se permitir a subir a um cavalo tão alto, mas tão alto mesmo, do qual pode olhar para Peterson de cima para baixo e, assumindo não o ter lido, propor-se a destratá-lo em fórum público sem fazer a mais pálida ideia do que está a falar apenas porque não gosta do soundbyte que lhe chegou às orelhas.
Aliás, os seus detractores não invariavelmente demonstram de forma mais ou menos assumida nunca ter lido a sua obra, o que se compreende, pois só assim se pode, independentemente de maior menor concórdia a propósito deste ou daquele tema, destratar quem não se conhece. Conclusão? A maioria fala do que não sabe e do que não leu com a estridência própria de quem não se sente minimamente responsabilizado a postular apenas sobre aquilo do qual sabe - nem que seja um pouco.

DESRESPONSABILIZAÇÃO

O apelo do pós-modernismo para a extrema-esquerda tipo-bloco assenta na desresponsabilização individual: não és rico? A culpa é do sistema capitalista que não te deixa enriquecer. Falta-te dinheiro? A culpa é do teu vizinho rico que ficou com ele e tem mais que tu. Vives em ansiedade? A culpa é da tua família que te oprimiu inculcando valores que não são teus. Sentes-te diferente sexualmente? A culpa é da sociedade que te faz sentir diferente. Sentes-te intranquilo com a tua identidade sexual? A culpa é do sexo biológico que tens e que não corresponde ao teu “género” verdadeiro. A dinâmica é sempre a mesma: na tensão entre o indivíduo e o mundo, o mundo é que está errado. É assim, sempre desresponsabilizando, que se gera o novo revolucionário: “eu sinto-me mal, a culpa é tua“ é o novo slogan do rebelde do Século XXI. No entanto, e este é o reverso da medalha, sem responsabilidade não pode haver liberdade: quem coloca no mundo a causa, e portanto também a solução, dos seus problemas abdica de os resolver sozinho, por si próprio, ou seja, fica dependente do mundo para se sentir melhor. Para preencher esta necessidade artificialmente criada então lá virá o Estado salvar, resolver e proteger: da desresponsabilização à dependência, e desta à subserviência, eis a agenda subversiva da extrema-esquerda. Até agora está a resultar.

POLÍGRAFO

A mim essa coisa do Polígrafo nunca me enganou: quem aparece a anunciar-se em nome da verdade acaba sempre a propagandear a sua particular ideia de verdade. Aliás, a arrogância ignorante de quem acha que poderia infalivelmente desvendar a verdade parece-me ser directamente proporcional à incapacidade de ver a realidade que passa defronte do seu próprio nariz. O Polígrafo é apenas mais uma pequena confirmação desta regra. “Google da verdade”? Tenham tino.

SAME DREAM


CORDÃO SANITÁRIO

Qualquer pessoa que tenha tido a oportunidade de trabalhar em grupo percebe facilmente que aquilo que une um grupo é a capacidade de partilhar um objectivo: se houver um objectivo pré-definido com o qual todos concordam então o grupo une-se para atingi-lo, divergindo apenas sobre quais os melhores meios, ou formas, para atingir tal objectivo.
No entanto, quando há objectivos que são incompatíveis uns com os outros, porque os melhores meios para alcançar um objectivo não serão igualmente os melhores para atingir um outro diferente objectivo, então uma escolha impõe-se. Nesse momento, porque há preferências, o grupo tende a dividir-se entre os que pretendem perseguir um objectivo e os outros que preferem o objectivo alternativo.
Em sociedade, o mesmo acontece: pessoas diferentes perseguem objectivos diferentes por meios diferentes. No entanto, é forçoso que se compreenda que aquilo que permite a possibilidade de escolher entre diferentes objectivos é o facto de vivermos em liberdade. Nos sistemas autoritários e totalitários as escolhas entre objectivos sociais, económicos ou políticos estão a cargo do sistema central de poder, ou seja, do Estado.
Para manter a nossa liberdade - que imagino ser algo do qual todos gostamos de usufruir - então temos que assumir que todos os objectivos são legítimos desde que não sejam incompatíveis com um objectivo fundamental, ou primordial, que passa por defender precisamente essa liberdade. Ou seja, o nosso objectivo comum, e primeiro, passa sempre por defender a manutenção de uma democracia liberal assente no mercado livre, no princípio da igualdade perante a lei, no direito à propriedade privada e na liberdade de escolha política, económica e social. Isto significa que todos os objectivos são legítimos desde que não coloquem em causa este conjunto de princípios maiores.
Daqui se conclui facilmente que aceitar no jogo democrático grupos que advogam o contrário destes princípios, estejam eles à direita ou à esquerda, tem os seus riscos. Primeiro, implica termos autênticos conspiradores contra a democracia liberal dentro do nosso grupo político; depois, quanto mais poder esses grupos tiverem, mais se acentuará uma divisão quanto aos objectivos do próprio grupo: cria-se um fosso, um fosso intransponível, entre os que advogam a manutenção da democracia liberal e os outros que advogam a sua substituição por outro modelo de organização social. No meio estarão os que são levados ao engano pela propaganda que anuncia o sol na eira e a chuva no nabal apregoada por essas soluções extremistas sem perceber que o preço que pagam por esse sonho é precisamente o mais alto de todos: perder as liberdades que tão dificilmente foram alcançadas pelas gerações que nos antecederam.
Daqui decorre também a polarização política pois que, como vimos, com objectivos incompatíveis força-se uma escolha - e a subsequente divisão entre quem advoga escolhas incompatíveis entre si. Nos dias de hoje vivemos a polarização entre os defensores das nossas liberdades e aqueles que de forma subversiva conspiram contra elas, em particular os movimentos comunistas que detestam a propriedade privada e a economia livre de mercado, tal como os movimentos neo-marxistas que detestam a sociedade livre e que querem fazer vingar um novo modelo social onde tudo, incluindo a sexualidade, passe a ser tutelado e regulado pelo Estado.
Estes são os adversários de hoje da nossa Liberdade e se não os rejeitarmos radicalmente é o nosso modo de vida, a nossa prosperidade e o nosso bem-estar que estão em perigo.
Em Portugal, fruto da coligação da esquerda moderada (PS) com a extrema-esquerda comunista e radical (BE e PCP) formada para garantir o poder temos agora em plena actividade dentro do próprio Estado estes inimigos da Liberdade. São eles que instigam o ódio dentro do nosso grupo porque são eles que chamam a todos os que não concordam com eles de fascistas, racistas, e maníacos com diversas fobias. São eles que impedem o diálogo sereno democrático porque a eles não lhes interessa defender a democracia, pelo menos a nossa que é assente na liberdade. São eles também que garantem a distribuição de subsídios por associações e universidades visando a difusão de uma ideologia identitária que classifica a família tradicional e a norma social espontânea como fontes de opressão que devem ser deliberadamente alteradas pelo Estado. São eles que querem forçar essas ideias de forma propagandística nas escolas às nossas crianças, através de manuais escolares obrigatórios e de directrizes estatais que forçam os professores a cumprir programas com os quais não concordam. Em suma, são eles os inimigos da nossa Liberdade e da nossa democracia.
Em Portugal, a muito custo, estes grupos extremistas foram mantidos fora do poder através de um cordão sanitário que, em nome da democracia, e das nossas liberdades - reconhecidas, e bem, pelos partidos democráticos como o objectivo primordial do nosso sistema político - foi norma até o Dr. Costa, derrotado em eleições livres e justas, ter levado o PS a coligar-se com a extrema-esquerda. O PS motivado por uma terrível sede de poder rompeu então esse cordão sanitário e, em troca do apoio ao seu governo, abriu de par em par as portas dos ministérios a estes perigosos radicais.
Pior que a falência reiterada que causou em Portugal, pior que os casos de corrupção evidentes que até levaram o anterior primeiro-ministro socialista à cadeia, pior que isso tudo, este romper do compromisso democrático através de uma aliança cínica e interesseira com as forças não-democráticas da Assembleia da República é bem capaz de ser o mais grave atentado alguma vez perpetrado contra a democracia portuguesa. Algo que deveria encher os socialistas de vergonha e elucidar os portugueses moderados sobre os perigos de votar no partido socialista.

POR QUE SERÁ?

O título desta notícia define os conflitos - expostos no corpo da noticia - entre o Presidente do PSD e os seus críticos como “ataques”. Ora, não deixa de curioso porque isto revela que o Público pressupõe que a direcção do PSD está sob ataque, uma ideia que é simpática para a liderança, tal como um fiel eco das declarações de vários dirigentes do PSD durante esta semana. No entanto, lendo a sucessão de casos, o título poderia muito bem ser: “Dez meses de Liderança de Rui Rio no PSD: de trapalhada em trapalhada.” Aí, o pressuposto seria o oposto, passando-se a noção que a direcção do partido teria cometido asneira sobre asneira. Este título seria evidentemente simpático para com os críticos, tal como os adversários, de Rui Rio. Também poderia o título ser neutro, coisa complicada em Portugal, em particular com o jornal Público, mas num exercício de grande especulação intelectual poderemos fantasiar sobre um título que dissesse qualquer coisa como: “Dez meses de Liderança de Rui Rio no PSD: de problema em problema.” Aí, não haveria vítimas ou culpados, apenas uma neutra, logo isenta, exposição de um conjunto de problemas, ou casos, absolutamente factuais de resto, que a direcção do PSD enfrentou, ou criou, nos últimos dez meses. Neutralidade e isenção absolutas são sempre impossíveis, mas há limites, limites os quais são permanentemente ultrapassados no jornalismo português. Serve este, aliás, como um pequeno exemplo de como é muito fácil dar um subtil spin tendencioso ao criar-se uma notícia. Mais curioso, no entanto, ainda é ver o Público, o sempre fiel pasquim do regime, a defender a liderança do Dr. Rio. Interessará a quem? Não me digam que é ao PS e ao Dr. Costa que eu não acredito: esses estão atemorizadíssimos com a excelente oposição do PSD do Dr. Rio.

GUESS WHO


HORA DE ACORDAR

Um dos capangas do bloco de esquerda teve o desplante de afirmar que, e passo a citar, “a direita não conta para o futuro do país”. Não se iludam, por “direita” o indivíduo não quis dizer “partidos de direita”; não, por “direita“ o comunista quer significar os partidos, os militantes e os eleitores de direita, ou seja, cerca de 40% da população eleitoral das últimas legislativas. Verdade seja dita eles lá vão dizendo ao que vêm: assumem, por exemplo, que não têm que ter vergonha de ir buscar dinheiro onde ele existe, ou seja, ao bolso dos que o têm. Aliás, não faz ainda assim tanto tempo que um destacado representante desse partido, o famoso ex-vereador-agora-milionário Robles, afirmava em voz bem alta na Assembleia Municipal de Lisboa o orgulho do bloco de esquerda nas nacionalizações de 1975. A verdade resume-se assim: são comunistas, são autoritários, detestam o mercado livre, a propriedade privada e a liberdade individual. São, em suma, inimigos do nosso modo de vida livre e próspero na mesma exacta medida em que são apologistas de todos aqueles regimes comunistas que resultaram, e resultam, em miséria, morte e tragédia. Ver uma comunicação social que estende o tapete vermelho a esta gente, tal como um Partido Socialista que, para garantir o poder numas eleições onde foi derrotado, os levou de mão estendida para o poder, abrindo-lhes as portas de par em par dos ministérios e das secretarias de estado, tudo isto é um sintoma terrível de decadência democrática. Está na hora de acordar.

FEDOR

O Presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues, o homem que ficou célebre por afirmar, com a educação que se lhe reconhece, que se estava “cagando para o segredo de justiça”, está muito preocupado com a credibilidade da Assembleia da República, credibilidade essa que ficou conspurcada desde logo de forma indelével pelo simples facto de ele próprio, Ferro Rodrigues, algum dia ter ocupado o cargo que ocupa. Serão precisas gerações e, quiçá, revoluções para que desapareça o fedor largado por esta triste caricatura na cadeira da terceira figura da República. Se se quiser ver o descrédito da política portuguesa não é preciso ir ver as senhas do Deputado Silvano, basta olhar-se para o chefe de banda da Assembleia da República.

UMA TRISTE COMÉDIA

Na mais perfeita sitcom de sempre, Frasier, os melhores episódios sempre foram os das comédias de enganos onde, a partir de mentiras momentaneamente necessárias, o enredo se vai desenvolvendo com mentiras sobre mentiras cada vez mais implausíveis até atingir o clímax cómico onde, para não variar, a catástrofe atinge os protagonistas ridicularizando-os e proporcionando momentos de grande gargalhada. Assim segue o presidente do PSD e a sua relação com os seus secretários gerais, sempre de treta ética em treta ética, até se estatelarem todos no ridículo geral - onde da ética não sobra nada. Infelizmente arrastam com eles, e com a sua suposta ética ruirioista, o partido bem como, atrelada com ele, uma ajuda preciosa para a destruição da credibilidade generalizada da Assembleia da República. Como se já não bastasse o desaforo democrático que a frente de esquerda parlamentar corporiza a cada dia. Não fosse o assunto sério e estaríamos todos a rir.

sábado, 10 de novembro de 2018

AD ABSURDUM

Eu acho isto excelente: é um argumento ad absurdum que ajuda a demonstrar como a mudança de sexo legalmente certificada pelo Estado é um embuste inaceitável. Afinal, se o Estado anda a certificar homens como mulheres e mulheres como homens por que não há-de certificar velhos como novos ou novos como velhos? Ou, já agora, como objectos, animais ou substâncias? O próximo caso imagino que seja algo como isto: homem processa o Estado por certificar através do Cartão do Cidadão que a sua esposa era uma mulher apenas para descobrir que afinal a senhora em questão é um ser humano do sexo masculino apenas que tratado com hormonas femininas e operações plásticas de vária ordem, incluindo genital. Por mais que a propaganda ideológica diga o contrário, lamento mas a terapia hormonal e plástica não altera a realidade cromossomática de ninguém, no caso do indivíduo do exemplo seria sempre XY, ou seja: masculina. O Estado certificar um indivíduo XY como XX está a levar pessoas ao engano e, quanto a mim, a colocar-se a jeito para ser processado - e bem. Qual a indemnização que uma pessoa casada anos com alguém que imaginava ser de um sexo e que afinal se revela de outro tem direito? Quer da parte do cônjuge, quer da parte do Estado? O curioso é que a malta da extrema-esquerda e das causas indentitárias acha sempre que o Estado serve para tudo mas, imagino, nesse caso, já não deveria servir para nada: um transsexual que minta sobre o seu verdadeiro sexo ao seu cônjuge sairá impune porque é o próprio Estado que o reconhece como tal. No final, venham é mais destes loucos (será que não é propositado?) como o holandês do artigo para que se revele a insanidade da agenda pós-modernista identitária e que se regresse à natural base biológica, a única que permite certificar seja o que for.

POUCOCHINHO MAS EM ALEMÃO

O provincianismo português leva, por um lado, à ilusão de que a realidade portuguesa é a maior e melhor do mundo. No entanto, por outro lado, paradoxalmente, esse mesmo provincianismo traz com ele um inconsciente complexo de inferioridade face a um mundo que não se compreende. Desse complexo deriva o deslumbre para com o estrangeiro, e com as coisas do estrangeiro, coisas essas que são vistas como mais civilizadas e mais avançadas do que as da pátria que o provinciano, mesmo imaginando enorme, não deixa de sentir como pequenina. Isso faz com que para se valorizar face aos vizinhos, no desespero, o provinciano se transforme em parolo, um parolo deslumbrado com a civilização estrangeira que quer importar para Portugal. É essa importação que, como dizia o Eça, precisamente por não ser natural, nos fica sempre curta nas mangas. E são essas curtinhas mangas que se acabam sempre a revelar nas figurinhas ridículas com as quais, devido ao seu mesquinho umbigo, o parolo, sempre a querer alçar-se ao nível superior ao seu e onde imagina estar essa civilização superior à qual quer mostrar pertencer, ao dar ares de pavão e galaró exibicionista, se estatela em atitudes despropositadas, embaraços desagradáveis e motivos de vergonha alheia. Agora alguém que faça o favor de traduzir isto para alemão e mandar para a sede nacional do PSD: aparentemente o seu presidente é demasiado civilizado para responder em português aos jornalistas que o questionavam sobre as infracções legais do seu secretário-geral.

TOPS

Pessoalmente, ninguém me convencerá que a moda das calças curtas pelos tornozelos não é uma conspiração capitalista das multinacionais vendedoras de roupa: vendem mais caro calças com menos tecido. Moda seguinte? Barriga à mostra, tops para homens.

POUCOCHINHO

A relação do Dr. Rio com a Ética faz lembrar aquela célebre resposta do Richard Nixon ao David Frost em que aquele assume que “se o presidente dos EUA o faz então é legal”. O Dr. Rio, que é homem de vôos ainda mais altos, não se fica pela legalidade; não, legalidade é poucochinho, para o Dr. Rio a bitola é pela Ética mesmo: “se o Dr. Rio o faz é porque é ético”, poderia ser o lema. Ora, o problema é que, como os exemplos do Dr. Barreiras Duarte e do Secretário-Geral Silvano o demonstram, no que concerne à Ética, muito pouca gente concorda com o Dr. Rio, por ventura apenas os seus mais directos apaniguados. Daqui deriva uma dessintonia evidente entre, por um lado, a imagem de paladino da Ética que o Dr. Rio faz gala de exalar e, por outro, aquilo que todo o comum dos mortais entende como comportamento ético. Como a Ética do Dr. Rio não aparenta ser muito diferente daquela que impera numa classe política desacreditada, acrescentando-se ainda que aquilo que o Dr. Rio prometia trazer para essa classe política era precisamente um novo exemplo ético, então conclui-se que, feitas as contas das quais o Presidente do PSD parece gostar tanto, o Dr. Rio não acrescenta rigorosamente nada. Aliás, muito pelo contrário, até subtrai: é mais um que apregoa o que não faz e que só faz o que lhe interessa, ou lhe dá jeito, tratando dos seus independentemente das malfeitorias que eles venham a fazer. Entre a irrelevância política incapaz de apresentar um fogacho de alternativa, ou sequer oposição, à frente de esquerda parlamentar que nos governa rumo ao abismo e a hipocrisia ética constantemente desmascarada, entre um e outro, 20% é bem capaz de ser demais para o Dr. Rio. O CDS e o Aliança, imagino eu, agradecem. Sobra o desejo que esta página negra do PSD seja rapidamente virada e que, no futuro, a liderança do Dr. Rio seja vista como uma pequena questiúncula numa história maior de um dos grandes partidos da democracia portuguesa.

O COMBATE

Quando afirmar o óbvio - por exemplo, que homens e mulheres são biológica e psicologicamente diferentes - se revela um acto de heresia então torna-se por demais evidente que a ditadura do politicamente correcto imposta pela agenda identitária da esquerda não é mais do que um embuste ideológico contra o senso comum e, como todas as ideologias contrárias à liberdade individual, um atentado contra a dignidade das pessoas a quem pretendem impôr uma falsa verdade. Do mesmo modo, não - nem pouco mais ou menos! - o género, tal como sexo, não é uma construção social, coisa que se demonstra de forma factual e científica. Por isso mesmo, e isto é algo que tem que ser dito, não é aceitável termos nos currículos escolares uma imposição ideológica dessas ideias. Pior ainda: é absolutamente inadmissível termos professores a interrogar crianças e pré-adolescentes sobre as suas preferências sexuais, tal como se se sentem melhor ou pior com este ou aquele sexo. Esta última ainda tanto mais inconcebível considerando que terapias de “mudança de sexo” não passam de uma alteração artificial de um equilíbrio hormonal acoplada com operações plásticas, bem como mutilações genitais, que alteram a aparência exterior dos indivíduos mas que, como é evidente, nada mudam face à realidade cromossomática que define o ser humano e o divide, pasmem-se, em apenas dois sexos com naturais diferenças entre si. Aquilo que os Estados vergados à agenda identitária da esquerda estão a impôr sobre as nossas crianças no ensino obrigatório é uma violência que as famílias e os pais devem rejeitar de forma absoluta e inequívoca, isto para bem da saúde e estabilidade mental dos nossos filhos. Da mesma forma, a lei aprovada que permite a adolescentes “mudarem de sexo” a partir dos 16 anos sem o consentimento dos pais é um atentado terrível contra a família: nesta temática, entre os 16 e os 18 anos, o Estado manda mais dentro da família do que os próprios pais, coisa tanto mais descabida se considerarmos que o mesmo Estado que entende que um indivíduo que não tem maturidade suficiente para votar já terá maturidade para decidir de forma definitiva sobre um tema tão complexo e traumático como uma operação tão violenta como a “mudança de sexo”. Destes exemplos se devem retirar duas conclusões: primeiro, que estes temas são fundamentais para a sociedade pelo que devem os partidos políticos ter posições muito claras sobre esta matéria para que os cidadãos possam decidir em quem votar; depois, que é forçoso que as pessoas acordem para o autêntico crime que a agenda extremista da esquerda vai impondo a pouco e pouco, quer através de especialistas académicos em pseudo-ciências subsidiadas pelo Estado, quer através dos próprios ministérios para onde os radicais se infiltraram para desenhar políticas de género e orientação sexual - neste aspecto a aliança do PS à extrema-esquerda é perigosíssima -, tudo sempre pela calada e a coberto do politicamente correcto que não pode ofender minorias (como os activistas homossexuais) e ultra-minorias (como os transexuais). Urge agir, não tenhamos dúvidas.

NEO-MARXISMO

Esta manhã, num assomo de masoquismo, estive lendo os artigos do Observador sobre a convenção do bloco de esquerda que decorre este fim de semana. Verdadeiramente extraordinário é ver os jornalistas portugueses (infelizmente nem o Observador é excepção) a falarem das tendências A ou B, das figuras X ou Y, como se falar de marxistas, marxistas-leninistas ou trotskistas fosse uma coisa banal em democracia. Não é. Falamos de correntes comunistas, todas elas apologistas dos regimes comunistas que nos últimos 100 anos mataram mais de 100 milhões de pessoas. Falamos de lunáticos que encolhem os ombros perante as atrocidades cometidas pelo regime totalitário da Coreia do Norte. Falamos de gente que acha que na Venezuela, onde milhões de pessoas passam fome HOJE, é que se vive em liberdade e que o problema é a economia de mercado livre do Ocidente. Não, não é normal falar-se de comunismo e comunistas numa democracia liberal pela simples razão que todos os comunistas são contra a democracia liberal. No entanto, para a comunicação social portuguesa estes comunistas são democratas, são políticos como os outros. Já um tipo que se assuma um democrata liberal mas que seja contra a ideologia de género, que renegue a ditadura do politicamente correcto ou que exprima uma opinião polémica é logo prontamente apelidado de extremista, como se estes do bloco de esquerda não fossem eles sim profundamente extremistas, ou de fascista, como se estes do bloco de esquerda, estes que conspiram abertamente contra as liberdades ocidentais, não fossem eles os verdadeiros advogados do “tudo no Estado e nada contra o Estado“, ou seja, perfeitos fascistas. Esta hipocrisia mediática perverte profundamente a democracia portuguesa, e muito do descrédito do regime passa precisamente por este jornalismo de copy paste, sem qualquer crivo de coerência intelectual, onde hoje se pode dizer o contrário do que se disse ontem sem que se questione o que quer que seja, tal como um comunista se pode fingir de democrata. Uma tristeza.

CORTINA DE FERRO

A cortina de ferro ainda não desapareceu. Muito pelo contrário, os seus efeitos ainda se fazem sentir hoje, uma evidência empírica mas que não impede de não faltarem em Portugal bandos de comunistas - um deles está hoje reunido em congresso - a anunciar a banha da cobra, bem como um número infindável de idiotas úteis que, seja por estupidez, inocência ou interesse, continuam apostados em enviarem-nos para o lado de lá.

O FUTURO DO SEXO

Numa sociedade hiper-sexualizadada e hiper-estatizada torna-se a cada dia mais evidente que o próximo passo será - para o nosso bem e segurança - o de regulamentar publicamente o sexo. Declarações, certificações e cláusulas especiais; carimbos, aprovações e, naturalmente, as respectivas taxas, assim serão os preliminares sexuais daqui por menos de vinte anos. As vantagens deste sistema público sexual são evidentes: o fim do assédio, o fim das violações, o fim do desconforto emocional em busca de consolo sexual com outras pessoas. No entanto, a maior vantagem será mesmo que, em nome da coerência para com os valores actuais, uma vez que o sistema será tutelado pelo Estado então imperará a justiça sexual pública que naturalmente garantirá igualdade na satisfação sexual para todos. Ora, isto forçará a que todos contribuam sexualmente para que haja um mínimo de sexo garantido pelo Estado para aqueles que menos têm: a satisfação sexual é um direito! O imposto sexual, assim será chamado, obrigará os sexualmente privilegiados a conviverem intimamente com os sexualmente oprimidos, isto claro, independentemente de sexo, género, condição, idade, raça ou, quiçá, espécie. Que se enganem os críticos: sexo forçado não é violação se for mandado pelo Estado. Pelo contrário, sexo estatal é felicidade e harmonia social, em última instância, o mais prazenteiro dos diversos prazeres sexuais: quem fornica a mando do Estado fornica com todos! Ah, a felicidade de imaginar tal sistema! Ah, a libertação orgásmica face aos constrangimentos das sociedades oprimidas pela moralidade arcaica dos nossos antepassados à qual nada devemos! Assim sendo, proponho que se crie já um partido para lutar pela causa da igualdade sexual. Quem não apoiar será, evidentemente, sexista e opressor. Vamos lá, vá, estuguemos o passo que já estivemos mais longe e nunca tão perto. A felicidade está já aí ao virar da esquina.

O NOVO MARXISMO

O grande problema da esquerda marxista no pós-segunda guerra foi o enorme sucesso do capitalismo e da economia de mercado. O crescimento económico, a riqueza gerada e a crescente terciarização da economia fizeram com que os marxistas deixassem de ter oprimidos para libertar: os cada vez menos operários existentes cada vez mais ganhavam mais e engrossavam, através das oportunidades geradas pelo mercado livre, bem como do fruto do seu esforço em aproveitá-las, as fileiras das classes médias. A sociedade aburguesou-se porque, e isto é o ponto fulcral, a sociedade enriqueceu como um todo: os mais pobres das nossas sociedades ocidentais são muito mais ricos, mas muito mais ricos mesmo, que os pobres, não apenas da época da industrialização, como daqueles países que, ainda hoje, não se organizam em economias de mercado.
Como resolver a questão do ponto de vista marxista? Ora, onde não havia oprimidos para libertar teriam que se inventar. Daí que, desde aí, porque os pobres desapareciam a olhos vistos, se tenham ocupado a traduzir o conceito da superestrutura marxista opressora da esfera económica para a identitária: porque os seres humanos não são iguais, e em todos os sistemas existem hierarquias, a extrema-esquerda identificou aqueles que poderiam ser mais facilmente persuadidos de que as responsabilidades da sua condição menos agradável face aos mais bem sucedidos se deveriam atribuir ao sistema capitalista, e em particular a quem controlaria o sistema, o novo bicho papão agora inventado para preencher o papel outrora representado pela burguesia no velho-marxismo: o hetero-patriarcado branco.
Deste modo, apropriando-se, em alguns casos, de aspirações legítimas (igualdade sexual entre homens e mulheres, descriminalização da homossexualidade, etc.), e noutros, de ressentimentos (a criação de riqueza generalizada cria forçosamente um maior número de indivíduos muito mais ricos que a maioria, e com uma desigualdade maior, o chamado 1%), a extrema-esquerda conquistou um novo discurso que, precisamente por dar resposta a algumas aspirações legítimas, teve boa aceitação social, em particular nos jovens, e desse modo conseguiu embrulhar em papel dourado um produto bem velhinho: a destruição do modo de vida Ocidental, ou seja, o fim do mercado livre, a restrição da propriedade privada e a instauração de um suposto homem novo, o homem livre de todas as opressões, de todas excepto aquelas causadas pela autoridade do Estado que serviria agora para forçar os indivíduos, mesmo que contra a sua mais profunda vontade, a viver a liberdade que os líderes políticos e espirituais do movimento definiriam que cada um de nós deveria viver.
No entanto, atente-se, este novo marxismo consegue ser pior que o original: enquanto o marxismo tradicional, apesar de denunciar uma opressão intelectual que com um suposto ópio alienava o povo, se concentrava nos meios de produção materiais, já este neo-marxismo identitário soma ao velho marxismo materialista a interferência pública na regulação das próprias identidades dos indivíduos. Ou seja: aumenta o seu raio de acção para dentro dos próprios indivíduos que pretende, através da propaganda e da educação estatal, moldar à sua vontade, de acordo com a sua ideologia de género e os rácios que os seus pseudo-especialistas inventam. Dessa forma, o totalitarismo que advoga é muito mais poderoso: no admirável mundo novo da extrema-esquerda não apenas os bens dos indivíduos são organizados pelo Estado como também a sua sexualidade, identidade de "género" ou, nos casos mais extremados, até mesmo a biológica.
A família será, naturalmente, a última linha de defesa a quebrar. Daqui decorre a vontade - absolutamente esdrúxula, aliás -, e que foi bem sucedida, de dar o "direito" a crianças de 16 anos de "mudarem" de sexo independentemente da vontade dos pais. Ou seja, um menor de idade não pode votar porque se entende que não tem maturidade para esse acto de responsabilidade mas, o mesmo Estado, já entende que o mesmo menor já tem maturidade para decidir de forma permanente sobre operações de mutilação genital e de introdução hormonal para transitar - na aparência - de sexo. O que daqui resulta é que, neste aspecto, o Estado já manda mais do que os pais, e isto é inaceitável porque, como deveria ser evidente, enquanto menor um filho ou uma filha estão à guarda da família.
A agenda da extrema-esquerda não vai parar. O ressentimento dos vencidos da história, aliás, nunca terá estado tão perto da vitória no Ocidente. No entanto, e isto parece-me pertinente, esta agenda igualitária, identitária, profundamente sexualizada, não colhe o apoio da maioria das pessoas. Seja por questões identitárias, seja por outras que também advogam como o multiculturalismo, ou, ainda, pelo falhanço económico nos locais onde conseguiram de facto ter poder (Venezuela, Cuba e, em âmbito diferente, no Brasil) cresce uma forte rejeição popular a este movimento neo-marxista. Nos jovens, através da internet, a darkweb e figuras como Jordan Peterson, estão a dar cartas e a arrastar consigo verdadeiras multidões. Apesar disto, esta agenda, de uma forma mais radical ou de uma forma mais intelectual, ainda domina as elites: nas universidades, onde uns se validam aos outros, nos media, nos partidos, nas organizações não-governamentais, nas agências governamentais. Daqui se percebe que a grande consequência deste status quo seja um discurso mediático das elites em profunda dissonância com as bases populares, uma dissonância que tem, de forma progressiva e indesmentível, debilitado os centros políticos e reforçado as votações de movimentos conservadores nos valores e mais liberais na economia. Assim tem sido na Europa (França, Alemanha, Holanda, Suécia, Áustria),com maior força no Leste, (Hungria, Polónia), tal como nos EUA, com Trump, e, agora, no Brasil, com Bolsonaro.
Em suma, se o centro moderado não for capaz de rejeitar a agenda cultural, política, económica, e sexual, deste novo marxismo, então esse centro será a curto prazo substituído por quem se prontificar a rejeitar essa agenda.

ESTADO LIVRE DO ALENTEJO

Lá fora, na varanda, a ausência de vento deixa a pairar na atmosfera húmida da serra alentejana o aroma a sobreiro ardido que a chaminé vai esfumando na noite. Cá dentro, rodeado de taipa e debaixo do tecto de madeira, no rádio toca o Vibrato da Antena 2, devidamente acompanhado pelo tique-taque do relógio de parede centenário que herdei do meu Pai. Ainda há pouco, cheio de corda, bateu as dez badaladas. Na minha poltrona, defronte da lareira e ainda confortado pelo jantar, leio o Camilo enquanto vou bebendo o medronho cá da casa. A liberdade, penso eu, é isto.

DA POLARIZAÇÃO

O Adolfo Mesquita Nunes tem escrito abundantemente sobre o problema da polarização política que se vai vivendo em Portugal, e não só, e que se traduz numa certa erosão do centro político e numa consequente crispação do debate entre pontos de vista que, de tão antagónicos entre si, colocam a prazo em risco a própria natureza democrática do nosso regime. Neste artigo - que linko abaixo nos comentários - diz o Adolfo, e passo a citar, "[que se trata] de uma polarização moral, a separação entre bons e maus, patriotas e antipatriotas, corruptos e lesados, elites e o resto das pessoas. Esta polarização impede o reconhecimento da legitimidade do outro lado, porque não é possível fazê-lo quando, do lado de lá, estão antipatriotas ou corruptos ou elites". Em seguida, continua o Adolfo afirmando que "para derrotar o socialismo, que é mau para o país, para vencer a esquerda, que tem uma visão muito diferente da minha, não preciso de prescindir da liberdade nem da democracia liberal nem de simpatizar com autoritarismos."
Ora, estamos, portanto, completamente de acordo nestas palavras. Há, no entanto, uma coisa que nos separa e é um optimismo que permeia o discurso do Adolfo fazendo com que ele acredite que para defender a democracia liberal baste fazer uma apologia da liberdade e da democracia liberal rejeitando os discursos dos extremos. Aqui eu estou em desacordo, primeiro, devido às causas da polarização e, depois, na prática ou estratégia que a direita liberal e democrática deve adoptar face a esta polarização.
Quanto às causas, concordo com o diagnóstico do Adolfo, mas o problema é que este não chega. É preciso também perceber que o que está na base do proto-desaparecimento do centro democrático é o facto de um compromisso fundamental no campo dos valores se ter erodido: onde antes a direita e a esquerda democrática, apesar de concorrentes eleitorais, partilhavam um compromisso valorativo assente na defesa da economia de mercado, no princípio da igualdade perante a lei e nos valores tradicionais das sociedades europeias, agora, no mundo contemporâneo, este compromisso não é evidente. Partidos comunistas, por exemplo, partilham agora o poder em Portugal tendo rompido o cordão sanitário que o centro moderado, e bem, lhes tinha imposto durante toda a nossa vida democrática. A razão para a importância desse cordão sanitário separando a extrema-esquerda do resto (a extrema-direita tal como se vai definindo hoje está proibida constitucionalmente) prende-se com o facto de serem partidos contra a economia de mercado, contra a liberdade individual protegida pela propriedade privada, contra a NATO, etc., etc.. A sua entrada na arena das alianças governativas em Portugal, tal como nos ministérios, fez com que o cinismo eleitoral tenha substituído a coerência ideológica como base do discurso político. Como pode um debate não ficar extremado quando ele é travado com extremistas é a primeira pergunta à qual a proposta do Adolfo não responde.
Depois, ainda no campo das causas, uma clivagem no âmbito dos valores impede que o debate permaneça dentro da área de conforto do compromisso democrático. Aqui, como exemplo mais flagrante, temos a agenda de género que tem vindo a ser advogada nas universidades, nas redacções e nas agências não-governamentais e que, em Portugal, acabou de entrar nos currículos do ensino obrigatório. Termos professores a perguntar a alunos se se sentem bem no seu sexo ou a trazer a intimidade e a privacidade da orientação sexual para a sala de aula é algo que mexe profundamente com as pessoas, tão profundamente que, aqui, a mera afirmação da liberdade torna-se irrelevante: é liberdade quando a escola impõe a um indivíduo um conjunto de preceitos sexuais que estão em profundo desacordo com aquilo que são os valores dos pais e da família desse indivíduo em particular? Um exemplo ainda mais concreto: que conceito de liberdade é este que defende que um jovem de dezasseis anos não tem maturidade suficiente para votar mas que pode, à revelia dos pais e da família, decidir-se por uma "mudança de sexo" que, mais não sendo do que uma mutilação sexual e uma ingestão violentíssima de hormonas, consiste num processo de consequências imprevisíveis e, pior, traumaticamente irreversíveis? Que liberdade é esta onde para "mudar de sexo", entre os dezasseis e os dezoito anos, o Estado manda mais dentro da família do que a própria família que, no limite, pode perder em tribunal a custódia do jovem?
Como não pode o debate ficar extremado quando vivemos uma disputa sobre o que significa o conceito de liberdade em que num dos campos, e bem alavancada nas academias subsidiadas e nas redacções dos jornais, temos uma extrema-esquerda cujos programas, assumidamente, estão apostados em destruir o modo de vida ocidental? Esta é a pergunta fundamental à qual o optimismo do Adolfo não responde.
Onde os valores não são partilhados sobra a gritaria sobre o que cada conceito significa, essa é a lição que as últimas décadas de multiculturalismo ocidental nos estão a ensinar.
Depois, quanto à prática: se não concordamos com o que significa o conceito de "liberdade" como pode a apologia da liberdade do Adolfo significar o que quer que seja neste debate polarizado? Para uns e outros significará, consoante a boa ou má vontade, aquilo que quiserem, ou que lhes dê jeito querer, entender que o Adolfo quer dizer por liberdade. No limite, acaba por não significar nada.
É por isso que é preciso fazer mais do que simplesmente advogar a liberdade. É preciso defender a nossa liberdade, a liberdade da nossa civilização, uma liberdade assente nos nossos valores, nos nossos princípios, nomeadamente uma defesa intransigente da economia de mercado assente na propriedade privada, a não abdicação da igualdade perante a lei independentemente de raça, sexo ou orientação sexual (as quotas de afirmação positiva infringem abertamente este princípio, por exemplo) e a defesa da crença que, no limite do possível, o Estado deve estar fora da esfera íntima das pessoas, especialmente ainda mais no caso das crianças. Mais haveria, mas, suspeito, basta defender estes pequenos princípios para que a polarização se efective: porque do outro lado estão radicais que enquistados no Estado, nas academias e nas redacções conspiram abertamente contra precisamente estes princípios que acabei de enunciar.
Finalmente, uma última nota mais prática: a grande maioria das pessoas não se identifica com a rejeição destes princípios por mais propagandeados que sejam pelos órgãos de comunicação social. Muito pelo contrário, toda a agenda multicultural que pretende defender as regras das democracias liberais sem defender os valores que permitiram, e permitem, que essas regras funcionem, não está a dar resposta a este ataque à base valorativa do nosso modo de vida; daí que, com esta presente dissonância entre, por um lado, as elites políticas supostamente moderadas que se abstêm de entrar no debate dos valores e, pelo outro lado, as populações que crescentemente o vão exigindo, dessa dessintonia nasce a erosão eleitoral do centro moderado: quando o centro não defende o compromisso político baseado nos valores perfilhados pelas populações então as populações vão procurar líderes que defendam os seus valores. Aqui reside verdadeiramente a génese do populismo polarizado, pois que, vendo a oportunidade, podem muito bem os que se levantam contra a ofensiva contra o nosso modo de vida revelarem-se como demagogos que mais não visam que o seu interesse particular de chegar ao poder. E isto é muito perigoso.
Daqui decorre que a verdadeira defesa do compromisso democrático e liberal terá que, sob pena do desaparecimento eleitoral dos centros moderados para os extremos, incorporar uma defesa intransigente dos valores democráticos e liberais, tal como serem esses valores advogados e defendidos pelos moderados na arena política. Não o fazer representa um perigo tremendo para a democracia e para o nosso modo de vida. Esse é o repto que deixo, não apenas ao Adolfo - alguém que muito prezo e que vejo como um grande aliado na defesa da nossa democracia liberal – mas a todos aqueles que queiram ajudar a defender o nosso modo de vida: democrático e liberal. Maior causa que esta não haverá na nossa geração.

DO YOU HEAR THE PEOPLE SING?

Lá em cima dos cavalos, seguem as elites, os senhores donos da verdade, das redacções dos jornais e dos conselhos de administração que mandam colocar as notícias, os especialistas das academias que explicam com certeza todos os fenómenos sociais, culturais e políticos, os donos, e fazedores, do politicamente correcto, do bem e da verdade multicultural, diversa e progressista, essa verdade que anuncia admiráveis mundos novos sem perceber, porque não leram ou, tendo lido, não compreenderam o Huxley, que esses mundos anunciados nada têm de novo, menos ainda de admirável. Cá em baixo, a ver passar a parada de lunáticos, rangendo, rosnando e murmurando entre dentes, estão as pessoas que, todos os dias, metem mãos à obra e vão à luta tratar de si próprias e da sua família. Os de cima, aqueles que tudo sabem, riem-se com desprezo da ignorância e estupidez dos outros, os que assistem cá de baixo. Desdenham dos que não sabem a verdade da qual eles são os fiéis intérpretes. No entanto, esquecem-se eles, os iluminados herdeiros da revolução, da revolução boa e verdadeira, que para toda a acção há uma reacção, e que para toda a revolução há uma contra-revolução. E tal como um dia os tambores rufaram por aquela da qual se consideram herdeiros também virá o dia em que os tambores rufarão pelos novos miseráveis, os novos desprezados, os agora esquecidos e desdenhados. Pergunta o coro se ouvimos as pessoas a cantar? Os dos cavalos não ouvem nada a não ser a eloquência das suas próprias palavras. E quanto menos ouvirem mais rapidamente cairão dos seus belos e limpos cavalos brancos. No final, quando o rufar dos tambores coincide com o bater dos corações das maiorias, chamem-lhes populistas ou o que quiserem, nada há a fazer: o povo, já se esqueceram, é sempre quem mais ordena. Convém ouvi-lo a cantar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

2084

Excerto da rubrica “Dúvidas dos Leitores” da futura publicação “A Verdade” do Partido Único Humanista Português:


”Ontem na sala de aulas da dixiplina de educassão sexual quando o setor esplicou o exercicio numaro cuarenta do kamasutra neutro de jénero ouve um pensamento proibido que pensei sem querer mas que pensei na mesma i que foi o pensamento sobre se calhar o setor não dever andar a praticar sexo com os colegas mesmo que seja para nos ensinar a ser-mos todos iguais e depois o setor viu a minha cara e disse que eu tinha problemas de integração de minorias. Tou muito priocupado Será que sou fáxista?”

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O FIM DA DEMOCRACIA LIBERAL

Podemos definir democracia de diversas formas. De uma forma mais literal, como o auto-governo do povo; de uma forma mais formal, como um conjunto de regras que garantem uma representação política a todos os membros de uma comunidade política; ou, por exemplo, de uma forma mais lata, como um conjunto de liberdades, direitos e garantias individuais que configuram as nossas sociedades políticas contemporâneas ocidentais. O facto de um conceito poder ter diferentes interpretações pode dar azo a muitas confusões, sendo um bom exemplo desta situação o facto do conceito de democracia ser tão lato que o Partido Comunista Português entenda que a defende, ou que o Presidente da C.M. de Loures, Bernardino Soares, tenha ficado famoso por advogar que a Coreia do Norte seria, segundo ele - e o PCP -, uma democracia.

Na verdade, Bernardino Soares tem razão: a Coreia do Norte pode perfeitamente ser considerada uma democracia: tem eleições (ainda há pouco tempo, em 2014, 100% dos cidadãos participaram num acto eleitoral electivo onde o actual líder obteve 100% desses mesmos votos), tem partidos políticos (unidos numa frente partidária comum) e tem representantes eleitos por mandatos de cinco ou quatro anos consoante os cargos. Por outro lado, é dado adquirido que na Coreia do Norte existem campos de concentração, perseguição política, assassinatos políticos e um regime totalitário comunista responsável por um número incalculável de mortos situado algures entre os 700.000 e os 3.5 milhões de mortos. Há, portanto, uma diferença muito grande entre a nossa democracia e democracias como as da Coreia do Norte, um regime que o Partido Comunista Português branqueia de forma cúmplice ao receber enviados do Partido Comunista da Coreia na sua Festa do Avante, bem como os regimes Comunistas, igualmente apoiados pelo PCP, de Cuba e da Venezuela  também eles responsáveis por milhares de mortos e a destruição completa das economias desses dois países.

A questão, portanto, não é se somos a favor da democracia, tal como o PCP afirma ser, mas de que tipo de democracia somos nós a favor. A diferença entre o PCP, ou o BE, e os antigos partidos do chamado arco da governação substancia-se nos valores que estão assumidos como fundamentais na base da constituição das democracias ocidentais. Esses são os valores da igualdade perante a lei e da liberdade individual, quer política quer económica, consubstanciada no direito inalienável à propriedade privada estabelecido na organização de uma sociedade baseada nas regras das economias de mercado, ou seja: onde a livre produção, troca e consumo de produtos assume o papel fundamental como forma de organização económica de um país.

Estes princípios, ao contrário de simples mecanismos procedimentais de eleição democrática, é que constituem a base da democracia liberal tal como a conhecemos: de nada serve podermos eleger o nosso "chefe" se não pudermos dispor da nossa propriedade; de nada serve podermos eleger o nosso presidente da câmara se não tivermos a liberdade de pensarmos como muito bem entendermos; de nada serve uma democracia se não tivermos a possibilidade de educar os nossos filhos de acordo com os nossos valores.

Assim sendo, a defesa das nossas democracias faz-se defendendo os valores e princípios que as sustentam. É partilhando esses valores que depois podemos discordar se queremos mais ou menos impostos para programas sociais, se queremos o Estado a fazer coisas ou meramente a garantir que outros façam, ou se queremos o erário público investido em obras públicas ou políticas sociais. Essas discussões entre quem alinha mais à esquerda ou à direita são próprias da democracia liberal que, ao contrário do que muitos dizem, não tem nada de unanimidade; pelo contrário, na sua essência a democracia é uma discussão perpétua sobre como nos devemos auto-governar. No entanto, essa discussão apenas se mantém cívica, profícua e razoável enquanto concordarmos no essencial; e esse essencial são os valores fundamentais que norteiam as nossas comunidades, no caso do Ocidente, os valores fundamentais da liberdade individual, propriedade privada, economia de mercado e igualdade perante a lei.

A partir do momento em que estes valores entram em colapso todo o sistema entra em colapso porque onde os valores são diferentes, opostos mesmo, então os conceitos deixam de fazer sentido, isto porque significam uma coisa e, ao mesmo tempo, o seu contrário. O PCP - ou o BE - e a sua defesa da democracia, uma democracia que nada tem a ver com a nossa, é um excelente exemplo disto: adeptos fanáticos do comunismo, do fim da propriedade privada e da liberdade individual, apologistas sem vergonha de regimes totalitários que na história da Humanidade foram responsáveis por mais de cem milhões de mortos, não podem ser parceiros sérios na gestão dos sistemas - no caso, as democracias liberais ocidentais - que eles próprios nos seus programas juraram destruir.

A principal característica das democracias ocidentais contemporâneas prende-se com um pressuposto filosófico racionalista que convenceu culturalmente as nossas sociedades que os valores são todos relativos e apenas os procedimentos formais, porque ausentes de conteúdo subjectivo e supostamente universal e racionalmente válidos, serão necessários para manter as democracias ocidentais. Para esses optimistas ingénuos, a cultura e os valores individuais são independentes da validade racional dos mecanismos procedimentais democráticos e liberais do Ocidente. Para esta perspectiva, independentemente do quadro mental e cultural de cada um, perante a superioridade científica da modernidade, todos nos subjugaríamos aos procedimentos democráticos e liberais de forma voluntária. Esta é, por exemplo, a base filosófica do multiculturalismo, da defesa da imigração como solução para o problema demográfico europeu ou da renegação da herança Cristã como pedra basilar da civilização ocidental.

Do mesmo modo, porque predomina a crença na validade universal dos pressupostos racionais e científicos que supostamente justificam a moral contemporânea - ou seja, são princípios verdadeiros -, facilmente se cai na tentação de ver o crítico dessa visão como alguém que, por professar uma ideia diferente, terá forçosamente uma ideia errada: quando nos achamos donos da verdade não comprometemos essa verdade com aquilo que sabemos ser falso. A verdade apregoa-se, não se discute. A verdade assume-se, não se compromete. A verdade é evidente, não se renega. A ilusão de verdade que o carácter pseudo-científico da sociologia política contemporânea nos oferece com uma mão traz agarrada com a outra, escondida, a ditadura de um pensamento único: precisamente o maior adversário da democracia liberal. É aqui que nasce a base da ditadura do politicamente correcto, uma ditadura estabelecida e decidida nos corredores das universidades, jornais, televisões e, naturalmente, assembleias parlamentares.

No entanto, esta pseudo-certeza, esta arrogância suprema de considerarmo-nos os donos da verdade, uma verdade nova porque supostamente despida da roupagem cultural, religiosa e atrasada das quais os nossos antepassados nunca se conseguiram separar, tem tanto de verdade como qualquer outra crença cultural do passado que, exactamente nos mesmos termos, proclamasse uma verdade e anunciasse a salvação através dos seus ensinamentos (sobre a falácia do racionalismo escrevi aqui, aqui e aqui). Foi, aliás, precisamente contra o dogmatismo religioso que os valores da liberdade individual e igualdade perante a lei foram erigidos; foi precisamente contra os privilégios daqueles que muito tinham à custa dos que nada poderiam ter que o estabelecimento do direito à propriedade privada foi instituído.

Este compromisso conservador-liberal entre a igualdade (perante a lei) e a liberdade (perante o Soberano) está hoje em risco. Senão, a título de exemplo, vejamos: em nome da igualdade estabelecem-se quotas que mais não fazem do que criar leis que forçam a tratamentos desiguais de acordo com o sexo. O mesmo se passa com a questão da raça, da orientação sexual e a proveniência geográfica. Hoje, no Ocidente, as oportunidades são fortemente limitadas pela circunstância racial, sexual e íntima de cada um. Deste modo, em nome da igualdade e da liberdade destrói-se a igualdade (tratamento diferenciado pelo Estado de acordo com a raça, sexo ou orientação sexual) bem como a liberdade (o Estado tem o poder de discriminar de acordo com raça, sexo ou orientação sexual).

Esta alteração fundamental no equilíbrio de valores que constitui a base primordial ocidental representa uma séria ameaça à existência das nossas democracias liberais. Se é verdade que os procedimentos formais liberais procuram garantir a continuidade temporal das nossas democracias não deixará de ser ainda mais verdade que sem os valores que os justificam esses procedimentos nada significam para além de simples normas que o Estado nos força a cumprir. Isto comprova-se pela facilidade com que princípios fundamentais - como a igualdade perante a lei que acima referi - foram substituídos por outros que configuram hoje regimes apostados num construtivismo social que infringe frontalmente as bases da nossa civilização. Neste aspecto, a democracia liberal que nos trouxe uma prosperidade inédita, bem como a paz que experimentámos nos últimos setenta anos no Ocidente, já morreu.

Os sinais desta crise imensa são evidentes e assinaláveis. Com o desaparecimento de um quadro de valores que sirva de base para o consenso democrático e liberal desaparece o chão sobre o qual todas as nossas instituições funcionam. A primeira coisa a desaparecer é a capacidade de diálogo. Onde os valores fundamentais não são partilhados, ou seja, onde uma determinada visão do mundo não é partilhada, torna-se impossível discutir assuntos práticos, pelo contrário: onde a visão do mundo não é partilhada discutem-se visões do mundo. Com o tempo, diferentes visões do mundo competem pelo poder porque apenas o poder as poderá colocar em prática. Tal processo inicia um ciclo vicioso de polarização e de extremar de posições políticas mas, porque a cisão está ao nível do quadro de referência mental, logo moral, com que descrevemos o mundo, são cisões que também são morais. Onde as visões do mundo não são conciliáveis, porque nada há mais alto do que a perspectiva pela qual justificamos o mundo e a vida, os conflitos já não são apenas políticos, são totais. As derrotas eleitorais tornam-se derrotas morais, tal como as vitórias se tornam vitórias do Bem e da Verdade. Não há, nem podem ser tolerados, compromissos. Neste estado de agitação, o debate político é a rua, mesmo que digital, e a arma é, no melhor dos casos, o insulto ou, no pior, um pau ou uma arma. Primeiro, nas franjas mas, depois, à medida que a polarização se alarga e o centro desaparece pelo buraco negro criado pela ausência do compromisso moral que nos sustentava, surgem então os demagogos que, quer de um lado quer do outro, procuram capitalizar a instabilidade, a insegurança, a agitação e o ódio para perseguir as suas próprias agendas.

Deste modo, instaurou-se na Europa e no Ocidente uma verdadeira guerra civil cultural: de um lado, os apóstolos do tempo novo, fieis crentes no progresso da Humanidade, na igualdade valorativa de todas as culturas, no Estado como garante máximo da racionalidade moral da vida pública e instrutor prático dos valores sociais através da educação escolar, não apenas técnica mas também cívica e moral; do outro lado, todos os que não se identificam com esta mudança abrupta no nosso modo de vida. Aqueles que não querem abdicar dos princípios fundamentais que nortearam a nossa civilização, e que não acreditam na redenção moral apregoada pelos novos profetas do admirável mundo novo. Acima de tudo, aqueles que prezam a sua cultura, a sua história, as suas tradições. E também aqueles que, independentemente de tudo, valorizam os princípios fundamentais da democracia liberal.

No entanto, estes valores modernos, pseudo-racionais e moralistas da igualdade não têm nada de novo, a não ser a roupagem identitária que agora vestem. Estes princípios defensores do Estado como garante da construção de um homem novo e de uma sociedade livre de desigualdade são os velhinhos princípios marxistas, razão pela qual vemos, no caso português, o PCP e BE tão empenhados nestas causas de construtivismo social. A diferença é que, durante a segunda metade do Século XX, ao compreenderem que a classe operária que supostamente queriam defender, e orientar, estava satisfeita com a vida beneficiando da maior criação de riqueza que a história da Humanidade alguma vez viu, precisaram de encontrar, primeiro, novos oprimidos para libertar e, depois, novos conceitos para descrever o status quo que, tal como na Rússia em 1917, pretendem substituir. Assim, nasceu a opressão do patriarcado, branco e masculino, o grande inimigo das minorias oprimidas: os não-brancos, as mulheres, os homossexuais, etc., etc. Deste modo, assim como se avança a causa progressista também se avança a agenda comunista e estatista. Que agenda é essa? A substituição do nosso modelo de democracia pelo deles: o tal que com tão terríveis resultados triunfou na URSS, na Coreia do Norte, em Cuba ou na Venezuela, sempre com o apoio, no caso português, do PCP e do BE.

No final, a guerra cultural, bem como a capitulação da democracia liberal, que estamos a viver tem o mesmo adversário de sempre: as forças negras da opressão, do controlo e da subjugação da liberdade individual face ao poder dos colectivistas moralistas que julgam saber melhor do que todos os outros o que é bom para todos. Resta saber se a resistência ainda virá a tempo de evitar que a guerra cultural se transforme em guerra civil ou, na ausência de reacção, no triunfo do marxismo cultural do Século XXI que a prazo terá, naturalmente, as mesmíssimas consequências que todos os seus antecessores do Século XX: a morte e a miséria.




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

AMOR E LIBERDADE

Bill Hicks, um dos maiores comediantes de stand up do final do Século XX, dizia poucos meses antes da sua morte, num espectáculo apropriadamente apelidado de Revelations, que a vida é como uma viagem num parque de diversões, com altos e baixos, rodopianços para a direita ou para a esquerda, mas uma viagem que podemos mudar a qualquer instante porque se encontra sempre assente numa escolha. Essa escolha, segundo Hicks, está presente a todo e a qualquer momento e consiste numa escolha entre o amor e o medo, uma decisão que cada um de nós toma e que define a forma como vivemos cada momento das nossas vidas. Escolher o amor, para Hicks, implica abrir o peito ao mundo, escolher a liberdade, a sua e a dos outros, bem como, fundamentalmente, assumir e abraçar os riscos da vida; escolher o medo, por oposição, implica fecharmo-nos em casa, escondermo-nos refugiados numa ilusória segurança atrás de sete chaves, e permanecer em ambiente seguro à espera do estafeta da Telepizza. Hicks seria tudo menos um apóstolo de uma religião ou de qualquer particular forma de governo, muito pelo contrário – definia-se como sendo um revolucionário de extrema-esquerda –, mas esta noção de que a vida é sempre, primeiro, uma escolha e, depois, uma escolha entre o medo e o amor, é um postulado ontológico com interessantes implicações filosóficas e, consequentemente, políticas, muito para lá do que, por ventura, o próprio Bill Hicks imaginaria.

A noção de começarmos numa escolha, desde logo, é importante porque implica o livre-arbítrio, a soberania do indivíduo: somos nós que escolhemos a forma como devemos viver a nossa vida e, como agentes responsáveis que somos, somos também nós que colhemos as consequências – os frutos – dessa escolha que fazemos. Liberdade implica responsabilidade. Depois, as hipóteses sobre as quais a escolha se debruça: de um lado, o amor, com a liberdade e o risco que se lhe associa, uma espécie de salto mortale de fé, ou esperança, rumo a um mundo que desconhecemos, mas que abraçamos; do outro, o medo que impele ao controlo, uma cedência ao impulso securitário de recusar o desconhecido e quedarmo-nos por tudo aquilo que já conhecemos, logo que podemos controlar, e que por essas duas razões não representa uma ameaça. O caminho do medo, atente-se, não é o de agir em nome do medo, pelo contrário, é o de fugir dele, de o evitar, de o recusar, em suma: escondê-lo. Ceder ao medo, portanto, implica rejeitar tudo aquilo que possa causar medo, receio ou ansiedade. No entanto, e parece-me que este seria o ponto de partida de Bill Hicks, a vida não pode ser nunca coisa alguma além de uma viagem assustadora, um susto que apenas o amor nos pode convencer a viver. A vida, uma experiência limitada pelo nascimento e pela morte, é algo que nos acontece, que não controlamos: não decidimos o nosso nascimento, a nossa morte (o suicídio é a excepção) ou, sequer, a maior parte das circunstâncias que num mundo tão complexo dão contorno aos nossos caminhos de vida. Crescer e amadurecer implica este reconhecimento: o de existirmos num estado de profunda vulnerabilidade face ao desconhecido, em última instância corporizado na morte que espera inapelavelmente por todos nós no final do caminho. Este reconhecimento, este facto indesmentível, é profundamente perturbante e, precisamente por ser aquilo que de mais cru e firme se pode saber acerca de nós próprios, e da nossa condição, define-nos enquanto seres conscientes. Ora, se nos define isso significa que nos afecta, que nos determina de alguma forma, que nos limita no espaço do mundo, na nossa experiência de vida: sabermos algo definitivo acerca de nós próprios implica levar isso em consideração nas nossas vidas.

Daqui deriva a tal escolha primordial e permanente. Temos uma escolha – uma escolha à qual todos somos forçados, é verdade, mas uma escolha não obstante – porque todos nós ao nos defrontarmos com esse enormíssimo facto que define as nossas vidas, o facto de inapelavelmente as perdermos, somos forçados a lidar com ele, utilizando para isso formas diversas: há quem se tente esquecer, rejeitando a noção, outros há que adiam na ânsia de uma solução transcendente e, também, muitos outros há ainda que por diversas razões acabam por aceitar o facto com naturalidade. É dessa diferença, uma espécie de pluralismo primordial, que deriva a liberdade de escolha: perante a condenação implicada pela nossa partilhada condição humana e, principalmente, pelo medo que essa condição nos inspira a todos, a forma como lidamos com o medo é aquilo que primeiro nos define, já não apenas enquanto humanos, mas enquanto indivíduos. O ser humano sabe que vai morrer, e por isso tem medo; já o individuo tem que lidar com o facto de ser um ser humano e, porque cada um lida como cada qual, é então pela forma como enfrenta esse medo primordial face à condição humana que cada indivíduo se define – perante os outros mas, fundamentalmente, perante si próprio. A escolha de Hicks, então, não será tanto entre o amor e o medo, apesar de também o ser, mas essencialmente sobre a forma como se lida com o medo que, de uma forma ou de outra, nos afecta a todos. A escolha será, pois, entre ceder a esse medo ou, por oposição, superá-lo, ultrapassá-lo, conquistando dessa forma a capacidade para verdadeiramente abraçar a vida. Daqui, advém o carácter do indivíduo. A sua coragem, que todos reconhecemos porque todos partilhamos o ponto de partida existencial, ou a sua cobardia. A sua nobreza, ou a sua fraqueza. Será, portanto, partindo do facto primordial de todos partilharmos esse medo existencial que nascem as virtudes e os defeitos com que caracterizamos o carácter humano: porque todos enfrentamos a vida e a morte, então todos as enfrentamos com maior ou menor coragem, ou com maior ou menor cobardia. Podemos exercer maior cautela e ponderação, tal como podemos impor maior temeridade ou estupidez, no entanto, não existem vários graus de morte e de vida, não há cinquenta sombras de cinzento no que concerne ao fundamento basilar da experiência humana – o cinzento deriva apenas da forma subjectiva como lidamos com esse absoluto –, tal como não há escape possível à dicotomia: por outras palavras, somos forçados à escolha, somos compelidos a enfrentarmos a nossa condição e, consequentemente, a definirmo-nos perante ela.

A primordial escolha entre o medo e o amor é, portanto, uma escolha entre abraçar a vida, e os riscos que lhe são inerentes, ou ceder ao medo de a perder, imobilizando-nos, fechando-nos. A forma como exercemos este acto deliberativo fundacional, mesmo que na maior parte dos casos inconsciente, define-nos enquanto indivíduos, revela o carácter de cada indivíduo tal como a abordagem com que cada um enfrenta a sua vida. O caminho do amor é, portanto, por definição, também o caminho da coragem, até porque pressupõe ainda uma dificuldade acrescida: assumir-se a condição humana como uma inevitabilidade, e com ela os riscos, e os medos derivados desses mesmos riscos, como parte integrante da experiência de ser humano, implica também tomar consciência que o risco é permanente, logo que não basta escolher uma vez. Pelo contrário, a escolha recai perante a experiência da vida, e do medo, logo, permanece a par da condição de existência: se vive, então tem medo de morrer. A perenidade, a caducidade e a mudança são constantes da experiência de vida, pelo que a escolha não apenas é inevitável e forçada, mas também é perpétua e necessariamente repetida a cada instante. Viver de forma consciente, com coragem e nobreza, implica então, primeiro, uma abertura ao mundo, ao desconhecido e ao misterioso e, depois, a tomada de consciência de que essa atitude derivada da escolha não cessa a momento algum, pelo contrário, revela-se numa predisposição para a mudança, para um modo de existir que não é estático, e que apenas é constante no seu perpétuo movimento, na sua ininterrupta e contínua necessidade de reafirmação. A escolha do amor, tal como a pedra de Sísifo, é sinónimo de uma tarefa árdua e repetitiva.

Um indivíduo parte sempre do que não sabe para aquilo que passa a saber. Ora, isto implica enfrentar o desconhecido, o estrangeiro: o caos. O acto consciente é sempre um acto de afirmação perante o desconhecido, um desconhecido que se torna conhecido, logo acomodável, inteligível e, com sorte, controlável. O mero acto de ganhar consciência pressupõe, portanto, o enfrentar do desconhecido por forma a ordená-lo, formá-lo, controlá-lo. Jung apelidava este salto no desconhecido de um chamamento para a aventura, porque aprender implica sempre lidar com aquilo que se desconhece – e, por definição, aquilo que se desconhece pode ser perigoso, logo representa um risco. Assim, não apenas a existência força a aventura, e uma escolha, mas também a existência consciente, aquela que distingue os seres humanos dos demais, aprofunda essa mesma aventura, e essa mesma escolha. O caminho do amor é, então, o caminho da aventura: criar, pensar, agir, postular, em suma: arriscar. E é da aceitação desse chamamento para a aventura, desse chamamento para enfrentar o desconhecido, que deriva o valor e a nobreza da vida humana. Uma vida bem vivida será então uma vida heroica, aquela que conquista terreno ao desconhecido clamando-o para o campo do conhecido, ou seja: o herói que oferece ordem ao caos. Em suma, uma vida boa é aquela que contribui de forma positiva para o aprofundamento do conhecimento humano, seja em que arte, ou parte, for.

Do mesmo modo, também o oposto se pode definir. Ceder ao medo implica, porque esse conhecimento nos assusta, rejeitar a consciência da inevitabilidade da morte e da mudança ou da transformação constante que é a vida. Do mesmo modo, porque o desconhecido amedronta, o próprio acto consciente se torna penoso e, consequentemente, apreendido como perigoso. A infância, precisamente porque é um estado ainda inconsciente e ignorante, representa então o paraíso do qual a maturidade consciente nos quer vir tirar. Daí que a quem escolha o medo, ou seja, quem responda negativamente ao chamamento da aventura, a aventura que através da experiência e do conhecimento progressivo nos trará a maturidade, a esses que vão rejeitando o desconhecido, a maturidade e a consciência do mundo tal como ele é, em nome do conforto e segurança do que já conhecem, a esses a infância aparece como refúgio: o paraíso confortável, sem conflitos ou necessidades de aventuras, onde tudo faz sentido e se conjuga numa realidade eterna, harmónica e imutável. Quem não responder afirmativamente ao chamamento da aventura vai-se agarrando a esse imaginário infantil perfeito e utópico onde o sol brilha na eira e a chuva cai no nabal. No entanto, o mundo é madrasto e, salvo poucas excepções, a dureza da realidade, das coisas tal como elas são, acaba sempre por se impor aos sonhos perfeitos e infantis que estabelecem mundos tal como imaginamos que eles deveriam ser. Aí, o chamamento para a aventura, normalmente sobre a forma de uma tragédia, torna-se irrecusável e a maturidade, ou seja: o reconhecimento da condição humana tal como ela é, força-se sobre os espíritos, mesmo aqueles que por todos os meios foram continuando agarrando-se ao seu imaginário infantil. Mais uma vez a escolha se impõe. E se quem corresponde à tragédia com a coragem de quem abraça o mundo – o caminho do amor que temos vindo a descrever – tende a superá-la, já aqueles que escolhem o caminho do medo, ou seja: aqueles que por receio rejeitam a necessidade de aceitar a realidade da condição humana tal como ela é, a esses sobra o ressentimento: pela dor, pelo medo constante e pela condição humana; em suma: pela desilusão de aquilo que é não ser como eles pensam que deveria ser.

O caminho oposto ao do amor assenta então sobre dois pilares fundamentais: o primeiro, já referido, é o ressentimento de quem não aceita o facto de ter sido forçado a sair do paraíso infantil. O segundo, deriva da actividade consciente, apenas que alimentada pelo medo em vez do amor. Se o amor leva a abraçar o mundo, a enfrentar o desconhecido, já o medo, pelo contrário, leva a separar-nos do mundo, rejeitando-o, a afugentar o desconhecido, a retirá-lo da nossa experiência, a impedir que nos afecte. Isso torna necessário que toda a experiência seja já conhecida, que tenha sido já anteriormente digerida, ou seja: que o mundo esteja já previamente controlado. Ora, apenas aquilo que julgamos controlar se nos revela como conhecido, isto porque aquilo que afugenta o medo, mesmo que de forma apenas ilusória, é precisamente o controlo que julgamos exercer sobre aquilo que nos afecta, ou que nos poderá vir a afectar. No entanto, como se pode controlar aquilo que desconhecemos? Não se pode, e desta evidência se retira a impossibilidade de sucesso desta abordagem perante o mundo: por mais que queiramos exercer controlo sobre o mundo, tal como ao infante a quem foi arrancado o paraíso infantil, mais tarde ou mais cedo o mundo se revelará tal como ele é – e quanto mais ele for rejeitado, quanto mais nos separarmos da sua realidade, pior será o ajuste face ao real, e maior será a tragédia que o revelará. Este foi, por exemplo, precisamente o alerta que, por outras palavras, Burke nos deixou antevendo o trágico desfecho da Revolução Francesa de 1789.

Ressentimento é o combustível e o controlo é a arma de quem tem medo do desconhecido, da aventura para onde a vida nos atira. Assim, o caminho do medo, o do controlo, é igualmente o caminho da tirania pois a única forma de garantir controlo sobre o mundo, no qual se inclui o mundo dos homens, é poder exercer controlo sobre os membros da comunidade. Ora, para controlar é necessário mandar, impor, fazer obedecer. Garantir que os outros obedecem à nossa vontade é, por definição, a única forma de garantir controlo sobre os outros. Do mesmo modo, e tal como a história o demonstra, é tanto maior o tirano quanto mais fraco o indivíduo for: quanto mais ele rejeitar o desconhecido, quanto mais ele ceder ao medo, normalmente sobre a forma da paranoia, mais ele recorrerá ao controlo, ao mando, à força, à tirania. No entanto, o controlo total, por mais que se mate e que se imponha, é sempre impossível. A derrota, e a morte, como a história e o conhecimento da condição humana igualmente o demonstram, estarão sempre garantidas no final do caminho. Reconhecer esse facto – a tal escolha primordial do amor –, precisamente por ser um acto de abdicação, de humildade perante um mundo do qual dependemos e do qual nascemos, um acto de amor portanto, a ser feito a priori poupa também vidas incontáveis.

Uma distinção, no entanto, importa fazer entre a figura do herói e a do mártir. Herói, é aquele que reconhecendo o mundo tal como ele é demonstra ter a coragem para escolher entre as opções que tem pela sua frente, sempre com o intuito de aprofundar o seu conhecimento (e o dos outros) ou a sua condição no mundo (e a dos outros); mártir, é aquele que abdica de escolher ele próprio em benefício do que ele imagina ser o bem de outros. Se é certo que mártires os houve na história da humanidade aos quais muito devemos, no entanto, também não deixa de ser verdade que o martírio não é exemplo de norma, menos ainda quando falamos de vida comunitária: sob a pena de extinção, o martírio será sempre uma excepção, nunca a regra. Escolher o amor não implica o martírio, muito pelo contrário: implica a responsabilidade de lidar com a vida, uma responsabilidade para a qual, muitas vezes, o martírio até poderá representar uma abdicação, quiçá mesmo capitulação.

A história demonstra bem como esta oposição dicotómica na predisposição humana para o medo ou para o amor se revela sempre – e também sempre com os mesmos resultados. Onde a escolha vencedora foi a aversão ao risco, ao desconhecido, uma aposta no controlo, na segurança, na arrogante certeza do conhecido, ou seja, onde o caminho foi o autoritarismo centralizador e dominador, aí sempre acabou por eventualmente revelar-se a separação face ao mundo tal como ele é através da tragédia da miséria e da morte. Do mesmo modo, e por uma evidente oposição, onde o caminho do amor, do respeito pela liberdade, e onde o risco da vida foi celebrado como uma oportunidade para crescer, criar e aprender, ou seja, nas sociedades que ofereceram liberdade aos seus indivíduos, apesar dos altos e baixos que caracterizam a vida, sempre o corajoso enfrentar do desconhecido acabou por gerar os seus frutos: foi nas sociedades mais livres de sempre que foi gerada a maior riqueza de sempre e o maior bem estar para o maior número de pessoas.

Amor implica liberdade – e desta deriva riqueza material, como a história o demonstra, mas também espiritual pois apenas na imersão e conexão de todos e cada um para com o mundo e enfrentando o desconhecido o transcendente se torna possível. Do mesmo modo, medo implica controlo – e deste deriva miséria, morte e destruição material, mas também espiritual: não pode florescer o espírito humano quando aprisionado aos mandos e desmandos de outros seres humanos. Os verdadeiros revolucionários, os indivíduos movidos pela coragem e pela nobreza de carácter, são, portanto, aqueles que querem libertar – porque libertar é um acto de amor. Pelo contrário, todos aqueles que acenando as bandeiras do medo, apelando à segurança, querem exercer controlo, domínio – no fundo: poder – sobre todos os outros, esses não são revolucionários: são uma amálgama de iludidos com cantilenas de paraísos infantis, ressentidos com a coragem dos outros, ou com o próprio mundo e, outros ainda, piores, que anseiam sublimar as falhas que se arrogam a imaginar no mundo impondo a sua vontade sobre ele, ou seja: sobre os outros. No final, de uma forma ou de outra, a este todo uma coisa une: a escolha do medo e a fraqueza que os impede de reconhecer, e aceitar, o mundo tal como ele é. Por alternativa, como Hicks bem à sua maneira lembrava, temos o caminho do amor: revelado num acto de fé, de abertura de cada um ao mundo, e reconhecendo nesta nossa condição partilhada de sermos humanos um ponto de partida para a conquista do desconhecido. Amor, liberdade e coragem são, em suma, os valores maiores desta estranha condição que é ser humano.