terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

THE EDEN OF TYRANNY

"Where the many are, there is security; what the many believe must of course be true; what the many want must be worth striving for, and necessary, and therefore good. In the clamor of the many there lies the power to snatch wish-fulfilments by force; sweetest of all, however, is that gentle and painless slipping back into the kingdom of childhood , into the paradise of parental care, into happy-go-luckiness and irresponsibility. All the thinking and looking after are done from the top; to all questions there is an answer; and for all needs the necessary provision is made. The infantile dream state of the mass man is so unrealistic that he never thinks to ask who is paying for this paradise. The balancing of accounts is left for a higher political or social authority, which welcomes the task, for its power is thereby increased; and the more power it has, the weaker and more helpless the individual becomes.
Wherever social conditions of this type develop on a large scale the road of tyranny lies open and the freedom of the individual turns into spiritual and physical slavery."

C. G. Jung, The Undiscovered Self, 1957, in: C. G. Jung, The Undiscovered Self, Penguin Books, 2006, pp. 58-9

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

FÉ, RAZÃO E ATEÍSMO


Parece-me que existem graves equívocos nos tempos que correm a propósito das noções de 'Fé', “Razão” e “Ateísmo”. É preciso notar que mesmo o conceito de 'religião' tal como o conhecemos hoje em dia é algo bastante recente: até os pensadores iluministas começarem a questionar a ideia de Deus e o fenómeno da religião a noção de separar a experiência religiosa das outras componentes da vida não se colocava: viver implicava um exercício, acima de tudo, de fé; ou seja, de operacionalização das crenças de cada um, normalmente partilhadas, sobre o mundo. Naturalmente, dessa crença fazia parte no Ocidente a noção de um Deus criador, um fiel numa balança eterna sobre o Bem o Mal e que, após a morte física de cada um, seria o julgador supremo capaz de garantir benesses ou castigos às almas imortais que configuravam a essência do ser humano.
Com o advento da modernidade, em particular a partir de Descartes e a sua busca pela pedra de indiscutível certeza sobre a qual se poderia erigir o exercício de conhecimento “científico” do mundo, o célebre “penso, logo existo”, separam-se as águas: de um lado, temos aqueles que entendem que a descoberta do mundo e de Deus, consequentemente da essência humana e do sentido para a vida, passa pela análise fria, mecânica e causal da razão; do outro, aqueles que entendem que a razão pode explicar as particularidades mecânicas do mundo mas que o significado, os porquês de as coisas serem como são, para sempre seriam o terreno de uma explicação que a razão humana não poderia alcançar.
No entanto, para se chegar a esta divisão, a religião teve um papel fundamental: onde o monoteísmo tinha separado o mundo mágico do homem pré-histórico em divino e material, o Cristianismo, com o nascimento de Deus feito matéria e homem, veio oferecer valor ao mundo: como poderíamos não valorizar o mundo material, as coisas, se Deus, Ele próprio, se tinha feito matéria também através de Jesus? A vantagem competitiva que esta ideia veio trazer aos europeus vai afirmando-se ao longo dos mil anos que vão desde os estertores finais do Império Romano até ao advento do Renascimento: onde no final do Helenismo se voltavam os olhos para o divino já esotérico, ou onde os bons cristãos apenas olhavam para a cidade de Deus, a pouco e pouco o valor do mundo e o interesse em compreendê-lo foi fazendo o seu caminho: a Razão explicava os 'comos', a Fé explicava os 'porquês'. São Tomás, por exemplo, o pináculo do pensamento filosófico Cristão, dedicou a vida a harmonizar Deus e Razão, a Palavra e o Filósofo (no caso Aristóteles).
Com a revolução tecnológica (e moral) do século XV que resultou em grandes cismas intelectuais e uma enorme mortandade na Europa por força de conflitos religiosos (não exclusivamente mas assim justificados) os filósofos, cientistas e pensadores do Iluminismo procuraram, naturalmente, explicar e compreender o fenómeno religioso. O facto de a Razão oferecer um conjunto enorme de explicações sobre a Fé e a Religião, e a Fé, ou os seus fieis servidores e intérpretes, não oferecerem nenhuma explicação que fosse para lá do dogma tradicional fez com que, no debate de uma com a outra, a segunda fosse gradualmente perdendo terreno para a primeira. A pouco e pouco instala-se a ideia de que a experiência religiosa está separada da experiência do mundo. Que a religião deve ser limitada pela Razão. Ou que a ideia de Deus e do religioso é, em si mesma, absurda.
Primeiro, com a Religião Natural do Iluminismo que mais não era do que assumir o antigo Dogma de que o Divino e o Racional eram uma e a mesma coisa, apenas que agora despido do palavreado religioso e assente numa suposta certeza científica: para compreender-se o sentido da vida e chegar a Deus, o criador do mundo, já não era necessária a Fé, bastava descobrir os segredos do mundo através da ciência. Não foi difícil a esta noção triunfar no Ocidente Cristão: afinal, para o pensamento Cristão, o que era racional era bom e configurava uma expressão de Deus. Do mesmo modo, não foi difícil conciliar com as bases clássicas do Ocidente: afinal, já para Platão o Bom e o Racional tinham que ser coerentes.
No entanto, o ritual antigo da Igreja, o palavreado dogmático dos Evangelhos, o cheiro asfixiante dos incensos, da madeira velha dos púlpitos, as pedras velhas dos altares e, ainda mais importante, a exigência de humildade (muitas vezes não praticada) perante a figura de Cristo, tudo isso representava uma absoluta contradição com o ambiente do laboratório, da discussão científica e, mais importante, não era compatível com a arrogância do Homem que, à medida que via o seu mundo ser cada vez menos o centro do Universo, se transformava cada vez mais no centro de um Mundo que queria compreender, transformar e, em última instância, controlar.
Depois, veio a subjugação Kantiana do religioso face ao racional: a moral deveria ser entendida como baseada na razão pura, num mundo racional e transcendental onde, abstraídos das imperfeições humanas, os homens, a custo, conseguiriam obter um conjunto de preceitos racionais, logo universalmente válidos, que permitiriam ser uma base para uma paz perpétua. Curiosamente, apesar de muito esforço na sua viagem ao mundo racional, Kant não conseguiu oferecer ao mundo dos homens mais do que o seu Imperativo Categórico – “age como se a tua acção pudesse ser tornada uma regra universal” – que, convenhamos, não é muito diferente da chamada 'Regra de Ouro', algo já presente no mundo pelo menos desde o Reino do Meio do Antigo Egipto, bem como na mitologia Indiana e que, desde aí, numa ou outra forma, desde Thales na Grécia a Séneca em Roma, para nós, Ocidentais, fez o seu caminho até tomar a forma que melhor conhecemos no Evangelho (Lucas 6:31:) “faz aos outros o que queres que te façam a ti”. Para tanta razão faltou oferecer um pouco mais além do que aquilo que já cá andava desde o início dos tempos.
No entanto, a roupa racionalista que Kant oferece para as bases da moralidade, por estar de acordo com os tempos, fez sucesso: Nietzsche, que percebeu melhor do que ninguém as consequências da renegação racionalista ao Cristianismo que estava implícita na tese Kantiana, proclamou a morte de Deus. E garantiu que competia agora aos homens, aqueles que mataram Deus, criar uma nova moralidade assente na vontade humana. Atente-se no “criar”. Apesar disso, através da inspiração Kantiana, durante os últimos duzentos anos, e até meados do Século XX, temo-nos ocupado a “descobrir” uma moralidade. Para Fichte, por exemplo, Deus é a Lei Universal que se explana através da acção humana: criar será, portanto, descobrir.
Pelo caminho, renegando progressivamente mais a religião, tanto vista como uma projecção ilusória do Homem face ao seu próprio desejo de perfeição, como afirmou Feuerbach, ou como um instrumento de controlo de massas, o célebre ópio do povo Marxista, o religioso passa a ser visto como algo que é mau, que nos reduz, que nos limita. E de um mundo onde as autoridades religiosas limitavam os actos dos cientistas passámos para um outro tempo onde são as autoridades científicas que limitam os actos dos religiosos. Naturalmente fica, para já, a pergunta: se foi a religião, em particular a Cristã, que serviu de base para todo o conhecimento do mundo que temos, ou que julgamos ter, como poderemos conservar esse conhecimento sem a base que o suportou? Ou, por outras palavras, se matámos a base da moralidade que nos guiou até aqui como podemos garantir que não cairemos, como tantos antes de nós, no abismo do esquecimento?
É na resposta a esta questão que temos a distinção entre Fé e Razão. Para os primeiros, não há vida completamente humana sem Fé: esta faz parte da experiência de ser humano. Para os segundos, algo que não possa ser explicado pela lógica argumentativa e testado pela experiência empírica não poderá ser considerado verdadeiro.
Para desfazer este equívoco vou primeiro situar o termo “ateísmo” nesta dicotomia. Apesar de a uma primeira vista poder parecer paradoxal, o ateísmo deve ser colocado em primeira instância no campo da Fé. Isto por duas razões óbvias: a primeira é que um ateu proclama saber que Deus não existe; a segunda é que o ateu não pode provar que Deus não existe, apenas que quem acredita em Deus não pode provar que Deus existe. Ora, assim sendo, na sua base ambos exprimem uma crença: um postulado que não pode ser provado. Assim, o ateu, tal como o crente religioso, acredita em alguma coisa: no caso do ateu na não existência de Deus. No entanto, sobra a ausência de prova sobre a sua crença. Ao mesmo tempo, a linguagem do ateu faz-se de argumentos e de provas científicas. Assim, deverá ser igualmente colocado no campo da Razão. Em suma, o ateu assume a ciência como o caminho da sua verdade mas exprime uma convicção do seu resultado final que não pode provar por forma alguma. Não é diferente dos antigos filósofos naturais, apenas que exprimindo a crença contrária de que Deus não existe. Deste modo, o ateísmo torna-se irrelevante para a discussão entre Fé e Razão: partilha com uma, a Fé, o resultado (mesmo que de sinal contrário) e com a outra, a Razão, a metodologia (que perverte ao assumir uma convicção que não demonstra). O ateísmo é, portanto, uma opinião, uma manifestação de fé sobre o mundo, tão válida como outra qualquer desde que não assuma a arrogância de se considerar verdade.
Sobra-nos, portanto, o embate entre a Fé e a Razão sem nos preocuparmos com o fenómeno do ateísmo. E aqui parece-me que há um mal-entendido muito grande a propósito da sua suposta incompatibilidade. Que tenha havido, como fui mostrando ao longo do texto, uma evolução grande na forma como se entende a religião, ou a Fé, e uma controvérsia sobre as bases da legitimidade moral, logo política, da comunidade é algo natural. Que esta evolução fosse derivando num conflito foi inevitável porque o que estava em causa era a autoridade sobre a comunidade: quem a detinha, não a queria perder; quem não a tinha, queria conquistá-la. No entanto, hoje, com o advento da democracia liberal, o debate sobre a Fé e a Religião torna-se uma questão de consciência individual. Ao mesmo tempo, com a modernidade secular, pela primeira vez, Fé e Igreja são duas entidades distintas: é perfeitamente possível ter Fé fora da Igreja. Livres do problema da autoridade política e religiosa, o debate deveria ser mais profícuo. Os argumentos deveriam ser mais claros. As premissas bem explicadas. A serenidade deveria imperar.
Apesar de tudo isto, assim não tem sido. E assim não tem sido porque, parece-me, as regras do debate têm sido ditadas por um dos lados: no caso, a linguagem científica e racional do nosso tempo. A questão que se tem exigido aos crentes religiosos é a de que demonstrem que a sua crença é verdadeira. Mas isso é, naturalmente, impossível: Fé é Fé porque implica saber algo que não pode ser sabido de outra forma. Se pudesse ser sabido de outra forma não seria Fé, seria conhecimento empírico, logo científico. Pretender compreender a Fé, analisar a Fé, saber se a Fé é plausível ou não, como Kierkegaard argumentou, implica matar a Fé: ter Fé implica saber algo como verdadeiro que não poderia ser sabido de outra forma. Nomeadamente, a existência de Deus ou um determinado sentido para a vida. Jacobi, na sua contenda com Fichte sobre o que era o ateísmo, defendeu a noção de salto mortale: para lá do conhecimento da razão, que explica os 'comos', sobra explicar os 'porquês'. E os 'porquês' pertencem ao campo do divino, às causas e não aos resultados, à criação e não à obra; para conhecer o divino, portanto, é preciso abandonar a lógica, o racionalismo, o científico e abraçar a noção de Deus num salto mortal rumo ao abismo do transcendente. Ter Fé não é, por conseguinte, saber algo contrário à ciência: é conhecer para além da ciência, é conhecer o que a ciência não poderá algum dia conhecer.
Daí que o embate entre Fé e Razão seja uma mera ilusão sobre quem não compreende o que é, por um lado a Razão e, por outro, a Fé. Se a segunda trata do transcendente ao conhecimento humano já a primeira é apenas procedimental. A Razão é um mecanismo formal que nos permite organizar o mundo defronte dos nossos olhos. Os seres racionais, por serem racionais, conseguem reconhecer regras, padrões e procedimentos, causas e consequências. No entanto, nada existe no mundo da experiência científica que nos garanta para lá de qualquer certeza que, primeiro, o conhecimento científico que já temos é verdadeiro. Popper explica, e bem, como apenas podemos ter a certeza do que é falso, nunca do que é verdadeiro, porque tudo o que desconhecemos pode provar-nos errados, tal como sempre assim foi no passado a propósito de tudo aquilo que já tivemos como certo e entendido como verdadeiro - o princípio da refutabilidade. Segundo, e consequentemente, a ideia de que a Razão nos permite saber a verdade está igualmente longe de estar provada como verdadeira. A ideia de que existe sequer uma verdade para ser conhecida implica desde logo, a priori, uma hipótese sobre o mundo que não pode ser demonstrada empiricamente. O mundo pode ser uma ilusão idealista, pode ser uma simulação num computador do futuro ou, quiçá, apenas o sonho de uma entidade solitária. Agora, saber que a ciência dos homens, com os seus testes laboratoriais e as suas hipóteses especulativas, permitirá conhecer, de facto, sem dúvida, com certezas, algo de verdadeiro sobre o mundo para lá do mero saber que algumas causas geram outras consequências, ou seja, saber-se que pela Razão se podem conhecer as primeiras causas, não deixa de ser uma extraordinário exercício de... Fé. Talvez por isto mesmo o debate seja tão pouco sereno: o facto de a linguagem do racionalista ser feita de conceitos gerais e abstractos pretensamente universais não lhe confere uma característica de verdade, é certo, mas confere-lhe a ilusão dessa certeza. Ilusão a qual é o combustível dos fanatismos e, como a História bem o demonstra, dos maiores crimes a que a Humanidade já assistiu.
Fernando Pessoa escreveu que "a meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível" (Desassossego, 2009, p. 194 [176]), uma passagem que me parece resumir bem o que quero transmitir.
Concluindo, o debate é infrutífero por duas razões: primeiro, porque tanto a Fé como a Razão são imprescindíveis: a Razão guia-nos por um mundo onde apenas a Fé nos sustenta a embarcação. Segundo, o debate é desnecessário porque ambos os lados do debate se ocupam de coisas diferentes: um dos 'porquês', o outro dos 'comos'. Pessoa, a este propósito, também escreveu que “ter opiniões definidas e certas, instintos e paixões de carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror  de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio é o único modo de vida que a um sábio convém e aquece." (Desassossego, 2009, p. 456) Talvez possa ser esta a maior afirmação do valor da Fé: não nos esquecermos que o mundo que não conhecemos, nem poderemos compreender, está ao nosso alcance desde que não aprisionemos a nossa mente na aridez gélida dos conceitos científicos. Talvez os nossos paradoxais tempos de, por um lado, grande optimismo na salvação tecnológica da condição humana e, por outro, de grande desilusão e insatisfação para com, apesar da abastança material, o  facto de termos de lidar com uma profunda ausência de sentido para a vida mais não sejam do que uma grande demonstração prática, científica portanto, da enorme amputação que significa para um ser humano ver-se privado da Fé: ao depositarmos as nossas esperanças na crueza física dos meios do materialismo científico corremos o sério risco de perdermos os fins que a Fé, e apenas ela, nos é capaz de oferecer. Do mesmo modo, ao nos arrogarmos de saber, ou poder saber, a Verdade colocamos em risco a humildade responsável com que devemos abordar o imenso desconhecido que continua a ser o mundo. No final, tal como em tudo o resto, convém recordar Aristóteles que, sabiamente, nos faz sempre lembrar das virtudes do meio termo.