quinta-feira, 26 de abril de 2018

DOS OPRIMIDOS

Os indivíduos identificam-se com valores os quais, precisamente por serem valores, ou seja: por terem valor, representam objectivos para a vida. Diferentes pessoas oferecem valor a coisas distintas pelo que diferentes pessoas perseguem objectivos distintos, muitas vezes incompatíveis entre si. No entanto, porque os indivíduos não são gerados ex-nihilo, não provêm do nada, o facto de todos os indivíduos serem simultaneamente seres comunitários e sociais faz com que grande parte do processo de interpretação do mundo seja partilhado pelos indivíduos que pertençam a uma mesma comunidade. São esses valores partilhados, uma escala de valores portanto, que oferecem coerência de julgamento social aos indivíduos que por força das circunstâncias são forcados a viver vidas em comum. Do mesmo modo, é da confrontação entre a escala de valores comunitária e a interpretação dessa mesma escala feita por cada um dos indivíduos que se faz um processo constante de dialéctica social: com o tempo, a escala de valores vai sofrendo variações múltiplas que o debate social vai impondo. Outra forma de colocar a questão é que a vida comunitária implica uma tensão perpétua entre as tradições de uma comunidade e as inovações que os novos membros dessa comunidade querem, ou gostariam de, ver implementadas. Há, no entanto, ou pelo menos deveria haver, um fio condutor: uma ruptura abrupta da dialéctica resultaria forçosamente num desfazamento entre a nova escala de valores que é assumida pela comunidade e a velha escala de valores que formou os indivíduos que compõem a comunidade. É por esta razão que raramente as coisas mudam e que nas poucas vezes em que de facto mudam o processo nunca é pacífico: não se mudam as escalas de valores dos indivíduos de um dia para o outro. Pela mesma razão, só são pacíficas as sociedades onde as escalas de valores comunitários são de facto partilhadas pelos indivíduos, onde essa escala é absolutamente maioritária na comunidade e, muito importante, onde a escala de valores consegue acomodar a natural evolução da própria comunidade. Onde estas três características não se verifiquem a paz está ameaçada: onde não haja uma escala de valores partilhada não pode haver diálogo político pois as partes não se entendem sobre que objectivos devem perseguir, onde exista mais do que uma escala de valores em que nenhuma seja claramente maioritaria sobra um debate de surdos entre visões incompatíveis do mundo e, finalmente, onde a escala de valores sociais não seja capaz de acomodar a natural mudança que caracteriza a vida humana está-se perante uma cultura cristalizada, estática e que mais tarde do que cedo será substituída por deixar de responder à empatia dos indivíduos. Do mesmo modo funciona a sensação de opressão: o indivíduo opera em função dos seus valores e por eles é capaz dos maiores sacrifícios. A vida humana implica trabalho, esforço, angústia. Aquilo que justifica as agruras da vida é a sensação de significado, ou sentido para a vida, que perseguir os valores que cada um detém garante. É de caminharmos rumo a algo, no caso aos nossos próprios objectivos identificados pelos nossos próprios valores, que retiramos sentido para a nossa própria existência. Dessa forma, desenvolver os enormes sacrifícios a que a vida nos obriga em nome de valores que não são partilhados por nós implica viver-se num estado opressivo. É livre o indivíduo que vê impostos na comunidade à qual pertence aqueles valores que ele próprio partilha. Quando se dá um desfazamento entre os valores partilhados pela sociedade e os valores que eu partilho eu estou a funcionar num modelo que não é o meu, do qual eu não gosto, no qual não me revejo e, por essas razões, um modelo que me restringe os meus valores ou que me impõe valores que repudio, ou seja, um sistema que me oprime. Esta é a verdadeira razão pela qual na sociedade mais livre de sempre, com as maiores liberdades de sempre, tanta e tanta gente se sinta oprimida: onde não há uma escala de valores verdadeiramente compreendida, aceite e partilhada pela comunidade sobra uma aglomeração de oprimidos.

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