segunda-feira, 23 de abril de 2018

TOCAM OS SINOS

“Como assim, morreu?”, espantou-se ela quando lhe contei.
“É isso mesmo”, insisti, “está morta”.
“Mas não pode ser se a vejo todos dias na TV”, quase gritou a alvoroçada senhora.
“Pois, mas morreu. Só que ninguém lhe disse”. E, cheio de paciência, expliquei-lhe: “olhe, não estou a inventar. Ninguém me contou, fui eu que vi. Está morta. Mas como ninguém lhe disse continua a arrastar-se por aí, coberta de vermes e parasitas, aos tropeços, coitada, uma vergonha da qual ninguém fala porque, e esta é que é a verdade, a ninguém lhe interessa que ela morra. Punha, e ainda põe, muita comida na mesa de muita gente. Enfim, mas esfolaram-na demais. E agora que está morta aviam-se até não dar mais. No final, sobram os ossos.”
A senhora ficou calada por uns instantes. Depois disse: “bem, nada dura para sempre, é a vida.”
“Pois.”
“É capaz de fazer falta”, admitiu.
“Não sei, não. Dava muito trabalho.”
“Pena é que os vermes não morram com ela”, disse ela quase entredentes.
Concordei com a cabeça.
“Nunca morrem”, concluiu a senhora.
“Pois, claro que não.”
“Mas, pronto, diz que é assim que as coisas são, é sempre uma desgraça.”
“Já estamos habituados”, sentenciei.
“Graças a Deus.”

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