sábado, 5 de maio de 2018

DA ESPECULAÇÃO

Quando, durante a segunda década do século XIX, nas palestras de Hegel sobre a história da filosofia, a propósito de John Locke, ocorreu ao alemão criticar o inglês porque não se lhe reconhecia um traço de especulação no seu trabalho, tal exercício apareceu como absolutamente natural. Especulação será, no entanto, um termo assaz interessante para utilizar como crítica filosófica porque, hoje em dia, para muitos, especular significa precisamente opinar sem qualquer base de sustentação para as opiniões que se proferem. De facto, e como se poderá verificar em qualquer dicionário, especular significa teorizar baseado em raciocínio abstracto. Ora, Hegel, na tradição decorrente do aufklärung, via o raciocínio abstracto como mais verdadeiro, ou pelo menos mais próximo da verdade, do que o mundo sensorial que era entendido como ilusório, parcial e subjectivo. É esse o legado Kantiano e, a bem dizer, com algumas excepções, a base fundamental de toda a filosofia Ocidental, um fio condutor que vai desde Platão até ao Século XX, a noção de que existe um parâmetro, ou plano, abstracto, universal e eterno que consiste na verdadeira essência racional do mundo, uma essência racional da qual decorrem as imagens, ou interpretações, que cada um de nós, condenado à subjectividade, apreende como a ilusão da realidade. A especulação será então, a forma de escapar a esta subjectividade e vislumbrar, como diria Platão, no limite do cognoscível aquilo que é verdadeiro, e portanto bom e belo. Não recorrer à especulação implica pois, para Hegel e para a tradição idealista, não transcender o mundo das sombras platónicas até ao tutano da existência, ou seja, até à verdade. Vendo por esta perspectiva, John Locke, o inventor do senso comum e um dos percursores do empiricismo britânico, não se poderia sequer qualificar como um filósofo tal como, aliás, muitos não o fizeram.
Serve esta história para ilustrar as duas tendências opostas que se gladiam no terreno da justificação do conhecimento humano: o empiricismo, baseado na observação e verificação humana, e o idealismo, baseado na especulação intelectual. Nos dias de hoje, estranhamente, ambas as ideias coabitam alegremente sem que os seus portadores se apercebam do enorme paradoxo que a advocacia de ambas em simultâneo pode  representar: por um lado, triunfou em pleno a noção racionalista de que a racionalidade humana deriva de uma razão superior, universal, que nos permite professar conclusões finais, absolutas e certas sobre os mais variados temas, incluindo os morais e políticos; ao mesmo tempo, desacredita-se tudo aquilo que não é provado como sendo factual e absolutamente demonstrado por evidência empírica e científica. No léxico comum, especular é mesmo tido como negativo, como um afastar da verdade que, naturalmente, reside na experimentação laboratorial controlada, verificada e testada. No entanto, e este é o paradoxo, acreditar que através da experiência científica se pode alcançar uma certeza sobre o mundo implica a priori um exercício de especulação: com excepção das teorias científicas que actualmente são tidas como verdadeiras todas as outras, as passadas, já foram também elas verdadeiras, apenas para se tornarem antiquadas e falsas com o passar dos tempos e com a evolução do conhecimento empírico humano. Assim, acreditar que o conhecimento que agora detemos é mais completo faz todo o sentido, tal como a evolução tecnológica o comprova, no entanto, acreditar que é certo, que é infalível porque é verdadeiro, principalmente no que concerne a vida moral e política, isso já resulta de um mero acto especulativo assente na velha crença racionalista de que aquilo que é racionalmente comprovado é forçosamente verdadeiro. Mas se há uma coisa na história humana que poderemos saber é que este pressuposto racionalista é tudo menos verdadeiro: se o fosse, pessoas igualmente racionais chegariam às mesmas conclusões sobre os mesmos problemas, algo que empiricamente sabemos nunca ter acontecido. Aliás, o bom cientista conhece muito bem a falácia racionalista e sabe perfeitamente que todo o conhecimento que temos é parcial, incompleto e passível de revisão. No entanto, no nosso zeitgeist, junta-se o melhor dos dois mundos: do especulativo retira-se a ilusão de certeza metafísica; do empírico, retira-se a confirmação prática dessa mesma certeza. Ambas estão erradas.
O mesmo se passa no plano moral e político: por um lado, tudo o que é estudo científico - “tenho aqui um estudo que prova que...” - funciona como argumento de autoridade; mas, por outro lado, ao invés de aceitar a dúvida permanente a que a observação científica e empírica do mundo obriga, também se vendem as maiores certezas morais, tão grandes ao ponto de demonizar aqueles que se atrevem a contestar as verdades adquiridas como seres malvados, ou simplesmente estúpidos, por se recusarem a aceitar aquilo que a maioria crê como verdadeiro. Esta será, aliás, a semente do totalitarismo, provavelmente o maior perigo que assola o mundo Ocidental: a certeza não é compatível com o respeito mútuo entre visões diferentes do mundo, pelo contrário, se eu tenho a certeza que estou certo então o meu adversário está errado e no mundo do certo e do errado o compromisso é impossível pois quem tem razão não vai comprometê-la com quem não a tem. A verdade não se negoceia, apregoa-se e ensina-se.
O cientismo racionalista é a ilusão de que através da ciência se podem alcançar conhecimentos absolutos e verdadeiros sobre o mundo moral dos homens. É, portanto, um enorme exercício de especulação pois que não existe absolutamente nada ao longo da história da Humanidade que sustente a tese de que conhecer algo de forma absoluta seja possível, muito pelo contrário. O facto de algo nunca ter sido bem sucedido antes obrigaria, no mínimo, a um exercício de humildade, precisamente aquilo que falta em abundância nos dias do triunfo racionalista; no entanto o oposto se verifica: o crescente abandono da noção de que o mundo, em particular o moral, é um compromisso onde o óptimo é inimigo do bom em favor da noção de que o óptimo, por ser verdadeiro, tem que ser atingido, mesmo que a expensas da realidade.
As consequências serão, naturalmente, terríveis. Pior do que nortear o caminho numa especulação será nortear o caminho numa especulação que se imagina verdadeira, e onde não se coloca a hipótese de que possa ser falsa. A seu tempo a realidade triunfa sempre apenas para que o Homem reconheça a sua falibilidade e recupere a humildade da sua condição. A arrogância da certeza, ensina-nos a história, é sempre a causa da queda. E esta será sempre tão mais alta quanto maior for a certeza que alimentou a ascensão. Esta arrogante certeza, aliás, representa precisamente o oposto daquilo que todos, bem lá no fundo, até sabemos como verdadeiro: o axioma socrático de que a sapiência virtuosa reside no reconhecimento da nossa ignorância, ou seja, que tudo aquilo que sabemos ser poderá, afinal, não ser. O futuro nos dirá quais as consequências da húbris dos homens do Século XXI, no entanto, de uma coisa poderemos estar certos: a factura virá, como sempre, sob a forma de miséria e violência.

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