quinta-feira, 10 de maio de 2018

FILHOS DE UM DEUS RACIONAL

Desde o início que o mundo se divide em dois: o céu e a terra. Do céu nasce a geometria e a matemática baseada nas movimentações rotineiras dos astros, a começar pelo sol e pela lua: os ciclos solares e lunares oferecem ritmo ao mundo, um ritmo constante e eterno, uma ordem para o caos. É desse ritmo, ou melhor, da consciência desse ritmo, que deriva a grande descoberta da Humanidade, aquela primeira pedra sobre a qual todo o restante conhecimento se há-de erigir: a descoberta do tempo. Ao se aperceber que o mundo não é estático, que é ritmado e causal, a porta para o domínio sobre a matéria abre-se: a agricultura. Foram, no entanto, necessários milhares de anos para que essa intuição se efectivasse.
Durante esse processo, a Terra, da qual todos nascemos e perante a qual todos morremos, revela-se aos olhos do Homem como sendo fértil e, tal como as mulheres, estando fértil em determinadas alturas do ano. Fecundando-a com as sementes do ano anterior o Homem cria - concebe o alimento que garante a sobrevivência no futuro. Desse carácter feminino da Terra, do mundo conhecido, nasce a ideia de Grande Mãe, a mãe de todos nós, do passado e do futuro. Da disseminação das sementes pelos campos apreende-se que é da destruição da semente, da sua transformação, que advém o nascimento dos vegetais e cereais; e é também da morte destes  - com a colheita - que vêm as novas sementes que serão cultivadas no ano seguinte. O ciclo da vida, que paradoxalmente nasce sempre da morte, representa uma transformação constante apenas para garantir o renascer perpétuo de tudo o que morreu, um ciclo de renascimento infinito que plasma na terra o ritmo cósmico observado nos astros que, uma vez observados, na sua regularidade temporal, orientam a vida na terra garantindo o sucesso e a sobrevivência do Homem. Tudo nasce e morre, e tudo é eterno porque o processo de morte e renascimento se repete indefinidamente.
Não poderá portanto ser algo muito extraordinário observar que o ciclo nascimento - morte - renascimento representará um dos primordiais pensamentos religiosos e mitológicos da Humanidade. As constelações aparecem no céu, perfeitas na sua geometria, e com elas as alturas do ano próprias a cada actividade fundamental para sobrevivência. Será então, precisamente, do céu que vem a ordem que permite enfrentar o caos que é a vida de guerra permanente que a Terra oferece. O céu, geométrico, infalível, eterno e imutável, da sua constância divina deriva o conhecimento que permite aos homens enfrentarem as bestas e os demónios que espreitam a cada arbusto, a cada gruta, a cada pedra com a qual se cruzam. A Grande Mãe é divina porque dá vida, no entanto, apesar de obedecer aos ritmos que o cosmos divino impõe também é imprevisível: as tempestades, os fogos, os monstros, a morte. A Grande Mãe é, portanto, dual: divina, porque fértil; demoníaca, porque assassina.
Esta dualidade configura uma incerteza, uma insegurança do Homem que, frágil e nu, procura na constância cósmica as seguranças que lhe vão faltando. É um mundo mágico, o do Homem primitivo. Um mundo que vai sendo desbravado à medida que a mente inquisidora humana, sempre em busca de padrões e rotinas que possa utilizar em proveito próprio, vai atribuindo sentido e significado ao caos que impera. O caos é o desconhecido; a ordem é o reconhecido. E como a primeira ordem é a cósmica é encarnando-a que o Homem, através do ritual, procura impor a ordem no caos. É, portanto, literalmente do céu que vem o nascimento do pensamento mitológico, um pensamento que procura organizar racionalmente o transcendente mágico que o Homem, desde sempre, sentiu dentro de si.
Um bom exemplo é o mito sumério da Criação. Para lá do tradicional motivo do dilúvio (a água simboliza o caos criador do útero da Grande Mãe), a história gira fundamentalmente à volta das aventuras e desventuras de um grupo de deuses que são forçados a destruir e derrotar Tiamat, a encarnação suméria do arquétipo da Grande Mãe, que aborrecida pela cacofonia dos deuses que lhe descenderam, se prestou a destruir o mundo. Marduk, o deus que acaba triunfante, após matar Tiamat, desenha então o universo que cria utilizando como matéria prima as próprias entranhas e o sangue de Tiamat. A dualidade do mundo fica aqui bem presente: a virtude divina do criador, Marduk, e a natureza ambivalente e destruidora, demoníaca mesmo, de Tiamat como matéria base da qual o universo é feito. Melhor ainda, surge já aqui uma ideia fundamental: que a forma é divina e que a matéria é corruptível pela ambivalência e a inevitabilidade do mal. O desenho, as leis que Marduk impôs, consistem no plano divino; a matéria da qual se faz o mundo, e os homens também, não tanto, muito pelo contrário, deriva do agente que se tinha prestado a destruir a criação.
Não deixa de ser extremamente curioso como esta noção tão antiga como o tempo fez o seu caminho até nós. Primeiro, atentemos nos Gregos que, mais de mil anos depois, viram um dos seus maiores e mais influentes filósofos argumentar que existem dois mundos, o das formas e o da matéria sensível. Platão descreve o mundo das formas como sendo divino, harmónico, eterno e imutável, perfeito. As formas são boas e belas, porque o Bem e o Belo, num mundo harmónico terão que ser compatíveis: se algo fosse bom e feio haveria conflitos entre as coisas boas forçando a que os homens tivessem que escolher entre elas. O ideal platónico impede essa escolha: no mundo das ideias formais, onde a ordem impera, nada está em conflito com nada, pelo contrário. Todos os bens e valores se harmonizam numa ordem primordial que oferece sentido e significado ao mundo, um sentido e um significado que se tornam acessíveis ao Homem através da Razão.
Já a matéria de que os Homens e o mundo são feitos, uma matéria derivada à imagem das formas que lhe dão existência, essa matéria é corrupta, decadente, perene e mortal. Aí os conflitos ocorrem inevitavelmente porque as coisas existem no desconhecimento que apenas a razão permite sobre o que é o verdadeiro bem, ou o verdadeiro belo; ou seja, sobre o que é racionalmente verdadeiro. No entanto, e como espero que o texto mostre bem, a base deste racionalismo platónico é precisamente o velho ideal do cósmico e ordenado divino a dar ordem ao caótico e perene mundo material enredado no ciclo perpétuo de criação e destruição. A roupagem científica que Platão atribuiu ao seu sistema filosófico pode muito mas não consegue esconder a origem absolutamente mitológica da ideia de que há um plano existencial racional, ordenado, verdadeiro, que nos é transcendente e no qual a harmonia impera. No fundo, a ideia racionalista de que se uma coisa é racional então é necessariamente universalmente verdadeira não é muito mais do que uma reinterpretação dos mitos primitivos da criação do mundo. Marduk reencarna no plano racional enquanto que Tiamat continua a ser a essência do plano material.
O ideal racionalista, no entanto, fez o seu caminho. De Platão para o Cristianismo, primeiro com Santo Agostinho e depois com São Tomás, a coincidência das ideias de Bem e Verdade com aquilo que era Racional, foram sempre sendo defendidas. Na verdade, essa coincidência, e mais uma vez entre uma tese filosófica e um pressuposto religioso, era frutuosa: nas vestes da filosofia se oferecia confirmação à mitologia religiosa sobre a essência do mundo.
Com a revolução intelectual do Século XVI, o processo sofreu finalmente, e pela primeira vez em milénios, uma alteração. A nova ciência de Descartes e Newton via o universo como um gigante mecanismo do qual Deus seria o criador e operador. No entanto, a ideia que norteou todo o processo do Iluminismo foi precisamente o velhinho ideal racionalista de que se um preceito for demonstrado como racionalmente válido então esse preceito é universalmente verdadeiro. Do mesmo modo, para os agentes da ciência mecanicista, uma engrenagem universal terá que ser coerente entre si e, tal como Platão, não passaria pela cabeça de ninguém argumentar que uma coisa verdadeira pudesse estar em conflito com outra. O processo científico foi, como todos hoje podemos ver, muito bem sucedido: a revolução intelectual deu lugar, primeiro, à industrial e, depois, à tecnológica. No entanto, houve um passo que ficou sempre por cumprir: o da revolução moral. As regras verdadeiras que foram sendo descobertas sobre o mundo material nunca tiveram a repercussão que se imaginava vir a ter no mundo moral. As leis racionalistas sempre encontraram grandes teóricos, é verdade, e a cada vez sempre se argumentou que daquela vez é que se tinha descoberto a solução racional para a moral dos homens, sempre se fizeram grandes celebrações intelectuais, grandes movimentações políticas - e grandes mortandades humanas. Rousseau, Kant, Hegel, Marx, todos descobriram o sistema que sustenta o mundo, todos preconizaram o paraíso futuro na terra e todos, mas todos mesmo, partiram do mesmo pressuposto: que a verdadeira lei moral seria racional e, como tal, igual e harmónica para todos os homens. Ou seja, o velhinho Marduk que continua a derrotar a velhinha Tiamat e a oferecer sentido cósmico e geométrico ao mundo.
Hoje o mito ainda perdura. Onde Razão e Divindade foram criados no início dos tempos, continuamente advogados durante o milénio Cristão, vieram os racionalistas modernos agitar as águas. No entanto, apesar de retirarem a roupagem religiosa não deixaram de continuar a adorar o mesmo Deus, apenas que lhe dando o nome de Razão: nela reside a ordem do mundo, nela reside a salvação (agora tecnológica) da Humanidade, nela reside a promessa do paraíso redentor da Humanidade. Nietzsche apregoou a morte de Deus mas talvez tenha sido demasiado dramático: os homens não mataram Deus, apenas lhe mudaram o nome. E enquanto não se derrotar em definitivo a ideia de que o mundo, incluindo o moral, é sustentado por uma harmonia universal eterna, racional e imutável, naturalmente boa, a verdadeira essência do mundo continuará escondida, até porque descobrir que o mundo é fundamentalmente uma obrigação perpétua de escolha entre diferentes bens e valores, na maioria das vezes incompatíveis entre si, convenhamos, não é o melhor slogan de marqueting filosófico. Pior ainda: aceitar que a promessa de sentido e significado para a vida nunca será cumprida pela Razão, muito pelo contrário, não poderá ser nada menos além do que uma crise existencial. Mais grave será, no entanto, que enquanto perdurar o credo racionalista estará o homem forçado a colocar as suas esperanças de redenção num altar que, tal como o cordeiro bíblico, brilha muito como o ouro mas é vazio de conteúdo. Isso implica uma separação do homem face ao seu transcendente, o seu lado espiritual, o verdadeiro custo que o dogmatismo racionalista ofereceu à Humanidade: cegos pelo brilho racionalista ficam os homens cada vez mais longe da procura de um verdadeiro significado, quiçá de um Deus maior, verdadeiramente transcendente, aquele que nunca poderá ser racionalizado, por ventura apenas sentido. E enquanto assim for lá continuarão os homens, que nem D. Quixote, na luta eterna contra os demónios e males do mundo que, imaginando-os sempre lá fora, longe do seu Olimpo racionalista, nunca são capazes de identificar como estando verdadeiramente dentro de si.

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