domingo, 3 de junho de 2018

A ANATOMIA DE UM GOLPE PALACIANO

A maior parte das pessoas não se apercebeu mas houve uma revolução em Portugal, uma revolução seguida de uma contra-revolução. No final, voltou tudo à estaca zero. O acontecimento mais relevante no status quo político-económico português foi a queda de Ricardo Salgado. Curiosamente, apesar da cobertura mediática inevitável a que um acontecimento deste tipo obriga, uma análise séria e minimamente aprofundada sobre o ocorrido não tenho conhecimento de que tenha sido feita. Diz-se, e bem, que Ricardo Salgado era o "Dono Disto Tudo" (DDT), mas, exceptuando a teia desmontada a propósito da Operação Marquês, o que significava na práctica ser o DDT?
Um dos poucos vislumbres do exercício desse poder de bastidores, do verdadeiro poder em Portugal, está no livro que José Gomes Ferreira publicou (link para uma sua entrevista a apresentar o livro). Aí, José Gomes Ferreira defende a sua tese de que a estranha, e para muitos inexplicável, demissão "irrevogável" de Paulo Portas teria sido feita em coordenação com Ricardo Salgado. O objectivo seria fazer cair o Governo de Passos Coelho para garantir que um novo governo mais amigo de Salgado impedisse a queda do BES. Esse objectivo, graças à tenacidade de Passos Coelho, foi impedido: o BES, e Salgado com ele, caiu, revelando as teias do poder oligarca português, agora tão evidentes nas escutas e vídeos da Operação Marquês, por exemplo. O que possibilitou essa limpeza? Passos Coelho e a Procuradora Geral da República que o seu Governo apoiou.
A revolução que ocorreu em Portugal foi a queda do seu Regedor, Salgado. Uma revolução que ocorreu por mandato democrático e o popular, o de Passos Coelho, que em nome do interesse nacional soube lutar contra os poderes mais e menos obscuros, as teias da oligarquia do chamado "bloco central de interesses". Já a contra-revolução começou com o episódio irrevogável, instaurou-se com a criação da Geringonça e venceu com a vitória de Rui Rio para a Presidência do PSD - e o consequente afastamento do único adversário do bloco central de interesses, Pedro Passos Coelho.
A oligarquia do bloco central de interesses manda no país distribuindo dinheiro, benesses, empregos e oportunidades de negócio garantidas pelo Estado. Num país onde o Estado é omnipresente, quem nele manda manda em quase tudo. E quem manda em quem manda no Estado, os DDT da vida, mandam mesmo em tudo. Daí serem os donos disto tudo. Passos Coelho ao querer libertar a economia do Estado representou uma ameaça para a oligarquia, é verdade; mas o perigo mesmo, e letal para Salgado, apenas ocorreu quando Salgado percebeu que Passos não iria engolir as negociatas do BES, que iria deixar a justiça actuar e, mais importante, que não iria salvar o BES e o seu Presidente. A partir daí tornou-se evidente que Passo Coelho teria que ser substituído: primeiro, como já acima referi, o irrevogável de Portas. Correu mal, Passos deu a volta. Depois, a campanha mediática intensa para substituir na liderança do PS António José Seguro, que tinha acabado de vencer as eleições europeias, pelo antigo n.°2 de Sócrates, António Costa, aquele que Seguro assegurava ser "amigo dos negócios" (link). Correu bem. Em seguida, todo o apoio mediático à vitória de Costa contra Passos nas legislativas de 2015. Correu mal, Passos venceu as eleições. Depois, o grande passo de magia: rompendo-se o consenso constitucional de que o partido mais votado, mesmo que em minoria, governaria, comprou-se a extrema-esquerda e formou-se um governo de frente de esquerda que, paradoxalmente, apenas foi possùivel para se deitar abaixo aquele que mais lutou contra a oligarquia corrupta que governava Portugal. Um sucesso retumbante, portanto.
Desde aí, de regresso ao poder, vemos todas as mesmas personagens que governavam com Sócrates de regresso ao Governo (link). Com a UE a garantir juros baixos através do programa de Quantitative Easing (compra de títulos de dívida pública portuguesa por parte do Banco Central Europeu abaixo do preço de mercado, link), com os juros da dívida pública artificialmente baixos, pode a frente de esquerda de Costa continuar a austeridade, cativando pagamentos a curto prazo - como no Serviço Nacional de Saúde, por exemplo (link) -  enquanto distribui prendas (link), benefícios (link) e empregos (link) pelos amigos (link), bem como pelas corporações afectas aos membros da Geringonça, desta última sendo o melhor exemplo o consequente controlo dos sindicatos no sector da educação com o desaparecimento de cena de um dos maiores adversários dos Governos de Passos: Mário Nogueira.
Durante os últimos dois anos, Costa, e com ele o bloco central de interesses - agora alargado aos interesses do BE e do PCP -, tomaram de novo o controle completo do país: Governo, economia, comunicação social e, com uma melhoria significativa face à versão anterior: ao incluir o BE e o PCP garantiu-se a paz social através do controlo dos sindicatos (link), o elemento que faltava para que o poder fosse total. Senão, a título de exemplo, vejamos: durante a governação de Passos Coelho se um bebé nascia numa ambulância caia o Carmo e a Trindade porque o Governo era insensível; se agora o Governo cativa verbas fundamentais para o funcionamento do IPO (link), já ninguém diz grande coisa.
Pior ainda é a desresponsabilização política completa. Em 2017 morreram mais de cem pessoas em fogos por notória incúria estatal (link), irresponsabilidade de um conjunto de pessoas nomeadas pelo Governo a poucos meses da época de fogos (link) e, pior ainda, por falência de um sistema de alerta de incêndios, o célebre SIRESP, que não foi mais do que uma enorme negociata que meteu o Grupo Espírito Santo e António Costa ao barulho (link): tudo isto deu em nada. Mais grave: o Governo tentou por todos os meios esconder o relatório do ocorrido (link), relatório que comprova que provas fulcrais foram apagadas (link), destruição de provas essa posteriormente confirmada pela auditoria (link).
A vitória final da contra-revolução foi tida, no entanto, dentro do PSD. Primeiro, com a campanha mediática mais suja que alguma vez assisti em Lisboa onde a candidata do PSD foi constantemente apoucada, enlameada, inclusive por membros da sua própria lista (link), em constantes manobras políticas onde até mesmo o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, amigo pessoal de Salgado, e o Jornal Observador não se pouparam a prejudicar (link). Passos assume a derrota e acaba substituído por Rui Rio, o homem que desde o início assumiu que se fosse necessário até faria uma coligação com o PS de Costa, reeditando o célebre Bloco Central, para retirar a extrema-esquerda do poder (link). Desde aí, oposição do PSD? Nem vê-la. Finalmente o país dorme em paz. Não se fala de sondagens, não se fala de greves, não se fala do livro de Gomes Ferreira, apenas se discute futebol e o festival da Eurovisão.
E quanto ao CDS? Sobre isto basta recordar que Assunção Cristas recebeu de bandeja um partido pelas mãos de Paulo Portas, o tal homem que, de acordo com o acima disposto, esteve disponível para fazer cair o governo de Passos para salvar Salgado. A intervenção final de Portas no Congresso da sua saída foi, estranhamente, focada em grande parte na necessidade de Portugal ter boas relações com Angola (link). Agora na Mota-Engil, acusado inclusive de a ter beneficiado (link), entre a sua actividade empresarial que lhe rende agora mais de trinta mil euros por mês (link) e o episódio do irrevogável, Portas inaugurou há poucos dias o seu meritíssimo tribunal de opinião televisivo. Será, certamente, independente. Quanto à Mota-Engil, onde Angola é uma peça fundamental (link), imagino que veja com bons olhos tamanha influência. Já da nova liderança do CDS, Cristas, ela própria com nacionalidade angolana (link), ainda terá que mostrar ao que vem - e até que ponto votar Cristas será uma coisa diferente de votar Portas. Uma coisa foi certa: a primeira coisa que fez enquanto líder do CDS foi desfazer a coligação com o PSD de Passos.
A contra-revolução é, portanto, praticamente total: não deixa ninguém, ou pelo menos quase ninguém, de fora. A dívida pública voltou a aumentar (link), os avisos sobre subidas de juros estão aí (link), e o Quantitative Easing vai eventualmente acabar (link), mas nada se passa em Portugal, um Portugal tão calmo como o de Salazar: até a visita da Chanceler Merkel não mereceu sequer um apupozinho da estrema-esquerda. Entretanto, Costa manda - e os Donos Disto Tudo mandam mais ainda, dando-se ao luxo de escolher sobre quem serão os fantoches, quer à esquerda quer à direita, a governar em nome deles.

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