sábado, 10 de novembro de 2018

O NOVO MARXISMO

O grande problema da esquerda marxista no pós-segunda guerra foi o enorme sucesso do capitalismo e da economia de mercado. O crescimento económico, a riqueza gerada e a crescente terciarização da economia fizeram com que os marxistas deixassem de ter oprimidos para libertar: os cada vez menos operários existentes cada vez mais ganhavam mais e engrossavam, através das oportunidades geradas pelo mercado livre, bem como do fruto do seu esforço em aproveitá-las, as fileiras das classes médias. A sociedade aburguesou-se porque, e isto é o ponto fulcral, a sociedade enriqueceu como um todo: os mais pobres das nossas sociedades ocidentais são muito mais ricos, mas muito mais ricos mesmo, que os pobres, não apenas da época da industrialização, como daqueles países que, ainda hoje, não se organizam em economias de mercado.
Como resolver a questão do ponto de vista marxista? Ora, onde não havia oprimidos para libertar teriam que se inventar. Daí que, desde aí, porque os pobres desapareciam a olhos vistos, se tenham ocupado a traduzir o conceito da superestrutura marxista opressora da esfera económica para a identitária: porque os seres humanos não são iguais, e em todos os sistemas existem hierarquias, a extrema-esquerda identificou aqueles que poderiam ser mais facilmente persuadidos de que as responsabilidades da sua condição menos agradável face aos mais bem sucedidos se deveriam atribuir ao sistema capitalista, e em particular a quem controlaria o sistema, o novo bicho papão agora inventado para preencher o papel outrora representado pela burguesia no velho-marxismo: o hetero-patriarcado branco.
Deste modo, apropriando-se, em alguns casos, de aspirações legítimas (igualdade sexual entre homens e mulheres, descriminalização da homossexualidade, etc.), e noutros, de ressentimentos (a criação de riqueza generalizada cria forçosamente um maior número de indivíduos muito mais ricos que a maioria, e com uma desigualdade maior, o chamado 1%), a extrema-esquerda conquistou um novo discurso que, precisamente por dar resposta a algumas aspirações legítimas, teve boa aceitação social, em particular nos jovens, e desse modo conseguiu embrulhar em papel dourado um produto bem velhinho: a destruição do modo de vida Ocidental, ou seja, o fim do mercado livre, a restrição da propriedade privada e a instauração de um suposto homem novo, o homem livre de todas as opressões, de todas excepto aquelas causadas pela autoridade do Estado que serviria agora para forçar os indivíduos, mesmo que contra a sua mais profunda vontade, a viver a liberdade que os líderes políticos e espirituais do movimento definiriam que cada um de nós deveria viver.
No entanto, atente-se, este novo marxismo consegue ser pior que o original: enquanto o marxismo tradicional, apesar de denunciar uma opressão intelectual que com um suposto ópio alienava o povo, se concentrava nos meios de produção materiais, já este neo-marxismo identitário soma ao velho marxismo materialista a interferência pública na regulação das próprias identidades dos indivíduos. Ou seja: aumenta o seu raio de acção para dentro dos próprios indivíduos que pretende, através da propaganda e da educação estatal, moldar à sua vontade, de acordo com a sua ideologia de género e os rácios que os seus pseudo-especialistas inventam. Dessa forma, o totalitarismo que advoga é muito mais poderoso: no admirável mundo novo da extrema-esquerda não apenas os bens dos indivíduos são organizados pelo Estado como também a sua sexualidade, identidade de "género" ou, nos casos mais extremados, até mesmo a biológica.
A família será, naturalmente, a última linha de defesa a quebrar. Daqui decorre a vontade - absolutamente esdrúxula, aliás -, e que foi bem sucedida, de dar o "direito" a crianças de 16 anos de "mudarem" de sexo independentemente da vontade dos pais. Ou seja, um menor de idade não pode votar porque se entende que não tem maturidade para esse acto de responsabilidade mas, o mesmo Estado, já entende que o mesmo menor já tem maturidade para decidir de forma permanente sobre operações de mutilação genital e de introdução hormonal para transitar - na aparência - de sexo. O que daqui resulta é que, neste aspecto, o Estado já manda mais do que os pais, e isto é inaceitável porque, como deveria ser evidente, enquanto menor um filho ou uma filha estão à guarda da família.
A agenda da extrema-esquerda não vai parar. O ressentimento dos vencidos da história, aliás, nunca terá estado tão perto da vitória no Ocidente. No entanto, e isto parece-me pertinente, esta agenda igualitária, identitária, profundamente sexualizada, não colhe o apoio da maioria das pessoas. Seja por questões identitárias, seja por outras que também advogam como o multiculturalismo, ou, ainda, pelo falhanço económico nos locais onde conseguiram de facto ter poder (Venezuela, Cuba e, em âmbito diferente, no Brasil) cresce uma forte rejeição popular a este movimento neo-marxista. Nos jovens, através da internet, a darkweb e figuras como Jordan Peterson, estão a dar cartas e a arrastar consigo verdadeiras multidões. Apesar disto, esta agenda, de uma forma mais radical ou de uma forma mais intelectual, ainda domina as elites: nas universidades, onde uns se validam aos outros, nos media, nos partidos, nas organizações não-governamentais, nas agências governamentais. Daqui se percebe que a grande consequência deste status quo seja um discurso mediático das elites em profunda dissonância com as bases populares, uma dissonância que tem, de forma progressiva e indesmentível, debilitado os centros políticos e reforçado as votações de movimentos conservadores nos valores e mais liberais na economia. Assim tem sido na Europa (França, Alemanha, Holanda, Suécia, Áustria),com maior força no Leste, (Hungria, Polónia), tal como nos EUA, com Trump, e, agora, no Brasil, com Bolsonaro.
Em suma, se o centro moderado não for capaz de rejeitar a agenda cultural, política, económica, e sexual, deste novo marxismo, então esse centro será a curto prazo substituído por quem se prontificar a rejeitar essa agenda.

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