quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

DA TRADIÇÃO

A noção de que existe uma determinada solução definitiva para a sociedade política, logo moral, dos humanos revela-se desde logo, a priori, como profundamente incoerente para com a própria natureza absolutamente dinâmica da vida humana: não vivemos uma condição estática, permanente ou imutável, muito pelo contrário. A vida humana, desde a profunda vulnerabilidade do seu estado de necessária dependência dos progenitores entre a concepção e os primeiros anos de vida, passando por um gradual processo de, primeiro, conquista de autonomia e, depois, de independência, até, finalmente, de maturação, resulta de forma evidente num conjunto consequencial de estados, todos eles diferentes entre si, que implicam uma condição de mudança dinâmica cuja única constância reside, precisamente, na impossibilidade de se parar esse processo de constante transformação.
A pessoa humana olha para o mundo com os olhos que tem, ou seja, a perspectiva que cada qual tem do mundo altera-se na exacta medida em que essa perspectiva evolui - e esta evolui na exacta medida em que o estado de maturação do ser humano se altera. Crescemos, amadurecemos - em tese - e, com este processo, o nosso mundo cresce e amadurece connosco. Não poderá ser nada mais além de uma evidência salientar que o mundo, e os problemas que nele identificamos, tal como as soluções que imaginamos para estes, estão desta forma directamente interligados: assim como vamos crescendo vamos também modificando a forma como vemos o mundo.
No início, existimos no caos. Luzes, cores, formas sem significado, a vida acontece-nos sem que se alcance sequer o que se passa. Com o tempo, os conceitos, e com estes a segurança do conhecido, vão aparecendo: primeiro, o espaço; depois, o tempo. As divisões da casa, as ruas, os caminhos. Os dias da semana, os meses, os anos. As cidades, os países e, finalmente, os planetas. O passado e o futuro. As relações familiares. As emoções, os conflitos; as vitórias e as derrotas. Novas vidas dos que chegaram depois de nós. A morte de alguns que foram primeiro. E com esta experiência, finalmente, o conhecimento consciente do processo que orienta e limita a nossa própria vida: nascimento, crescimento, amadurecimento, envelhecimento e, no cair do pano, a morte - a definitiva e intransponível fronteira entre o conhecido e o desconhecido.
Ao longo deste processo vamos assimilando um fluir de constante nova informação, uma informação que apreendemos e organizamos numa conceptualização cada vez mais complexa do mundo que nos rodeia. Na adolescência, com os primeiros passos verdadeiramente autónomos, criamos um mapa que nos permite navegar no mundo: é um mapa tosco, profundamente superficial, necessariamente incompleto, mas não obstante é um mapa - e, mais importante, será o primeiro mapa que - mesmo que não o seja - sentimos como sendo mesmo nosso, que não nos foi imposto ou dado por alguém. Daqui decorre a arrogância de quem imagina já ter aquilo do qual necessita para triunfar no mundo até aí desconhecido: precisamente porque o mapa é simultaneamente simples e abrangente torna-se fácil a crença na sua infalibilidade. Na adolescência, com a arrogância de quem descobriu algo novo que imagina melhor que tudo o resto, tudo aparenta ter uma solução. Melhor ainda: uma solução simples, evidente e fácil de implementar. Com a vantagem emocional configurada por um mapa que permite uma navegação minimamente eficiente no mundo, e esta coadjuvada pela ausência de necessidade de ter que fazer qualquer coisa para além de navegar, e criticar, o mundo que os outros fizeram, ou seja, armado de um fogacho de liberdade e preservado à necessidade das responsabilidades, o adolescente imagina ter percebido o mundo que agora quer conquistar.
No entanto, há um dia em que a rudeza superficial do mapa adolescente se revela na auto-insuficiência perante os acontecimentos, normalmente trágicos, subitamente ocorridos na vida. É o regresso do caos, do desconhecido - e o reconhecimento que a sensação de segurança que a posse do mapa que nos orientava na vida não era mais do que uma infante ilusão. São as dores do crescimento, do amadurecimento, estas que nos vêm agora rasgar as certezas que tivemos um dia. Aqui separam-se os corajosos dos demais: no reconhecimento da insuficiência dos nossos sistemas de navegação no mundo urge agir, urge criar um novo mapa, um mapa nascido das cinzas do anterior mas que ofereça maior definição ao mundo, mais profundidade, uma melhor capacidade de orientação.
Contudo, também este novo mapa conhecerá o seu fim: cada novo tempo necessita de um novo mapa porque a adopção de cada novo mapa, apesar deste configurar uma continuação, ou um aprofundamento, do mapa anterior, ao impôr uma transformação impõe também a perda do momento anterior. Na perseguição do amadurecimento, com o velho a dar lugar ao novo, enfrentamos então uma tragédia constante que se revela na necessidade de permanentemente largar para trás aquilo que um dia tivemos como mais precioso: tal como as roupas preferidas que se vão acumulando no sótão porque foram ficando pequenas demais, também o crescimento intelectual e emocional nos força a deixarmos para trás os mapas que tanto conforto e segurança nos deram um dia. Ao mesmo tempo, cada momento de transformação representa sempre um salto no desconhecido: largar o mapa que nos segura no mundo armado apenas com a esperança de encontrar uma melhor representação consiste num acto de coragem, uma coragem tanto mais difícil de reunir quanto menor for a nossa capacidade de identificar a inescapável condição em que nos encontramos. Com o tempo, com a habituação a esta condição, a coragem integra-se no ser adulto e maduro: a vida passa a incluir este ritual de constante renovação; tal como a cobra que anualmente perde a sua pele também os seres humanos, perante o mundo hostil e a tragicomédia que o compõe, são forçados a renovar-se de forma constante. É este o reflexo interior da mudança exterior que vamos percebendo nos espelhos e que nos acompanha a vida inteira, uma mudança que na maior parte dos casos não desejamos - porque nos atemoriza o seu resultado final  - mas que somos forçados a aceitar como fazendo parte do nosso próprio ser.
Há aqui, então, uma nuance que importa ressaltar: não somos nós apenas a imagem do estado material que vemos reflectida no espelho, tal como não somos nós também apenas o estado interior que, no espírito, acompanha esse estado material. A essa soma de estados materiais e espirituais devemos nós também acrescentar o processo de transformação dos estados de ontem, tal como de todos os anteriores, nos de hoje, e nos de todos os amanhãs. Isto porque sendo o Eu algo que gostamos de imaginar constante, e sendo que, como vimos, a única constância em nós ser precisamente o processo de transformação, então, por definição, será também nesse processo que, a existir algo de constante em nós, residirá a constância do nosso ser. Somos, então, a soma do que fomos, e do que somos, com o próprio acto de transformação. Somos, na essência, também a própria mudança que opera dentro de nós.
Assim sendo, a maturidade passa pela aceitação desta essência transformadora que nos forma, que nos faz. Conhecermo-nos, tanto a nós como ao mundo, passa por identificar - reconhecer - a mudança como uma inevitabilidade da vida. Do mesmo modo, esta mudança, precisamente porque representa tudo o que há de constante na natureza humana, está presente no consciente e inconsciente colectivo humano desde sempre. Está presente nos nossos mitos criadores, nas nossas religiões, nas nossas tradições. De facto, mais do que qualquer outra coisa, as nossas tradições representam o resumo - um meta-mapa - que os nossos antepassados, de uma forma ou de outra, nos legaram sobre a forma como eles próprios lidaram com esta constância trágica da vida: o processo de transformação e amadurecimento dos seres humanos face ao mundo. Ora, precisamente porque este processo é constante então as tradições, quer na sua simbologia quer no seu conhecimento primordial, revelam-se como fundamentais como agentes facilitadores de integração de cada novo ser humano no mundo: seguir as tradições da nossa civilização representa enfrentar o desconhecido acompanhado pela multidão que, mais estando próxima de nós - e que por essa razão mais partilha connosco da nossa própria perspectiva sobre o mundo -, nos ajuda a superar a espinhosa missão. Assim, uma tradição civilizacional representa um modo de vida, e um modo de vida representa uma forma particular de lidar com o desconhecido; representa uma base, não apenas para um mapa particular, mas, muito mais importante, para um modo de existência que facilita, e potencia, o nosso necessário processo individual de constante e consecutiva substituição de mapas mais rudimentares por outros mais eficientes. Representa também uma companhia, um laço de solidariedade intemporal entre pessoas que partilham uma mesma condição ao longo dos milénios: a de humanos frágeis e igualmente desprotegidos que, largados no imenso desconhecido, persistem no seu labor contra, e com, o mundo.
A modernidade trouxe com ela um conjunto enorme de novas ferramentas com as quais os humanos, em particular os Ocidentais, foram capazes de transformar o mundo. Essa transformação permitiu melhorias materiais formidáveis, tremendas mesmo, melhorias de tal magnitude que a luz legada pelos holofotes do desenvolvimento nos ofuscou a nossa própria condição - que apesar de tudo se mantém inalterada: nascemos, vivemos, morremos. No entanto, o manto diáfano tecnológico que nos envolve esconde-nos essa realidade. Paradoxalmente, é no mundo admirável do progresso e mudança constante que se perdeu a noção de que essa constante mudança que vemos desenrolar-se no mundo também não cessa de operar dentro de nós. Hoje, fruto dos ideais racionalistas e materialistas, anseia-se por soluções racionais, definitivas e imutáveis para os problemas humanos; soluções que necessariamente não existem, nem poderiam existir, porque se os seres humanos não são imutáveis, definitivos ou sequer, já agora, plenamente racionais então nunca o mundo dos humanos poderá ser outra coisa além do que um prolongamento colectivo da sua condição individual: a de constante transformação.
Aquilo que de novo surgiu com o advento da revolução tecnológica representa um paralelo perfeito com o estado adolescente que acima foi descrito: armados de uma nova tecnologia que nos garante maior autonomia, uma autonomia que não imaginávamos poder vir a ter, vemo-nos agora apetrechados com um novo mapa para o universo que imaginamos que nos poderá resolver todos os problemas persistentes nas nossas vidas. A arrogância deste novo conhecimento faz-nos levantar os narizes e desvalorizar o conhecimento primordial dos nossos antepassados: as tradições são hoje estúpidas, postulados irracionais, coisas sem valor e as quais o nosso novo mapa  - a ciência e a tecnologia que agora imaginamos dominar - permite ultrapassar. Exigem-se agora direitos sem deveres, benesses sem sacrifícios. Ao mesmo tempo, proclama-se inventar e descobrir que a condição do homem é superior à violência do reino animal, um reino do qual, no conforto do supermercado citadino, imagina-se o homem dele não precisar para se alimentar; do mesmo modo, na sua superioridade arrogante, se consideram muitos como estando para lá da biologia e da limitação física: a imaginação identitária não aparenta ter fim, um processo cada vez mais - ilusoriamente, claro - longínquo da trágica realidade da limitação da nossa condição. Afinal, pode muito a transformação humana mas não tanto que passem a ser os homens, e não o mundo, a controlar essa transformação e a decidir com as vontades espúrias do momento no que há-de o homem ser transformado amanhã.
Ao mesmo tempo, a ilusão do pensamento racionalista propõe-se desde a Revolução Francesa a destruir todo o legado civilizacional Ocidental em nome do triunfo da Razão, o supremo mapa para o mundo moral contemporâneo. Não obstante, o mundo é o que é: a tragédia da nossa condição acabará sempre por revelar-se para nos forçar a integrar o novo conhecimento e prosseguir o processo de amadurecimento. Ao virar da esquina, o Caos espreita sempre.
Hoje, no meio da cacofonia que nos vende segurança e conforto, a condição humana revela-se na solidão com que os indivíduos, despidos dos seus laços intemporais, enfrentam o desconhecido universal. Esmagados entre a propaganda do admirável mundo novo e a realidade da condição existencial que sentem nos ossos, cada vez mais o processo de amadurecimento dos seres humanos é interrompido, cortado, amputado. Artificialmente imposta, esta adolescência colectiva representa um perigo tremendo, isto porque uma regra universal se revela como verdadeira a quem se atreva a olhar o passado: primeiro, sempre que abandonámos o bom senso de trilharmos caminhos novos amparados nos ombros dos nossos antepassados sempre o resultado foi violento e mortífero; depois, que a dimensão dessa tragédia humana é sempre directamente proporcional à magnitude da imposição dos supostos novos princípios que visam substituir o conhecimento milenar entretanto acumulado - bem como da distância que separa os primeiros face ao segundo. Quanto mais negarmos a realidade da nossa condição mais forte será o elemento trágico que nos voltará a revelar o mundo tal como ele é.

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