quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

HÁ-DE LEVANTAR

Aqui há uns dias viajei de carro de Bruxelas para Portugal. Porque não queria ir sozinho desafiei um grande amigo para vir passar uns dias cá a casa e a acompanhar-me na viagem. Pelo caminho falámos de muita coisa, livros e citações que nos impressionam entre elas. Dizia-me ele que a Mensagem do Fernando Pessoa é algo a que ele regressa sempre, e sempre com passagens que, confiou-me ele, o fazem quase chorar. Deu-me vontade de revisitar a Mensagem. Hoje, de regresso a Bruxelas, dei ganas à vontade. Diz-me o Pessoa, a propósito de D. Sebastião, que “louco, sim, louco, porque quis grandeza qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?” Serei, de facto, como todos, aliás, um cadáver adiado que procria, um louco que acredita. Há sempre em nós um revolucionário, não duvidem, mesmo nos mais conservadores. Português, pois claro, e, mesmo atolado no nevoeiro, com muito orgulho. Um dia esse nevoeiro há-de levantar.

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