quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

SOBRE JORDAN PETERSON

Aqui já há uns tempos atrás comecei, a propósito da minha investigação académica, a prestar atenção ao trabalho do Carl Jung. Apesar de, verifiquei mais tarde, a coisa não ter forma de colar com a minha tese, não obstante, a minha investigação legou frutos. Primeiro, desde logo, ler Jung é por si só uma experiência fascinante: a descodificação que faz do processo de maturidade do ser humano e a transposição desse mesmo processo para um conjunto meta-psicológico que inclui a condição humana como um todo é algo que, parece-me, pode muito bem revelar-se como uma porta entreaberta para o futuro, não apenas da psicologia analítica mas, eventualmente, da própria filosofia.
Assim, além do prazer da leitura de Jung, sobrou-me também um conjunto alargado de ideias para uma investigação futura que, além da área da metafísica e a relação desta com a filosofia política - a minha área de trabalho académico actual -, inclua também uma incursão no terreno do sagrado, do mitológico e no processo de maturação psicológica. Só por isto o meu tempo já teria sido muito bem empregue. No entanto, ainda ganhei mais com a minha incursão por terrenos Jungianos. Refiro-me, naturalmente, a Jordan Peterson, um estudioso de Jung que tinha publicado diversas palestras sobre o assunto no Youtube.
Ao contrário do que activistas ignorantes e mal-intencionados, bem como ressentidos intelectuais, possam fazer parecer, Peterson não é apenas um "professor de psicologia". É um professor de psicologia, é certo, mas não é um professor qualquer: é um dos mais prestigiados investigadores académicos no seu ramo estando no top 1% de citações académicas, tem inúmeros artigos publicados, uma obra compreensiva e extremamente original também ela publicada - "Maps of Meaning" - e foi o detentor da cadeira de psicologia analítica em Harvard até, pelo próprio pé, ter decidido ir para a Universidade de Toronto. Não é, convenhamos, um currículo qualquer.
No que concerne à substância, Peterson não deixa de ser igualmente notável: aliou a sua formação de base em psicologia com uma investigação prolongada sobre o fenómeno da adição, coisa que lhe permitiu entrar no campo da neuro-psicologia, e daqui na neuro-biologia. Cruzar o campo psicológico com o biológico dirigiu-lhe a vontade para uma procura de uma base intelectual que fosse, por um lado, fiel no pragmatismo à tradição norte-americana mas que, por outro, conseguisse sustentar argumentos sólidos contra o relativismo moral cada vez mais dominante. Esta abordagem, só por si, é inovadora e representa um desafio para qualquer pessoa preocupada com a temática da ética, da moral e/ou da teoria política.
Finalmente, Peterson, motivado desde muito novo pelos horrores do nazismo e do comunismo, focou em particular a sua atenção nas razões que levam sociedades inteiras a abraçarem soluções que, pela sua violência e trágica mortandade, maldade mesmo, nos parecem hoje como modelos aberrantes. No entanto, e Peterson não se cansa de afirmar isto, tanto os comunistas como os nazis não deixaram de ser pessoas, bem como de gerar movimentos imensamente populares, o que nos deverá forçar a pensar estes fenómenos com maior profundidade do que apenas a noção maniqueísta do bem contra o mal. Pelo contrário, devemos tentar compreender o que está dentro de todos nós, na nossa condição humana, que nos possa levar a abraçar o autoritarismo violento como uma solução para o mundo - e dessa forma aprendermos a controlar essas pulsões para garantir que não se repitam os horrores do Século XX.
Ora, neste projecto as suas grandes influências são, desde logo, precisamente Jung, que trabalhou a vida inteira nesse sentido, mas, também, Nietzsche, cujo trabalho conhece com bastante profundidade, bem como o existencialismo literário russo do século XIX, em particular Dostoievski, do qual retira - tal como, por exemplo, Isaiah Berlin também fez - o registo literário descritivo dos modelos psicológicos e sociais que acabaram por estar na base do totalitarismo soviético.
Peterson é um verdadeiro académico, mas também um pensador eclético que oferece originalidade, mais do que por grandes rasgos de inovação, pela capacidade de juntar os campos da psicologia analítica, da neuro-biologia e da filosofia (esta q.b) e, desta junção, apresentar um todo que é coerente, relevante bem como uma contribuição importante para as grandes questões do Século XXI.
As suas teses acabam por centrar-se na apologia da liberdade individual como força criadora da Humanidade mas, também, como o único tampão que protege a liberdade da sociedade face à necessariamente sempre presente componente tirânica do colectivo. O indivíduo, para Peterson, é necessariamente a unidade de medida política, bem como a base da identidade social, devendo por essa razão rejeitarem-se todas as formas mais ou menos encapotadas de identificar pessoas como meros membros de determinados grupos sociais que partilham determinadas características identitárias. É aqui que se insere a rejeição das quotas, por exemplo. Para Peterson, qualquer transferência da legitimidade política individual para uma pretensa igualdade de grupo perante a lei representa um passo na direcção do fortalecimento do colectivo sobre o indivíduo, logo um aumento da possibilidade do autoritarismo, bem como um convite imediato para a invasão do Estado - um elemento sempre tirânico na manutenção da ordem - na esfera privada dos indivíduos.
Do mesmo modo, a liberdade individual implica a responsabilidade por si próprio, bem como pelos outros, tal como a aceitação de que o mundo, tal como a vida, é necessariamente injusto e que a atenuação dessa injustiça passa por um processo gradual mas constante no qual se exige a participação de todos, mas não a imposição de soluções salvíficas que coloquem em causa a base fundamental filosófica do Ocidente: a soberania do indivíduo, a única coisa que nos protege das tragédias dos autoritarismos (quer de esquerda quer de direita).
A par disto, devido a uma inabalável coerência entre a sua conduta particular e pessoal e os princípios éticos e políticos que advoga - uma raridade nos dias de hoje -, viu-se arrastado para uma polémica sobre liberdade de expressão no Canadá, e daí para a o palco mundial. Nesse processo tem mantido grande serenidade bem como fidelidade aos princípios que advogava mesmo quando ninguém fora da Academia sabia quem ele era. O ano passado publicou o "12 Rules for Life", um livro que descodifica a sua primeira obra e procura tornar acessível a um público mais alargado o seu pensamento através de uma operacionalização prática das ideias presentes em "Maps of Meaning".
Em suma, concordando mais ou menos, Jordan Peterson representa uma mais-valia para a Academia e para o debate público Ocidental, um debate, aliás, que se tem paulatinamente transferido dos jornais e televisões para a Internet, razão pela qual nos poucos segundos, ou linhas, que o mainstream mediático prestou ao pensamento de Peterson, as suas ideias surgirem normalmente deturpadas, simplificadas ou, como foi o caso em Portugal de um artigo absolutamente ridículo da Revista Sábado, deliberadamente adulteradas por forma a integrarem a narrativa politicamente correcta actual.
Podem, portanto, chamá-lo de burro à vontade, como a Maria João Marques fez ontem repetidamente no Facebook, mas duvido que haja muita gente no planeta, incluindo neste toda a Academia internacional, que detenha, primeiro, um currículo com o gabarito do de Peterson, depois, que seja responsável por uma contribuição tão relevante para a academia como, goste-se ou não, ele é, bem como, finalmente, que detenha uma bagagem intelectual tão estratosférica para se permitir a subir a um cavalo tão alto, mas tão alto mesmo, do qual pode olhar para Peterson de cima para baixo e, assumindo não o ter lido, propor-se a destratá-lo em fórum público sem fazer a mais pálida ideia do que está a falar apenas porque não gosta do soundbyte que lhe chegou às orelhas.
Aliás, os seus detractores não invariavelmente demonstram de forma mais ou menos assumida nunca ter lido a sua obra, o que se compreende, pois só assim se pode, independentemente de maior menor concórdia a propósito deste ou daquele tema, destratar quem não se conhece. Conclusão? A maioria fala do que não sabe e do que não leu com a estridência própria de quem não se sente minimamente responsabilizado a postular apenas sobre aquilo do qual sabe - nem que seja um pouco.

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