Aqui já há uns tempos atrás comecei, a propósito da minha investigação
académica, a prestar atenção ao trabalho do Carl Jung. Apesar de,
verifiquei mais tarde, a coisa não ter forma de colar com a minha tese,
não obstante, a minha investigação legou frutos. Primeiro, desde logo,
ler Jung é por si só uma experiência fascinante: a descodificação que
faz do processo de maturidade do ser humano e a transposição desse mesmo
processo para um conjunto meta-psicológico que inclui a condição humana
como um todo é algo que, parece-me, pode muito bem revelar-se como uma
porta entreaberta para o futuro, não apenas da psicologia analítica mas,
eventualmente, da própria filosofia.
Assim, além do prazer da
leitura de Jung, sobrou-me também um conjunto alargado de ideias para
uma investigação futura que, além da área da metafísica e a relação
desta com a filosofia política - a minha área de trabalho académico
actual -, inclua também uma incursão no terreno do sagrado, do
mitológico e no processo de maturação psicológica. Só por isto o meu
tempo já teria sido muito bem empregue. No entanto, ainda ganhei mais
com a minha incursão por terrenos Jungianos. Refiro-me, naturalmente, a
Jordan Peterson, um estudioso de Jung que tinha publicado diversas
palestras sobre o assunto no Youtube.
Ao contrário do que activistas
ignorantes e mal-intencionados, bem como ressentidos intelectuais,
possam fazer parecer, Peterson não é apenas um "professor de
psicologia". É um professor de psicologia, é certo, mas não é um
professor qualquer: é um dos mais prestigiados investigadores académicos
no seu ramo estando no top 1% de citações académicas, tem inúmeros
artigos publicados, uma obra compreensiva e extremamente original também
ela publicada - "Maps of Meaning" - e foi o detentor da cadeira de
psicologia analítica em Harvard até, pelo próprio pé, ter decidido ir
para a Universidade de Toronto. Não é, convenhamos, um currículo
qualquer.
No que concerne à substância, Peterson não deixa de ser
igualmente notável: aliou a sua formação de base em psicologia com uma
investigação prolongada sobre o fenómeno da adição, coisa que lhe
permitiu entrar no campo da neuro-psicologia, e daqui na neuro-biologia.
Cruzar o campo psicológico com o biológico dirigiu-lhe a vontade para
uma procura de uma base intelectual que fosse, por um lado, fiel no
pragmatismo à tradição norte-americana mas que, por outro, conseguisse
sustentar argumentos sólidos contra o relativismo moral cada vez mais
dominante. Esta abordagem, só por si, é inovadora e representa um
desafio para qualquer pessoa preocupada com a temática da ética, da
moral e/ou da teoria política.
Finalmente, Peterson, motivado desde
muito novo pelos horrores do nazismo e do comunismo, focou em
particular a sua atenção nas razões que levam sociedades inteiras a
abraçarem soluções que, pela sua violência e trágica mortandade, maldade
mesmo, nos parecem hoje como modelos aberrantes. No entanto, e Peterson
não se cansa de afirmar isto, tanto os comunistas como os nazis não
deixaram de ser pessoas, bem como de gerar movimentos imensamente
populares, o que nos deverá forçar a pensar estes fenómenos com maior
profundidade do que apenas a noção maniqueísta do bem contra o mal. Pelo
contrário, devemos tentar compreender o que está dentro de todos nós,
na nossa condição humana, que nos possa levar a abraçar o autoritarismo
violento como uma solução para o mundo - e dessa forma aprendermos a
controlar essas pulsões para garantir que não se repitam os horrores do
Século XX.
Ora, neste projecto as suas grandes influências são,
desde logo, precisamente Jung, que trabalhou a vida inteira nesse
sentido, mas, também, Nietzsche, cujo trabalho conhece com bastante
profundidade, bem como o existencialismo literário russo do século XIX,
em particular Dostoievski, do qual retira - tal como, por exemplo,
Isaiah Berlin também fez - o registo literário descritivo dos modelos
psicológicos e sociais que acabaram por estar na base do totalitarismo
soviético.
Peterson é um verdadeiro académico, mas também um
pensador eclético que oferece originalidade, mais do que por grandes
rasgos de inovação, pela capacidade de juntar os campos da psicologia
analítica, da neuro-biologia e da filosofia (esta q.b) e, desta junção,
apresentar um todo que é coerente, relevante bem como uma contribuição
importante para as grandes questões do Século XXI.
As suas teses
acabam por centrar-se na apologia da liberdade individual como força
criadora da Humanidade mas, também, como o único tampão que protege a
liberdade da sociedade face à necessariamente sempre presente componente
tirânica do colectivo. O indivíduo, para Peterson, é necessariamente a
unidade de medida política, bem como a base da identidade social,
devendo por essa razão rejeitarem-se todas as formas mais ou menos
encapotadas de identificar pessoas como meros membros de determinados
grupos sociais que partilham determinadas características identitárias. É
aqui que se insere a rejeição das quotas, por exemplo. Para Peterson,
qualquer transferência da legitimidade política individual para uma
pretensa igualdade de grupo perante a lei representa um passo na
direcção do fortalecimento do colectivo sobre o indivíduo, logo um
aumento da possibilidade do autoritarismo, bem como um convite imediato
para a invasão do Estado - um elemento sempre tirânico na manutenção da
ordem - na esfera privada dos indivíduos.
Do mesmo modo, a
liberdade individual implica a responsabilidade por si próprio, bem como
pelos outros, tal como a aceitação de que o mundo, tal como a vida, é
necessariamente injusto e que a atenuação dessa injustiça passa por um
processo gradual mas constante no qual se exige a participação de todos,
mas não a imposição de soluções salvíficas que coloquem em causa a base
fundamental filosófica do Ocidente: a soberania do indivíduo, a única
coisa que nos protege das tragédias dos autoritarismos (quer de esquerda
quer de direita).
A par disto, devido a uma inabalável coerência
entre a sua conduta particular e pessoal e os princípios éticos e
políticos que advoga - uma raridade nos dias de hoje -, viu-se arrastado
para uma polémica sobre liberdade de expressão no Canadá, e daí para a o
palco mundial. Nesse processo tem mantido grande serenidade bem como
fidelidade aos princípios que advogava mesmo quando ninguém fora da
Academia sabia quem ele era. O ano passado publicou o "12 Rules for
Life", um livro que descodifica a sua primeira obra e procura tornar
acessível a um público mais alargado o seu pensamento através de uma
operacionalização prática das ideias presentes em "Maps of Meaning".
Em suma, concordando mais ou menos, Jordan Peterson representa uma
mais-valia para a Academia e para o debate público Ocidental, um debate,
aliás, que se tem paulatinamente transferido dos jornais e televisões
para a Internet, razão pela qual nos poucos segundos, ou linhas, que o
mainstream mediático prestou ao pensamento de Peterson, as suas ideias
surgirem normalmente deturpadas, simplificadas ou, como foi o caso em
Portugal de um artigo absolutamente ridículo da Revista Sábado,
deliberadamente adulteradas por forma a integrarem a narrativa
politicamente correcta actual.
Podem, portanto, chamá-lo de burro à
vontade, como a Maria João Marques fez ontem repetidamente no Facebook,
mas duvido que haja muita gente no planeta, incluindo neste toda a
Academia internacional, que detenha, primeiro, um currículo com o
gabarito do de Peterson, depois, que seja responsável por uma
contribuição tão relevante para a academia como, goste-se ou não, ele é,
bem como, finalmente, que detenha uma bagagem intelectual tão
estratosférica para se permitir a subir a um cavalo tão alto, mas tão
alto mesmo, do qual pode olhar para Peterson de cima para baixo e,
assumindo não o ter lido, propor-se a destratá-lo em fórum público sem
fazer a mais pálida ideia do que está a falar apenas porque não gosta do
soundbyte que lhe chegou às orelhas.
Aliás, os seus detractores não
invariavelmente demonstram de forma mais ou menos assumida nunca ter
lido a sua obra, o que se compreende, pois só assim se pode,
independentemente de maior menor concórdia a propósito deste ou daquele
tema, destratar quem não se conhece. Conclusão? A maioria fala do que
não sabe e do que não leu com a estridência própria de quem não se sente
minimamente responsabilizado a postular apenas sobre aquilo do qual
sabe - nem que seja um pouco.
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