quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

UMA CONSTANTE VIRTUDE

Aqui no Alentejo, enquanto bebo o medronho cá da quinta e observo o fogo pujante a crepitar na lareira, um fogo que dança uma entusiasmante sinfonia do Joly Braga Santos na Antena 2, ocorre-me que uma tragédia necessária da vida é esta sina de educarmos os nossos filhos para um mundo largado, ou seja, não para o mundo onde crescemos mas, por força da necessidade, para o novo mundo no qual eles, de facto, vão crescer - um mundo que até poderá vir a não ser o nosso. Fina, muito fina, é a fronteira cuja percepção permite distinguir entre o constante ecoar da natureza humana e as particulares vicissitudes, por mais loucas que sejam, de cada tempo. Uma constante virtude? Talvez esta terra que lhes legarei, terra onde cresce vida e que lhes garante liberdade. No fundo, bem no fundo, foi por essa razão maior que para aqui vim. Isto porque liberdade, a verdadeira, apenas está ao alcance de quem, tendo a terra e trabalhando-a, pode colher dela os frutos magníficos que permitem a vida. A bem dizer, e esta é uma singela verdade, as finas varandas pombalinas de Lisboa, ou as de Bruxelas, havendo a necessidade, revelam-se como um espaço bem limitado para galinhas, porcos, alfaces ou batatas.

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