quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

UM NOVO COMEÇO

Para aqueles mais atentos ao mundo da comédia o nome de Jon Lajoie poderá significar qualquer coisa. Conhecido, primeiro, pelos seus vídeos musicais no Youtube e, depois, célebre pela personagem tresloucada de Taco em 'The League', Lajoie conquistou, além da notoriedade internacional derivada das suas palhaçadas, um público extremamente alargado e fiel, em particular nas camadas mais jovens. Quando o futuro brilhante de humorista lhe mais foi estampado como um telos de sucesso em mais uma história feliz de Los Angeles, repentinamente, Lajoie resolve reinventar-se e, despretensiosamente, começar, sem anúncio, sob o pseudónimo de Wolfie's Just Fine a lançar um conjunto de músicas cuja qualidade não pode ser outra coisa além de surpreendente. Partilho aqui o 'A New Beggining', algo que tem estado nas últimas semanas em modo repetição nos meus ouvidos. Bem tocada e cantada, Lajoie deixa-nos uma letra que nos transporta de volta para aquele mundo perdido dos anos oitenta onde, em casa uns dos outros, explorávamos o desconhecido mundo pubertário. Aqui, retrata-se o encontro inocente com a violência do filme Sexta-Feira 13 e a sua horrífica e mítica personagem principal, Jason. O narrador relata na primeira pessoa, provavelmente o próprio Lajoie, como em casa de um amigo, ainda com um brinquedo na mão, viu, de uma assentada, as primeiras intimidades sexuais logo seguidas do horror sanguinário a que a barbárie sem sentido de Jason obriga. Extremamente bem filmado, melhor ainda realizado, e com uma extraordinária representação da personagem principal, o videoclip é qualquer coisa digna de ser vista - e revista. Mergulhado na gruta, o inocente adolescente larga o seu brinquedo para, no limite das suas forças, perante o horror da tragédia, participar na trama: enamorar-se da protagonista, defender o namorado daquela e enfrentar o próprio dragão, Jason, o terrível, tão terrível que, apesar de permitir ao jovem Lajoie escapar não deixa de lhe roubar a inocência. Como em tudo, o génio está nos pormenores: desde o coro trágico, épico, anunciador da chegada do demónio - "Here comes Jason, here comes Jason, here comes Jason" - até ao mergulhar do infante adolescente do descanso do sofá da sala de casa do seu amigo Sebastian para dentro da aventura daquela Sexta-Feira 13, tudo se conjuga numa intensidade muito rara de encontrar nos dias de hoje. Ao adolescente arrastado para dentro dos filmes da nossa infância não se enquadra o conceito "suspensão de descrença" mas, pelo contrário, a crença em algo novo, num mundo diferente que, desvendado, se abre perante os nossos olhos. Aqui, o sexo, a violência, tudo real, portanto, que vem trazer a criança, mesmo que através de um salto quântico para dentro de um filme, para o mundo dos adultos. Pelo caminho, junto com uma figura de acção, ficou a infância no paraíso que antecede a descoberta do Bem e do Mal. Na queda, as mazelas fazem-nos as pessoas que somos. Alguns trinta anos depois Jon Lajoie canta sobre a sua própria queda e, com ele, põe-nos todos a pensar nos nossos próprios "novos começos" que guardamos nas nossas memórias.

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