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quarta-feira, 12 de novembro de 2014
ESPELHO MEU, ESPELHO MEU
É hoje um lugar comum afirmar-se que as redes sociais são uma forma de devassa da vida privada. Neste âmbito, uma pergunta se coloca: o que leva alguém a publicitar a sua vida privada a todos os seus amigos? Por que razão, num restaurante, perante um prato mais requintado se ocupa o marido, ou a mulher, a tirar uma fotografia ao dito para publicar no Facebook, e logo se ocupa o cônjuge de fazer um like, tudo isto ainda antes de qualquer um deles ter apreciado a iguaria?
A resposta politicamente correcta, e que eu já ouvi e li, é que o objectivo consiste em partilhar a minha felicidade com os meus amigos. Naturalmente a resposta politicamente correcta deixa muito a desejar. Primeiro, os amigos das redes sociais são muito mais distantes, e em muito maior número, do que os amigos da vida real. Ou seja, na realidade, a tal felicidade que se partilha não é bem com os amigos, é muito mais com um conjunto aleatório de pessoas, muitas das quais nem se conhece ou já não se vê há anos. A conclusão aqui é um enorme paradoxo: acaba-se a partilhar muito mais com estranhos, ou quase-estranhos, do que se partilha com os amigos de verdade. Desde as fotos das refeições, às imagens de férias em bikini, ou às fotografias dos filhos, tudo se esparrama pelas redes sociais fora, numa devassidão de vida privada a que nunca forçaríamos um amigo que convidássemos para jantar: por isso, a noção de que o acto de partilha é com os meus amigos é uma noção que dificilmente se pode aceitar como verdadeira.
Em segundo lugar, a presunção de que a partilha de felicidade gera felicidade nos outros é igualmente disputável. A maior parte das pessoas partilha os seus bons momentos, no entanto, como todos sabemos, a vida não é sempre assim. Pelo contrário, os receptores das fotografias dos grandes jantares ou das grandes férias são normalmente pessoas, em especial os mais solitários e remediados, que por ventura aquilo que mais desejariam ter, e não têm, são as tais refeições a dois, ou as férias em paraísos distantes, caros e, por isso mesmo, inacessíveis. Ou seja, muito mais do que partilhar felicidade, o que toda essa partilha acaba por fazer é causar inveja e, porque da inveja não vem nada de bom, uma garantida boa dose de infelicidade. Sobre este assunto, aliás, já existe um sem número de estudos (como este da Universidade do Michigan, 2013) que chegam à conclusão que uma utilização excessiva do Facebook causa depressão e baixa auto-estima ou que, pelo menos, diminui os níveis globais de bem-estar e satisfação com a vida.
No entanto, há um pormenor que vale a pena salientar: as pessoas que andam a sofrer por essas redes sociais fora são as mesmas que andam voluntariamente a partilhar as suas vidas. O que as levará, então, à partilha desmesurada das suas vidas privadas e à insistência, cada vez maior, numa actividade que, aparentemente, além dos óbvios riscos que em si mesma acarreta a devassa da vida privada, ainda por cima nem sequer causa bem-estar duradouro e, a longo prazo, está mesmo relacionada com a depressão? Numa palavra? Vaidade.
A vaidade e a obsessão com a imagem que se projecta para os outros dificilmente poderá ser uma coisa nova. Aliás, de nova não tem nada: desde o guerreiro que quer inspirar medo para sobreviver até à opulência do bem sucedido que se quer demarcar face aos restantes e inspirar respeito para mandar ou, mais básico ainda, o homem que quer seduzir a mulher, ou vice-versa, de tudo isso se faz a história do Homem e, em geral, as nossas vidas. A novidade consiste é no contexto social em que a obsessão com a imagem se propaga: enquanto antes esse natural vício humano se revelava na roupa que se vestia, nas histórias que se contavam em ocasiões sociais, nos meios de transporte e habitações que se cobiçava, já hoje em dia, com o triunfo hegemónico das redes sociais, a obsessão com a imagem transpõe-se para todo um quotidiano que se pode expor no Facebook: desde fotografar o pequeno almoço até à simples declaração "X está aqui ou acolá", tudo serve para mostrar aos outros o quão fantástica é a vida que se tem.
Mas a coisa piora. Não apenas, desde o brioche do pequeno almoço até às unhas dos pés recentemente pintadas, temos muito mais pelo que ser vaidosos, como os meios por onde a vaidade se espalha estão presentes em permanência. Com os smartphones e a internet sempre ligada, dá a ideia de que as interacções sociais transmigraram para o ciberespaço: desde o grupo de amigos que numa mesa de café olha mais para os ecrãs dos seus telefones do que para os outros convivas, até à nova moda feminina de andar com a mala no cotovelo e o telemóvel irritantemente espetado e em constante exibição na mão, ou até mesmo àqueles casais que postam, comentam e likam, as suas publicações sem saírem da sala ou do quarto enquanto falam via Facebook entre si - e para toda a gente.
A nossa realidade hoje em dia é que estamos sempre ligados, ligações as quais substituem cada vez mais as anteriores formas de interacção social. Como consequência, subitamente, as coisas mais triviais, e privadas, são assunto do foro comunitário: pelo Facebook, até arrufos entre namorados são públicos para centenas de pessoas: ou porque mudaram o estatuto relacional, ou porque fazem publicações irreflectidas que mostram o quão chateados estão com o outro, ou ainda através de inflamadas declarações amorosas pela parte rejeitada, de tudo isso se faz um mundo novo onde, na solidão de um quarto ou de uma sala, com a ilusão securitária que essa solidão imprime, se espalha pelo mundo inteiro aquilo que antes, no tempo do cara-a-cara, se teria vergonha de mostrar a alguém.
Ao mesmo tempo, aquilo que se transmite pelas redes sociais, porque é de ligações cibernéticas que falamos, é forçosamente muito superficial. Nos pixeis de um ecrã, o outro é uma imagem e, por essa razão, é tratada como tal: na vida real, por exemplo, amigos discutem, não se desamigam. Já no Facebook, basta um clique e aquela pessoa desaparece da vista: sem trabalho, sem chatice e sem problemas. Da mesma forma, como são imagens dos outros que recebemos também são apenas imagens nossas que transmitimos. E aí é que a obsessão com a imagem ganha ainda mais peso porque, sendo superficial, é muito mais fácil de controlar e manipular. Desde o compulsivo que publica tudo e nada da sua vida, até ao impostor que nada tendo para publicar inventa fotografias e acontecimentos, de toda essa gente se compõe o grupo dos nossos amigos, amigos dos quais apenas conhecemos as imagens que eles quiseram que nós conhecêssemos. E esse é o principal paradoxo da vida nova das redes sociais: quanto mais elas se enchem de partilhas, menos nós conhecemos de facto as personagens que compõem a nossa vida.
Mas ainda há um outro aspecto que é importante referir. De tanto se obcecar com aquilo que se quer mostrar aos outros, tal como aquilo que se quer descobrir nos outros, de repente, passam as pessoas a vida agarradas a uma torrente sem fim de trivialidades pela qual se avaliam: alguém que publica uma fotografia e recebe quatro ou cinco likes (ou nenhum) pode muito bem entrar em depressão porque ninguém gosta dela. Já aquela antiga colega da escola que publicou uma fotografia na praia e teve cento e quarenta likes e noventa comentários que oscilavam entre o "estás muita gira :) :) :)" e o "quando vamos tomar um café" dum garanhão cibernético mais afoito, já essa malandra vai ser o alvo da cobiça e da inveja. E, repentinamente, lá estão as pessoas em busca de likes, likes os quais - como um espelho - nos dizem se somos bonitos ou feios, inteligentes ou burros, bem sucedidos ou uns desgraçados do pior.
No fundo é profunda a ironia: sofre aquele que se mede pelas redes sociais de uma profunda menorização do 'eu', porque passa a ter a profundidade de um pixel, e tudo em nome da glorificação desse mesmo 'eu', que se quer como granjeador do respeito, admiração (e inveja) dos outros. A tragédia é que estes poderosíssimos instrumentos de partilhas acabam por paradoxalmente gerar uma profunda exclusão do indivíduo face à comunidade a que julga pertencer: isto porque a dinâmica da interacção pelas redes sociais reduz os afectos a likes que, por um lado não dão trabalho nenhum a dar (e por isso nada oferecem a não ser uma ilusória auto-estima) mas que, por outro, são a única forma pública de ligação, e valorização, do indivíduo face ao colectivo: entre o vazio que configuram e a importância completamente desproporcional que se lhes atribui, nessa diferença se faz aquilo que todos ficamos a perder com a substituição do convívio social pelo convívio cibernético: a complexidade, o valor e a empatia que apenas o contacto real permite transmitir.
Assim, no vazio de uma auto-promoção vaidosa cuja recompensa consiste em vácuas demonstrações de aceitação social, não admira que o Facebook, e outros como tal, estejam ligados a fenómenos depressivos: isolados, os humanos, perdem o gosto pela vida. E na monotonia de uma constante repetição de modas, com todos a irem para os mesmos sítios jantar, almoçar ou de férias, naturalmente, a sensação de que algo fica por cumprir será uma consequência natural para quem viva agarrado às redes sociais. E se é verdade que para muitos dos que cresceram na era pré-internet a coisa é capaz de começar a fartar ao fim de um bocado, para muitos outros o vício das redes sociais tornou-se uma realidade, e ainda por cima uma realidade que separa, deprime a longo prazo e privilegia a superficial vaidade a expensas das mais fundamentais experiências humanas. A questão que então se coloca - e a para a qual não há resposta - é como será com os nossos filhos, esses sim já desde a maternidade esparramados em fotografias por essas redes sociais fora. Que consequências esta desmesurada exposição ao mundo - e a um mundo que não está lá - poderão ter nas capacidades de sociabilização dos nossos filhos? Nos seus valores? Na forma como veem, e sentem, os outros, e as empatias que conseguem, ou não, formar com os outros seres humanos? No fundo, que filhos serão esses que vamos criar se todas as famílias vivem agarradas, cada um por si, aos seus perfis virtuais?
Na ausência de resposta para estas importantes questões, talvez esteja na hora de começarmos a perceber que, se por um lado é verdade que as redes sociais são um instrumento fabuloso de partilha de ideias e acontecimentos, quer da nossa vida quer da vida comunitária, também não podemos esquecer que, tal como os espelhos, se dermos demasiada importância às imagens que lá vemos reflectidas acabaremos obcecados com ilusões, sejam elas de grandeza ou de tristeza, e incapazes de gozar a vida tal como ela é. Até porque esta é capaz de nos dar muito mais alegrias, e fazer muito mais felizes, do que uns likes no Facebook.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
A DESGRAÇA
Aqui há uns anos, quando ainda acreditava, fui de propósito passar o fim de semana da Holanda a Portugal para num Domingo votar numas eleições. Saído do aeroporto, no centro de Lisboa, saudoso por uma Sagres, entrei num café e, satisfeito por ter a oportunidade de falar português, pus-me à conversa com o empregado. Fiquei a saber que o homem achava que a vida estava terrível, que o país estava de rastos, que era tudo uma desgraça. Mais: achava que o sócrates era um ladrão, que era corrupto mas que ia votar nele na mesma porque, ao menos, fazia coisas. Perguntei-lhe se ele não achava contraditório votar em quem considerava ser corrupto. Respondeu-me o esclarecido eleitor que todos roubam e que aquele era o que havia. E eu perguntei-lhe se não achava que votar em corruptos e incompetentes incentivava a continuarmos a ser geridos por corruptos e incompetentes. Olhou para mim como se eu fosse um alienígena. E a verdade é essa mesmo: eu é que sou o maluquinho por achar que é uma loucura votar-se em quem se acredita que rouba ou corrompe. E em Portugal sou: o comportamento normal é o do empregado. E agora, passados cinco anos, imagino eu que, se não tiver perdido o emprego, ainda lá estará o senhor a bradar contra a vida sem sequer imaginar que a vida que tem é a desgraça que ele, e os outros como ele, nos impingiram a todos nós - mesmo aos maluquinhos como eu.
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segunda-feira, 3 de novembro de 2014
A ESPECIALIZAÇÃO FILOSÓFICA
O filósofo modernaço obceca com ser um especialista. O especialista é aquele que leu tudo sobre um determinado autor, ou um período, ou uma escola, ou um debate ou, pelo menos, algo que justifique uma bolsa de investigação de uma fundação qualquer. Naturalmente, à medida que o tempo passa e mais humanos cheiram que isto de passar a vida a especializar-se é uma vida boa, com excelentes horários e benefícios, então o número de especialistas tende a multiplicar-se. E depois de todos os autores, escolas, e debates, estarem sob a alçada de inúmeros especialistas, que sobra então além de inventar novos campos, e pretensos argumentos, para continuar a acomodar a crescente tendência de especialização (e o dinheiro que vem com ela)? E então deparamo-nos com uma academia cheia de doutores, todos eles muito enfadados a partir do momento em que dão umas aulas na sua especialidade, todos muito cheios de si e todos muito especialistas. Claro está que quanto mais focam o seu enfoque especializado menos o especialista sabe do mundo, o que é como quem diz quanto mais especialista é o especialista menos filósofo é o pretenso filósofo. E não é apenas na Filosofia, está a academia cheia desta gente: tão pedantes como ignorantes. Nunca custou tanto dinheiro ao erário público gerar um número tão grande de idiotas.
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DA INFANTILIDADE MODERNAÇA
Uma lei não escrita da civilização é que esta é tão mais bem sucedida quanto menos infantil ela for. Ou seja, quanto mais adulta uma sociedade for mais tendência ela terá para ser bem sucedida. Porquê? Porque adultos lidam com o real enquanto que as crianças atascam-se em sonhos e birras. Três bons exemplos da infantilidade contemporânea: primeiro, a obsessão com a juventude e a completa incapacidade de lidar com os ciclos naturais da vida e da morte. Vivem as cidades em bolhas eternas e pejadas de humanos que iludem-se ao pensar que parecer (e agir como) novo equivale a ser novo. O sonho, lá está. Depois, em segundo lugar, o egocentrismo individualista. Só quem não cresce não apreende que há mundo para lá do 'eu', aliás, há todo um mundo que não quer saber do nosso pequenito 'eu' para nada. Porquê? Porque somos irrelevantes. Mas isso é algo que uma criança que enche todo o seu pequeno mundo com o seu - proporcionalmente - grande ego não consegue compreender. Finalmente, em terceiro lugar, a constante desresponsabilização. A culpa é sempre do outro. Que nem as crianças lambuzadas de açúcar a dizerem que não foram eles que foram ao pote também os ditos modernaços assobiam para o lado. Um bom exemplo? Os críticos do sistema. A culpa da pobreza? É do sistema. A culpa da desigualdade? É do sistema. A culpa da infelicidade social? É do sistema. O único que nunca é culpado de nada é, curiosamente, aquele de quem todo e qualquer sistema depende, desde a sua invenção, planificação, implementação e reformulação: a natureza humana. Quando chamados à razão, os culpados serão sempre os outros, os maus, o bicho papão que escraviza os inocentes. Já olhar bem para dentro de nós e ter a humildade de reconhecer as nossas limitações? Isso é coisa que as crianças não conseguem. Sejam elas directores de jornais, comentadores televisivos ou militantes políticos dessa fabulosa birra em que se transformou a nossa brilhante esquerda modernaça. No fim, são todos maus menos eles.
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quinta-feira, 23 de outubro de 2014
O SÍNDROMA DE ALEXANDRE
E o homem que subiu arduamente a montanha, quando chegou ao topo, sentou-se e chorou. Porque não há vida sem propósito, e a contemplação do infinito não tem outro destino último que não seja chorar sobre o abismo do vazio.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014
OPPOSITI
O novo ergue-se sempre das cinzas do velho. Dessa oposição decorre ainda uma outra: que o amor à novidade que se conquista é sempre devidamente acompanhado do luto pelo velho que se perde. A única, e verdadeira, constante do processo que é a vida será, portanto, a sua perpétua contenção pelos opostos que, a cada momento, a vão limitando.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014
A ESCOLHA
Ao homem culto e verdadeiramente civilizado que compreende a completa inutilidade finalística da acção humana sobram duas hipóteses: a primeira é a da contemplação onde, de fora, enquanto espectador, se maravilha com a beleza e magnificência da obra universal; a segunda é a da acção onde se assume que o mundo é um lago de experiência onde, apesar da sua ilusória condição, vale a pena mergulhar. A serenidade da contemplação exige a pena da solidão; a partilha da condição humana exige a angústia da perenidade. A verdadeira chave da felicidade terrena talvez passe pela capacidade de conciliar dois caminhos tão distintos.
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TEMPITE
Não há nada que o tempo não cure além do próprio tempo. Que é como quem diz: o tempo tudo cura menos a doença que com ele sempre vem. A consequência é a angústia humana pingada naquela gadanha sempre bem segura pela peçonha que, vestida de preto e escondida no escuro, paira sempre à espreita ali no fundo do corredor.
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domingo, 29 de junho de 2014
OS MAIORES, OS PIORES E OS HERÓIS-VILÕES
Portugal é um país de ódios. E, para mal dos nossos pecados, um ódio que se volta constantemente contra aqueles que tentam fazer alguma coisa de muito bom, ou os outros que se revelam como muito bons a fazer alguma coisa. Um bom exemplo dos últimos dias é o ódio ao Ronaldo: porque não fez isto, porque não fez aquilo, porque não é o melhor do mundo, porque nunca será um mito, porque não passa de um vaidoso, disto ou daquilo. De facto, porque o Ronaldo é indiscutivelmente um grande jogador de futebol, a crítica acaba por ser que "não é o melhor do mundo". Como se ele tivesse a obrigação de ser o melhor do mundo.
Já os portugueses imaginam-se os maiores do mundo mas, veja-se lá a coisa, são injustiçados por uma espécie de conspiração internacional que insiste em assim não os considerar. E depois sobra o complexo de inferioridade (motivado por um megalómano complexo de superioridade): um comentário jocoso de um jornalista estrangeiro logo causa uma comoção nacional, uma reportagem internacional menos feliz logo deriva numa petição contra esses inimigos da pátria ou a derrota num torneio internacional despeja uma torrente de infelicidade no país. Já pelo contrário, tudo em Portugal é o maior e o melhor: desde cada condutor automóvel à melhor comida do mundo, ou ao melhor sol do mundo. Por Portugal igualmente abundam as melhores praias e mares do mundo, e agora: os melhores hotéis do mundo, as melhores cidades do mundo para turismo, a melhor, e maior, onda do mundo, e claro: o melhor jogador de futebol do mundo, o melhor treinador do mundo, etc. Com tanta coisa boa só admira que o povo que habita tremendo paraíso se entretenha a destruí-lo com betão, cimento e uma desorganização aterradora, essa seguramente das maiores do mundo.
Da mesma forma, especialmente na bola, qualquer talento ou colosso mundial logo é importado para mostrarmos que temos colossos ou talentos igualmente talentosos e colossais: o "Jardel" de Coimbra, o "Cruyft" da Reboleira ou o "Bekham" de Braga. Mas não só na bola: Aveiro, por exemplo, é a "Veneza" portuguesa, tal como o Estoril era a igualmente nacional "Riviera". Disso nem a, lá está, "primeira-dama" portuguesa, apenas por ser negra, se safou: Passos Coelho está casado, naturalmente, com a "Michele Obama" portuguesa. Já o desenrascado Joaquim de Almeida, que lá conseguiu aparecer em dois ou três filmes americanos de qualidade mais do que duvidosa mas de grande projecção, foi logo apelidado do "Banderas" português. Enfim, com tanto colosso apenas admira que somente os portugueses tenham ouvido falar de tais sumidades.
A isto já aludia um Eça Queiroz, esse autenticamente grande, e igualmente autenticamente português, ao dizer que em Portugal a civilização importa-se do estrangeiro mas que, infelizmente, por ser importada, fica-nos curta nas mangas: na verdade nem o Jardel de Coimbra marcou tantos golos como o original, nem Aveiro rivaliza no panorama internacional com a cidade de Marco Polo.
E depois vem o reverso da medalha: da ânsia irrealista de querer ser o melhor do mundo, quando embatemos na realidade de que não somos os campeões do mundo, então, logo nos transformamos nos piores do mundo. Se não podemos ser os melhores, somos os piores. E, sucumbindo ao ego invertido, por nos sentirmos os piores, ao vermos aqueles que, apesar de serem portugueses como nós, se evidenciam por aí fora, que se mostram como dos melhores do mundo, logo os tratamos como uma espécie de heróis caídos: se não nos levas à glória então não serves o propósito da redenção e, por essa razão, odiamos aquilo que de melhor temos, que nos frustra ainda mais, por não ser bom o suficiente. E vilipendia-se. E chama-se nomes. E desvaloriza-se. E o que era o melhor passa a ser o pior. E, tal como a turba que escolheu o ladrão Barrabás e vilipendiou Jesus, também os portugueses vilipendiam o que têm de melhor. Portugueses os quais, aliás, têm uma igual tendência para escolher por entre aclamações grandes ladrões, esses, também, dos maiores do mundo.
É uma espécie de tragédia esta glorificação irrealista, e idealista, consequentemente transformada em crucificação igualmente desmedida. Se é verdade que temos muita coisa boa não quer dizer que esta tenha que ser a melhor do mundo. Aliás, a necessidade de nos afirmarmos como os maiores tem muito de uma paroquial afirmação complexada em relação a algo (o mundo) que, por desconhecermos, imaginamos como extraordinário e que não queremos assumir como melhor do que o pouco que vamos conhecendo que, ao ser exagerado na sua dimensão e qualidade, amplia o pequeno mundo onde nos sentimos confinados.
No fim, como os complexados neuróticos que pululam por essas redes sociais fora, sobra a importância desmedida que damos ao que pensamos que os outros pensam de nós. E talvez, paradoxalmente, quando percebermos que o mundo, mesmo sendo nós os melhores disto e daquilo, continua a não querer saber de nós para nada, talvez então, livres do peso dos nossos próprios complexos, nos libertemos para viver uma vida que, não sendo a melhor de todas, seja pelo menos agradável, responsável, auto-suficiente e capaz de apreciar as coisas boas que vamos tendo. E, já agora, com menos indignada gritaria.
Já os portugueses imaginam-se os maiores do mundo mas, veja-se lá a coisa, são injustiçados por uma espécie de conspiração internacional que insiste em assim não os considerar. E depois sobra o complexo de inferioridade (motivado por um megalómano complexo de superioridade): um comentário jocoso de um jornalista estrangeiro logo causa uma comoção nacional, uma reportagem internacional menos feliz logo deriva numa petição contra esses inimigos da pátria ou a derrota num torneio internacional despeja uma torrente de infelicidade no país. Já pelo contrário, tudo em Portugal é o maior e o melhor: desde cada condutor automóvel à melhor comida do mundo, ou ao melhor sol do mundo. Por Portugal igualmente abundam as melhores praias e mares do mundo, e agora: os melhores hotéis do mundo, as melhores cidades do mundo para turismo, a melhor, e maior, onda do mundo, e claro: o melhor jogador de futebol do mundo, o melhor treinador do mundo, etc. Com tanta coisa boa só admira que o povo que habita tremendo paraíso se entretenha a destruí-lo com betão, cimento e uma desorganização aterradora, essa seguramente das maiores do mundo.
Da mesma forma, especialmente na bola, qualquer talento ou colosso mundial logo é importado para mostrarmos que temos colossos ou talentos igualmente talentosos e colossais: o "Jardel" de Coimbra, o "Cruyft" da Reboleira ou o "Bekham" de Braga. Mas não só na bola: Aveiro, por exemplo, é a "Veneza" portuguesa, tal como o Estoril era a igualmente nacional "Riviera". Disso nem a, lá está, "primeira-dama" portuguesa, apenas por ser negra, se safou: Passos Coelho está casado, naturalmente, com a "Michele Obama" portuguesa. Já o desenrascado Joaquim de Almeida, que lá conseguiu aparecer em dois ou três filmes americanos de qualidade mais do que duvidosa mas de grande projecção, foi logo apelidado do "Banderas" português. Enfim, com tanto colosso apenas admira que somente os portugueses tenham ouvido falar de tais sumidades.
A isto já aludia um Eça Queiroz, esse autenticamente grande, e igualmente autenticamente português, ao dizer que em Portugal a civilização importa-se do estrangeiro mas que, infelizmente, por ser importada, fica-nos curta nas mangas: na verdade nem o Jardel de Coimbra marcou tantos golos como o original, nem Aveiro rivaliza no panorama internacional com a cidade de Marco Polo.
E depois vem o reverso da medalha: da ânsia irrealista de querer ser o melhor do mundo, quando embatemos na realidade de que não somos os campeões do mundo, então, logo nos transformamos nos piores do mundo. Se não podemos ser os melhores, somos os piores. E, sucumbindo ao ego invertido, por nos sentirmos os piores, ao vermos aqueles que, apesar de serem portugueses como nós, se evidenciam por aí fora, que se mostram como dos melhores do mundo, logo os tratamos como uma espécie de heróis caídos: se não nos levas à glória então não serves o propósito da redenção e, por essa razão, odiamos aquilo que de melhor temos, que nos frustra ainda mais, por não ser bom o suficiente. E vilipendia-se. E chama-se nomes. E desvaloriza-se. E o que era o melhor passa a ser o pior. E, tal como a turba que escolheu o ladrão Barrabás e vilipendiou Jesus, também os portugueses vilipendiam o que têm de melhor. Portugueses os quais, aliás, têm uma igual tendência para escolher por entre aclamações grandes ladrões, esses, também, dos maiores do mundo.
É uma espécie de tragédia esta glorificação irrealista, e idealista, consequentemente transformada em crucificação igualmente desmedida. Se é verdade que temos muita coisa boa não quer dizer que esta tenha que ser a melhor do mundo. Aliás, a necessidade de nos afirmarmos como os maiores tem muito de uma paroquial afirmação complexada em relação a algo (o mundo) que, por desconhecermos, imaginamos como extraordinário e que não queremos assumir como melhor do que o pouco que vamos conhecendo que, ao ser exagerado na sua dimensão e qualidade, amplia o pequeno mundo onde nos sentimos confinados.
No fim, como os complexados neuróticos que pululam por essas redes sociais fora, sobra a importância desmedida que damos ao que pensamos que os outros pensam de nós. E talvez, paradoxalmente, quando percebermos que o mundo, mesmo sendo nós os melhores disto e daquilo, continua a não querer saber de nós para nada, talvez então, livres do peso dos nossos próprios complexos, nos libertemos para viver uma vida que, não sendo a melhor de todas, seja pelo menos agradável, responsável, auto-suficiente e capaz de apreciar as coisas boas que vamos tendo. E, já agora, com menos indignada gritaria.
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quarta-feira, 4 de junho de 2014
DAS PENAS E SACRIFÍCIOS
Duma coisa em que ando a trabalhar (outra vez) mas que está dentro do tópico dos últimos posts:
"... Mas não é esse o nosso caminho, não apenas porque a velocidade é inimiga da qualidade mas também porque andar a contar as coisas a correr prejudica, ou impede mesmo, a profundidade do relato. Afinal, depressa e bem, não há quem. Além disso, dirão ainda outros, o mais importante da vida é aceitar que é a viagem que vale as penas e os sacrifícios, e não o destino, ou o fim. Senão, fossem os resultados apenas aquilo que interessa, fossem os fins, e não os permeios, aquilo que contasse, e todos os leitores se voltariam logo para as páginas finais dos livros, afinal de contas, para quê perder tempo com tretas quando podemos ficar logo a conhecer o final da estória? Se dúvidas houvesse de que é no aproveitar o caminho, mesmo com as pedras onde vamos tropeçando, ou melhor, principalmente com as pedras que se nos vão atravessando pela frente, é na viagem, nos durantes, nos entretantos, na perseverança e na subsistência, em suma, na existência, para não dizer mesmo: na vivência, que se faz a vida e não, como os marquetistas tanto nos fazem acreditar, que é sempre com a próxima página, no capítulo seguinte, a correr, depressa, vamos lá, é sempre ali, no momento seguinte àquele em que estamos agora, que residirá a felicidade da vida ou, no que concerne a presente metáfora, o gozo de um relato literário. Assim fosse e, em última instância, para os pobres humanos, a felicidade residiria apenas na campa, talvez naqueles dizeres gravados na pedra que fazem companhia aos cadáveres em decomposição. Aí, no verdadeiro e triste fim, parece-nos a nós que a haver felicidade apenas esta existirá nos ecos recordadores dos entretantos que àqueles, agora ali finados, em dias passados lhes aconteceram. Por isso, lembremo-nos nós dos que já foram, guardêmo-los em mente, para que possamos, nem que seja por respeito à sua memória, aproveitarmos nós o luxo da existência, mesmo quando a malandra teima em não nos fazer as vontades todas".
"... Mas não é esse o nosso caminho, não apenas porque a velocidade é inimiga da qualidade mas também porque andar a contar as coisas a correr prejudica, ou impede mesmo, a profundidade do relato. Afinal, depressa e bem, não há quem. Além disso, dirão ainda outros, o mais importante da vida é aceitar que é a viagem que vale as penas e os sacrifícios, e não o destino, ou o fim. Senão, fossem os resultados apenas aquilo que interessa, fossem os fins, e não os permeios, aquilo que contasse, e todos os leitores se voltariam logo para as páginas finais dos livros, afinal de contas, para quê perder tempo com tretas quando podemos ficar logo a conhecer o final da estória? Se dúvidas houvesse de que é no aproveitar o caminho, mesmo com as pedras onde vamos tropeçando, ou melhor, principalmente com as pedras que se nos vão atravessando pela frente, é na viagem, nos durantes, nos entretantos, na perseverança e na subsistência, em suma, na existência, para não dizer mesmo: na vivência, que se faz a vida e não, como os marquetistas tanto nos fazem acreditar, que é sempre com a próxima página, no capítulo seguinte, a correr, depressa, vamos lá, é sempre ali, no momento seguinte àquele em que estamos agora, que residirá a felicidade da vida ou, no que concerne a presente metáfora, o gozo de um relato literário. Assim fosse e, em última instância, para os pobres humanos, a felicidade residiria apenas na campa, talvez naqueles dizeres gravados na pedra que fazem companhia aos cadáveres em decomposição. Aí, no verdadeiro e triste fim, parece-nos a nós que a haver felicidade apenas esta existirá nos ecos recordadores dos entretantos que àqueles, agora ali finados, em dias passados lhes aconteceram. Por isso, lembremo-nos nós dos que já foram, guardêmo-los em mente, para que possamos, nem que seja por respeito à sua memória, aproveitarmos nós o luxo da existência, mesmo quando a malandra teima em não nos fazer as vontades todas".
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O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS
OS VENDEDORES DE SONHOS
Curiosamente, facto estranho e que merece a mais atenta e precisa investigação, é precisamente de imposições sobre o que havemos e devemos de fazer que se fazem as nossas vidas. É de conselhos sobre o bom, e perfeito, que tudo pode ser se fizermos, acreditarmos, seguirmos, concretizarmos ou comprarmos o que quer que seja que nos estão a vender. E vendem mesmo. Talvez a grande característica dos nossos tempos, vidas de suposta e desejada liberdade, seja a grande quantidade de pessoas que se dedicam à venda, ao lucro, ao marqueting, pessoas tão altruístas que baseiam a sua existência no satisfazer as necessidades dos clientes, dos consumidores, sim, somos nós esses, mais do que pessoas, o paradigma do século vinte e um é que somos clientes e consumidores, números num balancete comercial, pessoas é só às vezes, cidadão é termo que não interessa, não, não interessa a ninguém, claro que não, não é uma necessidade dos clientes consumidores essa estranha coisa de querer ser-se cidadão. E tanto mais estranhos são estes tempos em que vivemos que são uns poucos, uns quantos, um número mínimo de pessoas que andam a dizer aos outros, a todos, à maioria, quais são as coisas de que precisam. É assim mesmo: alguns idealizam, uns poucos constroem e uns quantos marquetizam, criam necessidades e dizem-nos a todos como devemos ser felizes. Estranho mundo este onde uns poucos nos dizem o que necessitamos. Talvez fizesse mais sentido ao contrário, talvez o mundo se devesse virar de pernas para o ar, e os rios nasciam no mar, indiferente, o que quer que seja, talvez devêssemos nós achar que somos todos inteligentes o suficiente para sermos capazes de saber quais são as nossas próprias necessidades, talvez os marquetistas devessem andar a falar com as pessoas e a ouvir aquilo que lhes faz falta, talvez devessem andar esses marquetistas a tentar convencer os poucos que constroem sobre aquilo que os muitos querem, em vez de andar a convencer os muitos sobre o que os poucos decidiram querer vender. Mas enfim, são estes mundos ideais coisas da imaginação e do devaneio, não é assim que as coisas funcionam, nem poderiam funcionar, claro que não, onde estávamos nós com a cabeça. Ficam os sonhos para o mundo dos sonhos, voltemos nós aos nossos pesadelos, talvez seja isso mesmo, talvez o nosso maior pesadelo seja esse de nem sequer sabermos que necessidades temos. E logo vêm os vendedores de sonhos. Logo vêm eles com um sorriso na cara mostrarmo-nos como é tão fácil sermos mais felizes se tivermos aquela nova coisa inventada pelos melhores e maiores especialistas que nos vai satisfazer aquela necessidade que nós nem sequer sabíamos que tínhamos. Como era possível viver sem tal coisa, perguntamo-nos nós, estamos aqui para o servir, diz o vendedor de sonhos, não se preocupe, é só assinar aqui, passar aqui o cartão, endossar aqui o cheque, pode ser a débito, crédito, prestações, endivide-se, gaste, faça como quiser, não se preocupe com mais nada, agora goze o produto e seja feliz. E depois a novidade passa, a felicidade não apareceu, afinal tenho todos aqueles problemas para resolver, o miúdo que não estuda, o dinheiro que afinal fazia falta, o Amor, a Confiança que não existem, pois é, maleitas do espírito, e para essas os vendedores de sonhos não têm solução. Aliás, talvez seja precisamente por isso que a felicidade tarda em aparecer, talvez esta se faça com as coisas do espírito e do coração, coisas de difícil e árduo caminho, e não tanto com as coisas que com uma assinatura e um cheque passamos a ter. Talvez a felicidade se faça mais de ser e menos de ter. Mas isso os marquetistas não dizem. Não podem. Porque coisas do ser não se vendem. Enfim. Ficam as dores de quem escreve, os lamentos de quem vê, tantos e tantos e tantos a comprarem tanto e tanto e tanto e depois, falta qualquer coisa, pois, é isso, falta qualquer coisa e lá vão eles comprar mais tantos e tantos e tantos, esquecendo-se que se não foi à primeira que resultou porque diabo haveria de resultar agora. E é assim. É mesmo de vendedores de sonhos que se fazem os dias da nossa infelicidade. E a malta comprou esses sonhos. E um dia há-de perceber que se há uma coisa de que a felicidade não se faz de certeza é dos sonhos dos outros.
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segunda-feira, 2 de junho de 2014
UM PROCESSO (V)
A felicidade como um processo é também uma libertação face à escravidão que é
aquela obrigação de ter que ser-se qualquer coisa que o nosso 'eu'
passado, e forçosamente mais ignorante, estabeleceu como um objectivo de
existência para o nosso futuro, condicionando-o. Se a isto juntarmos a
noção de que muitos destes "objectivos de felicidade" advêm de
marqueting comercial, pressão social, desígnios familiares, ou simples
devaneios mais infantis, percebemos então que a felicidade como um processo, e a consequente permanente revisão dos objectivos, é uma forma muito mais autêntica, e por isso também feliz, de viver a vida.
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UM PROCESSO (IV)
Imaginar a felicidade como um resultado final estático, e permanente, tem ainda outra dificuldade: um sucesso é um passo na direcção certa, mas um insucesso é um fracasso e, por conseguinte, um passo na direcção oposta. Assim, os insucessos tornam-se motivos de grande angústia e impeditivos de viver o dia-a-dia com tranquilidade. Pior ainda, por vezes são motivo de vergonha, sentimentos de fracasso, derrota, etc.. Já para quem interpreta a vida feliz como um processo de aprendizagem, e porque aprendemos por tentativa e erro, então os insucessos são mais facilmente aceites porque implicam crescimento, mais sabedoria e, naturalmente, entendem-se como fazendo parte da vida feliz.
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UM PROCESSO (III)
Outra dificuldade dos neuróticos e obsessivos perseguidores da felicidade futura consubstanciada num resultado final particular é a incapacidade de adaptação do próprio objectivo. Fará sentido um homem de quarenta anos perseguir uma imagem do seu 'eu' futuro que estabeleceu como seu objectivo final de felicidade quando tinha apenas vinte anos? Só se não tiver aprendido nada entretanto.
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UM PROCESSO (II)
Como podem os jovens guiados pela mentalidade, e pelo desejo, do resultado final, que andam sempre em busca daquele momento futuro para onde correm sem parar, sempre a sonhar com o seu 'eu' futuro onde serão directores, chefes, presidentes, isto ou aquilo, sempre a ansiar pelo tempo em que os seus sonhos se concretizam, em que vivem de facto a vida perfeita, como podem esses jovens correr com tanta vontade para tamanhos desígnios, se a concretização desses mesmos sonhos significa, também, e inevitavelmente, que então serão velhos - porque só os velhos são directores, chefes, presidentes, isto ou aquilo - e que a maior parte da vida já terá passado por eles, significando isto que passaram a vida a acelerar apenas para chegarem mais rápido à proximidade do fim? Querer ser-se algo que não se é, e desejar que esse algo chegue rápido, apenas pode significar querer que a vida, e ela já é tão breve!, passe mais depressa. Uma estupidez, portanto. Uma estupidez própria de crianças, porque apenas as crianças vivem na ilusão de que a vida é eterna. A vida feliz, pelo contrário, é aquela que se contenta, e se satisfaz, com o processo de transformação, e não apenas com o resultado final. Aliás, de tudo o que há, aquilo que menos interessa será precisamente esse resultado final pois nele apenas consiste a morte e o fim de tudo o que nos faz, ou poderia ter feito, felizes.
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quinta-feira, 29 de maio de 2014
UM PROCESSO
Jogar o jogo da vida, com afinco e perseverança, sempre sem desistir, quando se sabe que a inevitabilidade da morte espera, sempre serena e eternamente, no final de todo e qualquer caminho que se escolha é, ao mesmo tempo, uma loucura e a salvação. Loucura, porque todo e qualquer esforço encontrará sempre o mesmo resultado: considerando a inevitabilidade da morte a que a condição humana nos condena, nada, em última instância, sobreviverá. A única garantia será, então, que, no final, perdemos sempre e que todos os esforços de uma vida resultarão, ingloriamente, na inutilidade da irrelevância e do esquecimento. Salvação, porque é a única escolha que permite a felicidade: não pode ser feliz aquele que não aceita a sua condição. É preciso, no entanto, uma certa dose de sabedoria para que se entendam estas duas coisas simultaneamente: apenas aceitando a absoluta inutilidade objectiva de todo e qualquer esforço pode compreender-se que, se o resultado final é a morte, então a satisfação subjectiva terá que residir durante o jogo e nunca nesse resultado final. Assim, a felicidade será, forçosamente, um processo, um caminho e não um fim. Uma escolha do momento em que se vive, portanto, e não um objectivo sempre atirado para um futuro, que por ser futuro, e um pretenso resultado final, estará sempre longe demais, isto até ao dia em que simplesmente deixará de estar. Assim, atingir esse momento feliz não poderá nunca passar por um plano de vida, um
cardápio de bens materiais ou uma receita de químicos receitados (ou
não). Pelo contrário, o momento feliz é uma
escolha que, aceitando, e assumindo, a loucura da vida, a própria irrelevância e libertando-se de todas
essas receitas, cardápios ou planos, se realiza no imediato. E é ao gozar o momento feliz que todos os esforços, tal como a vida, apesar de inúteis, irrelevantes ou mesmo cómicos de tão estúpidos que são, passam a fazer sentido, e a serem motivo de satisfação, mesmo que em última instância seja um sentido para lado nenhum. O sentido encontrado, ou a felicidade experimentada, estão então numa satisfação presente e não num futuro inexistente, se bem que antecipado. No final, o único esforço verdadeiramente inútil será precisamente aquele que é efectuado em busca da felicidade: para ser-se feliz, basta viver-se com vontade. Ou seja, feliz está aquele a quem não lhe ocorre perguntar-se se é feliz.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
SAFEM-SE OS CARACÓIS
Vou a Portugal para a semana durante mais ou menos quinze dias. Não me apetece. Não tenho vontade. É uma tristeza, mas é verdade. Sinto-me como se, mal ponha o pé no chão do aeroporto, vá dar imediatamente de caras com os lunáticos da extrema-esquerda que gritam, gritam, gritam sem parar, que querem tudo e mais umas botas mas desde que seja de borla, sem pagar, ou os outros, "os ricos", esses cabrões, que paguem. Depois desses, aparecem-me os aldrabões socialistas, aqueles que levaram o país à bancarrota e que agora assobiam para o ar. Pior, insistem eles, os socialistas, aos gritos, naturalmente, que as políticas que nos levaram à bancarrota estavam certas e que, pasme-se, serão aquelas que nos vão salvar agora (da bancarrota que essas mesmas políticas causaram). Aldrabões sem vergonha. A sério: que bando de salafrários. Depois, vem o governo assaltar-me de pistola em punho. Se lhes perguntar pela reforma do Estado, qual reforma do Estado pergunta o Passos Coelho?, e eu respondo: aquela que diziam que faziam e que, passados três anos, nem um vislumbre, ah, essa?, pergunta o Portas, essa é a seguir à eleições. O melhor é estar calado, penso eu, enquanto fujo desagradado pelos apalpões dos guardas fronteiriços, está calado Nuno, baixa a cabeça, passa despercebido, e dá graças a Deus por ainda te deixarem comer umas bifanas sem pagar taxa de gordura. A seguir, aparecem-me os senhores das repartições, cheios de carimbos e agrafadores, a exigir as taxas e os impostos que eu estou farto, fartinho de pagar (onde é que eu estava com a cabeça ao querer investir em Portugal?) e a explicarem-me tintim por tintim por que razão é que eu é que sou louco ao achar que três anos são mais do suficientes para se aprovar um projecto de investimento económico numa zona desfavorecida do país. A seguir a esses, aparecem os fiscais, os sub-fiscais e os para-fiscais das câmaras a demonstrar como tudo está mal feito, como assim não pode ser aprovado, onde é que já se viu tal coisa, nem pensar, pague lá taxa, a sub-taxa, a para-taxa, a da câmara, a da direcção regional, a da rede natura, a do parque natural, a do instituto de conservação da natureza, esta é a dobrar porque tem casa e tem anexo, e a seguir, calma lá, não pode pôr o anexo, diz o da câmara, mas o do instituto diz que o anexo pode ser, a casa é que não, pelo menos não ali. E aí, desesperado, eu, de rastos, ali no aeroporto, grito que se altera o projecto, só não me obriguem a voltar ao início do procedimento, o procedimento são mais dois anos, porra isso é que não, entretanto, passo ali no multibanco, saca da carteira, paga ao arquitecto, paga ao engenheiro, paga o certificado energético (e aquele bando de parasitas que vivem à conta da invenção estatal da obrigatoriedade do certificado energético), paga o certificado telefónico (mesmo que não tenha rede telefónica), paga o certificado de ruído (mesmo que não haja vizinhos), e depois, toma lá, agora espera mais seis meses pela resposta à tua última carta. E depois de todos esses, lá vêm os senhores do sindicato, e os senhores da função pública atrás, todos com bandeiras vermelhas e boinas do Ché Guevara, a explicar - aos gritos, claro - por que excelsa razão todos estes serviços, sub-serviços e para-serviços, mais os seus coordenadores, sub-coordenadores e para-coordenadores, devidamente acompanhados das taxas, das sub-taxas e das para-taxas, são absolutamente fundamentais para salvação da pátria, para a solidariedade, fraternidade e felicidade de todos, incluindo a minha. Finalmente, após três ataques de fúria e um de ansiedade, mais uma depressão e uma desesperada fuga à realidade rumo à esperança que no "futuro isto mude" (nunca vai mudar), talvez consiga aguentar até ao café mais próximo, mesmo que a roer as unhas e a falar sozinho porque já me sinto tão maluquinho quanto aqueles que para aí andam a falar nas televisões e a escrever nos jornais, mas dizia, talvez aguente até ao café mais próximo para comer uns caracóis e ver o Benfica. Talvez. Talvez. Pois. É como vos dizia: não me apetece. Mesmo nada. Acho que é uma espécie de alergia.
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
DESVIO E NORMA
Dizia o Frank Zappa, e bem, que sem desvio da norma o progresso não é possível. Utilizada para explicar a rebeldia, mesmo aquela sem causa, esta frase bem tem servido como o hino dos progressistas supostamente contra os conservadores. Eu não vejo a coisa assim. O verdadeiro conservadorismo não reside em impedir o desvio contra a norma mas, muito mais importante, em compreender que sem norma não há nada do qual alguém se possa desviar. Ou seja, sem norma não há igualmente progresso, apenas sobra o caos.
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sexta-feira, 21 de março de 2014
ELOGIO À ROTINA
Ao contrário da ideia modernaça de que as rotinas são "aborrecidas", parece-me que a rotina é parte da salvação para uma vida feliz. A rotina, desde aquela que embala o bebé até aqueloutra que nos ocupa manhãs, tardes e - ou noites, não passa de um processo de repetição que, precisamente por repetir-se, nos oferece a sensação momentânea de um movimento perpétuo. É uma magnífica ilusão, a rotina. É através daquela repetição que podemos experimentar um momento sem fim, porque aparentemente eternamente recorrente: a eternidade, portanto. Da mesma forma, nas traseiras da nossa mente, com a ilusão da perpetuidade, dá-se a decorrente superação, através do momentâneo esquecimento, do conhecimento que todos carregamos da nossa própria mortalidade. A libertação, portanto.
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segunda-feira, 17 de março de 2014
DISTINÇÕES
A separação ontológica entre o que é um pacóvio, o que é um estúpido, ou um simples atrasado mental, é fundamental e interessante. Os primeiros, os pacóvios, têm vistas curtas. Não conhecem o mundo, não percebem que há vida para lá da montanha que enxergam da varanda da sala (ou, os tempos são modernos, para lá do prédio da frente) e, por desconhecimento e simples acanhamento mental, fecham-se no que conhecem, repetindo rotinas e hábitos que, mesmo desconhecendo que outras rotinas e hábitos poderiam ter, afirmam como sendo as melhores possíveis. Os segundos, os estúpidos, são pacóvios mas já com a mania que são espertos: eles acham que sabem mais do que aqueles que, não sendo pacóvios, sabem mesmo mais do que eles. Mas como o estúpido acha que domina o pequeno mundo que pacoviamente conhece, e não vendo mais mundo para lá desse, imagina-se então a dominar o mundo inteiro. Os estúpidos, naturalmente, acham-se sempre os maiores. Já os terceiros, os atrasados mentais, são aqueles que são pacóvios, estúpidos e, pior, são aqueles também que, ofendendo-se com a vontade que aqueles que, não sendo estúpidos nem pacóvios, têm de ir mais além e de conhecer e conquistar o mundo que está para lá da ponta do nariz, acabam a minar deliberadamente os esforços dos outros porque os outros não podem ser mais do que eles. Os atrasados mentais, na preguiça, e cobardia, de não se quererem melhorar, impedem o melhoramento dos outros. São os que puxam para baixo. São os que maldizem, à boca pequena e de mão à frente da dita, os sucessos dos outros, que não suportam, mesmo que inconscientemente, porque esses sucessos apenas os fazem sentir pior sobre a sua própria pacóvia e estúpida pequenez. São os que invejam e conspiram contra os que têm aquilo que eles sonham ter - e nada mais fazem por isso além de sonhar. São mesquinhos. São pequeninos, muito pequeninos, e condenam também, através da sua constante sabotagem, os alvos da sua ira a uma igual pequenez. É uma maldição, a atrasadice mental. E é, infelizmente, uma maldição que abunda em Portugal.
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