sexta-feira, 22 de abril de 2011

O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS (VIII)

Sentado na mesa da esplanada da piscina, gozava mais um gin tónico. Já tinha perdido a conta a quantos tinha bebido nesse dia. Talvez uns seis. Cinco? Mais de quatro seguramente. Ao pensar nestas quantificações, acabou por encolher os ombros. Não lhe interessava saber. Para ele a importância residia agora no momento. Nos escombros de uma vida passada, enquanto não assumia uma nova, enquanto permanecia ali no limbo intemporal, nada tinha consequências, nada importava demasiado, nada o afectava. Pairava sobre a realidade, ou pelo menos assim ele o pensava, estranha coisa esta da auto percepção da existência, dá para nos acharmos coisas diferentes das que somos, dá para nos imaginarmos o que
convenhamos
pode ser uma coisa fantástica, aí nascem sonhos e devaneios, aí nascem mundos novos mas,
não esqueçamos
tudo o que é bom tem o seu risco, o seu medo, se podemos imaginar também nos podemos perder. E se andar perdido durante uns tempos até pode ser engraçado, o complicado é se nos perdermos de mais, que é como quem diz se perdermos o caminho de volta para casa. Há quem dela saia com um cordel, daqueles de rija estrutura, preso à porta de casa e atado ao pé ou segurado pela sua ponta por uma mão, e, dessa maneira, segura e séria, passo atrás de passo, com resoluta confiança pode o cauto caminhante seguir o seu percurso ziguezagueante, pode ele ir à vontade porque quando desse sem destino passeio se fartar, bastar-lhe-á dar meia volta, virar, volver e, com toda a calma, seguir o cordel que o liga ao porto seguro do seu ninho. Mas o Lázaro, esse incauto viajante, esse ia sem cordel algum, ia livre como um passarinho, longe da terra que o viu nascer e da outra que o viu crescer e, assim, sabe-se lá onde irá parar e se desse local alguma vez irá regressar. Iludia-se ele a pensar que por menos gins que bebesse nunca estaria completamente sóbrio tal como por mais que bebesse nunca estaria profundamente embriagado.
Perdido nestes e em muitos outros ébrios e alucinados pensamentos, Lázaro estendeu as pernas. Os músculos doíam-lhe de tanto ter andado naquele dia. Afinal não era nenhuma divindade acima das corriqueiras coisas da vida, não era mesmo, tinha pernas e músculos e estes, como todos, cediam perante o cansaço. Riu-se sozinho. Primeiro baixinho. Depois mais alto, até que começou a rir à gargalhada, o riso vinha-lhe sem saber porquê, do mais profundo do seu ser, daquele sítio onde os pensamentos conscientes não conseguem penetrar, não senhor, por mais que tentem, não conseguem, as coisas vêm e inundam-nos a cabeça, sentimos nós que sabemos muito quando afinal muito poucos de nós sabemos o que sentimos. Aquele homem ria perdidamente. Sem saber porquê. Ria e ria e ria. E mais um bocado, até que, também ela, a barriga, era como os músculos das pernas, não era divina, cansava-se e, ao começar a doer-lhe, só lhe deu mais vontade de rir, era um homem, um homem sem norte mas era um homem e sentia-se mais vivo do que alguma vez se havia sentido na sua vida inteira. Aos poucos e poucos o riso gastava-se. Soluçou ainda mais umas meias gargalhadas e, no final, já quase só gemia, um gemido de riso, um gemido de gozo, até que se calou, ofegante, cansado, surpreendido pela sua loucura mas feliz por a ter, sentia-se livre, tão livre que se podia rir à vontade sem sequer ter de saber porquê. Suspirou ele, daqueles suspiros de elevada e penetrante profundidade e levantou-se, virou-se de volta para a porta que dava acesso ao hall do hotel e, principiando a caminhar nessa direcção, não viu, ou seja não soube nem sentiu aquele pequena e rasteirante perna de madeira e, por isso mesmo, cedendo à pressão de tão insidioso membro, tropeçou na cadeira onde tinha estado sentado e, cambaleando, acabou por se ir estatelar no chão. De imediato, não fosse algum indesejável observador reparar em tão vergonhosa situação, fez grande força nos braços e nas pernas, levantou-se num ápice e, uma vez de pé, parou, escutou e olhou, não vinha ali nenhum comboio, também ninguém o estava a observar, estava sozinho e, por isso mesmo, à vontade na sua privada solidão, sorriu novamente. Se calhar estaria mais embriagado do que tinha suposto, isso já a gente poderia ter-lhe dito, mas enfim, é melhor quando cada um aprende por si próprio, é essa mesma a receita do conhecimento. Lázaro ali de pé, percebeu, naquele momento, o que o tanto tinha feito rir: a ilusão da divindade. No seu louco devaneio imaginara-se espírito e alma penada, imaginara-se fora de si próprio, acima de si e dos outros, fora da realidade. Imaginara-se realizador de um filme que salpicava os seus olhos com uma realidade que sabia a super oito, a película plástica e imastigável a algo mais do aquele sensaborão, insípido e triste gosto que, via ele agora, talvez fosse mais correcto dizer: saboreava ele agora, mas enfim, percebia ele agora que nunca tinha saboreado a vida como ela realmente era, só como ele desejaria que ela fosse. E ao provar o verdadeiro gosto da vida, não sabia ele o que isso era e, por essa razão, essa razão apenas, não por nenhuma arrogância particular, pelo contrário, por ignorância e reconhecimento dessa mesma falta de conhecimentos, andara ele ao engano, a arrogar-se de superar a realidade, de ser mais do que era, de estar acima de tudo. Ao perceber que afinal, mesmo naquele transe peculiar e inaudito que o submergia numa paz indefinida, que o alagava dentro de si mesmo, mesmo nesse ensopado sensorial, ele continuava a embriagar-se, o álcool afectava-o, isso significava que continuava a ser um homem perene e sensível aos estímulos, um homem como outro qualquer, então, coisa formidável, a sua desconexão não era real, era uma ilusão, uma simples, se bem que estranha, ilusão. A realidade continuava ali. Ele é que se iludia ao acreditar que estava para além dela. Fantástico! Alívio respirado e sentido. Mais um suspiro. E riu-se outra vez, alijado, liberto e, finalmente, descarregado. Apesar de sentir a paz da incoerência ela, afinal, era só aparente. E o medo que lhe assolava os ossos podia agora partir em paz. Ele estava, de novo, no controle de si próprio ou, pelo menos assim, dessa forma infantil e singela, como um petiz que dá os primeiros passos em busca de uma bola azul e encarnada, titubeante, com as pernas a tremer de tanta excitação sensorial, deu um passo atrás para ganhar balanço e recomeçou o caminho. 
(Cont.)

SONDAGENS

Mais ou menos há um mês atrás comentei com várias pessoas que desconfiava fortemente das sondagens que atribuíam votações acima dos 45% ao PSD. Na altura, exprimi a minha opinião - fortemente condicionada pela crença que o socretinismo acéfalo tudo procura controlar na sociedade Portuguesa com o funesto desejo, que nem um fungo pestilento, de a consumir e destruir - onde veiculava a possibilidade de as sondagens estarem a ser propositadamente insufladas (beneficiando o PSD) com o intuito colocar o inimigo mais à vontade e com menos guarda. Ao mesmo tempo, à medida que o tempo fosse passando, o PSD começaria a descer e o PS a subir dando uma falsa ideia de "recuperação" onde, claro está, o génio "combativo", "heróico" e "messiânico" do grande líder sócrates seria enaltecido. Aí os media, "independentes" e "profundos" na sua análise, veiculariam a "extraordinária dinâmica de recuperação e vitória do PS" bem como a "inabilidade" e "desilusão" do PSD. Não sei se a minha teoria da conspiração tem algum fundamento para lá da minha profunda desconfiança em relação ao bando de criminosos que nos governa ou da eterna capacidade para os fuinhas de serviço, filhos de uma vaca desmamada, que nunca cessam de me surpreender com o seu enorme talento para trair a Pátria; no entanto, que acertei na previsão, acertei. Dia cinco de Junho falamos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

MADNESS IS THE GAME I'LL PLAY WITH YOU

Marlango, 'Madness', Marlango (2004)

OS PRISIONEIROS DO TEMPO

Tal como um pião que gira e gira e torna a girar também nós giramos sobre o nosso próprio eixo, como que planetas. Esse eixo, ou ponto fixo no conjunto - e intersecção - das dimensões universais configura a identidade; vazia de conteúdo, não passa de uma morada. O conteúdo é o pião, um pequeno receptáculo de momentos que escoam por entre as sinapses da memória e que, a cada momento que perpassam pelo eixo identificativo, consoante a posição por onde o pião passa, consoante a área emocional que ocupa, origina uma emoção. Se repararmos bem a vida é um girar eterno pelas mesmas emoções: tristeza é sempre tristeza, independentemente do que a tenha causado. Quando eu estou triste, eu estou com o meu pião no sector da tristeza e sinto algo. Esse algo é o que sinto sempre que me sinto triste. E porque nós somos o que sentimos, esse algo, naquele momento, é o que eu sou. Consequentemente, se cada vez que sinto tristeza é sempre o mesmo algo que sinto, sendo o que sinto aquilo que sou, então eu sou sempre aquilo quando estou triste. E quantas emoções há? Infinitas? Não. Muito poucas, na realidade. A vida, aliás, seria uma perfeita monotonia se estivéssemos conscientes que estamos sempre a sentir as mesmas coisas. Por isso, o fazedor de momentos, a entidade suprema que, por alguma razão, quer que sintamos essas quatro ou cinco sensações emocionais, o feiticeiro-mor, para que não nos aborreçamos e que continuemos a sentir, cria a ilusão de que amanhã será diferente. Nunca é. É sempre a mesma coisa; tal como o burro que, preso a uma árvore continua sempre a andar para o lado direito convencido que vai a algum lado. Não há lado algum para ir. Tal como peixe que dá a volta ao aquário a pensar - a todos segundos que passam por ele - que está no mar infinito porque nunca se lembra que já ali esteve antes. Também nós, quando sentimos, porque aquilo que nos faz sentir parece ser sempre diferente, também nós nos esquecemos que já ali estivemos antes. E que nunca  vamos a lado algum diferente deste pequeno aquário de cinco ou seis emoções. O nosso erro está em pensar que a nossa vida é um percurso; não é: é um passear infinitamente repetitivo por entre as emoções primordiais. Simplesmente, essas emoções são desencadeadas por razões distintas mas, no final, na lista do feiticeiro do cosmos, se lerá, em percentagem certamente, qual a proporção de tristeza, alegria, amor, medo, nojo e atracção que configurou a nossa existência. Quanto às razões que motivaram tais coisas? Tudo aquilo que pensamos ser o mais importante? A nossa vida? Irrelevante. Tal como as cenas de um filme realizado por alguém que, atrás das cenas, nos cativa hipnoticamente com a promessa de uma cena seguinte, até aos créditos finais. A vida não seria assim mais do que uma cadeira de cinema; e eu, sabendo que a minha tristeza só se distingue da tua pelas suas causas, então, se sentimos o mesmo e as causas são irrelevantes, sou forçado a compreender que eu e tu somos o mesmo, talvez diferentes na ilusão e no tempo, mas objectivamente o mesmo, nada mais do que os olhos através dos quais o Criador se entretém observando o resultado da sua própria insanidade. E neste carrossel sem fim, neste eterno rodopiar pelas mesmas sensações sem final algum que não seja o início, nos vemos aprisionados ao destino - que não nos pertence - de querermos acreditar que aquilo que vamos sentir amanhã é melhor do que o que sentimos hoje. Compreender isto é igualmente inútil e desaconselhável, afinal, tal como sempre desconfiámos desde o início, a vida não é mais do que uma viagem numa montanha russa. E aproveitar o passeio não é passar o tempo a olhar para os carris. Quão má será a vida de um peixe de aquário de acordo com os critérios do peixe? Pois é. A verdadeira liberdade será então a simples aceitação de que dentro da nossa prisão até não se está nada mal: haja amor e uma mão amiga.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS (VII)

O homem deu mais um gole no seu gin. Saboreou-o. Mais uma vez. E outra. Pousou o copo, tendo o cuidado de afastar com a outra mão o livro que tinha em cima da mesa, não queria que ele se molhasse com os círculos de água que, como é normal e habitual, escorrem de um copo fresco poisado em tampo aquecido. Olhou o copo e, percebendo que tanta prova fazia a existência tónica rapidamente se aproximar do seu final, chamou o empregado e pediu mais um. Deu mais um gole, outro, e o gin acabou. Já era o terceiro naquela tarde. Sorveu, de forma barulhenta, como uma criança que termina o seu sumo de pacote na ânsia que o contínuo aspirar transforme o cartão do pacote, ou o gelo do copo neste caso, em mais sumo, nunca acontece, estranhas e repetidas, irreais e ilusórias esperanças que fazem os quotidianos das coisas pequenas. E o homem, tal como esses desiludidos petizes, abandonou o copo. Não seria raro numa criança acabar o sumo com pompa e circunstância, claro, com o estrondo que o pacote pisado com força e secura causa, desde que previamente enchido de ar pela palhinha, esse seria o foguete da pompa, já o fogo de artifício da circunstância seriam as gotas imensas que expelidas de dentro do pacote salpicavam tudo o que estava ao redor. Os miúdos riam-se do seu fogo de artifício e foguete, logo veio a ideia de beber mais sumos para fazer mais explosões, em quase simultâneo como nos tais fogos festivaleiros, para a próxima talvez se juntassem uns três ou quatro e o fizessem todos ao mesmo tempo. O homem recordava precisamente esses momentos da sua infância num torpor melancólico que parecia só se adensar à medida que os álcoois tónicos tomavam o seu lugar na festa cerebral. Esta aumentava de tom, o torpor também; anestesiado, o homem pensou que gostaria de fazer explodir um pacote de sumo, como não tinha nenhum teve de se contentar com um arroto, foi esse o seu festival, mas baixinho e com a mão à frente, não fosse alguém ouvir. Podem muito os torpores alcoólicos, mas por enquanto não tanto que fizessem aquele homem perder a compostura. Chegou o gin tónico. Logo dois goles para manter a dinâmica. E, naquele momento, logo após o segundo gole, e este tinha sido mais pequeno do que o primeiro, um gole de confirmação daquilo que tinha faltado ao primeiro, como se houvesse uma receita mágica da quantidade que teria de ser ingerida naquele momento, um ponto ideal, um encontro entre o tempo, a realidade e o torpor alcoólico, uma fórmula exacta, e se calhar até havia e, naquele instante, estava encontrada. O homem fez um esgar de satisfação, recostou-se na cadeira de verga e fechou os olhos. Suspirou. Colocou as mãos atrás da cabeça e deixou a mente libertar-se do quer que seja que a prendia e, sem esforço, com a energia do vapor alcoólico, principiou a viajar, a percorrer com os olhos, de todos os mais inventivos, poderosos e observadores, falamos, claro está, dos olhos da mente, aqueles que se abrem quando os outros, os da cara, se fecham, e, dessa forma, velada mas ao mesmo tempo atenta e desperta, o homem percorreu novamente as ruas de Maputo, Lourenço Marques antiga, a marginal, as vistas da praia, e as largas e desgastadas avenidas dos ídolos marxistas e comunistas, tal como dos heróis da revolução, eles também a tiveram, e durou muitos anos, foi muito mais violenta, ainda dura e, desse sangue derramado, dessa torrente de miséria e violência ainda se ouvem os gritos naquelas ruas perdidas, naqueles recantos africanos ainda ecoam as súplicas de quem sofreu aquilo que é insofrível, de quem passou o inimaginável. E esse inimaginável é humano. E está ali. E sente-se. E aquele homem sentia-o. E talvez sentindo o que nunca poderia imaginar sentir, conseguisse vir a descobrir aquilo que nunca havia descoberto: a raiz das suas próprias angústias.
(Cont.)

THE PORTRAIT

quinta-feira, 14 de abril de 2011

ELE VEM AÍ

O grande Larry David está de volta com o fantástico Curb Your Enthusiasm. A expectativa é elevadíssima depois de na última temporada ter conseguido reunir o elenco de Seinfeld para um reencontro absolutamente brilhante. Já aqui disse e reafirmo: Larry David é o maior génio da comédia televisiva dos últimos vinte anos (entrevista dele aqui): quem mais pode dizer que revolucionou a comédia na televisão duas vezes em duas décadas? Seinfeld e Curb Your Enthusiasm são sem dúvida revolucionários, cada um no seu tempo. Seinfeld foi o exemplo pioneiro de que é possível fazer comédia dentro das personagens, das suas manias e idiossincrasias e, melhor ainda, dentro das suas cabeças ao lidar com as mais banais questões do quotidiano nova-iorquino. A aliança David - Seinfeld será, sem dúvida, uma das mais bem sucedidas de sempre e um marco na história da televisão. Já Curb Your Enthusiasm continua a revolução indo mais longe: filmado em estilo documental, com apenas uma câmera e praticamente sem guião escrito, aposta no improviso como forma de elevar ao ridículo as mesmas manias e observações que George Costanza tão bem explanava em Seinfeld. Aliás, o génio de David comprova-se mesmo por, em 1989, na NBC (o arauto do main stream televisivo) querer produzir e escrever Seinfeld tal como faz hoje com Curb Your Enthusiasm. Claramente à frente do seu tempo e, felizmente, capaz de fazer o nosso tempo encontrar-se com o dele. Um último ponto salta à atenção: além de uma qualidade assinalável, os êxitos de Larry David consagram-se de igual forma como casos de longevidade televisiva. E sempre a manter o nível. A brincar a brincar o criador do chamado 'momento Larry David' (o embaraço puro) depois de nove anos de Seinfeld já vai com oito de Curb Your Enthusiasm. A não perder. Em Julho.

LEMA DE VIDA

"Liberdade é igual a responsabilidade."

São João Bosco

MANIFESTO PARA O CONSERVADORISMO LIBERAL SEGUNDO A TEORIZAÇÃO DA LIBERDADE

A liberdade política é uma tensão permanente entre a vontade do indivíduo de se exprimir e a necessidade de o colectivo conter esses mesmos indivíduos por forma a que todos tenham as mesmas liberdades. Não há volta a dar a isto. Significa isto que garantir a liberdade exige do indivíduo, com igual importância, tanto a defesa contra os atropelos da sua esfera pessoal por parte do colectivo bem como a aceitação de limites na sua acção para com os outros; não há, portanto, uma fórmula secreta, um plano perfeito, um esquema visionário que resolva o problema. Pelo contrário: é um desafio permanente de todos os indivíduos porque a tensão entre eles e os outros é, enquanto vivendo em grupo, uma constante. Assim sendo, sem um guião, resta-nos o desafio eterno de, a cada momento, construirmos a liberdade que queremos. Umas vezes as sociedades, com medo (instinto securitário) ou pelo medo (totalitarismo), apostam mais no colectivo e os muitos subjugam-se a uns poucos; outras vezes, com confiança, os indivíduos, fartos de subjugação e crentes nas suas capacidades, plenos de vontade, agarram o destino pelos cornos e, pelas suas próprias mãos, chamam a si mesmos o direito de decidirem sobre a sua própria vida. A História mostra-nos que os períodos de medo, subjugação e colectivização, porque nenhuma organização pode exceder a imaginação do seu criador (Hayek), são períodos de menor riqueza e de menor felicidade; limita-se ao plano pré-definido de quem controla a sociedade. Pelo contrário, períodos de maior liberdade são os períodos de maior abastança, maior felicidade e maior desenvolvimento porque, libertos de um plano pré-definido, sobra o desígnio de quebrar as barreiras do possível. A sociedade espontâneamente criada pela livre interacção dos indivíduos que a compõem, sem ser limitada pela vontade de um chefe, dirige-se para onde for melhor a cada momento e resolve, a cada instante, da melhor forma que encontrar os problemas que naturalmente enfrentará. A única forma de estar preparado para os problemas que não conhecemos nem controlamos é perceber que não há plano algum que garanta a resolução de todas as dificuldades futuras ou que assuma que o momento actual em que vivemos é o último degrau da experiência humana e que, por tal facto, this is it, chegados aqui nada de novo haverá e a solução para o momento é uma solução para eternizar. Deixar o futuro em aberto implica deixar à sociedade, por si própria, a cada indivíduo por si próprio, criar o seu próprio destino. Sou, por estas razões, um liberal. Mas não um libertário: a sociedade, se bem que com o devido ênfase no indivíduo, não pode dispensar de forma alguma o colectivo. E na ausência de um plano para definir a fronteira desta permanente e eterna tensão sobra-nos o bom senso. Nas palavras de S. Francisco de Assis, precisamos de ter força para mudar o que pode ser mudado - defender o que é nosso -, resignação para aceitar o que não pode ser mudado - vivermos em grupo - e sabedoria para compreender a diferença. O tal bom senso, portanto. Ter a coragem de confiar no bom senso casuístico dos homens e não impor um plano fadado ao insucesso que ambiciona dar resposta ao dilema humano é a receita dos conservadores. O dilema humano é insolúvel por decreto, cabe a cada um descobrir a sua pequena e única chave da felicidade e aqueles que anunciam um mundo sem dificuldades e um futuro radiante de felicidade para todos ou são ignorantes acerca da natureza humana ou pretendem, através da mentira, persuadir os preguiçosos e os medrosos a abdicar da sua própria responsabilidade no seu destino individual em nome de facilidades que não existem. Em suma: falar verdade, confiar nas pessoas e não nos chefes providenciais, desconfiar dos planos milagrosos, ser prudente, deixar as opções colectivas em aberto para as escolhas individuais e assumir que, em última instância, numa sociedade de pessoas igualmente livres, o resultado dos esforços de cada um é o que define o sucesso ou o insucesso na vida. E que aquilo que uns consideram sucesso não quer forçosamente significar que todos o considerem também. Em duas palavras? Liberdade e responsabilidade. Hélas, o conservadorismo liberal.

BACK TO THE FUTURE

Paul Anka, 'Smells Like Teen Spirit', Rock Swings (2005) [Nirvana cover 1991]

quarta-feira, 13 de abril de 2011

DÚVIDA

E se Deus for apenas a entidade mais solitária delas todas, una e única portanto, e, num ensejo de esquizofrénica ansiedade, se dividir numa multiplicidade infinita de ilusórias identidades - desde a mais ínfima bactéria até ao mais complexo humanóide - que, confrontando-se como que num bailado universal, não servem para mais nada além do que apaziguar a divina solitude? E se a solidão que nos assola a todos não for mais do que o eco da solidão suprema primordial? E se este vazio que sentimos não for nada mais além do que a evidência de que não existimos de facto mas, sim, que somos apenas o resultado de uma imaginação fértil, como que a de um louco encerrado e selado num solitário hospício vazio e abandonado, para quem nada mais sobra além das personagens imaginárias que resultam das suas insanas maquinações, as únicas coisas com que se entretém enquanto aguenta o crivo da cruel passagem do tempo?

terça-feira, 12 de abril de 2011

O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS (VI)

Depois de várias investidas dos vendedores, estes acabaram por desistir, deixando em paz o homem que, corado do calor, com ar sonhador e meio ausente, se entretinha com o seu gin tónico, remédio de males futuros, mais vale prevenir que remediar, o gin tónico é detentor de uma boa dose de água tónica, entenda-se água pulverizada com sulfato de quinina, esse alcalóide de gosto amargo com funções antitérmicas, antimaláricas e analgésicas, o harmonioso conjunto de vinte moléculas de carbono, vinte e quatro de hidrogénio, duas de nitrogénio e outras duas de oxigénio. Com tantas moléculas de génios, não será de mau gosto notar a genialidade da obra divina, isto realmente dá para tudo, até para espalhar estereoisómeros de quinidina por esses trópicos fora, é também por aí que anda a malária, pérfida e vil doença que voa à boleia do mosquito, é curioso que onde haja a doença logo se descobre por intrincados e complexos métodos algo que a cura, é o jogo da vida, o do gato e do rato, ou o do medo e da esperança, assim vamos nós, com medo do que nos mata e a rezar pelo que nos salva, talvez um dia possamos perder o medo, afinal, como acabámos de ver, não há mal sem remédio, não há doença sem cura, não há portanto medo sem esperança. E quando, como é este o caso, falamos, claro, do gin tónico, o remédio sabe bem porque é fresco para matar a sede mas é também seco para matar a humidade, assim o melhor é prevenir mesmo, então na esplanada enquanto se descansa ao final da tarde a sonhar com o que se teve ou que se quer vir a ter, melhor ainda, juntam-se as eternas comadres tão difíceis de se encontrarem, falamos claro do útil e do agradável, juntam-se os dois à esquina a tocar a concertina e gera-se um momento puro, daqueles que se alongam por vários momentos, daqueles que nos levam um sorriso à boca, o calor, o frenesim africano ora acima ora abaixo naquela rua, as flores das acácias, tudo misturado, tudo diluído num único momento, numa única sensação. Ora, os momentos já toda a gente sabe que são como a economia, impera a lei da oferta e da procura, aquilo que muito é procurado e pouco é oferecido é muito raro, logo de valor elevado e, assim, estes raros momentos em que o útil e o agradável dão as mãos e descansam lado a lado são momentos muito valiosos que ninguém se pode dar ao luxo de desperdiçar. Pelo contrário. Bebem-se, saboreiam-se e engolem-se, faz-se como a comida, que não haja nenhum equívoco, aquilo que se engole passa a fazer parte de nós, a digestão trata de enviar os nutrientes para o sangue, já a digestão dos momentos, essa igualmente fundamental tarefa, trata de enviar os momentos para a memória ou para o esquecimento, peneira-os no acto da decisão, e que ninguém se esqueça que da mesma forma como não se vive sem nutrientes sanguíneos, também ninguém sobrevive sem uma sã memória, pejada de boas recordações, cheia de grandes momentos, momentos como este que aquele homem vive agora. Nesta cidade, por enquanto, sem nome, aquele homem, por enquanto sem nome, perdia-se numa estranha dialéctica: por alguma razão aquela energia que imana do livre resfolegar das pessoas, como naquelas que se acotovelam em passeios europeus, ali era diferente. Ele procurava-a mas não a encontrava. Eram outras pessoas. Outros anseios. Outros passeios. E, por esta razão, simples e estranha, aquele homem sentia-se perdido. Estava noutro mundo, um mundo que não conhecia, um mundo que não dominava e ao qual não se conseguia ligar. Estava de fora. Excluído. Um atento observador que caminhava naquela peculiar realidade como uma leve e espraiada alma penada, um fantasma do futuro ou do passado, um espírito incorpóreo, um elemento arredio e esquivo a tudo o que o rodeava. E estranho era o efeito de tal situação: quando tudo o que nos rodeia parece exterior, quando não nos inserimos onde estamos inseridos, antítese pleonástica, quando tal misteriosa e enigmática situação nos atinge, a pergunta que nos aflora o nosso perturbado cérebro acaba sempre por ser a eterna e insatisfeita questão da identidade, quem somos nós, quem sou eu, o que sou eu que ando aqui diferente, à parte, de fora, alheio e estrangeiro a tudo e todos. Aquele homem estava desconectado. E tentava enlevar-se no conforto ilusório daquele gin tonificado. Tirava satisfação daquele momento. O que só lhe turvava a medida do seu sonho, o desincorporava ainda mais daquele filme africano e o elevava a um desconhecido olimpo de ébano, um olimpo mental, meditativo e de contemplação, sobre o misterioso filme que se desenrolava à frente dos seus olhos, da sua mente, e, também, sobre ele próprio, porque se estava desligado da realidade envolvente então, evidentemente, sobrava a sua realidade imanente, a sua identidade, o seu eu; e ele contemplava-o, com felicidade, afinal fora exactamente a procura da sua identidade que levara aquele homem àquelas terras, à fuga, à aventura, à descoberta do mundo, o seu e o dos outros, à descoberta da alma, à descoberta de si próprio.
(cont.)

362

Ainda me lembro do miúdo que tinha três dias preferidos num ano que motivavam a maior das felicidades e excitações; a saber: a véspera e o dia de Natal e o dia de aniversário. A pouco e pouco, paulatinamente, o tempo e a vida foram-me roubando a satisfação que essas ocasiões me ofereciam. Sobra-me a ilusão de que, na ausência de particular satisfação - muito pelo contrário, aliás - por tais dias implica-se uma maior satisfação pelas restantes trezentas e sessenta e duas datas do ano. Atentem bem: eu disse ilusão.

PARA ALÉM DO BEM E DO MAL; A HIPOCRISIA

"No mundo actual é cada vez mais evidente que toda e qualquer visão do mundo é estética, e que a pessoa humana nada tem a opor à arregimentação, ao conformismo, à nivelação, senão a sua própria existência que, criticamente, se forma e se define, ainda que mutavelmente, não nas suas relações de aderência ou de oposição a um determinado conjunto de valores dominantes, socialmente impostos ou reconhecidos como válidos (qual antigamente acontecia), mas na consciência de que nenhum sistema de valores é válido que não na pessoal verificação a que seja submetido e em que seja livremente aceite ou recusado. Não há valores transcendentes que mereçam mais respeito que qualquer vida humana; e, se acaso esses valores alguma vez existiram, estão hoje a tal ponto impregnados de falsidade baixamente humana (ou melhor, a tal ponto eles degradaram a dignidade humana), que são ainda piores do que inexistentes. Porque não é deles que a dignidade humana é feita, mas de muitos singelos e modestos valores imanentes: respeito e tolerância, honestidade e simpatia, horror do mesquinho e do medíocre, e outras destas coisas mais, como a consciência de que o mal só nasce e só existe de haver uma ideia de bem que, sendo imposta, martiriza e mutila o esplendor de existir-se. Não é no romântico regresso à Natureza que o homem se reencontrará, como também não na busca de um mundo em que, aqui ou algures, o seu ser se dissolva. Nós somos animais que negam e sublimam a crueldade feroz e irresponsável do que se chama Natureza; e seremos humanos na medida em que o amoralismo dela se faça em nós uma liberdade em que o morder e devorar não seja mais do que carícia. (...) O mal não se perpetua senão no pretender-se que não existe, ou que, excessivo para a nossa delicadeza, há que deixá-lo num discreto limbo. É no silêncio e no calculado esquecimento dos delicados que o mal se apura e afina - tanto assim é, que é tradicional o amor pelas tiranias pelo silêncio, e que as Inquisições sempre só trouxeram à luz do dia as suas vítimas, para assassiná-las exemplarmente."

Jorge de Sena, Os Grão-Capitães, Prefácio (1971)

BENEATH THE STAIRS

Beach House, 'Real Love', Teen Dream (2010)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O GRANDE DESAFIO: MENOS ESTADO, MAIS LIBERDADE

A esquerda Portuguesa continua a acreditar que, desde que eleito democraticamente, todo o poder é legítimo. Acreditam que o problema reside sempre em quem governa: se quem governar for uma pessoa de bem então a governação será boa. A falácia desta visão é que a questão não é tanto sobre quem governa mas muito mais sobre como limitar o poder de quem governa: de que nos serve eleger o poder se este for absoluto, interferir negativamente nas nossas vidas e der cabo das boas condições políticas, económicas e sociais? A democracia eleitoral não basta - o PCP tem dúvidas se a Coreia do Norte não será uma democracia -, é forçoso limitar o poder de quem manda. A única garantia de liberdade é que o poder político, independentemente de quem o exerça, seja um poder limitado. Um poder pouco limitado ou escrutinado, por melhores que sejam as intenções - e está por provar que se possa confiar na bondade dos governantes, muito pelo contrário - representa um perigo: uma má governação poderá ter um impacto devastador. Já com um poder limitado, reduzido e fiscalizado, diminui-se as possibilidades de má governação e, a acontecer esta, as consequências serão muito menores. Aquilo que falha em Portugal é precisamente o triunfo do socialismo que, representando a visão oposta àquela que aqui se exprime, resulta inexoravelmente num poder estatal pouco escrutinado, ilimitado e demasiado abrangente à sociedade. Este poder, ao interferir (impostos, directivas, burocracia, etc.) na vida das pessoas tolhe-as, paralisa-as porque cria a ilusão de que o destino colectivo (a felicidade) se decide por decreto governamental e não pelo esforço e o mérito individual de cada um. Tirar a quem trabalha e mais produz para esbanjar em serviços inoperantes, mal geridos e que apenas prejudicam a igualdade de oportunidades, é uma dupla forma de limitação de liberdades: limita-se a liberdade de quem produz porque se retira o produto dessa produção; limita-se a liberdade dos que mais precisam porque não se garante uma efectiva igualdade de oportunidades. É preciso compreender que mantendo-se a estrutura governante e estatal, escolher quem governa nestas circunstâncias é absolutamente irrelevante pois acaba por ser apenas escolher quem ocupa posições numa estrutura que, ela própria, é perversa à democracia e impeditiva do sucesso económico e social do nosso país. Por isso é preciso ir mais longe, muito mais longe mesmo, é preciso escolher quem vá efectivamente alterar o sistema. É preciso forçosamente libertar a sociedade do Estado porque, pura e simplesmente, mais tarde ou mais cedo gastar sem produzir (a grande promessa socialista) leva - como se vê - à falência. Ou seja: a bem ou a mal vamos mesmo ter que mudar de vida. Utilizar esta crise como uma forma de efectivamente reformar o Estado, garantir que Portugal possa trilhar o rumo dos países mais desenvolvidos - e ricos - do mundo e oferecer uma efectiva igualdade de oportunidades aos mais desfavorecidos (oportunidades igualmente miseráveis de nada servem) é imperioso. Libertar a sociedade do Estado significa, a prazo, maior produtividade, mais riqueza e mais oportunidades para todos, principalmente para aqueles que nada ou pouco têm. A grande falácia do nosso socialismo está, essencialmente, na ideia de que este existe para proteger os fracos e oprimidos quando aquilo que entra pelos olhos dentro é que apenas mantém o actual status quo onde são uns poucos que muito têm e uns muitos que muito pouco têm. Libertar a sociedade do Estado implica oferecer, em troco do trabalho e do mérito, a verdadeira oportunidade de subir na vida e de cada um ser responsável pela sua própria felicidade. E isto a esquerda não consegue compreender e muito menos fazer. E a direita tem que perceber que, dada a gravidade da situação, esta é a sua última oportunidade: é toda uma geração que está em jogo.

DO APARELHO

As hostes agitam-se com a volúpia de quem sente que consegue chegar com os dedos ao pote; são as hostes da desgraça: o pote está vazio e os lambuzadores ainda não compreenderam que a única saída é fechar o pote, guardá-lo como um tesouro e arregaçar as mangas. Acabou-se a festa.

DA INCERTEZA

                                                                                Daqui

quarta-feira, 6 de abril de 2011

É A VIDA

Pequenos homens com grandes ambições tendem a olhar demasiado para cima e a não ver aquilo que está mesmo em frente dos seus olhos. E depois tropeçam.

NA MESMA COMO A LESMA

"Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária, destinada, porém, como as anteriores, viva maré dum instante, e refluir anódina e apática ao charco das conveniências e dos interesses, dela restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexos e direitos, indemnes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral excepcionalíssimo.
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., - teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.
(...)
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quase numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcácer. Povo messiânico, mas que não gera o messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai dissolvendo-o em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza".

Guerra Junqueiro, Pátria; 1896