sábado, 30 de abril de 2011
A RESPONSABILIDADE DA ESCOLHA
Quando um mentiroso inveterado continua, apesar de todos o saberem - e terem - como mentiroso, a mentir impunemente e, para mal dos nossos pecados, ainda é premiado (e elogiado) por isso então a questão que sobra é uma e apenas uma: de quem é verdadeiramente a culpa? O mentiroso apenas exibe a sua natureza mentirosa; é como é e, sendo culpado, não tem verdadeira culpa de ser o triste embuste que é. Já quem o tolera, aqueles que o elogiam e premeiam, aqueles que, o sabendo mentiroso, não o escorraçam sob pena de apedrejamento da praça pública, eis os verdadeiros culpados: esses, sim, a partir do momento que compreenderam a natureza mentirosa do ignóbil, vil e torpe mentiroso, esses, sim, esses puderam escolher.
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NADA
NO CARROSSEL
Ele vai e vem e dá,
ele vai e vem e tira;
ele vai e vem e volta a dar,
ele vai e vem e volta a tirar.
Diz que o vai e vem é que tem piada.
ele vai e vem e tira;
ele vai e vem e volta a dar,
ele vai e vem e volta a tirar.
Diz que o vai e vem é que tem piada.
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NADA
O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS (XI)
[Este pressupõe mesmo a leitura disto primeiro]
E ele esperou. E o António, um dia depois, mais concretamente vinte e três horas e trinta e sete minutos depois, a correr, tendo voado por cima do oceano, feito escala em Madrid, um António choroso pôde ainda abraçar o seu inconsciente pai. E que abraço foi esse. Um abraço do vivo com o que ainda não morreu, num limbo se encontrava porque nem vivia nem morria, estava ali no meio, num sítio esquisito, algures no espaço e no tempo, mas um espaço e um tempo diferentes do nosso. Foi um abraço que dizia em voz alta para não ires, fica, fica aqui comigo, perdoa-me por ter ido, nunca mais vou, não te vás tu também.
Enxugadas as lágrimas, talvez não seja o melhor termo, talvez tenham petrificado, solidificado congeladas pelo terror da única coisa que é definitiva, talvez os canais lacrimais tenham ficado entupidos. Não se sabe. Talvez a desidratação, espécie de seca interna, morte anunciada, tenha chegado ao António e ele não chorava porque não tinha mais por onde chorar. Talvez o corpo não chorasse mas a sua alma, em sangue, chorasse pelos dois, afinal se pode a alma ter sangue, pode o corpo chorar sem se ver. Misteriosos são os caminhos do mundo, planeta recôndito onde uns poucos andam aos saltos, brincam, crescem, vivem, amam-se, detestam-se e depois, uns míseros anos depois, morrem, decompõem-se, esvaem-se para algum lugar, um outro lugar. Ou para lugar nenhum. Ninguém sabe, e que terrível condição esta de se dar um abraço sem se saber se é um até já ou um até sempre. Quando alguém vai podemos sempre perguntar, quando voltas, vens tarde ou vens jantar, mas quando se vai, quando se vai e não se volta, não sabemos nós se quando formos vamos ou não encontrarmo-nos outra vez, não sabemos se esse alguém vai ou se simplesmente foi. Mistérios da vida. Mistérios da morte. Não faz a vida sentido sem a morte, não faz a morte sentido pura e simplesmente.
Num mundo sem sentido, onde as lágrimas secam mesmo quando são eternas, tudo é complexo, tudo é triste, tudo é infelicidade quando estamos infelizes, tudo é feliz quando estamos felizes. Subjectividades do Homem, coisas das emoções, nesta altura nada seria bom para o António, nada que não fosse uma espécie de lazarificação de seu pai, que se levantasse e andasse como o outro, que isto fosse um pesadelo, que ele acordasse, o quer que fosse, não interessava, só queria que seu pai vivesse, ainda era tão novo, então e aquela marisqueira que querias fazer comigo, bolas, vamos a isso, uma marisqueira contigo, como foi que eu não quis, que estúpido, que ingrato, deste-me tudo e eu não te dei nada.
Complicada a consciência, retorcido o remorso. De repente, o culpado quase que era o António, não tinha cumprido com as suas obrigações, tinha falhado, e agora como é que haveria de remediar a situação. Tristes os humanos que perante o inevitável ainda tentam o impossível, só sairão desiludidos, mas assim é o espírito e o engenho do Homem, a esperança é a última a morrer, só esperemos nós que o António não a gaste toda, afinal ainda é miúdo novo, tem muito para viver e muito que esperar.
Passaram-se horas sem que nada acontecesse, ainda bem, ainda mal, não se sabe, se a única coisa que se esperava que pudesse acontecer era o inevitável, então ainda bem que não acontecia nada, ali naquela posição esperaria o António para sempre, ali ficaria até à sua própria eternidade se isso significasse que o pai não se ia, horrível situação aquela de quem cá fica, egoísmo da separação, talvez não tanto, afinal era ele também que se ia embora, era parte do seu coração, da sua alma, de si, era tudo isso que também ia e ninguém gosta de perder assim tanto.
E foi de repente que algo aconteceu. Primeiro um leve tremer que nem o mais potente de todos os sismógrafos acusaria, um tremer que só quem tremia também poderia sentir. Depois um breve tremelique numa pálpebra esquerda, seguido de mais um na direita. E depois o impossível aconteceu e Honório, homem de honra e do trabalho, talentoso contador de estórias, antigo barbeiro e novo empregado de restaurante, mais do que tudo isso, Honório, pai de António, abriu os olhos e viu. Visão sagrada, se haveria coisa que ele quereria ver pela última vez neste mundo seria precisamente aquilo que via agora, a cara de seu filho, o seu mais que tudo, semente da sua semente, o seu maior feito, o seu legado a este mundo porque dos seus outros legados nunca mais ele tinha ouvido falar, legado à Humanidade, legado aos outros, legado a si próprio porque a única razão que poderia justificar a sua existência era precisamente aquele último rebento, o renegado dos renegados, aquele que àquela lareira no Vimieiro com ele tinha chorado também.
Se a espinal medula serve para transportar horrores não deixará igualmente de servir para transportar grandes felicidades e não haverá certamente palavras suficientes no alfabeto português
como em qualquer outro
para explicar o que sentiu o António com tal acordar, a esperança não tinha morrido, renascia agora com ainda mais força, é um milagre, se ainda não o é vai ser de certeza. Foi com comoção e grande choradeira, choradeira contida, silenciosa, mas claro sinal de que mais lágrimas ainda havia por sair pelos olhos, que o António viu seu pai apertar-lhe a mão e com grande dificuldade, parecia que o peso da morte lhe esmagava o peito, tentar falar. António pediu desculpa, disse-lhe o quanto o amava, que não devia ter ido, que devia ter ficado, que nunca mais iria a lado algum, desculpa quando me portei mal, desculpa quando te menti, desculpa por tudo, tu és a pessoa mais importante na minha vida, vais ficar melhor, não te preocupes, força, não fales, descansa porque vais te pôr bom, e foi aí que o abraçou, um abraço cuidadoso porque o pai estava frágil mas um abraço com toda a força da alma, e se o Homem pode muita coisa, pode porque a alma é grande, imensa e infinita e foi precisamente com essa força imensa e infinita da alma, com a força grande e invencível do amor que o António abraçou o seu pai, abraçou-o como se não houvesse mais abraços, situação extrema, tragédia constante, assim seria, aquele seria o último abraço em vida de seu pai. Sorte ainda o capricho da vida ter permitido tal coisa, sorte porque a morte é muito pior quando há coisas que ficam por dizer, desse fardo se livrou o António e desse fardo também se livrou o Honório porque não se foi sem que antes, trémulo e balbuciante, dissesse entredentes e com grande dificuldade, força filho, amo-te muito, desejo-te toda a sorte do mundo, toda a sorte do mundo, que Deus te proteja,
coisa mais bonita que esta não há
foi com este desejo que o Honório partiu, para onde já ninguém sabe, nem ninguém virá a saber.
(Cont.)
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O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS
SGT. PEPPER
The Beatles, 'Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band', Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)
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MÚSICA
O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS (X)
Longe vão os tempos daquela sexta-feira, treze de Outubro de mil trezentos e sete, dia azarado para Jaques de Molay, Grão Mestre da Ordem dos Templários, que se viu a si próprio preso por acusações de heresia
tal como a maior parte dos seus correligionários
por ordem do Rei Felipe IV, o Belo, e do Papa Clemente V, este de clemente tinha muito pouco. Haveria de, passados uns tempos, enquanto ardia na fogueira, o infortunado líder dos Templários amaldiçoar aqueles que o prenderam, e de facto assim foi, no prazo de um ano tanto o papa como o rei foram deste para o outro mundo deixando para trás a noção de que das sextas-feiras treze coisa boa não haveria de vir para ninguém. Talvez por isso estes particulares dias treze, ou por outro lado, estas particulares sextas-feiras sejam alvo de tanto temor, o António não acreditava nisso, até ao dia, diriam os que acreditam, até ao dia, diriam os que tinham medo, e foi mesmo, foi até ao dia em que o Sr. Crispim, naquela sexta-feira treze em particular, lhe telefonou com a voz embargada a dizer que o Honório, homem honrado e exemplo para todos, estava internado no hospital após um terrível ataque do coração, em coma se encontrava, foi muito grave, muito grave mesmo, tão grave que as esperanças eram nulas, estava por horas.
Foi até esse dia porque foi nesse dia que não caiu o Carmo e a Trindade, mas caíram muitas outras coisas, coisas que os humanos não vêem, só sentem. Foi até esse dia porque depois de se viver um dia assim, todos os outros dias são dias diferentes. Foi até esse dia porque a seguir não há mais dias como dantes. Foi até esse dia porque para todo o sempre esse dia seria Aquele dia, o dia em que tudo se foi e tudo se virou, ou seja, o dia pior de todos os dias, o dia pior de todos os que o antecederam e pior de todos os que lhe sucederam. Foi o pior dia da vida do António. Ponto final. Só ele e todos aqueles que por semelhante coisa passaram conhecem a sensação de frio, triste, gélido e cortante frio, sentimento petrificante e horroroso, tenebroso temor este, coisa monstruosa que nasce do ponto mais baixo da espinal medula e envenenando todos os nervos que a ela estão ligados, vai subindo imparável e inapelavelmente até ao coração, aos pulmões,
é difícil respirar
ao cérebro,
é difícil pensar
à alma,
é difícil viver
o impensável acontecera, ò Meu Deus, não, não, não me faças isso, não lhe faças isso, não nos faças isso, não, não e não. Gritos silenciosos porque a voz não fala, não se consegue ou não se quer, gritos molhados porque o balde de tudo o que é sentimento se entorna, escorre, volta a encher-se e volta a entornar-se, uma, duas, três e mais vezes, para sempre estará meio cheio, sempre estará até ao fim dos seus dias cheio da mágoa e da tristeza daquilo que ainda não tendo acontecido o António soube imediatamente que iria acontecer. Gritos de dor, angústia e de tristeza, da mais pura das tristezas, daquela tristeza que nos muda o olhar, nos traz uma nova expressão de preocupação, uma expressão que irá connosco para a cova porque todos os dias a exprimiremos e de tanto o fazermos ficará marcada no rosto como uma cicatriz da guerra, uma marca de água, um sinal da erosão dos tempos, ainda depois de mortos o nosso rosto, lido e estudado pelos vivos, dirá, este homem sofreu, pode até ter sido feliz mas houve um dia em que sofreu por todos os dias de felicidade que até aí tinha vivido ou que ainda viria a viver. Cicatriz, marca ou corte na alma. Talvez vá connosco para o Além, talvez fique com o que de nós ficar no caixão até deste e de nós não restar mais do que aquela poeira que até os germes rejeitam. Talvez as duas coisas. Talvez se vá com os gritos raivosos do António. Gritos de lamento. Gritos de guerra. Gritos de morte.
O António empalidecia. A chorar, só se quer ir, correr, voar, como é que se está tão longe, ò Meu Deus, eu sabia,
aquele abraço
nunca devia ter vindo, vamos, vamos, vou, tirem-me daqui, a correr para o aeroporto, no primeiro voo
de ligação ou directo
qualquer que seja o preço, tenho de ir para casa, tenho de ver o meu pai enquanto está cá neste mundo, por favor não te vás já, espera por mim, quero um último abraço, um último carinho, um último centímetro do teu amor, quero por uma última e definitiva vez saber com toda a certeza que há alguém neste mundo que me ama, porque certeza do amor como o amor dos pais nunca mais ninguém a há de dar, quero que antes de te ires saibas que te amo, porque não há maior amor do que o amor dos filhos. Espera por mim. Espera. Espera. Espera.
(Cont.)
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O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS
sexta-feira, 29 de abril de 2011
IMPERATIVO CATEGÓRICO
"Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal."
Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785)
Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785)
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FILOSOFIA,
LITERATURA
quinta-feira, 28 de abril de 2011
OS CORRUPTOS
Num sussurro, os corruptos falam, sem se deixarem ouvir, discutindo, com afinco, como gerir o dinheiro dos outros. É a nova elite: os donos dos cordéis que manietam um país, que lhe pesam, que o entorpecem e conduzem, sem vergonha, de volta em volta a não mais sair do buraco para onde essas mesmas bestas o atiraram. As pretensas elites, burras, esconsas e saloias, fazem a festa com as misérias dos outros: egoístas mal-formados, interesseiros peçonhentos, cabrões, cabrões, cabrões, em nome da igualdade, do "estado-social" e dos pobres e oprimidos continuam, impunemente, a planear, implacavelmente, como gastar o que, não sendo deles, ninguém tem, em coisas que apenas a eles dá jeito e que, invariavelmente, os tais pobres e oprimidos, com a sua miséria, continuarão a pagar. Parasitas! São eles, esses filhos da puta, que com a sua insaciável voracidade oprimem os pobres condenando-os a uma miséria que nunca deveria ser a deles. Que nojo que me mete esta gentalha. Que nojo.
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SORTILÉGIO DAS ALMAS CANSADAS
J.P. Simões, 'Mais Uma Para o Caminho", Boato (2009)
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MÚSICA
DO CONSERVADORISMO (II)
Seguindo daqui.
O que é viver melhor? Ter mais paz, mais segurança, mais empregos e oportunidades; poder subir na vida, ter níveis de educação e de bem estar superiores. Ter mais liberdade, ser mais feliz.
O que é viver melhor? Ter mais paz, mais segurança, mais empregos e oportunidades; poder subir na vida, ter níveis de educação e de bem estar superiores. Ter mais liberdade, ser mais feliz.
DO CONSERVADORISMO
Com a impossibilidade de discernir um sentido -ou significado - particular e infalível sobre o que - ou a qual - deve ser a vida humana (uma verdade absoluta que resolva o dilema humano) percebe-se, por essa singela razão, que nunca, em momento algum, poderão haver certezas suficientes para se impor, pela parte de uns pretensamente iluminados, aos outros, pretensamente ignorantes, aquela suposta verdade; torna-se, portanto, evidente que a única coisa a almejar por parte do poder público é que este tenha a capacidade de contribuir para que as pessoas vivam melhor.
terça-feira, 26 de abril de 2011
RACIONALIDADE
Gato escaldado de água fria tem medo; já o humano de sol escaldado em sol escaldante reincide. Ao final das contas quem é racional aqui, quem é? O medricas sem razão ou o incauto sem previdência?
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O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS (IX)
Lembrava agora o António, com saudade,
esse sentimento que é português e não é de mais ninguém
o momento em que se viu enrolado com a Raquel, rapariga bem torneada e de cabelos compridos, bem feita de peito e de rabo, com uns calções de lycra branca e uma apertada t-shirt. Estava-se no, entretanto desertificado, balneário feminino, após a aula de educação física, local para onde a dita rapariga
moça dada aos relacionamentos ocasionais
havia arrastado o António. O nosso amigo nunca foi muito adepto desses encontros de ocasião, os tempos também eram outros é certo, mas sempre lhe agradou mais a difícil conquista da inocência do que a fácil partilha da luxúria. Visão conservadora esta, talvez hoje em dia seja tudo diversão, mas para o António a busca era mais pelo amor do que apenas pelo sexo. Personagem caricata, talvez não
no entanto agora se compreende o porquê da relevância deste episódio
de qualquer forma, personagem caricata ou não, nunca dá um rapaz adolescente uma resposta negativa a uma oportunidade tão flagrante, afinal que mal é que tem, a miúda era gira, muito gira mesmo, está bem que já alguns amigos haviam descrito grandes habilidades sexuais com ela, mas o rapaz tinha protecção, era precavido, e estava cheio de vontade de fazer aquilo que nunca antes havia experimentado.
Não se pode dizer que a importância deste acontecimento esteja directamente relacionada com a grande duração do mesmo. Para sermos honestos e sinceros, a duração não foi muita. A intensidade, essa sim, para o António foi impressionante, mesmo inacreditável. Para a Raquel, pelos esgares eróticos que produziu, grande barulheira ela fez, pareceu ser também grande a intensidade do acontecimento, subentende-se que ou era boa actriz ou então era mulher de orgasmo fácil. Facto indiferente para o António, porque se a mulher resolve fingir o problema é mesmo só dela, não que ao António não importasse satisfazer a Raquel, afinal que bela dádiva ela lhe tinha dado ao desvirginá-lo mas, dizíamos, se a rapariga resolveu fingir, o problema é mesmo só dela porque toda a gente sabe que se uma mulher parece satisfeita a única coisa que com isso diz ao homem é que sim senhor, és um garanhão, fizeste tudo bem, e o pobre coitado, enganado na sua competência, convicto da sua qualidade, não vê mesmo razões nenhumas para mudar nada
em equipa que ganha não se mexe
e quem vai continuar a ficar insatisfeita é mesmo a mulher. Isto se houver segundas núpcias e o certo é que houve, segundas, terceiras, quartas e muitas mais, durou muitos meses e foi precisamente com a Raquel que o António se iniciou nas artes do amor. Talvez seja um cliché falarmos de artes do amor mas a verdade é que é isso que faz sentido porque tudo aquilo que na vida é bonito, único e irreproduzível só pode mesmo ser considerado uma arte.
Não saberemos aqui dizer se foi uma profunda paixão aquilo que o António sentia pela Raquel. Talvez não fosse. No entanto, quando se é adolescente, dos adolescentes mais velhos, aqueles que acham que já sabem tudo, descobrir de repente que se gosta de alguém não dá azo a grandes questões sobre o que é o amor
essas ficam para mais tarde
aquilo que interessava mesmo era que gostavam os dois um do outro e se sentiam bem partilhando aquilo que de mais íntimo há, ou seja, a intimidade do nu, do toque e da carícia. Sejamos, também, honestos para com a rapariga porque não era actriz nenhuma, simplesmente gostava de sexo, gostava do António
não forçosamente por esta ordem de preferências
e muitas e muitas coisas lhe ensinou, daqueles ensinamentos que não se falam, apenas se transmitem, só se sentem, daqueles ensinamentos que parece que vêm de dentro de nós, coisas que mesmo ainda não sabendo parece que afinal já sabíamos. Foi, por tudo isto, com tristeza que o António viu a Raquel mudar de escola
o pai foi transferido
e dela nunca mais o António ouviu falar. Não admira, portanto, que, olhando para trás, para a vida que agora acabava, a Raquel juntamente com a sua boa disposição fosse um peso importante no tal balanço, fundamental mesmo, uma recordação agradável e um acontecimento de grande dimensão que ficaria para sempre na peneira da memória, lembrança de grande felicidade e também marca de alguma tristeza porque da primeira vez nunca se esquece e o António tinha pena da forma abrupta como as coisas tinham acabado. Enfim, assim é a viagem do amor, feliz na partida e triste na chegada.
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O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS
BEM APROPRIADO A sÓCRATES, O PEQUENO
"Os homens vaidosos, que sem terem consciência de grande capacidade se deliciam em julgarem-se valentes, tendem apenas para a ostentação, não para os actos, pois quando surgem perigos ou dificuldades só os aflige ver descoberta a sua incapacidade."
Thomas Hobbes, Leviatã
Thomas Hobbes, Leviatã
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FILOSOFIA,
LITERATURA,
POLÍTICA
DO CONHECIMENTO CONDICIONAL
"Nenhuma espécie de discurso pode terminar no conhecimento absoluto dos factos, passados ou vindouros. Porque para o conhecimento dos factos é necessária primeiro a sensação e depois disso a memória; e o conhecimento das consequências... não é absoluto mas condicional. Ninguém pode chegar a saber, através do discurso, que isto ou aquilo é, foi ou será, o que equivale a conhecer absolutamente. É possível apenas saber que, se isto é, aquilo também é; que, se isto foi, aquilo também foi; e que, se isto será aquilo também será; o que equivale a conhecer condicionalmente."
Thomas Hobbes, Leviatã
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FILOSOFIA,
LITERATURA
DO MOVIMENTO
"O sucesso contínuo na obtenção daquelas coisas que de tempos a tempos os homens desejam, quer dizer, o prosperar constantemente, é aquilo a que os homens chamam felicidade; refiro-me à felicidade nesta vida. Pois não existe uma perpétua tranquilidade de espírito enquanto aqui vivemos, porque a própria vida não passa de movimento, e jamais pode deixar de haver desejo, ou medo, tal como não pode deixar de haver sensação."
Thomas Hobbes, Leviatã.
Thomas Hobbes, Leviatã.
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FILOSOFIA,
LITERATURA,
POLÍTICA
PÁSCOA
Para acompanhar o cabrito, da garrafeira do Senhor Engenheiro, primeiro foi este:
Para finalizar, passeámos pelo Justirini & Brooks e por uma maravilhosa ginginha caseira. À medida que os anos de fermentação passavam por nós, ocupámo-nos de velhas memórias, novíssimos anseios e mui respeitáveis planificações para o futuro. Um dia em cheio, portanto.
A seguir, da garrafeira do Senhor Fadista, foi este:
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