terça-feira, 17 de maio de 2011

ANÁLISE DA SITUAÇÃO POLÍTICA

Não tenho conseguido ver os debates políticos em que josé sócrates, o pequeno, participa: ver alguém a mentir daquela forma, vil e torpe, nojenta mesmo, revolta-me. Volto a repetir: a única forma de nos vermos livres desta ignóbil criatura é ter uma maioria absoluta de centro-direita no Parlamento. É um imperativo nacional, caso contrário: com um governo PSD\CDS minoritário o escroque não se demitirá de secretário geral do ps (minúsculas intencionais enquanto esse partido for liderado por uma clique de criminosos) e permanecerá no Parlamento a minar a recuperação económica do país (tentando evitar o cumprimento das medidas BCE\FMI) para causar novas eleições e recuperar o poder. Quanto à sua recusa (a do fora-da-lei sem-vergonha) de um governo maioritário PSD\CDS caso o ps tenha nem que seja mais um voto do que o PSD devo dizer-lhe que aí ficará a gritar da rua, o aldrabão: o Presidente da República ouve os partidos eleitos e, normalmente convida o líder do partido mais votado a formar governo; no entanto, se houver uma maioria estável que assuma que chumbará o programa do governo desse partido mais votado e que apresente (com maioria, repito) disponibilidade para formar ela própria um governo (que com maioria aprova facilmente o seu programa) então o Presidente não tem alternativa a convidar essa maioria para formar governo pois apenas ela (configurando uma maioria absoluta) tem a capacidade de chumbar ou aprovar programas de governo. O aldrabão salafrário não compreende - não quer compreender - o funcionamento básico do nosso sistema semi-presidencial. Possa haver essa maioria que nos livre deste coveiro corrupto e que o mande chafurdar na lama pantanosa debaixo da pedra de onde nunca deveria ter saído: traição à pátria, é do que se trata.

[repito: sócrates, esse cacique trauliteiro, criminoso de colarinho branco, deveria ser julgado por traição ao povo Português e cumprir pena; ele e os da sua clique criminosa que, sem pejo, assaltaram o o país nos últimos anos tirando a todos, aniquilando o estado, falindo o país e distribuindo os nossos impostos por dívida criada para com os amigos parasitas que vivem à custa do estado sem nada produzir e, pior ainda, para com as empresas dos interesses económicos que servem; se isto não configura traição à pátria então não sei o que poderá ser traição à pátria]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ELOGIO DA FILOSOFIA

"Por acaso subiu já o leitor ao cume de um monte suficientemente alto para que toda a paisagem lhe aparecesse, à vista, fundida a ponto de não distinguir uma árvore de um casal, nem um rio de um vale sem curso de água? Pois sucede assim nas campinas da história do pensamento humano, quando as olhamos das cumiadas luminosas da crítica. Vêem-se as cousas na sua essência, não importam os acidentes. O fetiche que o selvagem adora, a imagem perante a qual se prostra o comum dos crentes, o arquitecto universal dos pensadores livres, e finalmente esse quid inominado a que a filosofia moderna chamou Inconsciente - tudo isso é igualmente Deus: sòmente é Deus percebido pela imaginação infantil, Deus percebido pela inteligência vulgar, Deus percebido pelo saber incipiente, e Deus finalmente incompreendido, mas sentido, pela sabedoria. E todas essas modalidades de uma mesma impressão, recebida e representada de forma diversa, consoante a natureza e o estado de educação dos homens, são igualmente verdadeiras, igualmente santas e igualmente humorísticas, para aquele que tem coração para sentir as cousas por dentro, e olhos para as ver de fora... Eis aí a suprema liberdade do espírito, o Nirvana apenas intelectual, a que eu prefiro chamar impassibilidade subjectiva: um estado que permite compreender todas as cousas, analisando-as e classificando-as, sem todavia nos transmitir essa espécie de frialdade de coração, própria dos naturalistas quando estudam uma rocha, uma planta ou um animal. O filósofo, impassível ao analisar e classificar os fenómenos do espírito humano, há-de misturar ao sorriso que provocam todas as vaidades e ilusões, o amor que merecem todos os sentimentos ingénuos e fundamentalmente bons."

Oliveira Martins, Antero (1886)

NOTÍCIAS DO LA LA LAND

CRÍTICA AO POSITIVISMO CIENTISTA

"O que lhe falta é o que falta à inteligência científica. A inteligência científica, sendo positiva, tem de se colocar, e sem nunca sair dele, no terreno dos factos; sendo precisa, tem de ir procurar debaixo dos fenómenos complexos e cambiantes aqueles elementos irredutíveis e constantes, os únicos susceptíveis de avaliação rigorosa; sendo realista tem de aceitar esses elementos tais como eles se apresentam, sem indagar se nessa ideia imediata que deles forma não haverá porventura alguma grande ilusão, se ela não envolve algum fundo problema ontológico, que lhe escapa. Desta atitude  em face da realidade resulta um ponto de vista limitado, o que quer dizer incompleto. É a experiência no seu máximo de organização, mas é sempre a experiência. A base do seu edifício é estreita: generaliza impressões e delas tira inferências, mas os resultados mais elaborados desse processo lá trazem sempre o cunho da origem, que é sensual. Daí, o ponto de vista por excelência sensual, o do mecanismo. O mecanismo é o máximo grau de abstracção de que a inteligência é capaz dentro dos limites e com dados de sensibilidade, mas é só isso. Reduzindo tudo, por este processo, a elementos mecânicos, reduziu tudo aos elementos primitivos da sensibilidade e nada mais. Limitou por conseguinte o ser à sua esfera primeira e inferior. Por mais que faça e quanto mais fizer é só isso o que há-de achar no fundo do seu formidável cadinho. O universo da ciência. feito à imagem dessa inteligência que opera só sobre dados primitivos e elementares, é pois um universo inferior e elementar: foi como que amputado dos seus órgãos mais nobres. (...) É um universo que se move nas trevas, sem saber porquê nem para onde. Não o alumia a luz das ideias, não lhe dá vida a circulação do espírito. Paira sobre ele um mudo fatalismo. A inerte serenidade, que inspira a sua contemplação, é muito semelhante ao desespero. A sua beleza puramente geométrica tem alguma coisa de sinistro. Nada nos diz ao coração, nada que responda às mais ardentes aspirações do nosso sentimento moral. Para quê, um tal universo? E para quê viver nele? Nada alimenta tanto o mórbido pessimismo dos nossos dias como o gélido fatalismo  soprado pela ciência sobre o coração do homem."

Antero de Quental, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX (1890)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

DEDICADO AOS SENHORES CHEIOS DE CERTEZAS (PROGRESSISTAS, OPTIMISTAS E DEMAIS REVOLUCIONÁRIOS)

"Duvidar não é só uma maneira de de propor os grandes problemas: é já um começo de resolução deles, porque é a dúvida que lhes circunscreve o terreno e que os define: ora um problema circunscrito e definido é já uma verdade adquirida e uma preciosa indicação para muitas outras verdades possíveis. É pela dúvida que a filosofia concebe, é a dúvida que a torna fecunda e a sua relatividade é, afinal, toda a sua razão de ser. Iludem-se então os que procuram a verdade na filosofia? Sim e não. Iludem-se, por certo, se procuram na filosofia a verdade total e definitiva, a fórmula completa, nítida e inalterável da lei suprema das coisas, esse segredo transcendental que, uma vez conhecido, se isso fosse possível, os tornaria deuses, segundo a expressão bíblica, ou, segundo o nosso modo de ver, os tornaria inertes, ininteligentes, moralmente decrépitos, adormecidos beatificamente à sombra da árvore da ciência. Saber tudo equivaleria a nada saber. Uma filosofia definitiva, feita e assente uma vez para todo o sempre, implicaria a imobilidade do pensamento humano: o absoluto anestesiá-lo-ia. Essa tal verdade, aspiração ingénua de espíritos incultos, pode animar os crentes e exaltar os entusiastas: nos domínios do puro pensamento nunca produzirá senão vertigem e ilusão."

Antero de Quental, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX (1890)

DIÁRIO DO PAPEL (Incursão à Feira do Livro, Pt1)

Ora, devassado o lado esquerdo da Feira, a recolha foi alargada a tudo menos o planeado: para começar a História de Portugal de Oliveira Martins, primeiramente editada em 1879 e um monumento à compreensão da portugalidade através dos olhos do pessimista e decadente final do Século XIX. Da mesma altura, no seguimento do meu profundo interesse por Antero de Quental vêm os seus Sonetos Completos minorar o desalento por nenhum stand ter qualquer edição das suas Prosas. Deparando-me com a mui badalada biografia de Salazar de Filipe Ribeiro de Meneses não pude deixar de a adquirir, complementando a dita com o único texto ideológico escrito  - organizado de entrevistas, discursos, etc.- pelo biografado, o polémico Como se Reergue um Estado, editado em Francês em 1936 e agora disponível em Português. No campo das ideias, de Descartes adquiri o seu Discurso do Método e um livro, do qual já li excertos, que me entusiasma para lá da mera excitação, entusiasma-me mesmo porque nele leio o que penso e intuo: As Vantagens do Pessimismo, a bíblia do conservadorismo contemporâneo de Roger Scruton. Dos romances, porque não dei ainda vazão aos que adquiri durante o ano literário que agora termina, fugi a sete pés mas não consegui deixar de comprar, porque me importunaram com os seus lamentos acusatórios acerca da minha ignorância por neles não ter ainda discorrido a minha mente, dois clássicos: Aparição de Vergílio Ferreira e Moby Dick, de Herman Melville [Eu sei, uma vergonha]. Comprei, ainda, mais um romance da Camilla Lãckbeck, já é o segundo, a "nova Agatha Christie Sueca", um policial para oferecer à minha mãe que, aparentemente, adorou o primeiro que lhe ofereci no Natal. Amanhã vou lá cheirar o restante da Feira.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

DA CRIAÇÃO

O criador se se deixar enredar demasiado pelo objecto do seu estudo, seja através da idolatração, seja através da repulsa, tornar-se-á um fiel reprodutor de um conjunto de ideias pré-existentes e será incapaz de produzir conhecimento novo: quanto muito interpreta o que foi pré-criado de uma forma nova, tornar-se-á um especialista em algo já existente e poderá ascender aos mais altos vôos académicos calcando bem e de forma segura os pés no edifício intelectual de terceiros. Sucesso garantido! Já o criador deverá, ao contrário do que à primeira vista pudesse parecer mais aconselhável, de forma egoísta e - quiçá - pouco saudável, aproveitar a cada instante tudo o que estuda e aprende, roubando aqui e ali, pilhando acolá, sempre com o intuito de alicerçar o seu próprio edifício intelectual, de servir-se do que existe para servir a sua própria vontade: pensar pelas suas próprias palavras, mais importante: pelos seus próprios conceitos. É fora das escolas, livre de grilhos, que a ponderação, por vezes intuitiva e pouco respeitosa para com o passado, sobre o conhecimento estudado poderá servir o seu próprio sentir. E do seu sentir advirá um novo pensar.

terça-feira, 10 de maio de 2011

DIÁRIO DO PAPEL

Ora, profícuo, muito profícuo: via internet, vindos do outro lado do oceano, três obras de Michael Sandel: Justice: What's the Right Thing to do?; Public Philosophy; e ainda uma colectânea de textos clássicos sobre a justiça de seu nome Justice (ideal para bibliografia de uma disciplina de teoria política contemporânea). A caminho, numa oportunidade de preço, vem On Liberty de John Stuart Mill. Por coincidência, ontem pelos passos perdidos da Faculdade de Letras dou de caras com uma feira do livro com obras a dois euros. Pois. O primeiro que peguei foi o mesmo On Liberty, só que desta feita, Sobre a Liberdade, fico com uma tradução Portuguesa também. Entusiasmei-me e comprei mais três livros de consulta, duas antologias de filosofia e uma dissertação sobre Kant. Para temperar, dois livros de Alberto Morávia, o grande, que ainda não tinha: o primeiro, um romance, de seu nome O Desprezo; o segundo, uma colectânea de contos, muitos, chamada O Autómato. Amanhã vou à feira do livro.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

DECLARAÇÃO

Considerando o estado do país, a forma como é gerido e o ataque à liberdade individual (utilização da propriedade privada dos cidadãos visando o interesse particular de uns quantos) que o estado do nosso estado significa venho por este meio declarar que deixarei de utilizar maiúscula quando me referir à entidade "estado".

THE FACEBOOK SELF

COISAS QUE OS PORTUGUESES DEVEM SABER

A propósito do vídeo do post anterior gostaria de dizer três coisas: primeiro, quando vi o vídeo percebi imediatamente que iria fazer furor nas redes sociais e achei que era uma iniciativa interessante apesar de notar um ou outro dado que me pareceu pouco rigoroso. Brincar com a situação onde vivemos como forma de não nos deixarmos enlevar pelo derrotismo castrador ou afundar em complexos de inferioridade tão tipicamente Portugueses pareceu-me - e ainda parece - uma coisa boa. Segundo, o nível de furor que a coisa fez verdadeiramente surpreendeu-me; e aqui é que a porca torce o rabo: uma coisa é vermos um vídeo engraçado, tecnicamente bem feito e que, de forma provocante, representa uma brincadeira (semi) educativa, outra coisa é fazermos dessa brincadeira o novo hino nacional. Ele é as televisões, ele é os comentadores, os jornais; ele é toda a gente a exprimir "orgulho" e pronta para pegar em espadas (que provavelmente também inventámos algumas) contra os malandros dos Finlandeses. E aqui vem o terceiro ponto: é que os Finlandeses até têm razão. Uma coisa é brincarmos de uma forma simpática, outra coisa é esquecermos que enquanto os Finlandeses andaram os últimos anos a trabalhar e transformaram o país "pobre, faminto e periférico" que eram em 1940 num país rico e desenvolvido, nós andámos a cantar de cigarra e a dormir à sombra da bananeira. Fazerem da "auto-estima" (que conceito irritante) a salvação de Portugal não é mais do branquear o nosso desnorte, a nossa culpa e a vergonha que é o desgoverno socialista que nos trouxe até aqui. Esta ajuda, meus caros, não é merecida: é a prova do nosso fracasso. E esse fracasso tem responsáveis: o partido socialista e a grupeta socretina que o dirige. É bom que não se esqueçam disso.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ALÍVIO

Admito que, apesar da vergonha e da humilhação, a entrada dos estrangeiros no país ofereceu-me um alívio imenso: a noção de que os maníacos, alucinados e aldrabões que nos governam já não podem fazer tudo. Venha a civilizada Europa que a nação Portuguesa segue dentro de momentos quando ajustarmos contas com o bando de ladrões que escancarou as portas do nosso venerando castelo.

DA COMUNIDADE

A minha vizinha, octogenária convicta, tem por costume - que a princípio estranhei - comentar comigo a chegada da conta da água, da luz ou do gás. Diz-me ela que "tenha atenção que já chegou a conta", não vá eu esquecer-me de a pagar. Num desses moderníssimos e mui distintos prédios pejados de pessoas novas e modernas tal coisa seria impossível: é que antes - por oposição a hoje - vivia-se em comunidade, partilhando-se a vida e os seus pequenos e grandes acontecimentos. O individualismo excelso é uma novidade, essa sim moderna, e que, temo, quando passar, deixando finalmente vísivel o seu rastro de destruição impiedosa, não deixará saudade alguma, apenas remorso, pobreza e infelicidade. Gosto muito da minha vizinha.

COMO O CENTRALISMO ORGANIZACIONAL LEVA À DÍVIDA

"O que o cidadão deixa de fazer por si fá-lo o estado por meio dum organismo novo, porque a sua força e complexidade estão na razão da força e do desenvolvimento da esfera de acção de cada cidadão. Ora a força do estado não pode existir senão organizada; isto é, não existe sem repartições e sem empregados, repartições tanto mais complicadas quanto mais perfeita é a organização, empregados tanto mais remunerados quanto são mais importantes os negócios de que se ocupam. O funcionalismo é pois o triunfo da centralização, a sua expressão mais completa, e pode sem ironia dizer-se que uma nação centralizada não chega à sua plenitude, não é, por conseguinte, perfeita, enquanto uma metade dos cidadãos não estiver constantemente ocupada em vigiar, governar e corrigir a outra metade... Mas toda essa gente vive: vive, absorve... e não produz. A ruína das nações centralizadas começa por aqui. Não há relação entre o que sai do trabalho e o que exige o consumo. Para acudir às necessidades do dia é preciso hipotecar o futuro. Mas o futuro há uma hora em que chega a ser presente, e nessa hora aparece por tal forma enfraquecido e sobrecarregado, que já para viver precisa pedir a um outro futuro mais longínquo o dobro e o triplo do que lhe tinham pedido a ele. Eis a progressão terrível da dívida pública! Progressivamente, não proporcionalmente, crescem as exigências do estado: e progressivamente, não proporcionalmente, diminuem os recursos do país, onerado, comprometido numa razão matematicamente assustadora. É neste momento que o fisco, até ali simples organismo como os outros, se desmascara e deixa ver o monstro cruel, tirânico e disforme que é realmente. Nesse momento de brutal fraqueza, toda a política se resume numa única palavra: dinheiro!"

Antero de Quental, Portugal Perante a Revolução de Espanha (1868)

terça-feira, 3 de maio de 2011

MAKING NOISES LIKE WALES

PJ Harvey, 'The Wind', In This Desire (1998)

A GÉNESE (II)

"O «liberalismo», embora lentamente, criou uma nova ordem política e jurídica e uma nova administração. Mas de «liberal» teve pouco. Por causa da sua intrínseca fraqueza e do seu isolamento na sociedade portuguesa viveu até muito tarde sob a tutela do exército e, depois, sob uma forma de «fusão», ou seja, sob a tutela de partidos sem espécie de legitimidade, que na prática não se distinguiam e governavam por vontade do rei. Na essência um importação (às vezes forçada, às vezes voluntária), o «liberalismo» foi sempre buscar a França e a Espanha ideologias, modelos, métodos de acção e até programas. Nisto não se distinguiu da natureza imitativa da cultura letrada nacional.
Infelizmente, continuou também as tradições do «antigo regime». Um Estado que fez mais centralizado, despótico e intrusivo; a tendência para sustentar com dinheiro público uma classe média burocrática e «parasitária»; e uma constante intervenção na economia, em parte imposta pela ausência de capital privado, em parte por simples penúria financeira. Isto trouxe, como trouxera no fim do antigo regime, um défice permanente e uma dívida nacional sem proporção com pobreza e a dimensão do país."

Vasco Pulido Valente, 'O Liberalismo Português' in Portugal: Ensaios de História e de Política

A GÉNESE

"O «liberalismo» fora imposto por um exército (na origem, meio mercenário), pela banca inglesa, e, secundariamente, pela francesa, pelo apoio das Potências e por um príncipe mais brasileiro do que português. Fora das cidades (no fundo, de Lisboa e do Porto), ninguém o pedira e ninguém o percebia.
(...) No meio do tumulto, o «liberalismo», que não ignorava a sua fraqueza, tentou chegar a uma unidade que lhe permitisse governar o país. Sem resultado. Em 24 de Setembro de 1834, D. Pedro, o único «liberal» teoricamente acima das facções, morreu com uma encenação melodramática ao gosto da época. Ea partilha dos despojos consumou as velhas divisões do «movimento». A substância dos bens nacionais, à volta de 87 por cento vendida por «papel» (ou seja, por títulos da dívida pública ou por títulos da dívida do Estado a servidores, que D. Miguel demitira ou que se haviam juntado à causa da rainha na emigração ou na guerra) e muito abaixo do seu valor real, acabou nas mãos de três centenas de privilegiados. O resto ficou para alguns milhares de pequenos proprietários, que comparavam mais caro e quase sempre metálico. Numa palavra, os chefes do «liberalismo» inauguravam o seu reino com a fraude e o arbítrio para se enriquecer a si mesmos."

Vasco Pulido Valente, 'O Liberalismo Português' in Portugal: Ensaios de História e Política