domingo, 26 de agosto de 2012

DA LIBERDADE DA TERRA

Aqui onde os javalis e os ginetes cirandam nas suas vidas respira-se a liberdade. Não apenas a liberdade conceptual, das comunidades, mas também - e fundamentalmente - a liberdade suprema assente na libertação dos conceitos e dos homens: aqui na minha terra (a propriedade privada continua a ser a base),  onde não se vê nem ouve ninguém, onde a vista alcança o infinito, os meus limites são eu próprio e o mundo. Não aquele que inventaram mas o mundo tal como ele se me apresenta. E essa é a verdadeira liberdade: a livre interpretação. Isso e o silêncio dos montes.

sábado, 25 de agosto de 2012

NEXT: THE APPLES


DA IRRELEVÂNCIA

A dimensão humana é tão ínfima que a diferença entre um argumento genial e uma articulação boçal só poderá ser absolutamente desprezível. A excepção será para o próprio humano, principalmente para aquele que aprecie mais numa conversação do que apenas os sons que saem da sua própria boca; para esses, a boçalidade, como um vírus, torna-se insuportável, mas - no entanto - útil, pois configurando a lembrança constante da nossa irrelevância, angustia-nos ao mesmo tempo que nos impede de viajar na ilusão da nossa pseudo-importância. É precisamente nessa insuportabilidade que se atesta, pela prisão ao ínfimo humano, a quase-igual pequenez do pretenso erudito. No final, dos humanos, para mal dos nossos pecados, apenas o silêncio se aproveitará: tudo o resto, mais ou menos insuportável, é o fogo de artifício que festeja a suprema irrelevância humana.

INCERTO

Como é que aquele que vê três dimensões explica àqueloutro que só vê duas a diferença entre um círculo e uma esfera? E se normalmente aquele que apenas vê o círculo está certo de que apenas um círculo ali está, já aquele que vê a esfera - e a infinitude de círculos que a compõe -, porque um dia apenas viu círculos, não pode deixar de se questionar sobre as dimensões que agora lhe escapam e o que será que a infinidade de esferas que não vê comporá num plano mais profundo de realidade que lhe escapa. E assim se separa a ignorância da certeza da sabedoria da incerteza.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ESQUECIMENTO

O sobreiro impassível impõe-se à terra enquanto, condescendente, aceita balançar levemente os seus ramos ao vogar do vento. O aroma das estevas dilui-se enquanto o céu gira lá em cima. O tempo, ele próprio, espera. Entretanto, do outro lado do mundo, as cidades feitas de plástico ardem, derretendo-se e consumindo-se freneticamente no vazio, por entre os dois lentos suspiros que o tempo, ao passar por aquele sobreiro, deixa ficar para trás. Onde o tempo suspira, a histérica gritaria dos loucos não é mais que uma distante memória: uma folha que o sobreiro largou no vento. Um lamento que o tempo esqueceu.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

SPLENDID IDEA... SIR


OH, YOU CITY FOLKS*

"As far as I'm concerned, it's the best time of year. Spring's nice here, but I'll take October over May every time. Western Maine's a part of the state that's mostly forgotten once the summer has run away and all those people with their cottages on the lake and up on the View have gone back to New York and Massachusetts. People here watch them come and go every year - hello, hello, hello; goodbye, goodbye, goodbye. It's good when they come, because they bring their city dollars, but it's good when they go, because they bring their city aggravations, too."

Stephen King, Needful Things (1991)

*This works for Alentejo just as well.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

1000

O post anterior foi o 1000º. Cá vamos andando.

MUNDOS PARALELOS

À medida que o tempo por mim vai passando, as escolhas que me fazem tornam-se evidentes: sou o que sou porque o caminho é o que é. Olhando os outros, e os seus caminhos e as suas escolhas, tenho vislumbres do que seria se não fosse o que sou. Olho à volta e vejo desde o toxicodependente andrajoso ao yuppie pretencioso e, pensando para trás, consigo justificar como poderia eu ser também aquilo: como aquela poderia também ter sido a minha história. Nesse momento sente-se a humanidade que nos preenche porque vivemos, por um instante fugaz, o mundo paralelo que não fomos. E que os outros foram por nós.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

DA INFALIBILIDADE

"To refuse a hearing to an opinion, because they are sure that it is false, is to assume that their certainty is the same thing as absolute certainty. All silencing of discussion is an assumption of infallibility."

John Stuart Mill, On Liberty (1859)

DA LIBERDADE

"The only freedom which deserves the name, is that of pursuiting our own good in our own way, so long as we do not attempt to deprive others of theirs, or impede their efforts to obtain it. Each is the proper guardian of his own health, whether bodily, or mental and spiritual. Mankind are greater gainers by suffering each other to live as seems good to themselves, than by compelling each to live as seems good to the rest."

John Stuart Mill, On Liberty (1859)

DEDICADO AOS PORTUGUESES

John Lee Hooker, Money (That's What I want) [1959]




DO ESFORÇO

"Truth gains more even by the errors of one who, with the due study and preparation thinks for himself, than by the true opinions of those who only hold them because they do not suffer themelves to think."

John Stuart Mill, On Liberty (1859)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

SOBRA A MANIA

"Originality is the one thing which unoriginal minds cannot feel the use of. They cannot see what it is to do for them: how should they? If they could see what it would do for them, it would not be originality."

John Stuart Mill, On Liberty (1859)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ASYMMETRY IS A BITCH

SAUDADES DO FUTURO

Quando andamos a ansiar pelo que não se tem de forma particularmente aguda saímos do nosso tempo presente e dividimo-nos entre a antecipação de um momento futuro que se quer alcançar e uma certa insatisfação - que a falta do objecto de desejo causa - pelo momento presente. O agora sabe a pouco comparado com o muito que o depois - aquele depois particular - pode vir a saber. Se for este processo de ansiedade insatisfeita vivido única e exclusivamente por um indivíduo, poder-se-á pensar que vivendo ele uma ilusão do que podendo vir a ser, ainda não o sendo - não existe de facto - acaba por recusar a realidade daquilo que é: o presente. E quem recusa o que tem em nome de uma mão cheia de sonhos? Um louco, talvez. No entanto, na rara circunstância de ser essa ilusão (a que se prefere à realidade, a tal loucura, portanto) partilhada a dois e tudo muda de figura: então a ilusão, porque confirmada por outrem, não poderá deixar de ser, de certa forma, real. Talvez seja essa a loucura que o Amor permite: partilhar-se o que ainda não é. Mas mais ainda: porque aí, nessa peculiar circunstância, apesar da ansiedade, apesar do desejo do futuro, apesar das esperanças desmedidas, apesar de tudo o que nos oferece as saudades de um futuro inspirador, também o momento presente, apesar de pleno de ansiedade, se revela como bom pois, também ele, a par das ilusões, é pleno, cheio, intenso e, acima de tudo: partilhado. Talvez seja isso também o Amor: uma ansiedade partilhada, uma ansiedade que exalta o futuro mas vive o presente. Mas a ansiedade oscila entre a esperança e o receio - e assim não poderia deixar de ser - porque deparando-nos nós com algo que se revela súbita e inexplicavelmente como importante ou, quiçá, fundamental, a mera ideia de perder aquilo que em parte já se tem, acrescida da perda do infinito que se ambiciona vir a ter, revela-se como um risco assinalável, terrível e assustador. E aí quer-se agarrar e anseia-se ainda mais! Mas o agarrar é serenidade meramente aparente porque quanto mais se tem, maior é o risco de se perder. E na verdade nada efectivamente se tem: apenas se vive. No final: é a batalha eterna entre o Medo e o Amor; e todas as nossas armas são tudo ilusão e esperança. E como não poderia deixar de ser assim se o Futuro é ele próprio a ilusão que ainda não é? Talvez o Amor seja isso então: apesar de se saber uma ilusão, acreditar-se que então somos nós tão ilusórios quanto aquilo pelo qual ansiamos, fazendo desses anseios então, por oposição à ilusão que somos nós próprios e pela força da vontade e da crença, tudo o que de mais real se pode vir a aspirar viver. E então a ansiedade ganha um novo nome: chama-se viver, viver de facto. Porque quem não sente o Amor não viveu ainda! E só as pedras não têm medo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

ESTADO LADRÃO, ESTADO CABRÃO

Ora, o caso é este: o cidadão livre e orgulhosamente detentor do seu direito à propriedade privada compra uma propriedade imobiliária; o Estado vira-se e diz que o uso que o cidadão pode ter na sua propriedade está condicionado por um conjunto de regras. Até aqui tudo bem. Agora, o cidadão, naturalmente, quer saber que uso pode ter afinal na sua propriedade. O mais elementar bom senso diz que o Estado, aquele que restringe os direitos do cidadão, teria a obrigação de informar o cidadão em causa sobre que restrições são estas que são aplicadas sobre a sua propriedade privada (a garantia da liberdade individual). No entanto assim não é; ou melhor, informar o Estado até informa mas não sem antes aproveitar-se da sua posição para extorquir dinheiro ao incauto cidadão através de taxas. No meu caso, para um pedido de informação prévia sobre a minha propriedade, paguei 50€ à Câmara Municipal. Passado um mês fui informado que o meu pedido seria recusado se não pagasse a devida taxa à CCDRA (Comissão Coordenadora do Desenvolvimento Regional do Alentejo) o que veio a perfazer o acréscimo de mais uma taxa de 309€. Passado outro mês recebo do ICN (Instituto da Conservação da Natureza) uma carta a avisar que o meu pedido seria extinto por falta de pagamento antecipado de uma terceira taxa que eu desconhecia por completo (nem tinha obrigação de conhecer pois o meu pedido de informação prévia foi feito à Câmara Municipal) no valor de mais 369€. E os termos da carta são "pagamento imediato", "extinção imediata", pague por transferência, dinheiro ou cheque, o que quiser, MAS JÁ. Em conclusão, meramente para satisfazer o meu direito a saber o que o Estado me deixa fazer na minha propriedade o mesmo Estado cobra-me 728€ só em taxas. É um belo negócio, não é? Roubados, extorquidos e explorados! E para quê? Deve ser o "estado-social" e a "solidariedade nacional", com certeza. Ou isso, ou a incompetência de um Estado corrupto e mal gerido: o socialismo, portanto.

OH IPHONE PEOPLE, YOU'RE SO SPECIAL!

terça-feira, 3 de abril de 2012

PROVA

A prova de que o tempo é uma  ilusão é esta saudade do futuro que me assola.