terça-feira, 29 de janeiro de 2013
UM DEMOCRATA
O Bernardino Soares vai ser candidato à Câmara Municipal de Loures. Eu, pessoalmente, sempre que oiço falar deste político bem falante lembro-me das suas dúvidas sobre se a Coreia do Norte não seria uma democracia e pasmo-me sobre a impunidade que paira sobre a esquerda radical em Portugal: alguém duvida que se fosse um distinto militante e deputado (!) do PSD ou do CDS a afirmar que tinha dúvidas sobre se o regime de Salazar não teria eleições "tão livres como na livre Inglaterra" que este veria a sua carreira política arruinada? No entanto, cá continuamos: os conspiradores anti-democráticos a concorrerem a eleições. Entretanto, na Coreia do Norte, há relatos de canibalismo e vivem-se vidas que não sabem que a vida pode ser diferente de um campo de concentração onde se vive e morre sem se saber nada acerca do mundo (ver entrevista da CBS aqui). E são os Bernardinos Soares os paladinos da democracia e dos oprimidos neste país? Só isso mostra muito porque estamos como estamos.
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O CIRCO
O "governo mais liberal de sempre" vai enfiar mais 42 milhões de euros na RTP e os contribuintes vão poder continuar a pagar pelos saltos do João Baião ou as piadas do Fernando Mendes. Tudo isto orquestrado pelo credibilíssimo Dr. Relvas, também ele um perito em saltos e piadas. Ao mesmo tempo, o socialista Tozé diz que o Governo é "ultra-liberal" e um crente no "Estado mínimo" pelo que ele, Tozé, é que deveria ser PM; isto, claro, para que Portugal "cresça". É, sem dúvida, uma bela anedota, também ela, obviamente subsidiada pelo contribuinte através das contribuições públicas para os partidos políticos. No final é uma festa - um circo - todo, todinho, pago pelo contribuinte, onde uns e outros alegremente saltam e brincam sem que se vislumbre, pelo menos nos presentes casos, um mínimo de consistência ideológica, coerência política ou profundidade (e honestidade) intelectual. O problema é que neste circo os palhaços somos mesmo nós.
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domingo, 27 de janeiro de 2013
IGUALDADES
A França anda em guerras imperialistas e colonialistas mas, como é o Sr. Hollande - esse arauto da nova esquerda europeia! - está tudo bem; o Sr. Carlos da CGTP chama "escurinho" ao representante do FMI mas, como o primeiro é da esquerda humanista e não racista e o segundo um malandro opressor capitalista do FMI, então está tudo bem e nem é notícia - nem sequer de rodapé! - nos principais jornais. Finalmente, uns quantos militantes do PS dão três ou quatro traques na ânsia pornográfica de voltarem a gerir o país que miseravelmente faliram e, em vez de serem ridicularizados ,temos já os jornais a enaltecerem as "propostas" (inexistentes) do Dr. Costa ao mesmo tempo que analisam compungidamente a sua "disponibilidade". É uma noção muito gira a da igualdade e neutralidade da esquerda jornalística. Espero para ver o que vai acontecer quando algum militante anónimo do PSD ou do CDS chamar "escurinho", por exemplo, ao Dr. Costa: talvez um cataclisma nacional e uma petição com milhares de signatários contra os fascistas da direita a clamar pela ilegalização desses partidos. Já a CGTP, essa organização profundamente democrática e tão útil ao avanço do país como um manual de cientologia, pode ter o seu líder a chamar "escurinho" a quem lhe apetecer sem que nada lhe aconteça. A verdade é que racismo, preconceituosismo e má-educação, por enquanto, só mesmo da esquerda radical mas se formos a ver os jornais portugueses ninguém diria. Malandros, malandros, só mesmo os "bandidos" da direita.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O HOMEM, A VERDADE E A LIBERDADE: O Caso Português
Está bastante na moda falar-se sobre "falhas de comunicação", principalmente no que concerne à política governamental. A este propósito gostaria de deixar aqui uma pequena reflexão sobre as dificuldades que o acto de comunicar, na sua génese, configuram para os indivíduos e como compreender esse facto obriga a uma série de conclusões sobre a vida comunitária.
Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.
Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já, por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.
Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.
É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.
É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.
O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.
Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.
O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.
O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.
Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.
(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221
Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.
Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já, por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.
Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.
É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.
É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.
O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.
Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.
O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.
O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.
Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.
(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221
WHY PHILOSOPHY MATTERS (II)
"It is true that every being strives as much as it can to persist in its existence and if it is true that the existence as a thinking being consists in thinking (in accordance with the Cartesian identity claim: cogito, ergo sum): then it quite naturally follows from this that every thinking being must strive as much as it can to think; ... Even those who despise thinking must admit this truth, if they would only pay attention to themselves. All human activities are, as such, simply more or less thinking."
Salomon Maimon, Essay on Transcendental Philosophy (1790)
Salomon Maimon, Essay on Transcendental Philosophy (1790)
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FILOSOFIA
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
UM DOMINGO EM LEUVEN
Durante a noite, à porta de casa
A minha rua, Naamsestraat, de manhã.
Na Naamsestraat, a caminho do Grote Markt
Na Collegeberg, rumo ao Oude Markt
Oude Markt
Oude Markt
Esplanada no Oude Markt
Grote Markt
Canal na Amerikalaan
Brusselstraat
Grote Markt
O meu bar preferido, o Cafe Amedee, na Muntstraat
Boneco de neve em frente do Amedee
Centrale Bibliotheek (Biblioteca Central de Leuven)
Monseigneur Ladeuzeplein
A entrada do Hoger Instituut voor Wijsbegeerte
(Instituto Superior de Filosofia) na Kardinal Mercierplein
Hoger Instituut voor Wijsbegeerte
A entrada da biblioteca do Instituto, o meu local de trabalho.
Herbert Hooverplein, com a Biblioteca Central ao fundo
A caminho de casa, pelo parque.
Parque infantil
Na Vlamingstraat, de costas para a minha rua, quase a chegar a casa
na Naamsestraat (o parque fica do lado esquerdo).
Minha proposta para um postal de boas vindas a Leuven.
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BÉLGICA,
FOTOGRAFIA
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
JANELA DE OPORTUNIDADE
Estou honestamente muito apreensivo com o nosso futuro bem-estar económico; e não é apenas com Portugal. Lá longe, mas em termos económicos tão perto, nos EUA continua a imprimir-se dinheiro e a evitar fazer-se o ajustamento económico que se exigiria que fizessem: também os Estado-Unidenses, mais cedo ou mais tarde, terão que tratar da dívida astronómica que têm e, quanto mais tarde o fizerem, maior será a brutalidade das consequências desse ajustamento. Obviamente, a Europa - e em particular, Portugal - no estado de fragilidade que se encontra será particularmente afectada. É por isto mesmo que em Portugal não há tempo a perder: se não fizermos as reformas que nos permitam ter as nossas contas públicas equilibradas - de forma sustentável - e baixarmos de forma significativa a carga fiscal, estimulando dessa forma a economia, corremos o sério risco de ter que fazer as exactas mesmas reformas num clima internacional muito mais adverso - e este já não é bom. Infelizmente, no entretanto, continuamos com uma oposição alienada da realidade e com os caciqueiros de serviço no PSD meramente preocupados com os seus interesses comezinhos politiqueiros. Não é fácil, de facto, a tarefa do Governo. Ao mesmo tempo, a manutenção do Dr. Relvas no dito também não augura grande coisa. Enfim, no final, sobra mesmo a esperança: a janela de oportunidade é curta e espero que a aproveitemos.
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sábado, 12 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
OS BOICOTADORES
Toda a histeria em redor do Relatório do FMI é paradigmática do nível do debate público em Portugal. Se é certo que o relatório, como todos, há-de ter virtudes e defeitos, soluções e imperfeições, boas propostas e más propostas, também deveria ser certo que um relatório é uma base de estudo, de trabalho e, obviamente, de debate. Mas que faz a oposição e a esquerda (o PS em particular)? Gritam e esbracejam que o relatório é "uma vergonha"; indignam-se porque o relatório existe. Extraordinário. Pior: atiram-se logo as feras de ocasião ao Secretário de Estado Moedas porque este afirmou que o relatório "está bem feito". Um crime lesa-pátria, evidentemente. Não é preciso mais nada para se compreender como o debate sobre conteúdo do dito relatório - que é fundamental para o futuro imediato do país - morre à partida. O que deveria ser óbvio, mas que aparentemente não é, sobre o relatório é que este configura um conjunto de propostas que, após o devido estudo e debate, poderão ser ou não implementadas, de uma ou outra forma, pelo Governo. A existência do relatório só pode merecer elogios sobre a tentativa do Governo se alicerçar no melhor conhecimento possível (e transparente) antes de tomar decisões. Mais: serve o relatório para se debaterem possibilidades e alternativas. Infelizmente, impossibilitando a livre troca de opinião, para a esquerda jacobina a mera existência de certas alternativas é indigna da Democracia, da liberdade, da Pátria e sei lá mais o quê. Pior: que outras alternativas propõe a esquerda socialista? Nenhuma. Qual o caminho que os críticos do relatório (veja-se o ridículo da situação) apresentam? Que propostas apresentam os críticos do relatório para além de criticar o Governo por ter um relatório em sua posse com propostas sobre as quais não se pronunciou e que poderá, ou não, estar na base de eventuais medidas legislativas futuras que desconhecemos? Zero. Enfim, o ridículo no seu expoente máximo.
Para ver se nos entendemos vou ver se consigo explicar com clareza e simplicidade o que se passa no Portugal de hoje: vivemos uma situação onde o Estado está falido (as receitas são menores que as despesas) e onde o seu financiamento que permite o regular funcionamento da economia (e das instituições) é assegurado por intervenção estrangeira; por forma a reganharmos a independência económica - e podermos continuar a pagar os salários da função pública, ter as escolas e os hospitais em funcionamento, polícias nas ruas, etc. - precisamos, portanto, de equilibrar as receitas com as despesas para que nos possamos financiar nos mercados internacionais. Ora, para isto há dois caminhos possíveis, sejam eles alternativos ou complementares: ou se aumentam as receitas através de impostos (e a oposição está contra) ou se corta nas despesas (e a oposição está contra também). Como é evidente, isto não é um debate: é um impasse. Para desatar este nó górdio precisamos, portanto, de perceber um raciocínio muito simples:
a) Se não equilibrarmos o deficit do Estado entre as receitas e as despesas não temos acesso a financiamento externo (nem dos mercados que apenas emprestam dinheiro a juros muito altos com medo de que uma falência futura nossa impeça os ditos mercados de recuperarem o dinheiro que nos emprestarem; nem conseguimos também renovar a seguir o empréstimo da troika - que é a única alternativa aos mercados - porque contas públicas desequilibradas configuram o incumprimento do Memorando de Entendimento). Ora, sem financiamento, o Estado entra em falência bem como a saída do Euro torna-se inevitável levando a um caos generalizado através de uma super-inflação galopante que nos levará a uma penúria súbita, extrema e impossível de evitar. A única vantagem deste cenário é que as contas públicas ficarão automaticamente equilibradas pois sem financiamento exterior o Estado não pode mesmo gastar mais do que recebe.
b) Assim, temos como alternativa plausível e desejável equilibrar as contas públicas para conseguirmos financiamento para o Estado e para a nossa economia.
c) Para equilibrar as contas públicas precisamos de aumentar receitas (impostos) e/ou diminuir despesas (gastos do Estado).
d) O aumento de impostos, além de ter consequência muito negativas para o crescimento económico, já não é uma solução pois estamos num ponto em que aumentar a carga fiscal não é eficaz, pelo contrário, graças à recessão, a uma maior evasão fiscal, etc, as receitas fiscais estão permanentemente abaixo do esperado; e quanto menos receita fiscal houver, mais na despesa do Estado se tem que cortar.
e) Assim sendo, sobra o fundamental e inevitável corte na despesa: ou se diminui a despesa, ou se perde o futuro acesso ao financiamento exterior. Não é bonito, não é desejável mas é inevitável (se quisermos continuar no Euro e desejarmos evitar as terríveis consequências que o incumprimento traria).
f) A questão que sobra - e a qual se deve debater - é que despesas cortar? Ou seja: como reformar o Estado de forma a que este apresente no final de cada ano despesas comportáveis com as receitas que temos? Ou seja: qual é o Estado que a produção nacional consegue suportar? Acrescente-se que oitenta por cento da despesa pública ocorre com o funcionamento do Estado e com as prestações sociais (ou seja, fundamentalmente: função pública + Educação + Saúde) logo qualquer reforma terá que considerar sempre alterações nestas vertentes.
É este o debate que se tem que fazer. Os políticos não são magos e a sua actividade é gerir o possível, o que existe; lidar com a realidade, portanto. Assim sendo, a decisão política é que vai escolher onde aplicar os escassos recursos existentes, onde se vai cortar. É a política que vai decidir o que é fundamental e o que é acessório; o que pode ser feito de outra forma e o que não se consegue alterar; onde podemos poupar e onde temos que investir. É precisamente aqui que um debate racional pode ocorrer pois haverão sempre diferentes formas de lidar com esta necessidade imperiosa de reformar o Estado e diminuir a despesa pública: é que há reformas e há reformas. Agora, gritar sobre a indignidade de um relatório como a esquerda na sua generalidade fez, dizer que não se debatem os cortes do Estado como o PS fez ou andar a criticar os sorrisos ou esgares de um Secretário de Estado como o inimaginável presidente do Instituto Sá Carneiro fez, tudo isso é simplesmente boicotar o debate sobre o que de mais fundamental é necessário fazer na política nacional: resgatar a independência económica. Triste é ver como os interesses comezinhos de facção das esquerdas, do PS ou destes opositores de oportunidade como Carreiras se sobrepõem ao interesse nacional. Resta saber se propositadamente ou se por uma pobre e indigente incapacidade de saber separar o essencial do acessório e perceber a real dimensão do imbróglio em que estamos enfiados.
Para ver se nos entendemos vou ver se consigo explicar com clareza e simplicidade o que se passa no Portugal de hoje: vivemos uma situação onde o Estado está falido (as receitas são menores que as despesas) e onde o seu financiamento que permite o regular funcionamento da economia (e das instituições) é assegurado por intervenção estrangeira; por forma a reganharmos a independência económica - e podermos continuar a pagar os salários da função pública, ter as escolas e os hospitais em funcionamento, polícias nas ruas, etc. - precisamos, portanto, de equilibrar as receitas com as despesas para que nos possamos financiar nos mercados internacionais. Ora, para isto há dois caminhos possíveis, sejam eles alternativos ou complementares: ou se aumentam as receitas através de impostos (e a oposição está contra) ou se corta nas despesas (e a oposição está contra também). Como é evidente, isto não é um debate: é um impasse. Para desatar este nó górdio precisamos, portanto, de perceber um raciocínio muito simples:
a) Se não equilibrarmos o deficit do Estado entre as receitas e as despesas não temos acesso a financiamento externo (nem dos mercados que apenas emprestam dinheiro a juros muito altos com medo de que uma falência futura nossa impeça os ditos mercados de recuperarem o dinheiro que nos emprestarem; nem conseguimos também renovar a seguir o empréstimo da troika - que é a única alternativa aos mercados - porque contas públicas desequilibradas configuram o incumprimento do Memorando de Entendimento). Ora, sem financiamento, o Estado entra em falência bem como a saída do Euro torna-se inevitável levando a um caos generalizado através de uma super-inflação galopante que nos levará a uma penúria súbita, extrema e impossível de evitar. A única vantagem deste cenário é que as contas públicas ficarão automaticamente equilibradas pois sem financiamento exterior o Estado não pode mesmo gastar mais do que recebe.
b) Assim, temos como alternativa plausível e desejável equilibrar as contas públicas para conseguirmos financiamento para o Estado e para a nossa economia.
c) Para equilibrar as contas públicas precisamos de aumentar receitas (impostos) e/ou diminuir despesas (gastos do Estado).
d) O aumento de impostos, além de ter consequência muito negativas para o crescimento económico, já não é uma solução pois estamos num ponto em que aumentar a carga fiscal não é eficaz, pelo contrário, graças à recessão, a uma maior evasão fiscal, etc, as receitas fiscais estão permanentemente abaixo do esperado; e quanto menos receita fiscal houver, mais na despesa do Estado se tem que cortar.
e) Assim sendo, sobra o fundamental e inevitável corte na despesa: ou se diminui a despesa, ou se perde o futuro acesso ao financiamento exterior. Não é bonito, não é desejável mas é inevitável (se quisermos continuar no Euro e desejarmos evitar as terríveis consequências que o incumprimento traria).
f) A questão que sobra - e a qual se deve debater - é que despesas cortar? Ou seja: como reformar o Estado de forma a que este apresente no final de cada ano despesas comportáveis com as receitas que temos? Ou seja: qual é o Estado que a produção nacional consegue suportar? Acrescente-se que oitenta por cento da despesa pública ocorre com o funcionamento do Estado e com as prestações sociais (ou seja, fundamentalmente: função pública + Educação + Saúde) logo qualquer reforma terá que considerar sempre alterações nestas vertentes.
É este o debate que se tem que fazer. Os políticos não são magos e a sua actividade é gerir o possível, o que existe; lidar com a realidade, portanto. Assim sendo, a decisão política é que vai escolher onde aplicar os escassos recursos existentes, onde se vai cortar. É a política que vai decidir o que é fundamental e o que é acessório; o que pode ser feito de outra forma e o que não se consegue alterar; onde podemos poupar e onde temos que investir. É precisamente aqui que um debate racional pode ocorrer pois haverão sempre diferentes formas de lidar com esta necessidade imperiosa de reformar o Estado e diminuir a despesa pública: é que há reformas e há reformas. Agora, gritar sobre a indignidade de um relatório como a esquerda na sua generalidade fez, dizer que não se debatem os cortes do Estado como o PS fez ou andar a criticar os sorrisos ou esgares de um Secretário de Estado como o inimaginável presidente do Instituto Sá Carneiro fez, tudo isso é simplesmente boicotar o debate sobre o que de mais fundamental é necessário fazer na política nacional: resgatar a independência económica. Triste é ver como os interesses comezinhos de facção das esquerdas, do PS ou destes opositores de oportunidade como Carreiras se sobrepõem ao interesse nacional. Resta saber se propositadamente ou se por uma pobre e indigente incapacidade de saber separar o essencial do acessório e perceber a real dimensão do imbróglio em que estamos enfiados.
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POLÍTICA
sábado, 5 de janeiro de 2013
INFANTILIDADE
Considerando isto torna-se evidente que o maior problema da sociedade contemporânea é a sua imaturidade: é óbvio que, no mimo da riqueza, na acomodação da ausência de necessidade e na ilusão do fim da história, perdemos o maior ensinamento que a História nos dá: a única solução é aquela que afirma não haver solução. Tudo o resto são utopias de adolescentes mimados que na crença infundada de mudar o mundo - e o Homem - vão acabar a destruir a riqueza do berço da mais bem sucedida civilização da História da Humanidade.
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NADA
OS ADOLESCENTES
Hoje apercebi-me de que a irritação que a generalidade abstracta dos adolescentes me causa é a mesma que o freakshow mediático em que se tornou a sociedade contemporânea: um bando de ignorantes a berrar banalidades uns aos outros arrogantemente convencidos da sua própria infalibilidade na solução do mundo ao mesmo tempo que, na preocupação com a sua própria imagem, umbigo e demais irrelevâncias, tudo o que realmente importa lhes passa perfeitamente ao lado.
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NADA
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
THE ART OF LIVING
"But not only medicine, engineering, and painting are arts; living itself is an art - in fact, the most important and at the same time the most difficult and complex art to be practiced by man. Its object is not this or that specialized performance, but the performance of living, the process of developing into that which one is potentially. In the art of living, man is both the artist and the object of his art; he is the sculptor and the marble; the physician and the patient. (...) It is interesting at this point to ask why our time has lost the concept of life as an art. Modern man seems to believe that reading and writing are arts to be learned, that to become an architect, an engineer, or a skilled worker warrants considerable study, but that living is something so simple that no particular effort is required to learn how to do it. Just because everyone "lives" in some fashion, life is considered a matter in which everyone qualifies as an expert. But it is not because of the fact that man has mastered the art of living to such a degree that he has lost the sense of its difficulty. The prevailing lack of genuine joy and happiness in the process of living obviously excludes such an explanation. Modern society, in spite of all the emphasis it puts upon happiness, individuality, and self-interest, has taught man to feel that not his happiness (or if we were to use a theological term, his salvation) is the aim of life, but the fulfillment of his duty to work, or his success. Money, prestige, and power have become his incentives and ends. He acts under the illusion that his actions benefit his self-interest, though he actually serves everything but the interests of his real self. Everything is important to him except his life and the art of living. He is for everything except for himself."
Eric Fromm, Man For Himself (1947)
Eric Fromm, Man For Himself (1947)
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FILOSOFIA
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
A INVEJA
Primeiro abordei aqui a forma como um certo idealismo romântico conduz a uma profunda intolerância na sociedade portuguesa; depois como esse mesmo idealismo romântico conduz a uma forte instabilidade política e à incapacidade da reforma política. Finalmente, parece-me que há um último aspecto que deverá ser mencionado: como se chega a esse idealismo - o ideal por cumprir - e, daí, a um certo imobilismo social.
Uma análise rápida e superficial da história portuguesa serve para mostrar que nos últimos quinhentos anos o país sobreviveu permanentemente graças ao influxo de capitais exteriores ao território nacional: a partir de 1415 foram as riquezas do Norte de África; o desvio destas rotas levou-nos directamente à fonte na Índia. A partir do Século XVII, o declínio do império do Oriente foi substituído pelo ouro do Brasil e quando este se esgotou foram as riquezas das colónias africanas que nos alimentaram. Finalmente, quando estas se foram, em 1975, bastaram onze anos para que se abrissem novas fontes de receita externa: os Fundos Comunitários. Na incapacidade destes satisfazerem plenamente as necessidades de despesa lusitanas pode acrescentar-se a partir dos últimos anos um influxo cada vez maior de capitais estrangeiros a financiarem a economia portuguesa através da emissão de dívida, dívida a qual, nos traz agora a esta situação de falência. Não admira pois que seja difícil aos Portugueses compreenderem que o modelo de organização económica que temos não é sustentável: é que o problema não tem apenas quinze ou trinta anos; já vem desde os primórdios da expansão ultramarina. Aliás, é quase constrangedor verificar como este viver por conta é uma situação nacional que se repete, que perdura já há meio milénio. Como é possível que o mesmo modo de vida se mantenha inalterado durante tanto tempo e que continuemos a repetir os vícios do passado e incapazes de começar, de facto, uma vida nova? Porque continuamos nós atascados nesta incapacitante situação? A resposta terá que, forçosamente, residir naquilo que é comum a todos esses tempos e a todas essas situações: os Portugueses. Somos nós os donos do nosso destino já desde 1143 e, por essa razão, na origem da repetição de um determinado modo de vida terá que estar a mentalidade e a cultura do povo que experimenta esse determinado modo de vida. Já em 1871 Antero de Quental alertava que na origem da decadência portuguesa estaria também o modo de vida que se instalou com a descoberta das riquezas ultramarinas. Nos idos de quinhentos enriqueciam os aventureiros e aqueles que, de alguma forma, nos portos da capital procuravam o negócio proveitoso que permitiria o enriquecimento súbito e com o menor esforço possível. Quem atingia tal desiderato, rapidamente ostentava a sua (nova) riqueza através dos fatos que envergava e do muito dinheiro que largava nas tascas e no jogo. Claro está que, para aquele que observava a rápida transformação de remediado em milionário, uma pergunta se impunha: porque não fui eu que me lembrei daquilo; ou: porque não eu também? A inveja é mais fecunda onde uma súbita transformação torna desigual o que imediatamente antes era igual. Num país pobre a súbita chegada de (muita) riqueza proveniente do estrangeiro gerou uma grande alteração: aquilo que se podia ganhar num único negócio era mais do que uma vida inteira de árduo trabalho. O sonho português, aquilo que se almejava - e invejava - era portanto o de enriquecer sem ter que trabalhar. De alguma forma se enraizou o conceito de que o sucesso seria a riqueza e que quanto mais fácil esta fosse mais esperto, mais inteligente e melhor seria aquele que a obtinha. Afinal a lei do menor esforço é do que mais básico existe na natureza: sucesso é ter o maior proveito possível com o menor esforço possível. Ao mesmo tempo, aqueles que se aplicassem profusamente num trabalho que no final da vida não lhes deu a riqueza ostentativa que outros tanto exibiram, de alguma forma, esses que tanto trabalharam e tão pouco no final tiveram para mostrar, esses teriam falhado. O sucesso mede-se não no esforço e no trabalho mas sim na ostentação e na ausência de esforço: quanto mais eu tiver com menor trabalho melhor eu sou, mais esperto eu sou. Quem, portanto, trabalhou uma vida inteira e não tem nada para apresentar só pode é ser parvo. É deste espírito que advém a fidalguia falida que Antero de Quental brilhantemente nos revela nas Conferências do Casino. Diz-nos ele que "do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores indústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de trabalhadores". Alimentámos nós estas pretensões através das riquezas externas que fomos conseguindo alcançar. Ao mesmo tempo alimentámos este sonho de que as riquezas não dependem do trabalho. Que há uma solução perfeita para todos os nossos anseios que não passa pelo árduo e difícil caminho do trabalho. E é talvez aqui, nesta ética do sonho, aliada à exaltação dos feitos descobridores e conquistadores, que o idealismo romântico encontrou lugar até hoje: ainda hoje esperamos pela solução, ainda hoje dependemos das riquezas estrangeiras e ainda hoje a ostentação e o status social fazem decidir o que é uma vida de sucesso ou não. Onde lá fora servir às mesas, lavar pratos ou trabalhar num McDonald's é visto como normal por cada jovem que tem que aprender que não há sucesso na vida sem trabalho, já em Portugal estas menores tarefas aparecem aos jovens Portugueses de classe média (nem falo da alta) como indignas ou não merecedoras da sua condição social. Sobra-nos no entanto a ambição: mas uma ambição que não tem por onde se sustentar pois num país refém de riquezas externas as oportunidades surgem a quem controla - ou tem acesso - às fontes externas de riqueza. E assim, apesar da ambição, num país que produz pouco, o sonho de riqueza fica-se pela inveja e pela leitura ávida das revistas dos famosos: aqueles que (aparentemente) levam a vida de ostentação que muitos ansiariam poder levar. Estão, portanto, os Portugueses encurralados: entre uma ética de trabalho que não os impele à acção e uma estrutura económica que impede os poucos que tentam de serem bem sucedidos. Nesta ratoeira sobra o sonho, o ideal e a inveja. E, claro, o caminho da corrupção na manipulação das riquezas que provém do exterior como forma mais rápida e com menor esforço de enriquecer. Enquanto o país se frustra pelo sonho que não se cumpre, os novos aventureiros e os novos ricos sem trabalhar continuam a ter as suas oportunidades: em terra onde o acesso à riqueza vem de fora quem controla as portas de entrada de tais riquezas é rei. E cá continuam a pulular os novos-ricos: desde o pretenso industrial que de repente anda de Ferrari, ao cacique político do interior que se fez banqueiro ou ao autarca que se fez milionário, cá continuamos na mesma vida: espertos são os que se safam. E quem é que se safa? Quem, de uma forma ou de outra, consegue ter acesso às novas especiarias: ou seja, aos fundos comunitários ou, mais recentemente, à despesa do Estado. Vivemos, pois, no mesmo país de quinhentos: apenas agora os novos-ricos e pretensos fidalgos não são os intermediários de negócios tremendos mas sim os intermediários do empobrecimento generalizado dos Portugueses: pois são os novos-ricos hoje aqueles que bem sabem aproveitar a gestão intermediária do dinheiro sacado em impostos ou emissão de dívida (impostos futuros) para o funcionamento do Estado que controlam. E à medida que se vai fechando a torneira dos fundos exteriores, a fonte de riqueza cada vez mais passa a ser os (parcos) fundos do interior: os impostos. É o país dos Sócrates e dos Relvas; o país dos ajustes directos, das concessões e das nomeações. Entretanto, enquanto uns enriquecem à vista de todos, os Portugueses desesperam e do ancestral não é digno trabalhar porque os bem sucedidos não têm que o fazer passamos para o não vale a pena trabalhar porque só os espertos é que se safam. É a frustração e a injustiça que se abatem sobre o sonho idealista lusitano: não apenas o sonho está por cumprir como aqueles para quem o sonho se cumpre não o merecem. Mas há pior: é que de repente o sucesso, de tanta corrupção videirinha, passa a estar relacionado com este não merecimento: ai safou-se? Então deve ser corrupto. Deve ser ladrão. É aqui que a inversão da ética do trabalho se torna completa: não só o esforço não é valorizado como o sucesso é sinónimo de malfeitoria. Ao mesmo tempo que os novos-ricos passeiam os seus BMW's (que muitas vezes não conseguem pagar) quem anda com o (cada vez mais caro) passe da CP roga pragas a todos os que andam de BMW esquecendo que muita gente trabalha honesta e arduamente para os ter. Da cobiça à inveja é um passo e para a mentalidade lusitana a riqueza é agora uma coisa má: não porque não se deve ostentar (a ostentação continua a ser secretamente invejada) mas porque quem se safa não deve ter feito coisa boa. Mais: na terra das poucas oportunidades mas dos sonhos gigantes e com os exemplos corruptos que impunemente se espraiam pelas revistas e campos de golfe, quem tem uma ideia é logo deitado abaixo. E só assim poderia ser pois na frustração da injustiça sobra a inveja daqueles que, contra tudo e contra todos, alcançam o sucesso. E se chamar a quem se safa de malandro é o descarregar máximo da frustração de quem pensa não ter hipótese de se safar, então quando alguém legitimamente tem uma ideia ou é empreeendedor e mostra que afinal até havia hipótese a inveja toma o seu lugar: porque foi ele a lembrar-se daquilo e não eu? E logo leva o mesmo destino: deve ter tido uma ajudinha, com certeza. Tem amigos. É o factor c. Vilipendia-se o sucesso porque aceitar que o triunfo de alguém se deve ao seu engenho e talento implica aceitar que não se tem o engenho e o talento que o outro demonstrou ter. Hoje em Portugal, os exemplos de corrupção e a ética centenária do sonho da riqueza fácil são um factor de imobilidade e impedem o empreendedorismo. Ao mesmo tempo, aqueles que se atrevem a quebrar esses grilhos da frustração e da comiseração pagam pelo seu atrevimento com a inveja e a maledicência. No final, para mal dos nossos pecados, juntando-se todos estes ingredientes não podemos de facto ficar muito admirados com a situação em que nos encontramos. Infelizmente, é preciso compreender isto para que se comece realmente a mudar de vida: é que a nova vida vem com os valores do trabalho, não da ausência dele. Com o querer seguir os exemplos de esforço e não os caminhos da facilidade. Com admirar e querer imitar o sucesso proveniente do empreendedorismo e da inovação e não sonhar com o que há-de cair do céu. Com celebrar a honestidade e não vilipendiá-la. Com o ser intransigente para com os corruptos e não achar que eles é que a levaram de boa. Com o ser indiferente para o que ostentam e não sonhar a fama fácil, imediata e geradora de riqueza. Com não invejar e não sonhar secretamente com o querer ser invejado. Mas isso, por enquanto, é outro país ainda; nos entretantos, cá nos vamos comiserando com a nossa sorte e, quiçá, sonhando com o petróleo de Peniche que viria salvar-nos do abismo e permitir-nos continuar a viver como se nada fosse: ou seja, na eterna frustração e inveja.
Uma análise rápida e superficial da história portuguesa serve para mostrar que nos últimos quinhentos anos o país sobreviveu permanentemente graças ao influxo de capitais exteriores ao território nacional: a partir de 1415 foram as riquezas do Norte de África; o desvio destas rotas levou-nos directamente à fonte na Índia. A partir do Século XVII, o declínio do império do Oriente foi substituído pelo ouro do Brasil e quando este se esgotou foram as riquezas das colónias africanas que nos alimentaram. Finalmente, quando estas se foram, em 1975, bastaram onze anos para que se abrissem novas fontes de receita externa: os Fundos Comunitários. Na incapacidade destes satisfazerem plenamente as necessidades de despesa lusitanas pode acrescentar-se a partir dos últimos anos um influxo cada vez maior de capitais estrangeiros a financiarem a economia portuguesa através da emissão de dívida, dívida a qual, nos traz agora a esta situação de falência. Não admira pois que seja difícil aos Portugueses compreenderem que o modelo de organização económica que temos não é sustentável: é que o problema não tem apenas quinze ou trinta anos; já vem desde os primórdios da expansão ultramarina. Aliás, é quase constrangedor verificar como este viver por conta é uma situação nacional que se repete, que perdura já há meio milénio. Como é possível que o mesmo modo de vida se mantenha inalterado durante tanto tempo e que continuemos a repetir os vícios do passado e incapazes de começar, de facto, uma vida nova? Porque continuamos nós atascados nesta incapacitante situação? A resposta terá que, forçosamente, residir naquilo que é comum a todos esses tempos e a todas essas situações: os Portugueses. Somos nós os donos do nosso destino já desde 1143 e, por essa razão, na origem da repetição de um determinado modo de vida terá que estar a mentalidade e a cultura do povo que experimenta esse determinado modo de vida. Já em 1871 Antero de Quental alertava que na origem da decadência portuguesa estaria também o modo de vida que se instalou com a descoberta das riquezas ultramarinas. Nos idos de quinhentos enriqueciam os aventureiros e aqueles que, de alguma forma, nos portos da capital procuravam o negócio proveitoso que permitiria o enriquecimento súbito e com o menor esforço possível. Quem atingia tal desiderato, rapidamente ostentava a sua (nova) riqueza através dos fatos que envergava e do muito dinheiro que largava nas tascas e no jogo. Claro está que, para aquele que observava a rápida transformação de remediado em milionário, uma pergunta se impunha: porque não fui eu que me lembrei daquilo; ou: porque não eu também? A inveja é mais fecunda onde uma súbita transformação torna desigual o que imediatamente antes era igual. Num país pobre a súbita chegada de (muita) riqueza proveniente do estrangeiro gerou uma grande alteração: aquilo que se podia ganhar num único negócio era mais do que uma vida inteira de árduo trabalho. O sonho português, aquilo que se almejava - e invejava - era portanto o de enriquecer sem ter que trabalhar. De alguma forma se enraizou o conceito de que o sucesso seria a riqueza e que quanto mais fácil esta fosse mais esperto, mais inteligente e melhor seria aquele que a obtinha. Afinal a lei do menor esforço é do que mais básico existe na natureza: sucesso é ter o maior proveito possível com o menor esforço possível. Ao mesmo tempo, aqueles que se aplicassem profusamente num trabalho que no final da vida não lhes deu a riqueza ostentativa que outros tanto exibiram, de alguma forma, esses que tanto trabalharam e tão pouco no final tiveram para mostrar, esses teriam falhado. O sucesso mede-se não no esforço e no trabalho mas sim na ostentação e na ausência de esforço: quanto mais eu tiver com menor trabalho melhor eu sou, mais esperto eu sou. Quem, portanto, trabalhou uma vida inteira e não tem nada para apresentar só pode é ser parvo. É deste espírito que advém a fidalguia falida que Antero de Quental brilhantemente nos revela nas Conferências do Casino. Diz-nos ele que "do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores indústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de trabalhadores". Alimentámos nós estas pretensões através das riquezas externas que fomos conseguindo alcançar. Ao mesmo tempo alimentámos este sonho de que as riquezas não dependem do trabalho. Que há uma solução perfeita para todos os nossos anseios que não passa pelo árduo e difícil caminho do trabalho. E é talvez aqui, nesta ética do sonho, aliada à exaltação dos feitos descobridores e conquistadores, que o idealismo romântico encontrou lugar até hoje: ainda hoje esperamos pela solução, ainda hoje dependemos das riquezas estrangeiras e ainda hoje a ostentação e o status social fazem decidir o que é uma vida de sucesso ou não. Onde lá fora servir às mesas, lavar pratos ou trabalhar num McDonald's é visto como normal por cada jovem que tem que aprender que não há sucesso na vida sem trabalho, já em Portugal estas menores tarefas aparecem aos jovens Portugueses de classe média (nem falo da alta) como indignas ou não merecedoras da sua condição social. Sobra-nos no entanto a ambição: mas uma ambição que não tem por onde se sustentar pois num país refém de riquezas externas as oportunidades surgem a quem controla - ou tem acesso - às fontes externas de riqueza. E assim, apesar da ambição, num país que produz pouco, o sonho de riqueza fica-se pela inveja e pela leitura ávida das revistas dos famosos: aqueles que (aparentemente) levam a vida de ostentação que muitos ansiariam poder levar. Estão, portanto, os Portugueses encurralados: entre uma ética de trabalho que não os impele à acção e uma estrutura económica que impede os poucos que tentam de serem bem sucedidos. Nesta ratoeira sobra o sonho, o ideal e a inveja. E, claro, o caminho da corrupção na manipulação das riquezas que provém do exterior como forma mais rápida e com menor esforço de enriquecer. Enquanto o país se frustra pelo sonho que não se cumpre, os novos aventureiros e os novos ricos sem trabalhar continuam a ter as suas oportunidades: em terra onde o acesso à riqueza vem de fora quem controla as portas de entrada de tais riquezas é rei. E cá continuam a pulular os novos-ricos: desde o pretenso industrial que de repente anda de Ferrari, ao cacique político do interior que se fez banqueiro ou ao autarca que se fez milionário, cá continuamos na mesma vida: espertos são os que se safam. E quem é que se safa? Quem, de uma forma ou de outra, consegue ter acesso às novas especiarias: ou seja, aos fundos comunitários ou, mais recentemente, à despesa do Estado. Vivemos, pois, no mesmo país de quinhentos: apenas agora os novos-ricos e pretensos fidalgos não são os intermediários de negócios tremendos mas sim os intermediários do empobrecimento generalizado dos Portugueses: pois são os novos-ricos hoje aqueles que bem sabem aproveitar a gestão intermediária do dinheiro sacado em impostos ou emissão de dívida (impostos futuros) para o funcionamento do Estado que controlam. E à medida que se vai fechando a torneira dos fundos exteriores, a fonte de riqueza cada vez mais passa a ser os (parcos) fundos do interior: os impostos. É o país dos Sócrates e dos Relvas; o país dos ajustes directos, das concessões e das nomeações. Entretanto, enquanto uns enriquecem à vista de todos, os Portugueses desesperam e do ancestral não é digno trabalhar porque os bem sucedidos não têm que o fazer passamos para o não vale a pena trabalhar porque só os espertos é que se safam. É a frustração e a injustiça que se abatem sobre o sonho idealista lusitano: não apenas o sonho está por cumprir como aqueles para quem o sonho se cumpre não o merecem. Mas há pior: é que de repente o sucesso, de tanta corrupção videirinha, passa a estar relacionado com este não merecimento: ai safou-se? Então deve ser corrupto. Deve ser ladrão. É aqui que a inversão da ética do trabalho se torna completa: não só o esforço não é valorizado como o sucesso é sinónimo de malfeitoria. Ao mesmo tempo que os novos-ricos passeiam os seus BMW's (que muitas vezes não conseguem pagar) quem anda com o (cada vez mais caro) passe da CP roga pragas a todos os que andam de BMW esquecendo que muita gente trabalha honesta e arduamente para os ter. Da cobiça à inveja é um passo e para a mentalidade lusitana a riqueza é agora uma coisa má: não porque não se deve ostentar (a ostentação continua a ser secretamente invejada) mas porque quem se safa não deve ter feito coisa boa. Mais: na terra das poucas oportunidades mas dos sonhos gigantes e com os exemplos corruptos que impunemente se espraiam pelas revistas e campos de golfe, quem tem uma ideia é logo deitado abaixo. E só assim poderia ser pois na frustração da injustiça sobra a inveja daqueles que, contra tudo e contra todos, alcançam o sucesso. E se chamar a quem se safa de malandro é o descarregar máximo da frustração de quem pensa não ter hipótese de se safar, então quando alguém legitimamente tem uma ideia ou é empreeendedor e mostra que afinal até havia hipótese a inveja toma o seu lugar: porque foi ele a lembrar-se daquilo e não eu? E logo leva o mesmo destino: deve ter tido uma ajudinha, com certeza. Tem amigos. É o factor c. Vilipendia-se o sucesso porque aceitar que o triunfo de alguém se deve ao seu engenho e talento implica aceitar que não se tem o engenho e o talento que o outro demonstrou ter. Hoje em Portugal, os exemplos de corrupção e a ética centenária do sonho da riqueza fácil são um factor de imobilidade e impedem o empreendedorismo. Ao mesmo tempo, aqueles que se atrevem a quebrar esses grilhos da frustração e da comiseração pagam pelo seu atrevimento com a inveja e a maledicência. No final, para mal dos nossos pecados, juntando-se todos estes ingredientes não podemos de facto ficar muito admirados com a situação em que nos encontramos. Infelizmente, é preciso compreender isto para que se comece realmente a mudar de vida: é que a nova vida vem com os valores do trabalho, não da ausência dele. Com o querer seguir os exemplos de esforço e não os caminhos da facilidade. Com admirar e querer imitar o sucesso proveniente do empreendedorismo e da inovação e não sonhar com o que há-de cair do céu. Com celebrar a honestidade e não vilipendiá-la. Com o ser intransigente para com os corruptos e não achar que eles é que a levaram de boa. Com o ser indiferente para o que ostentam e não sonhar a fama fácil, imediata e geradora de riqueza. Com não invejar e não sonhar secretamente com o querer ser invejado. Mas isso, por enquanto, é outro país ainda; nos entretantos, cá nos vamos comiserando com a nossa sorte e, quiçá, sonhando com o petróleo de Peniche que viria salvar-nos do abismo e permitir-nos continuar a viver como se nada fosse: ou seja, na eterna frustração e inveja.
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