quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
UM CARREIRAS CHIQUE A VALER
Já por diversas vezes tenho aqui comentado a magnífica prosa do Carlos Carreiras no jornal i. Já, por motivos aos quais a qualidade do meu próprio palavrório será certamente alheia, aparentemente as palavras voaram longe e, imagine-se, até fui acusado de "perseguição" ao supracitado Carreiras; isto por pessoas que nem imaginaria que fossem leitoras assíduas deste blog. Cumpre-me esclarecer: não é minha vontade perseguir ninguém; apenas, por azar do destino, vou seguindo as suas crónicas no jornal i e tenho-as como dos melhores exemplos da mediocridade política nacional. Ora, os exemplos são para se usar porque, sendo paradigmáticos, ilustra-se com pouco trabalho (no particular) um mal difícil de explicar se tratado no geral. Além disso, Carreiras, no seu entusiasmo infantil, é pródigo em deixar bem evidente a sua (in)capacidade para "líder político". Veja-se o caso de hoje: aqui temos o Presidente do Instituto Sá Carneiro a afirmar que "as diferenças programáticas entre os três partidos do arco do poder em Portugal não são significativas". Ou seja: PSD, CDS e PS, no fundo, no fundo, é tudo a mesma coisa. Mas há mais: enumera o fogoso Carreiras que os ditos três partidos convergem no desejo por "um país competitivo e solidário, com um Estado
solidariamente forte e ágil, são pelo emprego e pela plenitude de
direitos de cidadania (...) PSD, CDS e PS só divergem
quanto aos meios e, ainda assim, consoante a posição de responsabilidade
que protagonizam em cada momento: serem governo, ou oposição." Ou seja: os três partidos têm a mesma visão para a sociedade, discordam pontualmente nalguns meios mas, fundamentalmente, apenas têm posições discordantes consoante são governo ou oposição. Mais claramente explicado: divergências partidárias entre estes três partidos resumem-se a criticar (mesmo quando até se concorda) quem está no governo para se ganhar apoio popular. Como se resolve este problema? Afirma Carreiras que "há, nestes partidos, pessoas que se respeitam dispostas a lançar pontes
para que se funde um novo pacto político em Portugal. Um pacto que
estabeleça uma base de diálogo político e de entendimento permanentes
entre as três forças que, previsivelmente, nas próximas décadas terão a
seu cargo o governo de Portugal." O Bloco Central, pois claro. Termina Carreiras a sua crónica, que nem um profeta a anunciar a boa-nova, a clamar que "[o]s portugueses exigem aos partidos com responsabilidades que abandonem a
política da pequena diferença. Portugal e a Europa estão no meio de uma
guerra que está a ser travada no campo financeiro e económico, mas
também político. A crise europeia não tem filiação partidária e já
derrubou governos de todas as cores. É bom que os partidos percebam que
divididos, serão vencidos. É tempo para a união e para um pacto político
que reforce a ideia de esperança no amanhã de Portugal." Como sempre, Carreiras sonha com o movimento unificador de salvação nacional que não se cansa de apregoar. Para ele a ideologia é coisa do passado, as diferenças ideológicas são mero fruto de mesquinhez superficial e o que é preciso é liderança e esperança. Liderança, a qual, Carreiras sonha implementar; esperança, essa, já a julga inspirar. Como já afirmei antes este tipo de liderança é próprio de quem não respeita - ou sequer compreende - a natureza humana e o mundo em que vive: para Carreiras, o mundo é simples e, consequentemente, os seus problemas fáceis de serem resolvidos; isto se apenas as pessoas - malandras! - se unissem para conseguir ver a sua verdadeira solução. Solução de quem? De Carreiras, pois claro. Como Carreiras vê o mundo - e o homem - com a simplicidade dos simples não compreende que a profundidade da vida torna impossível a concórdia nas soluções para a sociedade. É precisamente por isso mesmo que a democracia, apesar dos Carreiras da vida, é tão fundamental pois acomoda as diferenças nas suas instituições impedindo os conflitos violentos. Aliás, porque a discórdia é natural, quanto menos diferenças existirem entre os partidos que compõem a democracia, em pior saúde esta estará pois apenas representará um status quo dirigente deixando de ter a capacidade de dar resposta às naturais diferenças de opinião dos eleitores. Mas para Carreiras - que no fundo vê a discórdia democrática como um impedimento à implementação da solução - a hipotética igualdade ideológica nos principais partidos portugueses seria uma coisa boa. Não seria. E um amplo consenso só se consegue compreendendo isto. Infelizmente, Carreiras não compreende isto e, só por aqui, Passos Coelho deveria exigir a sua demissão do Instituto Sá Carneiro. Mas sobre este tema já eu abundei em artigos anteriores (por exemplo aqui). O que, de facto, me causou mais impressão na crónica de hoje do i foi a confirmação de uma tese que já tinha apresentado aqui: é que, apesar de uma certa coerência própria da ausência de profundidade intelectual que Carreiras apresenta, as suas propostas, sempre salvíficas, variam consoante o seminário ou conferência a que Carreiras assistiu durante a semana. E onde foi Carreiras esta semana? À reunião da Internacional Socialista, pois claro. Resultado? Veio socialista, naturalmente. Não apenas acha que o bloco central é que é como ainda vem a perorar contra os mercados e os especuladores. Diz Carreiras: "[a]s mudanças a que assistimos no mundo e, sobretudo, a crise em que
milhões de pessoas na Europa foram metidas à custa de uma dúzia de
criminosos que elevaram a ganância a projecto ideológico, demarcou o
terreno. Empurrou os partidos para a mesma trincheira. De um lado estão
eles, as agências de rating e os poderes dos especuladores e
gananciosos; do outro estamos nós, cidadãos, políticos, partidos e
nações livres." É esta a profundidade intelectual de Carreiras: uma visão para o país que, de tão fugaz e efémera quanto voluntariosa e optimisticamente estulta, muda consoante o jargão da semana ao qual os seus neurónios, por força da presença física do seu portador, tiveram acesso. Não compreende Carreiras os mercados (por isso são especuladores e gananciosos), não compreende Carreiras as agências de rating, não compreende Carreiras as diferentes soluções que existem para a crise actual; crise, a qual, Carreiras obviamente não compreende também. Por essa inocência, que se não fosse perigosa para o país - pelas responsabilidades que o inocente tem - seria quase infantilmente enternecedora, basta a Carreiras ir à Internacional para sair de lá com o mesmo discurso de Seguro ou, também já o era, o de sócrates, o pequeno: o discurso que nos trouxe à bancarrota. Já tendo anteriormente analisado com profundidade a vacuidade do discurso político de Carreiras sobra compreender como é possível que seja o formidável Carreiras Presidente do Instituto Sá Carneiro. A resposta é simples: nos mecanismos da máquina partidária funciona o caciquismo e, por essa singela razão, quem controla uma câmara municipal - como Carreiras controla a de Cascais - pode ter muito poder. E assim se fazem os políticos da nossa praça: de favores, sacos de votos e, infelizmente, muita ignorância. Duas conclusões: a primeira é que o verdadeiro problema do país político-partidário não está na ausência de unanimidade em redor das pequeninas e néscias soluções de Carreiras mas, pelo contrário, está precisamente na ignorante concórdia com a narrativa política do status quo politiqueiro - tão tentadora para o apelo ao voto - que, da mesma forma que justificou um enorme bloco central de interesses que alimenta muito politiqueiro (e os seus votos), também causou a triste situação de falência a que chegámos. Carreiras é, portanto, tal como muitos outros, um adversário da salvação da Pátria pois cá andará a perorar pelo Estado (socialista), em nome do Estado (socialista) e para o Estado (socialista). A segunda conclusão é que Carreiras continua em forma. Aliás, tão em forma que ainda corremos o risco de ver o nome de tão distinta personagem como personificação da tão almejada subida social através da máquina partidária: são carreiras mesmo aqueles que se fazem pela política onde, para os chico-espertos, saber ler e escrever e ter um telemóvel e um fato, parecem ser os requisitos suficientes para, utilizando a gíria apropriada, se orientarem. Faz-me lembrar Carreiras, na sua rude - mas mui tentada! - personagem-tipo, algumas, igualmente distintas, personagens da literatura portuguesa: onde reparo no deslumbre de Carreiras para com as conferências a que assiste e a rapidez com que repete e papagueia o que "aprendeu" vejo eu a pobreza de espírito de um Dâmaso Salcede do Eça; já quando reparo na agilidade com que Carreiras vai subindo, a pulso, as cordas do poder vejo eu um videirinho Laurentino do Paço d'Arcos. Só o futuro nos dirá acerca do seu destino: se acabará em afamado banqueiro como o segundo ou, quiçá, corrido à bengalada como o primeiro, isso logo veremos. Nos entretantos, resta-nos apreciar - e comentar!, pois claro - os episódios de tão cativante novela. É que é mesmo chique a valer!
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POLÍTICA
NOÇÕES PANTEÍSTAS (VII)
"Assim jantámos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois voltámos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a contemplar silenciosamente um sumptuoso céu de Verão, tão cheio de estrelas que todo ele parecia uma densa poeirada de ouro vivo, suspensa, imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou, se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante Natureza - os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de um monte como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de perto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos são obra da mesma vontade. Todos vivem da acção dessa vontade imanente. Todos, portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituem modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somam na mesma unidade. Não há ideia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos nós? Formas sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sabíamos os nomes desses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque da sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados sobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno - e em nós havia o mesmo Deus. E se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça - que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante un instante, na consciência, a nossa divinização."
Eça de Queiroz, Civilização (1892)
Eça de Queiroz, Civilização (1892)
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
NOÇÕES PANTEÍSTAS (VI)
Santo Agostinho defendia a ideia de que, de alguma forma, nós merecemos o 'mal'; Leibniz argumentava de que o 'mal metafísico' é uma mera consequência da nossa limitação. Ambos estão certos: se entendermos o todo como eterno, temos forçosamente que o conceber também como harmonioso: onde não há tempo, não há acção; onde não há divisões, não pode haver tensões. Ora, a limitação, já dizia Heraclito, exerce-se precisamente pela oposição: a tensão entre os opostos configura a separação entre o finito (em tensão) e o infinito (o absoluto harmónico). O 'mal' apenas pode surgir da tensão: no eterno e absoluto não pode existir nem 'bem' nem 'mal' pois tudo simplesmente é em absoluta harmonia. Assim sendo, o 'mal' será certamente consequência da limitação; mas porque é também a essa limitação que devemos a nossa possibilidade de existência então temos que aceitar que o 'mal' é o preço que pagamos pela vida. Nesse sentido, a existência do 'mal', tendo como alternativa a não-existência, será justamente merecida: não há almoços grátis.
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NOÇÕES PANTEÍSTAS (V)
"I tried once to make Spinoza's system intelligible - to show that all things are mere accidents of a single substance. My friend interrupted me and said, 'but my God! Aren't you and I different men and do we not each possess an existence of our own?' 'Close the shutters!' I called to reply to his objection. This strange expression astonished him. He did not know what I meant. Finally, I explained myself. 'See', I said, 'the sun shines through the windows. The square window gives you a square reflection and the round window gives you a round reflection. Are they on that account different things and not one and the same sunshine?' "
Solomon Maimon, Lebengeschichte (1793)
Solomon Maimon, Lebengeschichte (1793)
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NOÇÕES PANTEÍSTAS
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
NOÇÕES PANTEÍSTAS (IV)
1) O que é eterno, é.
2) O passado já não é e o futuro ainda não é.
3) O eterno, porque é, não é no futuro nem no passado.
Logo, o eterno é no presente.
2) O passado já não é e o futuro ainda não é.
3) O eterno, porque é, não é no futuro nem no passado.
Logo, o eterno é no presente.
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
O MARATONISTA
A grande vantagem de se correr na rua em vez da hamsterização da passadeira do ginásio é que as pessoas por quem passo, a bufar e a arfar, a passo de caracol e encarnado que nem um tomate, não podem imaginar que acabei de sair da porta de casa não há sequer três minutos.
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NOÇÕES PANTEÍSTAS (III)
1) A minha vida são memórias.
2) O passado já não existe.
3) As memórias, porque são passado, são ilusões.
Logo, a minha vida é uma ilusão.
2) O passado já não existe.
3) As memórias, porque são passado, são ilusões.
Logo, a minha vida é uma ilusão.
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NOÇÕES PANTEÍSTAS (II)
1) O que é eterno, é.
2) O passado já não é e o futuro ainda não é.
3) A eternidade, porque é, não tem nem presente nem passado.
4) O que é, porque não tem passado nem futuro, eterno é.
5) Eu sou.
Logo, Eu sou eterno.
2) O passado já não é e o futuro ainda não é.
3) A eternidade, porque é, não tem nem presente nem passado.
4) O que é, porque não tem passado nem futuro, eterno é.
5) Eu sou.
Logo, Eu sou eterno.
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NOÇÕES PANTEÍSTAS
NOÇÕES PANTEÍSTAS
1) O que é não pode não ser logo a sermos alguma coisa só poderemos ser dentro daquilo que é.
2) O passado já não é tal como o futuro ainda não é.
Logo, somos tudo aquilo de que não nos lembramos e que ainda não sonhamos.
2) O passado já não é tal como o futuro ainda não é.
Logo, somos tudo aquilo de que não nos lembramos e que ainda não sonhamos.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013
O RACISMO E A IGUALDADE
Se alguém num comício se referisse à Chanceler Merckel como "a mais loirinha" ou ao ex-presidente do PSD Marques Mendes como o "mais baixinho" ninguém diria que eram acusações racistas e - ou preconceituosas. No entanto, esse tipo de afirmações não se fazem, e bem, porque se entende que no debate público não interessam as características particulares dos indivíduos: apenas os seus argumentos. Ora, nesse sentido, à primeira vista, as declarações do Arménio Carlos da CGTP sobre o "escurinho" do FMI apenas demonstram a falta de nível e de educação que imperam por aqueles lados. Mas, apesar disso, podemos sempre fazer uma pergunta: porque é que o Arménio Carlos fala do "escurinho" e não fala do "baixinho"? E aí é que está o preconceito escondido: é que para o Arménio Carlos falar do "escurinho" não tem nada de mal (e em si não tem) mas já não compreende que apontar uma característica física de uma pessoa no debate político é uma coisa que não se deve fazer, que ele normalmente não faz e que, apenas neste caso - da raça -, é que resolveu fazer. O que há de racista nas declarações do Sr. Carlos não é o facto, em si mesmo, de apelidar o Sr. Selassie de "escurinho" que configura apenas uma evidente falta de educação: o que é profundamente racista é que o Arménio Carlos não vê nada de mal em apontar questões físicas ao Sr. Selassie quando não o faz a mais ninguém. Ou seja: sentiu-se à vontade para ser mal educado para com o "escurinho" quando não o é para com os "clarinhos". Depois vem o João Soares defender o Arménio Carlos: diz ele que "o etíope é mesmo escurinho". A lógica é exactamente a mesma. Mas há mais: enquanto que estes senhores, porque são de esquerda - logo humanistas e defensores dos pobres e oprimidos -, se sentem à vontade para fazer este tipo de afirmações, já qualquer pessoa de direita que se atrevesse a qualificar quem quer que fosse pelas suas características pessoais seria rapidamente crucificado. Alguém tem dúvidas? Estão a ver um deputado do PSD ou do CDS a chamar "escurinho"a alguém - imagine-se o desplante! - e o que não haveria de vir das bancadas da esquerda. É que aqueles que agora defendem o Arménio Carlos são os mesmos que se assumem como os portentosos arautos da igualdade: são os fiscalizadores do "politicamente correcto" (dos outros); são os defensores das "quotas" e das "descriminações positivas"; em suma: são os impositores de uma igualdade de facto tão detestável quanto impossível. As declarações do João Soares deixam bem à vista como toda essa suposta igualdade esconde uma noção profundamente preconceituosa do mundo: não só o Sr. Selassie é "escurinho" como é tratado por "etíope" sem merecer ser sequer tratado pelo seu nome. Gostaria o João Soares que algum político alemão se referisse a si publicamente como "o português é mesmo gordinho"? Se calhar não. Mas esta obsessão com as diferenças é intrínseca da esquerda, dita dos valores humanistas. Se não veja-se: a verdade é que apenas se podem dar quotas a quem é escolhido em função da sua diferença. Já pelo contrário, a verdadeira igualdade está em tratar-se as pessoas por igual independentemente de serem brancos ou pretos, mulheres ou homens, altos ou baixos, gordos ou magros. A verdadeira igualdade é a liberdade do estigma: é a indiferença perante a diferença. E é por essa razão que tanto as "quotas igualitárias" como as declarações do Sr. Arménio Carlos configuram um belo exemplo de como a maior hipocrisia vem sempre daqueles que se acham superiores aos demais: os mais racistas acabam por ser afinal aqueles que mais acusam todos os outros de racismo.
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UM DEMOCRATA
O Bernardino Soares vai ser candidato à Câmara Municipal de Loures. Eu, pessoalmente, sempre que oiço falar deste político bem falante lembro-me das suas dúvidas sobre se a Coreia do Norte não seria uma democracia e pasmo-me sobre a impunidade que paira sobre a esquerda radical em Portugal: alguém duvida que se fosse um distinto militante e deputado (!) do PSD ou do CDS a afirmar que tinha dúvidas sobre se o regime de Salazar não teria eleições "tão livres como na livre Inglaterra" que este veria a sua carreira política arruinada? No entanto, cá continuamos: os conspiradores anti-democráticos a concorrerem a eleições. Entretanto, na Coreia do Norte, há relatos de canibalismo e vivem-se vidas que não sabem que a vida pode ser diferente de um campo de concentração onde se vive e morre sem se saber nada acerca do mundo (ver entrevista da CBS aqui). E são os Bernardinos Soares os paladinos da democracia e dos oprimidos neste país? Só isso mostra muito porque estamos como estamos.
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O CIRCO
O "governo mais liberal de sempre" vai enfiar mais 42 milhões de euros na RTP e os contribuintes vão poder continuar a pagar pelos saltos do João Baião ou as piadas do Fernando Mendes. Tudo isto orquestrado pelo credibilíssimo Dr. Relvas, também ele um perito em saltos e piadas. Ao mesmo tempo, o socialista Tozé diz que o Governo é "ultra-liberal" e um crente no "Estado mínimo" pelo que ele, Tozé, é que deveria ser PM; isto, claro, para que Portugal "cresça". É, sem dúvida, uma bela anedota, também ela, obviamente subsidiada pelo contribuinte através das contribuições públicas para os partidos políticos. No final é uma festa - um circo - todo, todinho, pago pelo contribuinte, onde uns e outros alegremente saltam e brincam sem que se vislumbre, pelo menos nos presentes casos, um mínimo de consistência ideológica, coerência política ou profundidade (e honestidade) intelectual. O problema é que neste circo os palhaços somos mesmo nós.
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domingo, 27 de janeiro de 2013
IGUALDADES
A França anda em guerras imperialistas e colonialistas mas, como é o Sr. Hollande - esse arauto da nova esquerda europeia! - está tudo bem; o Sr. Carlos da CGTP chama "escurinho" ao representante do FMI mas, como o primeiro é da esquerda humanista e não racista e o segundo um malandro opressor capitalista do FMI, então está tudo bem e nem é notícia - nem sequer de rodapé! - nos principais jornais. Finalmente, uns quantos militantes do PS dão três ou quatro traques na ânsia pornográfica de voltarem a gerir o país que miseravelmente faliram e, em vez de serem ridicularizados ,temos já os jornais a enaltecerem as "propostas" (inexistentes) do Dr. Costa ao mesmo tempo que analisam compungidamente a sua "disponibilidade". É uma noção muito gira a da igualdade e neutralidade da esquerda jornalística. Espero para ver o que vai acontecer quando algum militante anónimo do PSD ou do CDS chamar "escurinho", por exemplo, ao Dr. Costa: talvez um cataclisma nacional e uma petição com milhares de signatários contra os fascistas da direita a clamar pela ilegalização desses partidos. Já a CGTP, essa organização profundamente democrática e tão útil ao avanço do país como um manual de cientologia, pode ter o seu líder a chamar "escurinho" a quem lhe apetecer sem que nada lhe aconteça. A verdade é que racismo, preconceituosismo e má-educação, por enquanto, só mesmo da esquerda radical mas se formos a ver os jornais portugueses ninguém diria. Malandros, malandros, só mesmo os "bandidos" da direita.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O HOMEM, A VERDADE E A LIBERDADE: O Caso Português
Está bastante na moda falar-se sobre "falhas de comunicação", principalmente no que concerne à política governamental. A este propósito gostaria de deixar aqui uma pequena reflexão sobre as dificuldades que o acto de comunicar, na sua génese, configuram para os indivíduos e como compreender esse facto obriga a uma série de conclusões sobre a vida comunitária.
Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.
Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já, por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.
Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.
É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.
É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.
O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.
Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.
O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.
O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.
Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.
(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221
Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.
Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já, por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.
Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.
É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.
É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.
O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.
Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.
O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.
O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.
Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.
(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221
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