terça-feira, 4 de junho de 2013

HIPOCRISIA

Roger Scruton, um perigoso conservador, avisa que numa sociedade socialista - onde a solidariedade é uma função do Estado - ninguém se tem que preocupar com o bem-estar dos que menos têm: o Estado que o faça, é para isso que pago impostos. Esse paradoxo do socialismo, onde a apologia do Estado-Social e o desprezo pela "caridadezinha" (Louçã dixit) andam de mãos dadas com o desprezo pelas mãos estendidas no meio da rua, é uma característica que desmascara que o valor da solidariedade não é mais do que um falso argumento que sustenta uma mera estratégia de poder. Entretanto, culpam-se os políticos e vira-se as costas aos problemas do agora: a solução está no futuro radioso pós-revolucionário. Entretanto, para cúmulo, ainda se critica quem, de facto, faz alguma coisa: a Isabel Jonet e o seu Banco Alimentar acabaram de recolher mais de duas mil e quatrocentas toneladas de alimentos para quem mais precisa. Onde estão agora as vozes hipócritas que tantos nomes lhe chamaram por apenas ter dito o evidente (que em casa onde há crise comem-se menos bifes)? E quantos desses, que foram tão lestos a mandar pedras, fizeram alguma coisa por quem mais precisa? E desses hipócritas que tanto desprezam os mais necessitados - apesar de advogarem a revolução em nome deles - quantos têm a capacidade de enaltecer alguém, como a Isabel Jonet, que indubitavelmente faz uma coisa boa? Falar é fácil, fazer é mais difícil. Pior ainda quando não lhes interessa.

sábado, 25 de maio de 2013

DO OPTIMISMO

Se se quer ter uma boa demonstração do intrínseco optimismo decorrente de uma quase inabalável crença no progresso tecnológico como algo inevitável e rápido basta pensar-se que a Odisseia de Kubrick passa-se em 2001 e a acção de Blade Runner em 2019. Até mesmo o cúmulo do pessimismo - a catástrofe distópica do fim da civilização - de Terminator previa que os computadores acordassem em 1997. Entretanto, em 2013, o vai-e-vem espacial foi descontinuado, o Concorde abatido, os carros não voam, as pessoas ainda comem e bebem (cada vez mais), a CDU continua com 10% dos votos e, imagine-se!, uma revolucionária alternativa ao papel higiénico ainda não apareceu. Futuro? Qual futuro?

NOTAS CONSERVADORAS E LIBERAIS

Algumas notas conservadoras e liberais (já antigas e agora compiladas) sobre as motivações e as consequências do excesso de legislação que publiquei no Folia do Caos: A Questão do Legalismo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

SHITTING LOVE


BUROCRACIA SAFA TOUROS

Esta notícia sobre dois touros que andam à solta nos montes de Viana enche-me as medidas: entre a bravura dos touros que lutam pela vida, o recorrer ao artifício manhoso do belo sexo (taurino) ou as burocracias das quinhentas entidades que têm que "supervisionar" o processo (e que impediram a sua resolução), nem sei o que mais gozo me dá à leitura. O Sr. Farinhoto, criador de gado há 50 anos decidiu reformar-se e, aos 66 anos de idade, estes foram estes os últimos touros que criou e vendeu. Diz-nos o DN que "esta tarde, depois da longa espera pela recaptura frustrada, acusava cansaço e desagrado pelo o complicado processo, previsto para este tipo de situação, que, já ontem, tinha admitido envolver muita 'burocracia'. 'Se forem avistados tenho que chamar a GNR e depois é preciso contactar várias entidades. Para coordenar tudo isso é difícil e os touros não vão esperar', adiantou." Não vão, pois não. Boa sorte aos touros, possam eles resisitir às tentações daquelas vacas com o cio que a burocracia estatista talvez seja o suficiente para que se safem.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

REVISING IDEALS


“The whole conception of man already endowed with a mind capable of conceiving civilization setting out to create it is fundamentally false. Man did not simply impose upon the world a pattern created by his mind. His mind is itself a system that constantly changes as a result of his endeavor to adapt himself to his surroundings. It would be an error to believe that, to achieve a higher civilization, we have merely to put into effect the ideas now guiding us. If we are to advance, we must leave room for a continuous revision of our present conceptions and ideals which will be necessitated by further experience. We are as little able to conceive what civilization will be, or can be, five hundred or even fifty years hence as our medieval forefathers or even our grandparents were able to foresee our manner of life today”.

F. A. Hayek, The Constitution of Liberty, 1960

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O MANTO SAGRADO





IN VOLUPTAS MORS


Photograph taken in 1951 by Philippe Halsman, a Latvian (USSR) photographer, featuring Salvador Dali and a skull formed by seven naked women. This famous image would later be used - quite unnoticeable - in the poster of the blockbuster hit film from 1991, The Silence of the Lambs.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

WORK AND PLAY

"Tom said to himself that it was not such a hollow world after all. He had discovered a great law of human action, without knowing it, namely, that, in order to make a man or a boy covet a thing, it is only necessary to make the thing difficult to attain. If he had been a great and wise philosopher, like the writer of this book, he would now have comprehended that work consists of whatever a body is obliged to do, and that play consists of whatever a body is not obliged to do. And this would help him to understand why constructing artificial flowers, or performing on a tread-mill, is work whilst rolling nine-pins or climbing Mont Blanc is only amusement. There are wealthy gentlemen in England who drive four-horse passenger-coaches twenty or thirty miles on a daily line, in the summer, because the privilege costs them considerable money; but if they were offered wages for the service that would turn into work, then they would resign".

Mark Twain, The Adventures of Tom Sawyer (1876)

A JOB FOR


quinta-feira, 25 de abril de 2013

O PROFESSOR MARCELO E O ESCRITOR CARREIRAS

Afirmo com muito à vontade: nem numa segunda volta renhida para a Presidência da República o Marcelo Rebelo de Sousa leva o meu voto. Da mesma forma como, já há muito, nem sequer oiço, leio ou vejo o seu "comentário", aliás, para mim, a cada vez que vai aparecendo, mais o seu valor se vai depreciando. Lembro-me, a propósito, de um episódio curioso: aquando da hipotética - por ele muito desejada mas não assumida - candidatura a líder do PSD sobre a qual o "comentador", apesar de afundado em excitados telefonemas a angariar apoios, afirmava que apenas aceitaria se essa fosse em lista única (um exemplo excelso de democracia e coragem política), um destacado dirigente do PSD confidenciava-me que o Marcelo sabia sobre tudo e parecia sempre um especialista, excepto quando calhava falar sobre alguma coisa sobre a qual o dito dirigente é que era especialista: aí, dizia ele, é que se via que afinal era muita parra e pouca uva. Também eu já o apanhei a dizer barbaridades sobre temas dos quais eu percebo mas este frete que agora resolveu fazer ao Carlos Carreiras ao prefaciar e apresentar de forma elogiosa o "livro" que congrega os paupérrimos artigos escritos por aquele no Jornal i (analisados aqui) é paradigmático: o Marcelo sabe muito bem o que é o "carreirismo", sabe muito bem o que são os interesses que com ele andam e sabe muito bem o que é o aparelhismo do PSD e o dano que causa ao país. No entanto, não deixa agora o "Professor" de ter o nervo de vir cantar hossanas a um homem e ao livro que, pelo que me contam, o próprio Carreiras, imagine-se a comédia, assumiu não ter sido escrito por si. Diz Carreiras que apenas deu as "ideias", uma confissão fantástica, afinal não sendo o "livro" mais do que uma colectânea de artigos do Jornal i, significa a revelação, obviamente, que os artigos de Carreiras até podem reflectir as suas (pobres) ideias mas nem sequer são escritos por ele. Não fico admirado com a revelação pois, considerando a pobreza das ideias, até era de suspeitar a clareza da prosa, no entanto, ficamos, pelo menos, a saber que a autoria da única coisa de jeito dos artigos é afinal alheia à pessoa que os assina: é um ás das ideias dos artigos, o Carreiras. Enfim, dá para rir. Já deste episódio, para além da patética confissão do mais recente escritor da nossa praça, não deixam também de sobrar duas conclusões sobre Marcelo e o seu apoio a Carreiras: a primeira, é que Marcelo é um jogador, como outro qualquer, que põe o seu interesse à frente do país; a segunda, é que por se presumir mais sério, independente e melhor do que os outros configura uma fraude ainda maior. Vê-lo vendido ao carreirismo faz-me lembrar, com a devida distância, o The Damned do Luchino Visconti que retrata a obscena, triste, quase pornográfica, forma como a aristocracia alemã, pelo seu próprio ego e olhando meramente para o seu umbigo, se deixa corromper e enlevar, acabando por abraçar o alastrante caruncho Nazi. Quanto a Marcelo, azar o nosso, pior para ele que há-de, fruto de tanta maquiavélica ambição, nunca realizar o seu sonho mais inconfessável: a liderança política do País. George Bernard Shaw dizia que quem consegue, faz, quem não consegue ensina: no caso do nosso "Professor" substitua-se o 'ensina' por 'comenta' e temos aí um belo epitáfio de uma carreira política que nunca aconteceu. Quando à "obra literária", e ao seu afinal não-autor, sobra apenas o ridículo. Que sejam todos muito felizes.

OUTRA JANELA

Gosto do Correio da Manhã ou, em Português vernacular, do "Correio da Manha", forma como já ouvi vários dos seus compradores a ele se referirem. Fazem jornalismo de investigação sério e desassombrado -  tal como deve ser - onde, ainda ontem, publicaram novas escutas do 'Apito Dourado' (a bem demonstrar que os dirigentes do FC Porto além de traficarem resultados também traficavam prostitutas, num ambiente de tamanha javardice que nem apenas a cadeia deveria ser suficiente). Também tem o CM alguns bons cronistas - destaco o João Pereira Coutinho - e, mais importante, gosto do CM precisamente pelas razões pelas quais as ditas elites gostam tão pouco dele: por reflectir o país real. Critica-se a demagogia sórdida dos crimes que fazem manchetes mas, para mim, o que é interessante no CM não é o crime sórdido em si mesmo mas, porque vende muitos jornais, aprender sobre o que consiste o sórdido que vende em Portugal: ler o CM, no meu caso de forma online, é uma janela aberta para a Portugalidade tanto no seu melhor como no seu pior. Hoje, por exemplo, congratulei-me pela captura do pérfido assassino do Sr. Estevinha, personalidade querida de Faro e ex-basquetebolista do Farense, nas "minhas" terras de Vila Nova de Milfontes; também segui com a devida atenção o capítulo de hoje da novela que tem sido a mirabolante e corajosa fuga do macaco Otelo (está bem, e recomenda-se, numa zona com muitos pêssegos - que ele muito aprecia - , tendo escapado com sucesso a uma matilha de cães - que ele não aprecia nada) tal como descobri, com assombro, que o Zeze Camarinha, não apenas é concorrente num programa televisivo como, inacreditavelmente, cortou o seu bigode. A queda de um mito! É um Portugal "moderno" este onde vivemos e o CM, melhor que qualquer outro jornal, manda-me pelo espaço cibernético um vislumbre de todo esse "chique". Desejo-lhes a todos muito boa sorte, principalmente ao Otelo, e amanhã há mais.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DÚVIDAS

Aquilo que mais dúvidas me causa é a noção de que o Governo passou os últimos dois anos a gastar ganhar tempo, deitando fora o apoio popular de que gozava em medidas provisórias ou gastando trunfos em coisas que nada tinham que ver com a salvação da pátria - como foi o caso do Dr. Relvas, por exemplo - e que, agora, repentinamente, a propósito do chumbo do TC, como que por milagre, lá virão as reformas do Estado. Curiosamente, planos de reforma da educação, segurança social ou função pública não se conhecem. No mínimo, convenhamos, dá para duvidar. A dúvida é, precisamente, descortinar se o discurso são apenas palavras para ganhar gastar mais tempo ou se a noção de "reforma" é apenas cortar a eito na despesa do Estado e na função pública. Porque não o deveria ser: reformar é fazer melhor, gastando menos dinheiro e não se pode andar a mandar funcionários públicos para a rua, por exemplo, sem que se explique muito bem ao país o que se anda a fazer nem quais os objectivos ou estratégias em que as medidas gravíssimas que se avistam serão tomadas.

O IMPASSE

A verdadeira reforma do Estado será, provavelmente, inconstitucional ou, pelo menos, passível de ser interpretada como inconstitucional pelo Tribunal Constitucional. Ora, tal impasse apenas pode ser desbloqueado mediante a inclusão do PS na solução da questão e, considerando a irresponsabilidade socialista, augura-se tudo menos alguma coisa de boa. O que sobra? Os credores, pois claro. E a miséria.

O REFORMISTA

O discurso de Passos Coelho no Domingo passado foi muito bom: assumiu que não quer subir mais impostos e que é imperioso reformar o Estado. Muito bem. A única questão que sobra - e aquela a que o nosso PM não respondeu - é por que razão apenas agora se tornou imperativo reformar o Estado? Queria ir lá com "medidas extraordinárias"?

A PAREDE

O problema das paredes é apenas um: não se movem. Pode ser uma boa parede, uma má parede ou uma parede mais ou menos: ela não vai sair do sítio. Já o condutor que bate na parede, sendo ele mais ou menos experiente, tendo ele mais ou menos razão, só evita a parede se mudar de curso. Ponto final. Portugal está, desde há muito, em rota de colisão com uma parede: ao gastar sucessivamente durante as últimas décadas mais do que produz e recorrendo à emissão de dívida para pagar a diferença, era apenas uma questão de tempo até atingir uma situação em que, não tendo condições de pagar a gigantesca dívida que criou, das duas, uma: ou passa a consumir menos ou passa a produzir mais. Ora, para produzir mais é preciso ter uma economia livre, coisa que Portugal não tem, nem nunca teve  - e razão pela qual consome mais do que produz - logo a única solução imediata face às exigências dos credores internacionais passa por consumir menos. O que é consumir menos? Gastar menos em educação, saúde e nas prestações sociais, tais como subsídios de desemprego ou reformas. Neste momento, ocupam-se os portugueses a gritar como a parede é má, feia e terrível mas cada um não quer abdicar do seu consumo habitual (que tal como todos tem que baixar) logo, lamentavelmente, a barafustar com a realidade lá vamos aos berros correndo rumo à parede. Aquilo que, pelos vistos, ainda não se aprendeu em Portugal são duas coisas que deveriam ser evidentes: primeiro, que se não há dinheiro não há palhaços; segundo, que as consequências do embate na parede serão muito piores do que os sacrifícios necessários para nos desviarmos do obstáculo.

sábado, 6 de abril de 2013

A ESPERA - PARTE II

Ontem esperávamos pelo "acórdão"; hoje, pelo "conselho de ministros extraordinário". A Passos Coelho sobra uma opção válida: apresentar ao país um plano de reforma do Estado claro, conciso e com metas bem estabelecidas. Ao mesmo tempo, é também necessário um plano, igualmente claro e conciso, sobre as negociações e cortes que prevê efectuar ou aplicar às rendas imorais que o Estado vai pagando aos diversos interesses do regime. O erro de Passos Coelho foi não fazer isto desde o início quando o "estado de graça" ainda podia ajudar a coisa. Agora, acossados contra a parede, duvido da capacidade de pôr em prática as reformas que são fundamentais. De qualquer forma, ou apresenta um plano de reforma e corte da despesa do Estado ou, se é para andar meramente a subir os impostos, para isso, o Tozé serve muito bem e mais vale pedir a demissão dando o lugar no PSD a alguém que efectivamente queira afrontar o "sistema".

LÓGICA IMBATÍVEL


DOS RATOS

Parece-me estranhamente adequada a semelhança onomatológica entre o Largo do Rato, o palácio Ratton e uns certos mamíferos roedores.