terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DEZ

Bem lembrado pelo meu amigo João, cumpre-me anunciar ao mundo cibernético que este blog fez em Outubro dez anos de existência. É qualquer coisa, sim senhor.  Fica um obrigado àqueles que o vão seguindo e um compromisso: enquanto houver estrada para andar, enquanto houver ventos e mares, a gente cá vai continuar. Fica a esperança que por muitos mais anos ainda.

FAMILY NAME


MUNDOS DIFERENTES, MUNDOS IGUAIS

Ele, pela cozinha, anda de volta do medronho, da aguardente e do açúcar, atarefado com um funil improvisado e um garrafão de cinco litros, tudo isto para fazer um licor. Ela entra na cozinha e exclama mal impressionada: "xiii, que cheiro a bagaço!". Mais tarde, ela, pela sala, ao som da rádio, anda de volta dos dedos dos pés, do verniz e da acetona. Ele entra na sala e exclama desagradado: "epá, que cheiro a acetona!" E isto é o tão igual quanto o que é diferente poderá algum dia ser igual.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

UM BÓLIDE ESPECIAL

Tenho um carro novo: descapotável, encarnado, ultra ecológico e, considerando as primeiras impressões, fácil de conduzir. Estou desejoso de levá-lo para dar uma volta e, como se comprova na fotografia, vou certamente fazer sucesso por essa estrada fora.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O ETERNO RETORNO

"Um dia um certo número de indivíduos reúnem-se na praça pública:
Concorre a gente.
E começam a gritar:
A gente apinha-se.
Uma terça-parte garotos e vadios,
Outra, mulheres,
O resto, gente que vem ver - para rir - julgando que serão bêbados.
Ora um destes indivíduos sobe aos ombros dos outros e diz:
- O Povo geme! -
A multidão agita-se.
- A Liberdade é um direito santo!! -
A multidão freme.
- O Povo quer ser livre!!! -
A multidão urra.
- Derrubemos os tiranos!!!! -
A multidão rui.

Ora, outros indivíduos estão reunidos numa grande casa e dizem:
- O povo geme -
Logo, aumentem-se 5 por cento.
- A liberdade é um direito santo -
Logo, venha a censura.
- O povo deve ser livre -
Logo, triplique-se o exército
etc. etc. etc.
Outros aplaudem, e um copia estas falas num grande papel, que se imprime, consta, que para desfeitear a gramática.
Há quem boceje.

Enquanto isto se passa, o rumor dos homens da praça aproxima-se: os da casa, ouvindo-os fecham as portas; os outros bramem fora.
Nisto, outros homens vestidos de furta-cores apresentam-se e marcam passo.
Depois, ao toque dum instrumento de latão, e caindo sobre os outros, disparam vários tiros para o ar.
Alarido e confusão.

Temos aqui dous casos a considerar.

Se os primeiros levam a melhor neste exercício, abraçam-se uns e outros, grita-se muito, consome-se mais vinho; surgem Demóstenes, saqueia-se, arromba-se.
- E diz-se que o Soldado fraternizou com o Povo em nome da liberdade: viva o Povo e o Soldado! -
Há luminárias no Palácio da Câmara Municipal.
Os homens da casa grande evacuam a sala: os da praça tomam-lhes os lugares e começam a entrar na grande via das reformas.
Do seguinte modo.
- O povo gemeu -
Logo, aumentem-se 10 por cento.
- A Liberdade foi um direito santo...-
Logo, venha a censura e a multa.
- O povo deve ser livre -
Logo, tripliquem-se o exército e os cabos da polícia.
Outros copiam e imprimem, para pregar uma peça à gramática e ao senso comum.
Muita gente dorme; alguns ressonam.

Se os segundos (os da casa) levam a melhor, então passam-se as cousas dum modo muito diferente.
Arromba-se, saqueia-se, surgem Demóstenes, consome-se mais vinho, grita-se muito.
Os da casa dizem: «o Governo destruiu as 100 000 cabeças da hidra fatal da anarquia: fez reinar a ordem como convém a um governo forte, amante duma bem entendida liberdade: viva o Povo e o Soldado!» -
Além de tudo isso:
Põe luminárias o Palácio da Câmara Municipal.

Ora, no primeiro caso, os homens da casa grande vão para a praça pública.
E dizem:
- O Povo geme! -
- A liberdade é um direito santo! -
etc. etc. etc.
Apinha-se gente; vêm os furta-cores; tiros no ar; alarido e confusão.
Se são vencidos diz-se: - Reina a ordem em despeito da anarquia: viva o Povo e o Soldado! -
Se o contrário - A Liberdade derrubou ainda mais uma vez a fortaleza da infame tirania: viva o Soldado e o Povo! -
etc. etc. etc. e assim seguidamente.
Ora, a tudo isto se chama Ciência Política, ou arte de administrar os interesses gerais.
Em proveitos dos próprios."

Antero de Quental, O que toda a gente vê ou a política numa lição, 1861

A TÁCTICA DO COSTUME

Aparentemente, o Primeiro-Ministro convidou Rui Rio para liderar o banco de fomento que o Governo pretende criar. Sobre isto três breves notas: primeiro, não é difícil de ver que este convite tinha uma intenção política: a de integrar no sistema um perigo à liderança do PSD. Segundo, assim se vê como os políticos gerem o Estado: com o olho sempre posto no seu interesse particular. Finalmente, não deixa de ser emblemático - e sintomático - que um Passos Coelho na oposição falasse de como seria importante a privatização da Caixa Geral de Depósitos para agora, uma vez no Governo, não só não privatizar Caixa nenhuma como ainda criar um segundo banco público. Deve ser o tal liberalismo de que tanto falam.

MICROMANAGING

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

PARADOXOS

Não deixa de ser curioso que aqueles que mais se  opõem ao suposto capitalismo em que vivemos tendem a ser os mesmos que mais criticam os políticos que temos. Paradoxalmente, a solução desses críticos passa sempre por exigir mais poder para o Estado (mais regulação, mais esta ou aquela lei, gritar contra as privatizações, etc.), ou seja: querem eles dar ainda mais poder a quem tem o negócio de gerir o Estado, precisamente os tais políticos que eles tanto criticam.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O QUE VALE PARA O RESPEITO VALE TAMBÉM PARA O ÓDIO


“É verdade que entre nós também alguns há que têm mais do que os outros. Honramos, assim, o chefe de tribo que possui mais esteiras e mais porcos. Mas o respeito que lhe testemunhamos é devido à sua pessoa e não às suas esteiras e aos seus porcos, que nós mesmos, aliás, lhe oferecemos como alofa, a fim de lhe exprimirmos a nossa alegria e louvarmos o seu ânimo valoroso e o seu espírito lúcido. O Papalagui, esse, tem respeito pelo grande número de esteiras e de porcos que o seu irmão possui, e não pelo seu valor e inteligência, que não lhe interessam para nada. Não tem por assim dizer nenhum respeito por um irmão que não possua esteiras nem porcos.”

Discursos de Tuiavii, Chefe da Tribo de Tiavéa, na ilha Upolu, Samoa, 1919 in O Papalagui (1987)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

POBRES HÁ MUITOS MAS HÁ UNS QUE SÃO MAIS POBRES DO QUE OUTROS

Uma das vantagens de se viver aqui por estas bandas é de facto estar-se perto da acção: em três fins de semana, de carro, andámos por Antuérpia, Maastricht, Aachen, Bona, Colónia e Paris. Com a excepção parisiense, uma coisa é estranhamente comum a todos esses locais: os preços dos transportes, dos supermercados ou dos bares e restaurantes de baixo custo são apenas ligeiramente mais elevados do que os portugueses. No entanto, os salários daqui , principalmente os médio-baixos, duplicam, quando não triplicam, os que são praticados em Portugals. É aí que está a qualidade de vida. O ponto aqui é que, ou os portugueses ganham muito mais do que se diz, ou são explorados por um mercado que, controlado por forças obscuras, perverte o preço óptimo que as pessoas deveriam pagar, ou uma mistura de ambas. No final a conclusão é que ser pobre em Portugal é muito mais complicado do que no norte da Europa.

A DISPUTA ATEIA

Deixo aqui um pequeno artigo que escrevi e que procura resumir o essencial da disputa ateia alemã (1798-1800). Nas ideias de Fichte, Jacobi e Reinhold discutem-se os conceitos de ordem e - principalmente - de substância, numa fascinante procura de resposta para uma pergunta que sempre perseguiu, e persegue, a humanidade: no que consiste Deus? No Folia do Caos.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

EM CHATELAIN

Hoje, Quarta-Feira, é dia de mercado em Chatelain, Bruxelas.Para além das normais bancadas de bugigangas, roupas, etc., aquilo que distingue o típico mercado flamengo são as iguarias: todo o tipo de queijos, patês, enchidos, tapenades, frutos ou vegetais, tudo o que se possa imaginar. Ao mesmo tempo a apresentação das montras é sempre charmosa e cuidada. Espalhadas pelo mercado estão também bancadas com provas de vinhos e comida pronta-a-comer. Um chique. Entretanto, hoje - graças ao que apanhámos no mercado - para jantar, após o Benfica, vamos ter: saladinha de polvo, azeitonas com basílico e alho, um chévre au lait cru, isto para as entradas, e uns tortelini au fromage trufée como prato principal. Não me parece mal. Para comprovar que afinal os bárbaros do Norte até se sabem tratar bem no que que concerne à culinária aqui fica a reportagem fotográfica da nossa ida ao mercado hoje.
     
                                    































segunda-feira, 14 de outubro de 2013

INFALLIBLE PLAN


CIVILIZAÇÃO

Fui roubar aqui ao João esta preciosidade:

"Tu, qu'inventaste as Sciencias e as Philosophias,
as Politicas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectaculo...
Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...
Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho-Maritimo da India
e as duas Grandes Américas.
e que levaste a chatice a estas terras.
e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
pr'a te chateares também por debaixo d'agua...
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres...
Tu consegues ser cada vez mais bêsta
e a este progresso chamas Civilização!"

José de Almada-Negreiros, A Scena do Odio (1915)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A VERDADEIRA OPÇÃO

Sobre a questão dos estatutos do PSD e as candidaturas independentes deixo aqui já um breve, e rápido, apontamento sendo certo que voltarei com mais profundidade a esta questão quando tiver tempo nos próximos dias. No Folia do Caos escrevi eu que:

"O triunfo da norma geral e abstracta deriva no legalismo quando se defende a ideia de que a lei tudo consegue definir. Sendo aquela soberana e fundamental, o momento em que tudo na vida das pessoas passa a ser regulado por ela não traz apenas benefícios: pelo contrário, também faz com que se escondam os piores comportamentos por detrás da capa da legalidade. Ao mesmo tempo, num mundo onde tudo se regula, passando o bom e o mau a serem identificados com o que está de acordo ou contra a norma, assume-se que se a lei não proíbe determinado comportamento então, independentemente de ser bom ou mau, aquele é aceitável. Da mesma forma, se o comportamento é considerado ilegal, então ele é mau. (...) A consequência é que, passando o ónus da soberania meramente para a lei, sendo esta aquilo que verdadeiramente nos rege, deprecia-se o instrumento que é o discernimento humano ético e moral: eu não tenho que pensar se o comportamento A ou B é certo ou errado, apenas me interessa se ele é legal ou não. Ou seja: o legalismo positivista excessivo tenderá a gerar uma sociedade amoral que se preocupa com comportar-se de acordo com as leis e não em seguir uma conduta ética e moral que entenda como boa".

Guarde-se a ideia e, considerando que o Presidente da Distrital de Lisboa do PSD (detentor de um curriculum ético e moral tudo menos recomendável) depois de ter rebentado com o poder autárquico do PSD no distrito de Lisboa, anda aí de espada na mão e exigir expulsões,  a questão que os militantes do PSD se deverão colocar será precisamente sobre quem mais respeita a ética e os valores verdadeiramente matriciais do PSD. Assim, serão os independentes que inclusive granjearam fielmente interpretar o sentimento do povo, chegando mesmo a ser por este positivamente sufragado onde enfrentaram o partido, que são uns malandros? Ou serão os caciques de algibeira que de tacho em tacho tanto percebem da alma social-democrata que viram as suas opções derrotadas pelo mesmo povo em toda a linha? Quem será que faz pior ao PSD? Aqueles que apesar do PSD continuam a lutar por um povo que neles se reconhece? Ou aqueles que com o seu caciquismo amoral pervertem o PSD guiando-o à derrota? Escolha o PSD a segunda opção e acabarão sozinhos os caciques a terem votações de 13% a nível nacional como o tiveram em Sintra.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

FUTUROLOGIA


                                        Como em 1925 se imaginava uma cidade em 1950.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

RESPONSABILIDADES

Os senhores da distrital de Lisboa do PSD já se demitiram?

A POSTERIORI

Alguns apontamentos sobre os resultados eleitorais de ontem:

1. Em Oeiras, um ex-inspector da Polícia Judiciária foi encavado por um indivíduo que foi festejar para a prisão da Carregueira. Esta contada aqui na Flandres e ninguém acredita.

2. No Porto, ganharam as boas contas contra o despesismo populista que vinha do outro lado do Rio. Esta contada aqui há uns dias atrás e também ninguém acreditava.

3. Em Sintra, o PSD de Lisboa e nacional fartaram-se de gerir a câmara e resolveram deitá-la fora.

4. Em Gaia, o PSD achou melhor, já que perdia o Porto, deitar fora a câmara também. Resultado: o independente que candidatou ficou taco a taco com o social-democrata independente... no segundo e terceiro lugar.

5. Entretanto, em Loures, prepara-se a ditadura do proletariado.

6. No Alentejo, é a CDU quem mais ordena.

7. Em Lisboa, a máquina do PSD levou uma tareia monumental: valeram mesmo a pena todos os processos legais contra a lei de limitação de mandatos para impor uma candidatura que teve 22% dos votos? Se há inabilidade e amadorismo evidente em política este é um exemplo evidente.

8. Em Faro, o povo não ficou assim tão zangado com o partido do Macário e não deu a vitória ao PS.

9. Em Braga, o outro Rio finalmente ganhou.

10. Na Madeira, não se ouviu João Jardim.