terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A MOÇÃO QUE NÃO FOI


Fui eleito delegado ao próximo congresso nacional do PSD com o intuito de nele apresentar uma moção sobre qual entendo que deve ser o posicionamento político do PSD. Nesse intuito, a minha pretensão foi apoiada por diversos amigos e companheiros militantes do PSD. Devo dizer que já por duas vezes apresentei moções em congressos do PSD. Nessas alturas, salvo erro 2002 e 2005, para entregar a minha moção, precisei de recolher, em ambos os casos, a assinatura subscritora de vinte delegados (sendo eu um deles). Desta feita, e julgo saber que já há algum tempo assim é, o regulamento do congresso exigia cinquenta assinaturas subscritoras e, mais relevante ainda, que essas assinaturas fossem exclusivas, ou seja, que os cinquenta delegados que subscrevessem a minha moção não poderiam subscrever mais nenhuma. Ora, deixo aqui duas considerações: primeiro, que é absolutamente ridículo que se exijam assinaturas para moções sectoriais em regime de exclusividade. Então, imaginemos, se eu subscrever uma moção sectorial que louve o trabalho dos bombeiros estou impedido de subscrever uma outra que fale de estratégia política? Por que razão? A exclusividade aceita-se onde a aprovação de uma moção implique a rejeição das alternativas mas não é esse o caso aqui: moções sectoriais podem ser adversas mas também podem ser complementares ou simplesmente não relacionadas entre si. Claro está, e este é o meu segundo ponto, que exigir mais do dobro das assinaturas que se exigiam antes e, ainda, forçar a uma ridícula exclusividade limita seriamente a capacidade de um militante de base apresentar uma moção no congresso. Assim foi o meu caso, onde essa dificuldade, ainda por cima adicionada à disponibilidade limitada própria de quem não vive da política, não me permitiu o meu ensejo de angariar as necessárias cinquenta assinaturas. É a vida. Acrescento ainda que o regulamento permite que as comissões políticas distritais apresentem as suas moções, bastando para isso aprovarem-nas nas suas assembleias distritais. Não será difícil de adivinhar que os moções sectoriais servirão, provavelmente, para os senhores presidentes das distritais discursarem deixando os militantes de base onde devem estar: na bancada. Assim vai o PSD, o partido que um dia foi das bases mas que hoje é do aparelho. Quanto à moção, na impossibilidade de vê-la discutida no congresso, aqui fica ela.









Liberdade e Responsabilidade
Uma Social Democracia para o Século XXI
Moção ao XXXV Congresso Nacional do PPD|PSD






1º Subscritor: Nuno P. R. Freire dos Santos Lebreiro, N.º de militante 37698





Lisboa, 21, 22 e 23 de Fevereiro de 2014



I
Portugal atravessa hoje um dos momentos mais difíceis da sua história recente, seguramente o mais difícil da contemporânea história democrática. O grau de dificuldade da situação é de tal modo elevado que o temor de que as instituições democráticas possam estar, a prazo, em perigo não é de todo injustificado. É, por esta singela razão, absolutamente fundamental um correcto diagnóstico da situação – o porquê de estarmos como estamos – bem como de uma consequente, assertiva e clara proposta de solução – o como sair da situação.
Ao contrário da versão mediática mais popular, as causas do nosso predicamento, apesar de também o serem, não são apenas económicas. Por um lado, é bem verdade que temos um Estado que consome muito mais do que aquilo que a produção dos portugueses é capaz de pagar. Assim sendo, as necessidades de financiamento do próprio Estado foram gerando défices acumulados que só podiam ser sustentados através da emissão de dívida. Tal levou a um nível de endividamento público tão elevado que, tornando-se demasiado avolumado para as expectativas de capacidade de pagamento futuras, se revelou impossível de se gerir, normalmente, nos mercados internacionais. O Estado atingiu, portanto, a falência: não conseguindo obter financiamento internacional, não apenas para a dívida que acumulou mas, também, para o seu normal funcionamento (sem financiamento internacional as despesas nunca poderiam ser superiores à receita no imediato). No entanto, por outro lado, também é verdade que a economia é uma actividade própria dos seres humanos e quando aquela apresenta resultados insatisfatórios – como é o nosso caso – a responsabilidade só pode ser assacada a estes. A génese do nosso problema é, por isso, naturalmente, política: se somos os reponsáveis pelo nosso destino colectivo cabe a nós também assumirmos as responsabilidades do falhanço que siginifica a falência económica do nosso país. 
A presente moção tem dois objectivos: primeiro, uma explicação racional e fundamentada para as verdadeiras causas do momento que vivemos nos últimos dois anos; segundo, mostrando que os valores fundamentais do PPD|PSD, bem como a visão que este tem para a sociedade portuguesa, são diferentes – e opostos – àqueles que nos trouxeram a falência, assumir-se que é precisamente através da firme e corajosa afirmação desses mesmos valores que será possível romper com o status quo e, por intermédio de importantes reformas, verdadeiramente estruturais, proceder à imperiosa regeneração de Portugal.

            II
Portugal tem seguido nas últimas décadas um modelo estatista de desenvolvimento cuja ontologia é uma concepção socialista do mundo e da sociedade. Para esta visão, o colectivo é capaz de descortinar uma solução para a sociedade e deve, por isso, sobrepor-se ao indivíduo. Este, menorizado, é tido como alguém que não é capaz de vislumbrar por si próprio o que uma elite dirigente esclarecida consegue descortinar. É, por essa razão, o Estado, como expoente máximo do poder político,  que deve regular, dirigir e “mandar” na vida social. Para esta interpretação do mundo, herdeira última da concepção racionalista, existe sempre uma solução para todos os problemas dos homens e, de alguma forma, é possível acalentar a esperança de atingir essa solução permitindo que todos os cidadãos, por igual, possam viver em paz, segurança e prosperidade ao mesmo tempo e sem conflito sob a mão segura e infalível que lidera os destinos da sociedade. É a visão contemporânea – e sucedânea – do ideal utópico que, inspirado por idealistas como Fichte ou Hegel, guiou Marx e Engels, bem como os seus seguidores mais moderados, à crença no progresso como solução do dilema humano. Deve então, para esta visão estatista da sociedade, o Estado assumir uma lógica de engenharia social, dirigir a sociedade rumo ao “progresso” que se vislumbra no horizonte e implementar o “avanço” da sociedade que apenas os iluminados (a tal elite dirigente) têm a fortuna de conhecer. Por esta razão, o epíteto ‘socialismo’é mais do que apropriado para descrever o paradigma em que vivemos: um paradigma de dirigismo e intervencionismo estatista liderado por uma elite que pensa conhecer melhor o que a sociedade necessita do que os próprios indivíduos que a compõem. Tal conduz a um Estado que se sobrepõe ao indíviduo e a um modelo de um Estado que condiciona fortemente a liberdade.
        
            III
O ideal socialista que tem conduzido Portugal assumiu uma forma mais moderada, o chamado socialismo democrático, mas não deixa de configurar o anseio de caminhar para uma sociedade livre de desigualdades, discriminações e conflitos. Aliás, todo o discurso do politicamente correcto que impera no espaço público espelha precisamente isso. Infelizmente, a vida não é assim. Não apenas é impossível que o Estado garanta a felicidade aos seus cidadãos, como o conflito e a desigualdade configuram a natural base da sociedade. No primeiro caso, deveria ser uma questão do mais elementar bom senso perceber que a prosperidade não se decreta: e considerando que o Estado não cria riqueza (apenas distribui a riqueza criada pelos indivíduos) então torna-se penosamente óbvio que o excessivo peso do Estado apenas resulta em menor riqueza para distribuir pelos restantes indivíduos – os cidadãos. Ao mesmo tempo, uma sociedade excessivamente “garantista” tenderá a gerar comportamentos menos empreendedores por parte dos indivíduos, gerando consequentemente menos riqueza para distribuir. No segundo caso, tem que ver com a interpretação que se faz da natureza humana: a concepção socialista, assente no princípio de Rousseau do bom selvagem, estabelece que os conflitos sociais são resultantes de um sistema social ineficaz e perverso. Tal premissa resultou em diversas experiências sociais durante o Século XX, onde se intentaram diversos sistemas sociais alternativos ao das democracias liberais baseadas na liberdade individual e no modelo da propriedade privada. A História demonstra como todos eles – sem excepção! – resultaram em miséria, violência e opressão mortífera. A verdade é que a vida dos homens não é “justa” ou, um termo mais correcto seria dizer “perfeita”, porque o sistema social que nos rege é injusto ou imperfeito. Pelo contrário, o sistema social que nos rege revela-se imperfeito, ou “injusto”, porque a vida é imperfeita e porque as injustiças fazem parte da vida. De facto, os indivíduos, num mundo onde os bens são escassos, concorrem por estes, obrigando-se à competição, ao conflito e à desarmonia. Nem todos podem ser vencedores. A busca da felicidade compete assim a cada um desses cidadãos, porque numa sociedade que não pode garantir tudo a todos, não pode competir ao Estado a escolha sobre que resultado final se pode exigir. Apenas poderá caber ao Estado garantir que haja um mínimo de igualdade no ponto de partida, bem como de oportunidades, para que cada indivíduo possa lutar pelo seu futuro como muito bem entender.
Precisamente a noção fundamental aqui é a de que são os indivíduos que têm que perseguir os seus desejos, garantir os seus sucessos e assumir os seus riscos porque apenas eles podem saber – e portanto decidir por si próprios – qual o seu particular caminho da felicidade. Num mundo onde nem todos – na verdade ninguém – podem ter tudo aquilo que querem, a responsabilidade das escolhas deve residir ao máximo naqueles que sofrerão as consequências dessas mesmas escolhas: os cidadãos. E não há nada que o Estado possa fazer para alterar este processo a não ser garantir que aqueles a quem o infortúnio, o azar ou simplesmente um destino menos feliz bateu à porta tenham uma vida condigna e vejam as suas necessidades básicas satisfeitas.
O socialismo estatista não deixa, portanto, de ser uma quimera; pior: uma quimera que, precisamente por ser inconcretizável, se torna perigosa para a protecção dos fundamentais valores da liberdade e da democracia: em busca do impossível (uma sociedade libertada das desigualdades e conflitos), corre-se o risco de perder-se o possível (uma democracia livre e próspera).
O Estado, convém não nos esquecermos, é composto por um conjunto de cidadãos e estes, apesar das possíveis boas intenções, não são mais do que singelos seres humanos – imperfeitos por natureza, portanto. Por esta razão, esperar que o Estado seja capaz de proporcionar uma solução para as desigualdades e discriminações da sociedade é um desejo tão impossível de ser satisfeito como a inocente – e perniciosa – ideia de que o Estado pode, ou deve, ser o motor da sociedade. Uma sociedade comandada pelo Estado significa termos os cidadãos comandados pela elite que controla o Estado.  E esse é o caminho da redução da liberdade, uma liberdade preterida em nome de desíginios que não existem, nem poderiam existir, porque são contrários à natureza humana. No entanto, essa é a mensagem que o Estado socialista vende aos cidadãos convencendo-os, através da retórica, de que é possível que todos tenham, por igual – e de uma forma mais facilitada do que se tivessem que fazê-lo por si próprios – a sua felicidade material.
No modelo socialista, o Estado será sempre, ele próprio, um foco de desigualdade e de perversão na sociedade: quem – quer seja por amizades, compadrios ou actos ilícitos – ganhe um acesso preferencial aos serviços e bens públicos é injustamente beneficiado face a todos os outros.  A isso chama-se corrupção e tem enriquecido muita gente (principalmente através do Estado) em Portugal. Assim, o Estado não deverá ser aquele que desenha e conduz a sociedade por inteiro, mas sim aquele que garante um acesso equitativo a direitos e oportunidades mínimas para todos, bem como aquele que protege aqueles que, na sociedade, por uma ou por outra razão, têm menos. A esta preocupação social chamamos o Estado Social: Estado Social o qual é posto em causa, não por aqueles que o querem reformar mas, paradoxalmente, por aqueles que falando demagogicamente em seu nome o fazem perigar por não o conseguirem gerir de forma sustentável: é precisamente para  salvar o Estado social que se torna imperioso reformar o Estado. E essa é a principal distinção entre o Estado Social que existe para as pessoas e o Estado socialista que, em nome das pessoas, vive por sua conta.

            IV
O fundamental é, pois, compreender que é da acção individual em busca da felicidade que se constrói a riqueza de uma sociedade: é o trabalho que gera valor. São os indivíduos, em liberdade, na perseguição da sua própria felicidade que geram a riqueza de uma sociedade porque são eles apenas que conseguem criar valor (o Estado apenas (re)distribui). E quanto mais rica for uma sociedade melhor vivem – todos – os seus cidadãos e mais oportunidades há para que aqueles que menos têm possam passar a viver melhor no futuro. No entanto, o Estado socialista prometendo precisamente aquilo que não pode cumprir (garantias de uma vida feliz e uma falsa igualdade) pretende impor um ideal de justiça utópico que implica redesenhar a sociedade por completo estagnando, dessa forma, o crescimento, dificultando a ascenção social e forçando a uma igualdade que, derivada da estagnação e deteoração económica, é nivelada, a cada momento que passa, cada vez mais por baixo.
Ao ter a ilusão de resolver todos os conflitos com uma solução perfeita, ao pretender tudo regular visando uma pretensamente alcançável igualdade social ou ao, simplesmente, de forma abusiva, decidir que pode livremente tirar a uns para dar a outros, visando critérios arbitrários rumo à tal sociedade igualitária, justa e perfeita, cria no Estado um verdadeiro monstro burocrático e voraz que consome a riqueza dos cidadãos sem acrescentar qualquer valor. O destino do socialismo, como a História o confirma, é uma sociedade dirigida, vergada e organizada em função de um determinado ideal inconcretizável e imposto por homens sobre outros homens. Um fardo, portanto, que os indivíduos têm que carregar, pagar e que os impede de perseguir a sua própria felicidade.
 Pode o socialismo contemporâneo ser menos violento do que os seus predecessores e assentar a sua legitimidade na democracia eleitoral, mas não deixa de configurar um ineficaz sistema de organização social que oferece àqueles que o controlam precisamente um mais efectivo poder sobre a sociedade. Pode o socialismo contemporâneo basear-se na propaganda e na ilusão populista ao invés da força das armas mas o princípio ontológico que o justifica continua a ser o mesmo: que os dirigentes sabem melhor do que os dirigidos o que estes querem – ou precisam – para si próprios. É por esta razão que quanto mais forte o Estado, mais fraca a sociedade. E quanto mais forte o Estado e mais fraca a sociedade, mais grassam a corrupção, a impunidade dos poderosos e, apesar da retórica anunciar o oposto, a desigualdade de facto perante a lei: como Orwell lembra, todos são iguais mas uns são mais iguais do que outros. Pode o socialismo contemporâneo disfarçar-se de um paternalismo benevolente – muito ao estilo salazarista quando bem analisado – mas não deixa de apresentar, como Hayek bem o demonstra,  as consequências que todos os modelos políticos centralizados sempre tiveram: a falência.
O socialismo contemporâneo, com o seu centralismo estatista, pelas razões supra citadas, não deixa de ser o que sempre foi: o aproveitamento de uns à custa de outros. A este aspecto já aludia, em 1868, um insuspeito Antero de Quental quando afirmava que

“o funcionalismo é pois o triunfo da centralização, a sua expressão mais completa, e pode sem ironia dizer-se que uma nação centralizada não chega à sua plenitude, não é, por conseguinte, perfeita, enquanto uma metade dos cidadãos não estiver constantemente ocupada em vigiar, governar e corrigir a outra metade... Mas toda essa gente vive: vive, absorve... e não produz. A ruína das nações centralizadas começa por aqui. Não há relação entre o que sai do trabalho e o que exige o consumo. Para acudir às necessidades do dia é preciso hipotecar o futuro. Mas o futuro há uma hora em que chega a ser presente, e nessa hora aparece por tal forma enfraquecido e sobrecarregado, que já para viver precisa pedir a um outro futuro mais longínquo o dobro e o triplo do que lhe tinham pedido a ele. Eis a progressão terrível da dívida pública! ... É neste momento que o fisco, até ali simples organismo como os outros, se desmascara e deixa ver o monstro cruel, tirânico e disforme que é realmente. Nesse momento de brutal fraqueza, toda a política se resume numa única palavra: dinheiro!"[1]

Como se vê, a falência actual não significa apenas a falência de uma governação e de um modelo económico: significa a falência de todo um modelo filosófico, um modelo de organização social que nos últimos duzentos anos apenas foi bem sucedido em Portugal a expensas da democracia. Este é o verdadeiro perigo que enfrentamos hoje: que a insistência num paradigma errado ponha em causa, por força da pobreza generalizada, a própria natureza democrática do nosso regime. O problema é que é o paradigma que tem que ser mudado: mudar de dirigentes e manter o modelo estatista apenas evita, com maior ou menor eficácia, um colapso anunciado e inevitável.

            V
Aquilo que importa compreender na actual situação é que estamos numa circunstância circular: a crença inusitada na solução estatista, e o consequente reforço do papel e poder do Estado como instrumento de se atingir tal solução, leva a uma situação onde a cada precalço lá vem o Estado legislar e, a cada infortúnio, lá vem o Estado garantir que tal não se repita. Mas, na verdade, é o cada vez maior peso do Estado que configura a principal causa dos actuais problemas em que vivemos e, por esta razão, presos a um paradigma que interpreta de forma errada o mundo, abraçamos assim a verdadeira causa da falência na inocente busca da salvação. E os cidadãos assim o exigem porque os políticos assim lhes prometem. O político estatista, quer por interesse pessoal (em ser eleito), quer porque não sabe melhor (não compreende que os recursos do Estado não são mais do que os recursos da sociedade e, por essa razão, finitos) ou porque, apesar de o compreender, não consegue vencer as adversidades (os poderosos interesses que vivem à conta do Estado) é um político que apenas alimenta um perpétuo movimento de criação de dívida e de afundamento nacional.
O problema de Portugal é, pois, um problema de paradigma político. Paradigma esse que facilita que políticos habilidosos se utilizem do poderoso instrumento que é o Estado para servirem os seus interesses: hoje, em Portugal, devido a esta ontologia estatista, a ascenção social faz-se pelo Estado e pelos partidos políticos. Onde se arranjam meia dúzia de amigos para votar numa secção, arranja-se a respectiva colocação no aparelho do Estado. E uma vez lá, distribuindo lugares no aparelho do Estado, lá se vão angariando mais votos no partido político, e assim sucessivamente, até que se constroem carreiras políticas inolvidáveis cujos méritos mais não são do que um especial talento para gastar em benefício próprio os recursos do país, ou seja: o dinheiro dos contribuintes. Ao mesmo tempo, aproveitando o paradigma socialista, vendem esses políticos habilidosos sonhos ao eleitorado: sonhos que não custam nada a esses políticos e que saem caríssimos ao erário público. Sonhos que prometem facilidades na conquista da felicidade ao mesmo tempo que, pela mentira (e despesa) que configuram, implicam ainda mais dificuldades para o futuro. E tudo isto causa uma erosão gravíssima na defesa da democracia e das liberdades individuais por parte dos cidadãos.
Outra conclusão – e da qual Portugal é, infelizmente, exemplo – é que o paradigma socialista também conduz ao desleixo pela riqueza e valor da sociedade porque não sendo estes geridos por quem de facto trabalhou arduamente para os gerar (os cidadãos) mas sim por aqueles que, nada gerando,  em nome de todos tudo gerem, muitas vezes em proveito próprio, a gestão torna-se danosa, incompetente e, como no nosso caso, até mesmo criminosa. Já dizia Aristoteles que “por muito belo que pareça, que todos chamem ´meu´ao mesmo objecto, é impossível, e não conduz, de modo algum à concórdia. Por outro lado, esta fórmula apresenta uma dificuldade. Quanto mais uma coisa é comum a um maior número, menos cuidado recebe; cada um preocupa-se sobretudo com o que é seu, quanto ao que é comum, preocupa-se menos, ou apenas na medida do seu interesse particular. Aliás, desleixa-se ainda mais ao pensar que outros cuidam dessas coisas"[2].
Inapelavelmente, o paradigma socialista porque assenta em despesa e gastos ao mesmo tempo que não privilegia a criação de riqueza, leva à falência. E com esta à miséria e, pior, à consequente violência pois paz sem prosperidade – onde tudo é mais escasso – é coisa que a História não conhece. É por esta razão que a própria democracia está também em perigo: perdendo-se a prosperidade, perde-se inevitavelmente a liberdade.
Portugal encontra-se hoje nesta encruzilhada: ou prossegue no mesmo caminho e persiste num modelo de organização política que, prometendo o que não pode cumprir, obriga a gastar o que não se tem, muitas vezes naquilo de que não se precisa ou sequer serve os superiores interesses do país, ou assume uma imperiosa ruptura com o estatismo que nos encerra neste pernicioso ciclo vicioso e abre, dessa forma, portas a uma possibilidade para um futuro diferente. Insistir nas mesmas políticas implica insistir nos mesmo resultados e três falências em quarenta anos de democracia deveriam ensinar-nos alguma coisa.

            VI
No que consiste então uma ruptura com o estatismo socialista?
É assumir que os indivíduos são donos do seu próprio destino, que não há soluções perfeitas para a sociedade e que o Estado deverá ser meramente um instrumento dessa sociedade, não para a formar, dirigir ou controlar mas para a proteger e garantir o respeito pelos valores que essa mesma sociedade entende como fundamentais.
É assumir que o Estado não pode continuar a ser um monstro burocrático que, tudo controlando, se torna, como Burke muito bem avisava, demasiado poderoso e capaz de esmagar a frágil, porque individual, liberdade dos cidadãos.
É assumir que o motor da economia são as pessoas e que são estas apenas que, livremente, perseguindo os seus objectivos individuais, são capazes de gerar a riqueza.
É assumir que a igualdade de facto é impossível de ser atingida, quer no ponto de partida, quer no ponto de chegada da vida e que, como Rawls famosamente estabeleceu, apenas se pode garantir que quanto melhor estiverem os que mais têm, mais recompensados deverão ser também os que menos têm.
É assumir que tudo o que é humano é naturalmente falível e que, por essa razão, a responsabilidade das tentativas, dos sucessos e dos erros deverá ser dos cidadãos. Ao Estado, igualmente falível porque composto por pessoas, cabe apenas evitar no natural campo das disputas sociais abusos de uns indivíduos face aos outros. No fundo, assuma-se que liberdade é igual a responsabilidade e que a perda – ou recusa – da segunda implica a perda da primeira.
É assumir que o Estado não pode ser ele próprio instrumento de abuso de uns indivíduos sobre os outros e que, por essa razão, uma das principais obrigações da sociedade é garantir que o Estado é limitado, fiscalizado e controlado pelos cidadãos, e não o inverso.
Finalmente, é assumir que o caminho da felicidade reside no trabalho, no engenho e na perseverança individuais e não nos negócios, nas benesses, nas honrarias ou nas oportunidades que o Estado pode garantir.
São palavras simples aquelas que aqui se exprimem, mas revelam uma revolução tão difícil quanto fundamental. Na prática, implicam uma política que assuma estes valores, cortando com os interesses económicos poderosos que controlam o Estado, apelando aos eleitores para que lutem – eles próprios! – pela sua liberdade mostrando-lhes que aqueles que vendem facilidades e sonhos mais não oferecem do que uma mão cheia de nada e uma outra, escondida, cheia de uma dívida que nos agrilhoa o futuro. Trata-se de assumir com verdade e frontalidade que um futuro de bem estar e prosperidade apenas é possível se mudarmos de paradigma, se cortarmos de facto com o socialismo estatista.

            VII
         Os valores do PPD|PSD são fundamentalmente compatíveis com a mudança de paradigma que é necessária para Portugal. A social-democracia em Portugal afirmou-se não como o corolário de uma visão socialista para a sociedade mas, pelo contrário, como o contraponto liberalizante e ontologicamente conservador face ao socialismo moderado do Partido Socialista e ao socialismo radical da extrema-esquerda portuguesa. De facto, apesar de, como Maritheresa Fraín nos lembra, “os fundadores do PSD [terem adoptado] um programa não ideológico e pragmático”[3] onde “a designação do partido como social-democrata ajudou a reforçar as... credenciais «esquerdistas»[do PSD] no período em que ser de direita poderia significar um suicídio político”[4], não deixa de ser igualmente certo que o PSD, como representante da direita emergente no pós-25 de Abril, “procurou representar os interesses económicos e sociais dos homens de negócios, dos proprietários agrícolas, das profissões liberais, da classe média e dos trabalhadores não-marxistas das cidades e dos meios rurais”[5]. Ao mesmo tempo, o pragmatismo do PPD|PSD corresponde a uma coligação de valores que justificava o realismo pragmático que assumiu e que a imperiosa salvação nacional obrigava. Essa coligação de valores congregava sectores tradicionalmente social-democratas da oposição ao regime de Salazar e Caetano mas também, não menos importante, significativos elementos da burguesia liberal, principalmente nortenha, bem como elementos conservadores que muito facilmente poderiam ser descritos como defensores da democracia-cristã europeia. Marcelo Rebelo de Sousa resume: “É, pois, da confluência destes legados – social-cristão, social-liberal com afloramentos social-democráticos e social-tecnocrático – que nasce, ideologicamente o PSD”[6]. Em suma, a base ideológica do PPD|PSD congrega um ideário social-democrata (segundo Rebelo de Sousa em minoria), democrata-cristão e, naturalmente, liberal.
                Não será, portanto, extremanente polémico afirmar-se que a social-democracia portuguesa tem raízes, quer no campo dos valores, quer no campo das pessoas que visava representar, bem díspares das suas congéneres europeias que se identificam com o socialismo. Tal coisa também se revelou na prática. Primeiro, através de Sá Carneiro e a forma como visou libertar o país da influência militar; depois, com Cavaco Silva, no processo de liberalização – e o correspondente progresso material – que o PPD|PSD conseguiu implementar nos anos 80 e 90 do Século XX. Não será demais, nem despropositado, relembrar que foi precisamente nesses anos que – com a oposição feroz do PS e da extrema-esquerda – se conseguiram implementar reformas, na altura igualmente neo-liberais e heréticas para a esquerda, mas que eram tão evidentemente fundamentais, tais como os bancos, as seguradoras e os órgãos de comunicação social poderem exisitir fora da esfera do Estado. Não será igualmente demais, nem despropositado, relembrar que foram precisamente esses anos os de maior progresso material da democracia portuguesa.
                Atente-se que a mudança de paradigma político não visa acabar com o Estado-Social ou, muito menos, com o Estado. Passa apenas por ter um Estado limitado pelos cidadãos ao invés de ter os cidadãos ao serviço do Estado e dos indivíduos que o controlam.
Neste sentido, o que se exige é um esforço de libertação face aos constrangimentos herdados do salazarismo e do fervor revolucionário marxista, nomeadamente os constitucionais, que obrigam o país a ir vivendo no pântano estatista da perpétua criação de dívida. Acima de tudo, mais uma vez, aquilo que se pede do PPD|PSD é que seja capaz de implementar uma política séria, credível e eficaz para voltar a colocar Portugal na rota da prosperidade e do progresso material.

            VIII
Uma proposta política séria para Portugal passa, então, por perceber que a reforma do Estado não é apenas obrigatória porque imposta de fora ou necessária para reduzir o défice. É imperiosa porque é a melhor, e mais eficaz, forma de uma sociedade se gerir a si própria, e capaz de criar mais riqueza para ser melhor distribuída. Precisamos, portanto, de reduzir o peso do Estado na economia; de privatizar, extinguir ou reduzir serviços do Estado; de reformular a segurança social para fazer face às novas realidades económicas e sociais – como a quebra da natalidade e o envelhecimento da população; de reformar a educação visando a descentralização, a liberdade de escolha das famílias, a gestão autónoma, responsável e fiscalizada das escolas, bem como a noção de que o fundamental é o Estado garantir o acesso à educação e não forçosamente a gestão do ensino; de reformar a saúde onde, tal como noutras áreas do chamado Estado Social, é prioritário compreender que a defesa da gratuitidade dos sistemas gera  desigualdades brutais no acesso e que mais vale garantir um acesso gratuito apenas para quem não pode pagar, garantindo, dessa forma, mais equidade no acesso e a sustentabilidade de sistemas sociais fundamentais; de reformar a justiça e aceitar que as leis não podem prever tudo, que a norma não se pode substituir ao julgamento humano e que, por essa razão, mais valem códigos simplificados onde a interpretação do juiz seja clara – e por isso transparente – visando o fim de uma obssessão legislativa que tudo prevendo, tudo regulando e tudo regulamentando apenas degenera numa sociedade onde quem tem acesso a peritos interpretadores da lei (advogados) tudo pode e quem não tem esse acesso nada pode.
 Em suma: liberalizar, privatizar, desregulamentar, simplificar ao mesmo tempo que é imperioso garantir real acesso a quem menos tem aos bens fundamentais de uma sociedade: a saúde, a educação e a justiça. Este é o caminho que congrega a única justiça ao alcance dos homens com a exequibilidade da gestão pública. É uma reforma difícil que, para ser implementada, obriga a um debate que vá para além do mero discurso económico. Fundamental é também tornar transparente o embuste que tem sido a governação socialista das últimas décadas em Portugal e, ao mesmo tempo, cortar com esse paradigma. Tamanha tarefa obriga a uma força, a uma tenacidade e – também – a uma esperança que não são fáceis de econtrar.

            Conclusão
          O papel do PPD|PSD será, portanto, o de implementar uma verdadeira ruptura com o status quo socialista que trouxe o país à falência. É imperioso que se perceba que a corrupção generalizada, o clientelismo, o tráfico de influências e os negócios obscuros com o Estado apenas são possíveis num país que tem um Estado que é forte com os fracos e fraco com os fortes. É essa situação que urge modificar e tal mudança apenas será possível com políticas altruístas, certamente impopulares, que tenham a capacidade de afrontar os múltiplos interesses instalados, ao mesmo tempo que tenha a capacidade de chamar os cidadãos a assumirem maior responsabilidade no destino colectivo do país. Como já se disse atrás: a liberdade individual apenas persiste baseada e assente na fundamental responsabilidade individual. Assim, apenas dando mais poder aos cidadãos se pode limitar o Estado.  E apenas limitando o Estado se pode construir um país que não viva exclusivamente com o olho preso no défice do ano transacto mas que tenha a capacidade de gerar prosperidade e esperança para os seus cidadãos. Mais se afirma que apenas o PPD|PSD, por força das suas características únicas, poderá ser o agente catalizador da mudança necessária. E que se o PPD|PSD falhar na sua imperiosa missão, restará a manutenção do status quo e a consequente incapacidade de acção que levará a que o futuro colectivo dos portugueses se decida, não por nós próprios, mas por aqueles que, por enquanto, nos vão emprestando dinheiro (e juros). E dessa vergonha já chegou a altura de dizermos “basta!”.



[1] Antero de Quental, Portugal Perante a Revolução de Espanha, 1868, in: Pedro Calafate, Portugal Como Problema, Vol. III: Século XIX – A Decadência, FLAD\Público, 2006, pp. 219-20
[2] Aristóteles, Política, 1261 b 30-35
[3] Maritheresa Fraín, PPD\PSD e a Consolidação do Regime Democrático, Editorial Notícias, 1998, p. 243
[4] Ibidem, p. 243
[5] Ibidem, p. 14
[6] Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, Editora Bertrand, 2000, Volume I, p. 15

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

NOÇÕES PANTEÍSTAS (XII)

Temos tendência para pensar que a base da individualidade está na essência de cada indivíduo. Mas esta noção parece-me errada: afinal não têm todos esses indivíduos o mesmo nome "Eu"? Parece-me mais acertado imaginarmos a base da individuação na forma: tal como cuvetes de diferente formatos fazem cubos de gelo distintos. Não são eles todos feitos da mesma água?

NOÇÕES PANTEÍSTAS (XI)

"As the sun first shines upon the high peaks while the world is still lying in darkness, so He [the Buddha] illumined those whose aptitude was high with the doctrine of nonduality of the mind and the Buddha. He taught that infinite time is in one moment and that one moment is in infinite time; that one is many and many is in one, that is, that the universal is in the particulars and that the particulars are in the universal. He illustrated the infinitely interdependent relationship of time and space...".

Kükai, in Yoshito S. Hakeda, Kükai: Major Works, Columbia University Press, 1972

FUNDAMENTAL SKILLS


O ETERNO RETORNO

"But deranged men do not perceive their madness;
The blind are unaware of their blindness.
Born, reborn, and still born again,
Whence they have come they do not know.
Dying, dying, and dying yet again,
Where they go in the end they do not know".

Kükai, The Precious Key to the Secret Treasury (830 AD)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CONFERE


MARCELO, O CATAVENTO

Fiquei hoje a saber, ao ler os jornais, que o Professor Marcelo  afasta-se da candidatura à Presidência da República porque "a questão está resolvida quando o líder do maior partido diz que a candidatura é indesejada". E por que razão é tal candidatura indesejada? Porque, diz-nos o Professor Marcelo, o líder do PSD postulou na sua moção ao Congresso um conjunto de características indesejadas para o cargo. Ora, como tais características - mais uma vez de acordo com o próprio Marcelo - aparentemente descrevem o nosso ímpar Professor, fica a hipotética candidatura posta de lado. Conclusão? Apenas uma: que Marcelo se considera a si próprio como "um catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político"; quanto ao resto, sobra a vitimização habitual do Professor Marcelo que, imagino eu, para ser candidato presidencial precisaria de sondagens que lhe dessem garantias de mais de 70% dos votos à primeira volta. Menos do que isso seria uma ignomínia à qual o Professor nunca se sujeitaria e, por essa portentosa - e corajosa - razão, nos ficará de antemão garantida que, por um lado, nem Marcelo será Presidente da República e que, por outro, nem nós, nem provavelmente Passos Coelho, nos teremos que preocupar muito com essa possibilidade.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

BOSS


A marca Boss a anunciar os seus uniformes para, entre outros, as SS nazis.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

UMA CRÍTICA

Wrightwood. Cal. 21 October, 1949

Dear Mr. Orwell,

It was very kind of you to tell your publishers to send me a copy of your book. It arrived as I was in the midst of a piece of work that required much reading and consulting of references; and since poor sight makes it necessary for me to ration my reading, I had to wait a long time before being able to embark on Nineteen Eighty-Four.

Agreeing with all that the critics have written of it, I need not tell you, yet once more, how fine and how profoundly important the book is. May I speak instead of the thing with which the book deals — the ultimate revolution? The first hints of a philosophy of the ultimate revolution — the revolution which lies beyond politics and economics, and which aims at total subversion of the individual's psychology and physiology — are to be found in the Marquis de Sade, who regarded himself as the continuator, the consummator, of Robespierre and Babeuf. The philosophy of the ruling minority in Nineteen Eighty-Four is a sadism which has been carried to its logical conclusion by going beyond sex and denying it. Whether in actual fact the policy of the boot-on-the-face can go on indefinitely seems doubtful. My own belief is that the ruling oligarchy will find less arduous and wasteful ways of governing and of satisfying its lust for power, and these ways will resemble those which I described in Brave New World. I have had occasion recently to look into the history of animal magnetism and hypnotism, and have been greatly struck by the way in which, for a hundred and fifty years, the world has refused to take serious cognizance of the discoveries of Mesner, Braid, Esdaile, and the rest.

Partly because of the prevailing materialism and partly because of prevailing respectability, nineteenth-century philosophers and men of science were not willing to investigate the odder facts of psychology for practical men, such as politicians, soldiers and policemen, to apply in the field of government. Thanks to the voluntary ignorance of our fathers, the advent of the ultimate revolution was delayed for five or six generations. Another lucky accident was Freud's inability to hypnotize successfully and his consequent disparagement of hypnotism. This delayed the general application of hypnotism to psychiatry for at least forty years. But now psycho-analysis is being combined with hypnosis; and hypnosis has been made easy and indefinitely extensible through the use of barbiturates, which induce a hypnoid and suggestible state in even the most recalcitrant subjects.

Within the next generation I believe that the world's rulers will discover that infant conditioning and narco-hypnosis are more efficient, as instruments of government, than clubs and prisons, and that the lust for power can be just as completely satisfied by suggesting people into loving their servitude as by flogging and kicking them into obedience. In other words, I feel that the nightmare of Nineteen Eighty-Four is destined to modulate into the nightmare of a world having more resemblance to that which I imagined in Brave New World. The change will be brought about as a result of a felt need for increased efficiency. Meanwhile, of course, there may be a large scale biological and atomic war — in which case we shall have nightmares of other and scarcely imaginable kinds.

Thank you once again for the book.

Yours sincerely,

Aldous Huxley 


Daqui.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

DA GRITARIA

Farto dela, da gritaria. Há dias onde Portugal me cansa: há sempre alguma coisa, normalmente insignificante, e logo vêm uns quantos a gritar, a clamar, a bradar, de peito aberto, vestes rasgadas, a indignação, porque os outros são uns malandros, uns miseráveis, uns bandidos; sempre, uns e outros, todos a gritarem, todos indignados, todos ofendidíssimos com as maiores insignificâncias. Porra, não se cansam de odiar o próximo? É que ninguém detesta mais os portugueses do que o vizinho do lado.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O SÍNDROME DE LAMPEDUSA

Leio hoje que o Paulo Rangel está a preparar um relatório onde propõe, entre outras coisas, a eleição directa do Presidente da Comissão Europeia no âmbito de uma reforma do sistema político da UE. Ao contrário do que aqueles com memória mais curta possam pensar, esta ideia já é velha (Durão Barroso defendeu-a publicamente no discurso do estado da união do ano passado) e dá corpo ao velho sonho dos "Estados Unidos da Europa". Sobre este assunto gostaria de tecer alguns comentários, até porque me parece que é uma questão paradigmática do modus operandi do burocrata da eurolândia, uma espécie de síndrome de Lampedusa*: primeiro reconhece-se que há um problema com o qual toda a gente concorda e depois, como a solução é incompatível com a burocracia centralizadora de Bruxelas, ou com os interesses de alguns do Estados mais poderosos, arranja-se uma solução de tal modo revolucionária que acaba por não se fazer nada. É verdade que há um divórcio entre a cidadania europeia e o seus representantes políticos? Sim, é verdade. É verdade que falta legitimidade democrática a quem, a partir de Bruxelas, tanto comanda nas nossas vidas? Também é. Agora tenhamos tino: alguém no seu perfeito juízo acha que é fazível neste momento ter os cidadãos a eleger um Presidente da Comissão sem fazer dessa eleição uma espécie de embate de nacionalidades? Claro que não. Imaginar alemães a votar num português é tão descabido quento imaginar os portugueses a votar num alemão. E precisamente porque é descabida uma eleição directa do Presidente da Comissão acabamos por, apesar dos grandes desígnios, nada fazermos de efectivo para minorar o chamado défice democrático. Quem ganha com isto? Nem mais: o burocrata de Bruxelas que continua a mandar e desmandar a seu belo prazer. Ora, e para dar mais força ao meu argumento, aqui deixo uma proposta simples, de fácil implementação e que contribuiria em muito para a solução do problema: que passem a ser os partidos europeus a ir a votos nas eleições europeias. Vejamos: hoje em dia os eurodeputados estão organizados em função de partidos europeus que nunca foram sufragados: ninguém vota, ou sequer conhece, o programa eleitoral do PPE (Partido Popular Europeu) ou do S&D (Socialistas e Democratas - e, sim, o partido socialista europeu chama-se S&D). Do mesmo modo, também - porque são os partidos nacionais que vão a votos - vemos as eleições europeias ficarem reféns, por um lado dos interesses partidários nacionais e, por outro lado, do facto de os eleitores estarem mais preocupados em penalizarem ou avalizarem os governos nacionais ao invés de votarem programas de acção política europeia. Pior ainda, mesmo os eleitores preocupados com o processo político europeu são forçados, primeiro, a votar nos partidos europeus que têm partidos nacionais filiados (por exemplo, em Portugal, nem os Conservadores nem os Liberais, ou sequer os Verdes**, estão neste momento representados) e, segundo, a sufragar programas mais preocupados em como o país vai ser representado na UE ao invés de como a UE deve ser gerida. Tudo isto contribui de forma evidente para o divórcio entre os cidadãos e os seus representantes e, por consequência, para que o vazio seja preenchido pela figura abstracta do burocrata de Bruxelas. Se, como aqui proponho, os cidadãos votassem nos partidos europeus que, através de delegações nacionais, se apresentassem a eleições, garantir-se-ia que haveriam programas de acção europeia que  fossem verdadeiramente e directamente sufragados pelos cidadãos, coisa que não acontece agora, e, ainda, que os cidadãos europeus pudessem escolher entre todas as possibilidades europeias (mesmo aqueles que vão para o PE para defender outra UE, ou mesmo o fim dela), coisa que também não acontece agora. Como se vê, seria esta proposta muito mais simples tal como, principalmente, de muito mais fácil implementação do que estas propostas mirabolantes que, de tão irrealistas, apenas contribuem para que o verdadeiro decisor político continue a ser o burocrata centralista que ninguém elegeu.

*Era Tomasi de Lampedusa que, no seu imortal Il Gatopardo, dizia que era preciso mudar tudo para que tudo ficasse como dantes.
** Imagino que o Partido Livre de Rui Tavares (que está individualmente inscrito nos grupo europeu dos Verdes) se vá filiar aí.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O MANDELA DA LINHA

Hoje ofereci-me a mim mesmo o tempo para ter um prazer que já há algum tempo não experimentava: ler um artigo do Carlos Carreiras no Jornal i. Começa o "autor" por explicar que, para ele - o arauto dos simplismos e das soluções milagreiras -, o mundo divide-se em "sebastianistas" e em "mandelas". O que é um "sebastianista"? Carreiras explica: "gente que espera e desespera por um eleito que, saído de uma manhã de nevoeiro, faz o que ninguém faz, resolve o que ninguém resolveu e cumpre o que ninguém cumpriu". Já "mandelas" são aqueles que se guiam pelos princípios de Mandela, ou seja, de acordo com Carreiras, pelo "poder das ideias e a crença na acção, no potencial do homem e na mudança contra a situação". Carreiras no texto lamenta que olhe à volta e só veja "sebastianistas". Já ele, naturalmente, será um mandela. E onde vê o visionário Carreiras tanto sebastianismo? É fácil: na elite política portuguesa que, diz ele, sobrevalorizada e crente na sua infalibilidade, apenas passa a vida a inventar mitos inúteis que prometem tudo resolver para depois minarem o trabalho daqueles que verdadeiramente fazem. Imagino que Carreiras se refira àqueles que andam a lançar o nome de Rui Rio para uma futura candidatura à presidência do PSD. Mas, naturalmente, o mandela da linha não o assume: fica-se por umas pseudo-acusações que têm tanto de qualidade argumentativa como de interesse público: nenhum. O discurso de Carreiras é sempre o mesmo: o Governo é o maior, a acção comanda a vida, se acreditarmos vamos safarmo-nos e quem critica, quem ousa lançar uma alternativa, é logo rotulado de pseudo-intelectual ou pseudo-elite e descartado como o não-crente que urge combater. Porque estão o Governo e Carreiras certos e os outros errados? Já isso o mandela da linha não explica. Enfim, o costume. Continua o "autor" depois a citar umas considerações de crítica social sobre quem foi e quem não foi ao funeral de Nelson Mandela. Cita ainda umas coisas de Obama (apesar de assumir modestamente que ele próprio, Carreiras, também já tinha pensado sobre precisamente aquilo que Obama falou - naturalmente) e lembra o exemplo de Mandela - outra vez - para expressar o desejo de que o "espírito de Madiba [já só faltava a referência a "Madiba" para o cliché ficar completo] toque cada uma destas almas que nos governam": ao melhor nível do Maduro venezuelano que vê Chavez nos passarinhos que voam à sua volta, também Carreiras vem elevar Mandela à santidade de quem virá iluminar o caminho certo para os políticos mundiais. Digamos que, para Carreiras, Mandela é agora uma espécie de santo-padroeiro do político. E, Mandela nos livre, para quem vê em Mandela a solução, consegue Carreiras fazer o inacreditável: começar por dividir o mundo em "sebastianistas" e "mandelas" apenas para transformar Mandela numa espécie de D. Sebastião sobrenatural: um feito! Mas, vá lá, ao menos do arrazoado todo de palavras do mandela da linha há uma coisa que fica muito clara: não é Carreiras um sebastianista, tal como não será também, certamente, apesar das pretensões em causa própria, nenhum mandela, ou sequer um Obama: é apenas mauzinho. Azar o nosso, é o que temos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A VERGONHA DO ELÉCTRICO 28

Não há manual, roteiro ou livro sobre Lisboa que não refira o eléctrico 28. Entre fotografias da vista ao longo do percurso, ou do próprio eléctrico, o 28 representa, sem margem para dúvidas, um dos ex libris da cidade e um importante cartão de visita para os turistas que nos visitam. Há duas semanas eu, a minha namorada (que está grávida), o meu irmão e a minha cunhada resolvemos ir à Feira da Ladra. Ora, que melhor forma de lá chegar, num Sábado soalheiro e agradável, do que ir no eléctrico 28? Pois, foi o que pensámos. Apanhámo-lo aqui no final da Rua do Ferragial e lá seguimos nós, apinhados entre estrangeiros sorridentes e de máquina fotográfica na mão. Repentinamente, ali na Baixa, entram no eléctrico um grupo de indivíduos que se foram posicionar mesmo na entrada do corredor do eléctrico. Na paragem seguinte, entre pessoas a entrar e outras a querer sair, graças àqueles indivíduos ninguém se conseguia mexer. Um estrangeiro, mais velho, pessoa dos seus setenta anos, para passar por eles teve que se esmifrar de uma forma absolutamente atroz. Eu, que estava de pé defronte da primeira janela do eléctrico, achei muito estranha a atitude daqueles indivíduos e, vendo que estavam propositadamente a emperrar o eléctrico inteiro, desconfiei que estivessem a preparar alguma coisa. Meu dito, ou melhor: meu pensado, meu feito. Qual não é o meu espanto quando vejo um dos indivíduos que esborrachava o pobre do estrangeiro septuagenário a literalmente arrancar-lhe a carteira do bolso do sobretudo. Nesse momento em que vi tal coisa comecei a gritar que estava ali um ladrão e agarrei o braço do meliante para tentar impedir o furto. Gerou-se grande confusão com os indivíduos a virarem-se contra mim enquanto o estrangeiro, depois de esvaído no aperto, gritava em inglês que lhe tinham roubado a carteira. Depois encontrou-a nas escadinhas que dão subida para o eléctrico, apenas para gritar outra vez que lhe tinham tirado o dinheiro. Entretanto, os meliantes viravam-se contra mim para tirar satisfações sobre eu ter tentado impedir o furto. A minha preocupação era já apenas proteger a minha namorada grávida dos empurrões que os criminosos davam. Gritei-lhes na cara e eles acabaram por sair pela porta dos fundos. Enquanto tudo isto se passava, o condutor punha a cabeça para baixo e dizia: "não quero confusões". Lá fora, o turista assaltado e a sua mulher gritavam pela polícia. Lá dentro, assistia-se aos criminosos a acercarem-se dos turistas assaltados fingindo preocuparem-se com eles, mesmo com a mulher a acusá-los de terem sido eles a roubarem a carteira do marido. Entretanto, os criminosos faziam gestos ameaçadores na minha direcção a gesticularem que eu estava "lixado". Os acontecimentos que aqui se relatam tiveram lugar às duas da tarde na paragem da Sé.

Três notas: primeiro, que a impunidade e o descaramento foi total: os ladrões não são o "artista carteirista" que retira uma carteira sem ninguém reparar. Não. Estamos a falar de criminosos que assaltam à força, com violência, e que nem sequer têm que fugir depois do assalto realizado porque não há ninguém que faça impor a lei e a ordem. Não há polícia, nem no eléctrico nem nas paragens (em nenhuma do percurso!), o condutor finge que não vê nada com medo de represálias e os passageiros ou são turistas incautos ou passageiros frequentes que já os conhecem mas que não se atravessam no caminho dos criminosos por terem medo. Segundo, é impossível que o poder político não saiba do que se passa (aparentemente pelo que me dizem toda a gente sabe do que se passa ali) e não faça nada. Será assim tão difícil pôr uns quantos polícias a patrulhar o eléctrico e outros nas paragens? Bastava isso para aqueles criminosos terem que ter mais cuidado. O eléctrico 28, sendo um ex libris do turismo lisboeta merece mais e melhor: é a imagem de Lisboa que está em causa, é a segurança das pessoas que nos visitam (porque aquela gente é perigosa) e representa neste momento, tal como está, um triste retrato da realidade portuguesa: um fartar vilanagem e a total impunidade.

À volta da Feira da Ladra apanhámos um taxi para casa: considerando que um bilhete individual de eléctrico custa 2,8€, e éramos quatro pessoas, a vinda de táxi custou a cada um sensivelmente metade do que a ida de eléctrico. Ou seja: as pessoas são roubadas para serem assaltadas. Haja vergonha.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

DO LUTO CIBERNÉTICO

Se eu penso que o Nelson Mandela era um grande homem? Penso. Se eu penso que a necessidade que milhares de pessoas sentem de ir para as redes sociais postar citações de Mandela - que na sua esmagadora maioria nunca leram -, apenas movidas por um ligeiro frémito de exaltação momentânea, para logo a seguir regressar à banalidade da vida comum sem mais um pensamento sobre a figura, ou o significado para o mundo dessa figura, como se uma citação lida na diagonal e rapidamente copiada de um qualquer sítio cibernético já fizesse a obrigação, consiste num exercício de triste superficialidade, demagogia social e hipocrisia? Sim, penso. Agora linchem-me.