quarta-feira, 23 de abril de 2014

DO ATAVISMO

A capacidade indígena de nos destruirmos uns aos outros em nome daquilo que se acredita ser uma qualquer razão que nos assiste é a principal causa para que este país não deixe de ser um país de terceira categoria. Agora são os Srs. polícias a alertar os turistas nos aeroportos para o facto de estes estarem inseguros devido aos cortes nos seus salários. Força nisso, vamos lá afugentar os pobres incautos que vêm cá largar umas coroas! Avante camaradas! Como diria alguém, no futuro deitaremos fogo a tudo, não é?

terça-feira, 22 de abril de 2014

DA SÉRIE: HÁ GAJOS QUE SABEM O QUE DIZEM

Pedro Picoito, no Nada os dispõe à acção:

"[Deixa-me] perplexo que a Associação 25 de Abril, autoproclamada herdeira do MFA, queira comemorar no inevitável Largo do Carmo os quarenta anos da revolução em festejos paralelos aos oficiais, a decorrer no Parlamento. Já sei que o motivo é que não os deixam discursar em S. Bento e que os militares de Abril, depositários da pureza da revolução, entendem não só ter mais legitimidade do que os partidos para falar em S. Bento como não terem os partidos do Governo legitimidade nenhuma para falar seja onde for. Mas isto, se me permitem, é um entendimento muito pouco democrático da democracia. Pode criticar-se o Governo por muitas razões, e eu próprio já o fiz, mas não se pode criticar os partidos do Governo por não terem legitimidade democrática. Ganharam as eleições, são apoiados por uma maioria parlamentar, estão a governar respeitando a Constituição e, se não estão, os checks and balances do regime funcionam. Ora, os supostos intérpretes do "espírito de Abril" dizem, no fundo, que a legitimidade democrática de quem fez a revolução pelas armas é maior do que a legitimidade democrática de quem ocupa o poder pelo voto. O que é uma contradição nos termos porque o 25 de Abril se fez exactamente para eleger quem está no poder". Aqui.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

ELOGIO À GRANDEZA

                                                                             Daqui

A enorme grandeza do Sport Lisboa e Benfica, apesar de não cessar de me surpreender, representa duas coisas: primeiro, um facto incontestável; segundo, uma inevitabilidade histórica. Quanto a ser um facto incontestável é algo que enche qualquer Benfiquista de orgulho e, naturalmente, os nossos adversários de uma miscelânea de sentimentos, nenhum deles particularmente agradável.

É factual e incontestável porque é empiricamente demonstrável: a cada jogo do Benfica, as bancadas enchem-se. Em Portugal, o Benfica lidera as assistências em casa, enche os estádios adversários e, na vitória, move e comove milhões espalhados, não apenas pelo país mas, também, por esse mundo fora como nenhum outro clube o consegue fazer. Na diáspora, a festa é tão intensa como em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou pelos Algarves. África, Ásia, Europa e América, por todo o lado, num domínio onde o sol nunca se põe, portugueses e estrangeiros, todos Benfiquistas e, por isso, também portugueses, unem-se num momento de comunhão mundial de um júbilo intenso, expansivo e, naturalmente, único.

Em Paris, ou em Bruxelas, fecham-se estradas e rotundas. Em Londres ouve-se fogo de artifício. Em África saem à rua milhões. E em Portugal atingem-se os píncaros da loucura, por vezes a insanidade pura, de quem sai para a rua a gritar e a saltar, mais ou menos vestido, com mais ou menos adereços (Jorge Jesus parece também nesse campeonato liderar em número de peças de vestuário Benfica), porque não consegue conter a alegria imensa de ver o Benfica campeão.

No entanto, entre o lunático que sobe às estátuas ou aos postes de electricidade para "ver melhor os campeões" e o adepto sereno que se contenta com umas postadas mais afoitas no Facebook, entre esses e todos os outros, uma coisa há em comum: um sentimento de amor a algo que os transcende. E, não entrando no campo da metafísica, não poderia deixar de ser transcendente a cada um pela simples razão de que é comum a milhões.

A grandeza do Benfica está, pois, nessa transcendência. No escape ao racional e no deixar-se cavalgar o fulgor das emoções, algo que não se faz, ou não se deve fazer, no trabalho, na família, no supermercado ou na igreja. É a transcendência face à vida comum. Face às obrigações. Face à realidade. E é o abraçar do sonho, da glória, da perfeição, lá está, o abraçar imenso da felicidade.

E é também a transcendência da condição humana: desde o existencialista deprimido com o facto de não conseguir lidar com a evidência inultrapassável de que um dia irá morrer até ao inválido que se encontra confinado a uma cadeira de rodas, no momento da comunhão benfiquista, ambos se transcendem, o primeiro porque sabe que morrerá mas o seu Benfica é eterno, e o Benfica é ele também, e por isso a eternidade o abraça a ele igualmente; e o segundo, porque naquele mesmo partilhado momento se sente inundado com a força invencível dos campeões, uma força que afugenta, pelo menos do seu espírito, as suas debilidades, elevando-o ao sentimento que apenas aqueles que se sentem campeões podem sentir - independentemente de cadeiras de rodas ou não. É o sentimento da invencibilidade. Da superioridade a todas as adversidades.

Finalmente, é ainda a transcendência da condição social: desde o snob pretencioso (que também os há) até ao humilde operário, ou desde o bem sucedido empresário até ao remediado funcionário público, todos eles, naquele momento são absolutamente iguais porque, naquele instante particular, naquele momento concreto, todos se definem pela mesma bitola, pelo mesmo sentimento, um sentimento que experimentam por igual: eles são campeões, eles são Benfica, eles são iguais. É a igualdade que utópicos como Rousseau ou More tanto sonharam e que, mesmo que por uns instantes fugazes, apenas se alcança em pleno no campo da transcendência benfiquista.

E aqui chegamos ao segundo ponto, o da inevitabilidade histórica. Era inevitável a grandeza do Benfica precisamente porque apenas o Benfica é capaz de fazer transcender. E apenas o Benfica tem essa capacidade devido às circunstâncias particulares que estiveram na sua génese. Nascido na humildade do povo português, apenas um clube que fosse genuinamente popular poderia almejar a grandeza que o Benfica tem. Ao contrário do FC Porto que se afirma como um clube de bairro contra o centralismo de Lisboa, ou seja, define-se pela negativa, ou do Sporting que, com o seu nome adequadamente estrangeiro, se afirma, e define, como o clube da elite, da nobreza ou dos ricos, o Benfica rejeita a negação, ou a limitação auto-imposta de uma pretensa elite, e afirma-se pela positiva, por si mesmo, pela sua identidade que sendo a do povo, em concreto a do povo português, não poderia deixar de ser Portugal. Para o Benfica, todos podem ser - e no fundo, no seu íntimo, todos são - benfiquistas porque é o único clube que se abre, sem pejos, limites ou vergonhas, a Portugal.

Como poderiam tais clubes como o Porto e o Sporting gerar a transcendência que aqui se referiu quando eles próprios rejeitam franjas importantes de portugueses, uns porque vivem mais a sul, outros porque não seriam da sua ilusória condição? Já o Benfica é verdadeiramente de todos e, por isso, todos podem ser também verdadeiramente Benfica. E, por esta inevitabilidade que lhe advém da génese, o Benfica não apenas é capaz de coisas únicas, como de uma adesão popular ímpar e, acima de tudo, de gerar uma relação de amor com os seus apoiantes que há-de permanecer um mistério para aqueles que, por infortúnio da vida, não tiveram a Graça de ser Benfiquistas.

O Benfica tornou-se campeão ontem, no entanto, na realidade, como todos os benfiquistas bem o sabem, o Benfica nunca é outra coisa além do que campeão. Daí, aliás, o fabuloso hino O Campeão Voltou que resume esse sentimento na perfeição. O Benfica é sempre campeão. Ontem apenas viu os seus adversários reconhecerem-lhe o título que, com naturalidade, os Benfiquistas sabem sempre ser seu por direito.

domingo, 20 de abril de 2014

SANTOS & SALVADORES

O Dr. Assis afirma numa entrevista ao Público que as eleições europeias são uma boa "possibilidade de manifestarem não apenas a sua desconfiança, a sua oposição, a esta maioria, mas também de contribuírem para a afirmação de uma alternativa política em Portugal". Assim, além de vender a ideia de que com uma maioria de esquerda no Parlamento Europeu "vamos ter grandes mudanças políticas na Europa", não deixa de tentar cativar o votinho contra o Governo. Ambas as coisas são desonestas e só não apelido o Dr. Assis de aldrabão porque a última vez que andou por Bruxelas passou lá tão pouco tempo que deve perceber do assunto tanto como a Lili Caneças.

Em primeiro lugar, é profundamente irresponsável, e contribui claramente para o déficit democrático na UE, fazer de eleições - que decidem o rumo político da UE por cinco anos - um, plebiscito aos Governos nacionais. É democraticamente imaturo e um bom exemplo de confundir alhos com bogalhos, pior, de promover a confusão no eleitorado. Aliás, quando dos referendos que deitaram abaixo o projecto de constituição europeia era precisamente essa a ideia que se criticava.

Em segundo lugar, já que Hollande, para os socialistas, o anterior salvador da Europa, anda a fazer os inevitáveis cortes na despesa pública e a apregoar o contrário do que os senhores do PS apregoam, viram-se agora os socialistas para outros salvadores. Quem? A futura Comissão Europeia saída da tal "maioria de esquerda", ou seja, para aqueles que nos emprestaram o dinheiro que a dita austeridade anda a tentar pagar de volta. Está bom de ver que se for Martin Schulz o sucessor de Barroso, a Comissão vai deixar de querer orçamentos nacionais em ordem e equilibrados. É que é isso mesmo, então, ainda por cima, sendo Schulz alemão e de um partido que está coligado no Governo nacional - adivinhem com quem? -  com a Chanceler Merckel, pois claro.

Mas a aldrabice do Dr. Assis não se fica por aqui. Às acusações de despesismo dos anteriores governos PS apelida-as de demogógicas como se, imagine-se lá, não tivessem sido precisamente esses governos a levar Portugal à bancarrota por haver um excesso de despesa pública face à receita. Demagógico é quem assume os seus erros ou quem transforma, pela retórica, erros em supostas virtudes? Está bem abelha, nesta já só cai quem quer.

Para finalizar, o Dr. Assis assume ainda, com satisfação, que o Sr. sócrates vai participar na sua campanha e anuncia a sua vontade para que, após as próximas eleições legislativas, haja um novo ciclo político que passe obrigatoriamente pelo PS. Quanto a isto nada de novo, é o PS do costume e de sempre. Agora, espremido, esprimidinho, o que sobra então do discurso do Dr. Assis? O PS merece ganhar porque nunca fez nada de mal nem tem qualquer tipo de responsabilidade no facto de ter governado um país até à bancarrota, a austeridade (termo que significa a incapacidade para não se gastar mais do que aquilo que se tem) é uma loucura da direita "radical" - faltou acrescentar do Hollande também - e o PS, esse bando de santos milagreiros, é que deve governar Portugal porque conhece a receita exacta para a "competitividade" (viu-se). Entretanto, na campanha lá teremos sócrates a perorar contra o governo e a afirmar descaradamente o contrário de tudo aquilo que dizia em 2011. A sério, esta gente não tem vergonha na cara?

*Também publicado aqui.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O QUE DEVERIA DE SER DE SENSO COMUM (MAS NÃO É)

                                                                         (Daqui)

O OUTRO LADO DA IGUALDADE

O mito da igualdade é o grande motor do socialismo e, consequentemente, o grande valor que norteia a sociedade contemporânea. Porque a igualdade é o valor fundamental, a diferença é desprezada ou, pelo menos, regulada, minorada, igualizada. E isto ocorre no campo económico, cultural e social. Nesse aspecto, a igualdade, como valor basilar de um sistema de organização política e social é avassalador e totalizante: se o que é diferente é mau (porque contrário ao valor máximo da igualdade) então a dinâmica tende a restringir a diferença onde quer que apareça.

Em primeiro lugar, como num sistema de redistribuição de riqueza não poderia deixar de ser, a primeira desigualdade que é inimigada é a desigualdade económica. Pode, por exemplo, um país - como é o caso português - ver as suas classes mais baixas terem o seu nível de vida aumentado de forma significativa que esse incrível feito é imediatamente desvalorizado porque "os ricos estão cada vez mais ricos". Porque o valor fundamental é a igualdade, onde há pobres, não podem haver ricos. Mesmo que, apesar dos ricos estarem cada vez mais ricos, os pobres estarem, também eles, cada vez menos pobres. A quantificação sobre a diminuição, efectiva e factual, da pobreza torna-se irrelevante face ao aumento da riqueza generalizada. Ou seja, o que interessa não é que existam menos pobres ou que, pelo menos, os pobres sejam menos pobres - ambos os casos são verdadeiros em Portugal. O que interessa é que independentemente do número de pobres, ou do seu nível de pobreza, todos tenham situações económicas mais iguais. Não é difícil de compreender que, tendo as prioridades trocadas, os resultados, mesmo que mais igualitários, sejam menos satisfatórios no geral.

Mas há mais. Porque a igualdade é um valor totalizante, toda a sociedade se orienta para ela, desde a indistinção entre o casal gay e o casal heterossexual, desde as quotas que garantem, a prazo, a igualdade de género nos cargos públicos (e mais não fazem do que eleger, ou impedir de ser eleitos, indivíduos única e exclusivamente em função do seu género), até à decisão do que consiste na norma de saúde e que escolhe para todos quais os produtos que podem, devem, ou não podem, e não devem, ser consumidos. Neste último exemplo, cá temos o sempre prestável Estado agora a decidir o que cada um deve comer, sendo que o mau alimento, pouco ou nada saudável, leva com taxa enquanto que o bom fica sem taxa. E daqui virá, a ser levada a legislação a sério, o policiamento do sal nas feiras, ou nas roulotes ao pé do campo da bola ou, quiçá, mesmo a proibição desses espaços de compra e venda precisamente porque não podem ser devidamente controlados. E tudo isto, desde a comissão que estuda o assunto até ao polícia que passa a multa, passando pelo laboratório que fiscaliza o nível de sal ou açúcar, tudo, tudo isso, pago com o dinheiro dos nossos impostos. Sim, porque eu não posso decidir que de quinze em quinze dias me apetece comer uma entremeada gordurosa e beber uma imperial antes de ir ver o Benfica sem pagar a pressurosa taxa e verificar o certificado da ASAE. E qual a justificação moral para tal coisa? Que há uma vida saudável, uma norma de comportamento, neste caso alimentar, que o Estado deliberou ser a melhor e que os indivíduos devem seguir sob pena de terem que pagar mais e mais impostos.

Mas nós ainda vamos atrasados. Neste campeonato, já os EUA vão muito à frente. A norma de vida saudável, a tal norma comportamental que, sendo a norma, por isso maioritária, não significa mais nada além do triunfo do igualitarismo através do esbatimento da diferença, nos EUA, mais de seis milhões de crianças foram diagnosticados como hiperactivos e são medicados para que se comportem "normalmente". E o contrário também se discute: se uma criança é mais apática, intervém menos do que o normal ou é mais introspectiva então pode muito bem ser um dos dois milhões de miúdos que eventualmente "padecem" de "sluggish cognitive tempo". Naturalmente, pressurosa, a industria farmaceutica não tardará a garantir que tamanha doença será irradicada com tal e tal medicamento.

E o que justifica a ânsia pela normalidade senão o imenso culto da igualdade? Isto, porque não ser normal não é mais nada além do que ser diferente. É a vitória do igualitarismo a toda a linha: a moldar carácteres e comportamentos por uma bitola arbitrariamente decidida por alguém. E quem é esse alguém? Pois. É que o Estado não é uma entidade abstracta, neutra, infalível e livre de interesses próprios ou, sequer, garantidamente ausente de desonestas influências. Pelo contrário: o Estado é um conjunto de cidadãos dirigidos por um conjunto de políticos que precisam de dinheiro para ser eleitos e terem o seu trabalho garantido. Quanto valerá à indústria farmacêutica esta nova "doença"?

É esse o outro lado da igualdade: o da supressão, ou limitação, da liberdade de ser diferente. E toda essa supressão e limitação representam um excelente negócio para os amigos, ou aliados, daqueles que decidem o que deve ser, ou não, limitado ou suprimido. Qual a vantagem competitiva do fabricante de pão sem sal e, consequentemente, sem taxa, face ao fabricante artesanal de pão? Qual o valor de mercado de todos esses novos medicamentos, ou bens, que em nome da igualidade, agora transcrita numa forma de estandardização comportamental, se vendem aos magotes consoante o medo, a moda ou a mania do momento?

Nunca em nenhum momento da História esteve a liberdade humana no seu expoente máximo e, ao mesmo tempo, a viver o momento em que se encontra em maior perigo. Isto porque, hoje em dia, o grande inimigo da nossa liberdade é precisamente a interiorização do ideal da igualdade. É a ânsia interior de sermos todos iguais: iguais aos heróis da novela, aos modelos da revista, ou aos idiotas das feiras de celebridades. Tudo se copia, tudo se compra, mesmo operações plásticas, para que as diferenças se esbatam. Mesmo as diferenças de género se esbatem com elas a agir como eles e eles como elas, a igualdade ou, pelo menos, o mito da igualdade, triunfa na quantidade infinita de possibilidades aparentes que, na essência, representam sempre o mesmo: como os telejornais que sendo feitos por jornalistas diferentes, transmitidos por diferentes canais detidos por empresas diferentes conseguem, não apenas transmitir as mesmas notícias, mas também os mesmos alinhamentos e, com honrosas excepções, as mesmas opiniões.

Um mundo em liberdade vive da riqueza das diferentes interpretações daqueles que o observam. Esse mundo - e essa liberdade - desaparece a cada dia que passa transformando-se num mundo plano, igual para todos, levando, e chamando, cada um a interpretá-lo da mesma - única - forma. E é assim que a verdadeira liberdade está em risco porque, pela primeira vez na História, a abdicação da individualidade face ao colectivo parte do indivíduo para fora, dos seus anseios e das suas vontades, ao invés da colectivização ser imposta ao indivíduo, ou seja de fora para dentro.E, passo a passo, assim se vai centralizando, por vontade dos indivíduos, o poder político no Estado e o poder social na imensa máquina mediática cujos detentores não são muito diferentes dos financiadores de toda e qualquer campanha eleitoral. O Estatismo triunfa e a população aplaude. Mesmo quando reclama dos maus políticos que vê como corruptos ou incompetentes, mesmo aí, ao invés de lhes retirar poder cortando-lhes no orçamento, mesmo aí a população reclama mais departamentos, mais fiscalização e mais Estado, ou seja, mais corruptos e mais incompetentes e, desta feita, com mais recursos. E não há solução para este ciclo vicioso. Não há solução porque o valor que norteia a comunidade política, os costumes sociais ou as vontades individuais é o da igualdade em vez de ser o da liberdade.

Vem, pois, em pontas dos pés e com um sorriso amigo o maior inimigo da liberdade. Vem com promessas de felicidade para todos e, melhor ainda, para todos por igual. Mas aquilo que se promete com uma mão é infinitamente menos valioso do que aquilo que nos tira com a outra, a que está escondida e fora do alcance da nossa vista. Por enquanto, a originalidade e a verdadeira liberdade são ainda possíveis de viver-se, mesmo que não potenciadas, aliás, mesmo que vivendo-se numa civilização que as procura restringir. Infelizmente, no entanto, vivendo-se numa democracia - mesmo que num simulacro - tem-se a grande desvantagem de poder degenerar numa ditadura da maioria. Uma ditadura que, tal como muitas das suas antecessoras, a maioria deseja e aplaude. Porque cada regulamento, cada taxa, cada directiva é para o nosso bem.

E assim será até que o Estado, então regulador máximo da vida de cada um, revele finalmente como evidente a conclusão máxima de que não pode haver igualdade sem restrição de liberdade. Talvez aí, aqueles que agora aplaudem incautamente o centralismo estatista que a cada dia que passa, para o nosso bem, se afirma cada vez mais, talvez aí os igualitários aprendam que o preço que se paga ao deixar a decisão sobre o que é bom para cada um de nós nas mãos de outras pessoas é, mais cedo do que tarde, perceber que essas pessoas, que são tão falíveis e pervertíveis como qualquer um, são capazes, imagine-se lá o impensável, de decidir o que é bom para nós em função do que lhes dá jeito a eles. E, em boa verdade, aquilo que interessa a um grupo mais ou menos numeroso de obscuros burocratas, ou políticos caciqueiros, dificilmente será o que me interessa a mim.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

OS IDIOTAS ÚTEIS

Um relato em primeiro mão acerca da democracia do Sr. Bernardino:

"I had to be careful of my thoughts because I believed Kim Jong-il could read my mind. Every couple of days someone would disappear. A classmate's mother was punished in a public execution that I was made to attend. I had no choice – there were spies in the neighbourhood. (...) I realised that everything I thought was a lie. I had not been a real person – I was created for the regime to work for them. If they ordered us to die, I would've died for them. I wasn't a human – I was something else. I certainly wasn't treated like one. I knew nothing of freedom".

 É por estas e por outras que eu não olho para o PCP, e os demais extremo-esquerdistas, com a complacência paternalista assente na noção de que as oposições, quando em democracia, são todas saudáveis. Não são. Pelo contrário, o peso da estrema-esquerda em Portugal apenas atesta a triste realidade de um país em que um quinto dos votantes insiste em votar em partidos que legitimam, desculpam e defendem regimes como o de Pyongyang. E isso é triste, perigoso e algo que a mim, particularmente, me causa vergonha. Pior: com alternativas tão inaceitáveis acaba por sobrar suficiente espaço de manobra para no chamado arco da governação ser-se tão incompetente a governar e, mesmo assim, conseguir escapar-se impunemente por não haver outra opção aceitável. Aquilo que os idiotas úteis que votam nos lunáticos da extrema-esquerda não compreendem é que da sua imaginada revoluçãozinha de IPhone na mão apenas sobra a inimputabilidade dos verdadeiros donos do regime. É, mais uma vez, o síndrome de Lampedusa: ao quererem que tudo mude, apenas garantem que tudo fique na mesma.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A VERDADEIRA REVOLUÇÃO

Isto mais isto ajuda a explicar isto.

SENTENCE


IDIOTOLOGIA

A crença no comunismo, hoje em dia, é de uma imbecilidade sem nome, tal como a crença no socialismo estatista oscila entre a ingenuidade dos bem intencionados e a pura estupidez dos revolucionários, porque todas estas ideologias falham na capacidade de apreender o único conhecimento que está verdadeiramente disponível para o Homem: a compreensão, ou aceitação, da natureza humana.

sexta-feira, 21 de março de 2014

CARA E COROA

A partir de agora deixo o pensamentos desblogueados livre para assuntos sérios e passo a fazer o meu comentário político, mais ou menos ocasional, por outras bandas. São estas o blog Cara e Coroa onde me encontro em excelente companhia.

ELOGIO À ROTINA

Ao contrário da ideia modernaça de que as rotinas são "aborrecidas", parece-me que a rotina é parte da salvação para uma vida feliz. A rotina, desde aquela que embala o bebé até aqueloutra que nos ocupa manhãs, tardes e - ou noites, não passa de um processo de repetição que, precisamente por repetir-se, nos oferece a sensação momentânea de um movimento perpétuo. É uma magnífica ilusão, a rotina. É através daquela repetição que podemos experimentar um momento sem fim, porque aparentemente eternamente recorrente: a eternidade, portanto. Da mesma forma, nas traseiras da nossa mente, com a ilusão da perpetuidade, dá-se a decorrente superação, através do momentâneo esquecimento, do conhecimento que todos carregamos da nossa própria mortalidade. A libertação, portanto.

segunda-feira, 17 de março de 2014

UM HOMEM DE VISÃO


DISTINÇÕES

A separação ontológica entre o que é um pacóvio, o que é um estúpido, ou um simples atrasado mental, é fundamental e interessante. Os primeiros, os pacóvios, têm vistas curtas. Não conhecem o mundo, não percebem que há vida para lá da montanha que enxergam da varanda da sala (ou, os tempos são modernos, para lá do prédio da frente) e, por desconhecimento e simples acanhamento mental, fecham-se no que conhecem, repetindo rotinas e hábitos que, mesmo desconhecendo que outras rotinas e hábitos poderiam ter, afirmam como sendo as melhores possíveis. Os segundos, os estúpidos, são pacóvios mas já com a mania que são espertos: eles acham que sabem mais do que aqueles que, não sendo pacóvios, sabem mesmo mais do que eles. Mas como o estúpido acha que domina o pequeno mundo que pacoviamente conhece, e não vendo mais mundo para lá desse, imagina-se então a dominar o mundo inteiro. Os estúpidos, naturalmente, acham-se sempre os maiores. Já os terceiros, os atrasados mentais, são aqueles que são pacóvios, estúpidos e, pior, são aqueles também que, ofendendo-se com a vontade que aqueles que, não sendo estúpidos nem pacóvios, têm de ir mais além e de conhecer e conquistar o mundo que está para lá da ponta do nariz, acabam a minar deliberadamente os esforços dos outros porque os outros não podem ser mais do que eles. Os atrasados mentais, na preguiça, e cobardia, de não se quererem melhorar, impedem o melhoramento dos outros. São os que puxam para baixo. São os que maldizem, à boca pequena e de mão à frente da dita, os sucessos  dos outros, que não suportam, mesmo que inconscientemente, porque esses sucessos apenas os fazem sentir pior sobre a sua própria pacóvia e estúpida pequenez. São os que invejam e conspiram contra os que têm aquilo que eles sonham  ter - e nada mais fazem por isso além de sonhar. São mesquinhos. São pequeninos, muito pequeninos, e condenam também, através da sua constante sabotagem, os alvos da sua ira a uma igual pequenez. É uma maldição, a atrasadice mental. E é, infelizmente, uma maldição que abunda em Portugal.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O CREPÚSCULO DO SOCIALISMO

Uma forma muito simples de aferir-se o nível de desvio ideológico na comunicação social portuguesa prende-se com a forma como a comunicação social trata a questão da Venezuela e, pior ainda, a forma como os outrora maiores defensores do regime de Chavez não são confrontados, nem com o que se passa na Venezuela, nem com o seu apoio passado ao regime chavista. Entretanto, na Venezuela, já morreram vinte e oito pessoas , isto num país que agoniza com uma inflação superior a cinquenta por cento e onde, faltando produtos essenciais para higiene e alimentação, apenas pode esperar-se uma escalada rápida de violência para acrescentar mais mortos às estatísticas que já davam a Venezuela como um dos países mais perigosos do mundo. No entanto, ainda há seis anos atrás, Mário Soares (ver vídeo aqui) entrevistava Hugo Chavez tecendo-lhe os maiores elogios, nomeadamente afirmando o humanismo e a luta pelos pobres e oprimidos que aquele configurava. Para a esquerda aqui do portugalório, Chavez sempre foi um exemplo: graças a ele se afirmava que havia uma via para o socialismo democrático que não tinha descambado em violência, opressão e miséria. Pois bem. E agora que a Venezuela se afunda na opressão, na violência e na miséria onde é que estão os socialistas? E onde estão os jornalistas a pedir contas? Entretanto, directo de Marte, o PCP, a propósito da crise na Venezuela afirma que "já vimos este filme em algum lado. Sim, é verdade, em 2002. O mesmo exacto guião de tentativa de golpe de Estado planificada entre a direita mais reaccionárias, os grupos fascistas e as representações diplomáticas do EUA, sim, com os gordos financiamentos dos EUA. (...) Desestabilização, assassinatos indiscriminados – não é por acaso que elementos da oposição e a favor do governo foram assassinados pelas mesmas armas – grupos para-militares, terroristas, destruição e incêndio de infraestruturas… Não é necessário ter muita destreza intelectual para compreender que não é ao governo venezuelano que isto interessa". Já para não correlacionar a violência com a fome gerada pela falência total do sistema socialista venezuelano é preciso muito mais destreza intelectual, certamente. Aliás, destreza intelectual ao PCP é coisa que não falta: tanto quando assiste ao congresso do Partido Comunista da Federação Russa, tanto como quando se associa em Pyongyang às celebrações daquela "democracia popular" que por lá já matou milhões. É, precisamente, de tanta destreza intelectual que se fez a história - que o PCP não renega - de morte e miséria do comunismo e socialismo populares no Século XX. A mesma história repete-se agora na Venezuela tal como, aliás, em todos os países onde - com mais ou menos músculo - se tentou implementar a quimera da igualdade socialista, sempre se repetiu. Dessa igualdade prometida sobra agora, com o crepúsculo de mais um sistema socialista, a miséria do povo venezuelano bem como a riqueza obscena da oligarquia socialista que o governa. Nada de novo, muito pelo contrário. Já aqui em Portugal, pelos vinte e oito mortos não há gritos de indignação, não há manifestações de pesar nem há remorsos pelos apoios passados. Não. Em Portugal, na terra onde nunca alguém é responsabilizado pelo que diz ou faz, apenas se escuta o comprometedor silêncio daqueles portugueses irresponsáveis que, mesmo contra todas as evidências, continuam a vender sonhos (que se transformam sempre em pesadelos) enquanto falam de boca e carteira cheia por esses televisões fora sem que ninguém lhes faça frente. Mário Soares é apenas um deles.

quinta-feira, 6 de março de 2014

É O QUE HÁ

Tenho-me, grosso modo, abstido de fazer grandes comentários sobre a realidade política nacional. As razões são simples: por um lado, continuo a sentir uma enorme frustração para com o nosso Governo que, apesar dos bons resultados que vai apresentando, parece-me que não se atina a fazer as reformas de fundo que de facto nos abrissem as portas de uma futura prosperidade; por outro lado, as alternativas políticas - e partidárias - à actual maioria que nos governa são tão más, tão desvairadas e, pior ainda, capazes de gerar resultados políticos e sociais tão maus, que o que me resta é aceitar que assim é a vida, este é o Governo que temos e não se vislumbram possibilidades de termos no curto prazo um melhor do que este. Foi neste estado de espírito que assisti ao último congresso do PSD. Entrei, portanto, desconfiado. E, para mal dos meus pecados, consegui sair ainda mais desiludido. Primeiro, com a intervenção do Presidente do partido. Alguém ainda me há-de explicar por que razão passou Passos Coelho um boa parte do seu discurso de abertura a discorrer sobre o pivotal papel que o PSD desempenhou nas fundamentais revisões constitucionais para, quando já empolgava aqueles que, como eu, vêem como evidente que o caminho da prosperidade assenta numa revisão constitucional, se atabalhoar num lamento do género "o PS que não se preocupe que eu não venho pedir uma revisão constitucional". Ora, primeiro se não pediu, deveria ter pedido: sem ela não se vai a lado algum, e até era uma bandeira eleitoral do PSD de 2011. Depois, se não era para pedir a dita então para quê aquele discurso todo? Sobra o mistério. A segunda desilusão nem preciso abundar muito nela: só mesmo alguém profundamente obstinado na sua própria teimosia poderia pensar que candidatar o Sr. Relvas ao Conselho Nacional seria uma boa ideia. Palavras para quê? A safar um pouco, ainda deu para ver Marcelo Rebelo de Sousa, o entertainer, bem como Santana Lopes, o humanista benemérito, a mostrarem que os ex-líderes podem ser um bocadinho mais do que aquele fastidioso show de egotismo amargurado de Luís Filipe Menezes para quem, de facto, já não resta muita paciência para aturar. No final, ficou um congresso com momentos engraçados e a sensação de que o PSD verdadeiramente reformista e capaz de rasgar com o status quo ainda não é desta que vai aparecer. Azar da vida, é o que há, e o que há ainda consegue ser bem melhor do que as inconcebíveis tonterias do Tozé Seguro, ou o revolucionário ressentimento da sempre ressabiada extrema-esquerda indígena.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A MOÇÃO QUE NÃO FOI


Fui eleito delegado ao próximo congresso nacional do PSD com o intuito de nele apresentar uma moção sobre qual entendo que deve ser o posicionamento político do PSD. Nesse intuito, a minha pretensão foi apoiada por diversos amigos e companheiros militantes do PSD. Devo dizer que já por duas vezes apresentei moções em congressos do PSD. Nessas alturas, salvo erro 2002 e 2005, para entregar a minha moção, precisei de recolher, em ambos os casos, a assinatura subscritora de vinte delegados (sendo eu um deles). Desta feita, e julgo saber que já há algum tempo assim é, o regulamento do congresso exigia cinquenta assinaturas subscritoras e, mais relevante ainda, que essas assinaturas fossem exclusivas, ou seja, que os cinquenta delegados que subscrevessem a minha moção não poderiam subscrever mais nenhuma. Ora, deixo aqui duas considerações: primeiro, que é absolutamente ridículo que se exijam assinaturas para moções sectoriais em regime de exclusividade. Então, imaginemos, se eu subscrever uma moção sectorial que louve o trabalho dos bombeiros estou impedido de subscrever uma outra que fale de estratégia política? Por que razão? A exclusividade aceita-se onde a aprovação de uma moção implique a rejeição das alternativas mas não é esse o caso aqui: moções sectoriais podem ser adversas mas também podem ser complementares ou simplesmente não relacionadas entre si. Claro está, e este é o meu segundo ponto, que exigir mais do dobro das assinaturas que se exigiam antes e, ainda, forçar a uma ridícula exclusividade limita seriamente a capacidade de um militante de base apresentar uma moção no congresso. Assim foi o meu caso, onde essa dificuldade, ainda por cima adicionada à disponibilidade limitada própria de quem não vive da política, não me permitiu o meu ensejo de angariar as necessárias cinquenta assinaturas. É a vida. Acrescento ainda que o regulamento permite que as comissões políticas distritais apresentem as suas moções, bastando para isso aprovarem-nas nas suas assembleias distritais. Não será difícil de adivinhar que os moções sectoriais servirão, provavelmente, para os senhores presidentes das distritais discursarem deixando os militantes de base onde devem estar: na bancada. Assim vai o PSD, o partido que um dia foi das bases mas que hoje é do aparelho. Quanto à moção, na impossibilidade de vê-la discutida no congresso, aqui fica ela.









Liberdade e Responsabilidade
Uma Social Democracia para o Século XXI
Moção ao XXXV Congresso Nacional do PPD|PSD






1º Subscritor: Nuno P. R. Freire dos Santos Lebreiro, N.º de militante 37698





Lisboa, 21, 22 e 23 de Fevereiro de 2014



I
Portugal atravessa hoje um dos momentos mais difíceis da sua história recente, seguramente o mais difícil da contemporânea história democrática. O grau de dificuldade da situação é de tal modo elevado que o temor de que as instituições democráticas possam estar, a prazo, em perigo não é de todo injustificado. É, por esta singela razão, absolutamente fundamental um correcto diagnóstico da situação – o porquê de estarmos como estamos – bem como de uma consequente, assertiva e clara proposta de solução – o como sair da situação.
Ao contrário da versão mediática mais popular, as causas do nosso predicamento, apesar de também o serem, não são apenas económicas. Por um lado, é bem verdade que temos um Estado que consome muito mais do que aquilo que a produção dos portugueses é capaz de pagar. Assim sendo, as necessidades de financiamento do próprio Estado foram gerando défices acumulados que só podiam ser sustentados através da emissão de dívida. Tal levou a um nível de endividamento público tão elevado que, tornando-se demasiado avolumado para as expectativas de capacidade de pagamento futuras, se revelou impossível de se gerir, normalmente, nos mercados internacionais. O Estado atingiu, portanto, a falência: não conseguindo obter financiamento internacional, não apenas para a dívida que acumulou mas, também, para o seu normal funcionamento (sem financiamento internacional as despesas nunca poderiam ser superiores à receita no imediato). No entanto, por outro lado, também é verdade que a economia é uma actividade própria dos seres humanos e quando aquela apresenta resultados insatisfatórios – como é o nosso caso – a responsabilidade só pode ser assacada a estes. A génese do nosso problema é, por isso, naturalmente, política: se somos os reponsáveis pelo nosso destino colectivo cabe a nós também assumirmos as responsabilidades do falhanço que siginifica a falência económica do nosso país. 
A presente moção tem dois objectivos: primeiro, uma explicação racional e fundamentada para as verdadeiras causas do momento que vivemos nos últimos dois anos; segundo, mostrando que os valores fundamentais do PPD|PSD, bem como a visão que este tem para a sociedade portuguesa, são diferentes – e opostos – àqueles que nos trouxeram a falência, assumir-se que é precisamente através da firme e corajosa afirmação desses mesmos valores que será possível romper com o status quo e, por intermédio de importantes reformas, verdadeiramente estruturais, proceder à imperiosa regeneração de Portugal.

            II
Portugal tem seguido nas últimas décadas um modelo estatista de desenvolvimento cuja ontologia é uma concepção socialista do mundo e da sociedade. Para esta visão, o colectivo é capaz de descortinar uma solução para a sociedade e deve, por isso, sobrepor-se ao indivíduo. Este, menorizado, é tido como alguém que não é capaz de vislumbrar por si próprio o que uma elite dirigente esclarecida consegue descortinar. É, por essa razão, o Estado, como expoente máximo do poder político,  que deve regular, dirigir e “mandar” na vida social. Para esta interpretação do mundo, herdeira última da concepção racionalista, existe sempre uma solução para todos os problemas dos homens e, de alguma forma, é possível acalentar a esperança de atingir essa solução permitindo que todos os cidadãos, por igual, possam viver em paz, segurança e prosperidade ao mesmo tempo e sem conflito sob a mão segura e infalível que lidera os destinos da sociedade. É a visão contemporânea – e sucedânea – do ideal utópico que, inspirado por idealistas como Fichte ou Hegel, guiou Marx e Engels, bem como os seus seguidores mais moderados, à crença no progresso como solução do dilema humano. Deve então, para esta visão estatista da sociedade, o Estado assumir uma lógica de engenharia social, dirigir a sociedade rumo ao “progresso” que se vislumbra no horizonte e implementar o “avanço” da sociedade que apenas os iluminados (a tal elite dirigente) têm a fortuna de conhecer. Por esta razão, o epíteto ‘socialismo’é mais do que apropriado para descrever o paradigma em que vivemos: um paradigma de dirigismo e intervencionismo estatista liderado por uma elite que pensa conhecer melhor o que a sociedade necessita do que os próprios indivíduos que a compõem. Tal conduz a um Estado que se sobrepõe ao indíviduo e a um modelo de um Estado que condiciona fortemente a liberdade.
        
            III
O ideal socialista que tem conduzido Portugal assumiu uma forma mais moderada, o chamado socialismo democrático, mas não deixa de configurar o anseio de caminhar para uma sociedade livre de desigualdades, discriminações e conflitos. Aliás, todo o discurso do politicamente correcto que impera no espaço público espelha precisamente isso. Infelizmente, a vida não é assim. Não apenas é impossível que o Estado garanta a felicidade aos seus cidadãos, como o conflito e a desigualdade configuram a natural base da sociedade. No primeiro caso, deveria ser uma questão do mais elementar bom senso perceber que a prosperidade não se decreta: e considerando que o Estado não cria riqueza (apenas distribui a riqueza criada pelos indivíduos) então torna-se penosamente óbvio que o excessivo peso do Estado apenas resulta em menor riqueza para distribuir pelos restantes indivíduos – os cidadãos. Ao mesmo tempo, uma sociedade excessivamente “garantista” tenderá a gerar comportamentos menos empreendedores por parte dos indivíduos, gerando consequentemente menos riqueza para distribuir. No segundo caso, tem que ver com a interpretação que se faz da natureza humana: a concepção socialista, assente no princípio de Rousseau do bom selvagem, estabelece que os conflitos sociais são resultantes de um sistema social ineficaz e perverso. Tal premissa resultou em diversas experiências sociais durante o Século XX, onde se intentaram diversos sistemas sociais alternativos ao das democracias liberais baseadas na liberdade individual e no modelo da propriedade privada. A História demonstra como todos eles – sem excepção! – resultaram em miséria, violência e opressão mortífera. A verdade é que a vida dos homens não é “justa” ou, um termo mais correcto seria dizer “perfeita”, porque o sistema social que nos rege é injusto ou imperfeito. Pelo contrário, o sistema social que nos rege revela-se imperfeito, ou “injusto”, porque a vida é imperfeita e porque as injustiças fazem parte da vida. De facto, os indivíduos, num mundo onde os bens são escassos, concorrem por estes, obrigando-se à competição, ao conflito e à desarmonia. Nem todos podem ser vencedores. A busca da felicidade compete assim a cada um desses cidadãos, porque numa sociedade que não pode garantir tudo a todos, não pode competir ao Estado a escolha sobre que resultado final se pode exigir. Apenas poderá caber ao Estado garantir que haja um mínimo de igualdade no ponto de partida, bem como de oportunidades, para que cada indivíduo possa lutar pelo seu futuro como muito bem entender.
Precisamente a noção fundamental aqui é a de que são os indivíduos que têm que perseguir os seus desejos, garantir os seus sucessos e assumir os seus riscos porque apenas eles podem saber – e portanto decidir por si próprios – qual o seu particular caminho da felicidade. Num mundo onde nem todos – na verdade ninguém – podem ter tudo aquilo que querem, a responsabilidade das escolhas deve residir ao máximo naqueles que sofrerão as consequências dessas mesmas escolhas: os cidadãos. E não há nada que o Estado possa fazer para alterar este processo a não ser garantir que aqueles a quem o infortúnio, o azar ou simplesmente um destino menos feliz bateu à porta tenham uma vida condigna e vejam as suas necessidades básicas satisfeitas.
O socialismo estatista não deixa, portanto, de ser uma quimera; pior: uma quimera que, precisamente por ser inconcretizável, se torna perigosa para a protecção dos fundamentais valores da liberdade e da democracia: em busca do impossível (uma sociedade libertada das desigualdades e conflitos), corre-se o risco de perder-se o possível (uma democracia livre e próspera).
O Estado, convém não nos esquecermos, é composto por um conjunto de cidadãos e estes, apesar das possíveis boas intenções, não são mais do que singelos seres humanos – imperfeitos por natureza, portanto. Por esta razão, esperar que o Estado seja capaz de proporcionar uma solução para as desigualdades e discriminações da sociedade é um desejo tão impossível de ser satisfeito como a inocente – e perniciosa – ideia de que o Estado pode, ou deve, ser o motor da sociedade. Uma sociedade comandada pelo Estado significa termos os cidadãos comandados pela elite que controla o Estado.  E esse é o caminho da redução da liberdade, uma liberdade preterida em nome de desíginios que não existem, nem poderiam existir, porque são contrários à natureza humana. No entanto, essa é a mensagem que o Estado socialista vende aos cidadãos convencendo-os, através da retórica, de que é possível que todos tenham, por igual – e de uma forma mais facilitada do que se tivessem que fazê-lo por si próprios – a sua felicidade material.
No modelo socialista, o Estado será sempre, ele próprio, um foco de desigualdade e de perversão na sociedade: quem – quer seja por amizades, compadrios ou actos ilícitos – ganhe um acesso preferencial aos serviços e bens públicos é injustamente beneficiado face a todos os outros.  A isso chama-se corrupção e tem enriquecido muita gente (principalmente através do Estado) em Portugal. Assim, o Estado não deverá ser aquele que desenha e conduz a sociedade por inteiro, mas sim aquele que garante um acesso equitativo a direitos e oportunidades mínimas para todos, bem como aquele que protege aqueles que, na sociedade, por uma ou por outra razão, têm menos. A esta preocupação social chamamos o Estado Social: Estado Social o qual é posto em causa, não por aqueles que o querem reformar mas, paradoxalmente, por aqueles que falando demagogicamente em seu nome o fazem perigar por não o conseguirem gerir de forma sustentável: é precisamente para  salvar o Estado social que se torna imperioso reformar o Estado. E essa é a principal distinção entre o Estado Social que existe para as pessoas e o Estado socialista que, em nome das pessoas, vive por sua conta.

            IV
O fundamental é, pois, compreender que é da acção individual em busca da felicidade que se constrói a riqueza de uma sociedade: é o trabalho que gera valor. São os indivíduos, em liberdade, na perseguição da sua própria felicidade que geram a riqueza de uma sociedade porque são eles apenas que conseguem criar valor (o Estado apenas (re)distribui). E quanto mais rica for uma sociedade melhor vivem – todos – os seus cidadãos e mais oportunidades há para que aqueles que menos têm possam passar a viver melhor no futuro. No entanto, o Estado socialista prometendo precisamente aquilo que não pode cumprir (garantias de uma vida feliz e uma falsa igualdade) pretende impor um ideal de justiça utópico que implica redesenhar a sociedade por completo estagnando, dessa forma, o crescimento, dificultando a ascenção social e forçando a uma igualdade que, derivada da estagnação e deteoração económica, é nivelada, a cada momento que passa, cada vez mais por baixo.
Ao ter a ilusão de resolver todos os conflitos com uma solução perfeita, ao pretender tudo regular visando uma pretensamente alcançável igualdade social ou ao, simplesmente, de forma abusiva, decidir que pode livremente tirar a uns para dar a outros, visando critérios arbitrários rumo à tal sociedade igualitária, justa e perfeita, cria no Estado um verdadeiro monstro burocrático e voraz que consome a riqueza dos cidadãos sem acrescentar qualquer valor. O destino do socialismo, como a História o confirma, é uma sociedade dirigida, vergada e organizada em função de um determinado ideal inconcretizável e imposto por homens sobre outros homens. Um fardo, portanto, que os indivíduos têm que carregar, pagar e que os impede de perseguir a sua própria felicidade.
 Pode o socialismo contemporâneo ser menos violento do que os seus predecessores e assentar a sua legitimidade na democracia eleitoral, mas não deixa de configurar um ineficaz sistema de organização social que oferece àqueles que o controlam precisamente um mais efectivo poder sobre a sociedade. Pode o socialismo contemporâneo basear-se na propaganda e na ilusão populista ao invés da força das armas mas o princípio ontológico que o justifica continua a ser o mesmo: que os dirigentes sabem melhor do que os dirigidos o que estes querem – ou precisam – para si próprios. É por esta razão que quanto mais forte o Estado, mais fraca a sociedade. E quanto mais forte o Estado e mais fraca a sociedade, mais grassam a corrupção, a impunidade dos poderosos e, apesar da retórica anunciar o oposto, a desigualdade de facto perante a lei: como Orwell lembra, todos são iguais mas uns são mais iguais do que outros. Pode o socialismo contemporâneo disfarçar-se de um paternalismo benevolente – muito ao estilo salazarista quando bem analisado – mas não deixa de apresentar, como Hayek bem o demonstra,  as consequências que todos os modelos políticos centralizados sempre tiveram: a falência.
O socialismo contemporâneo, com o seu centralismo estatista, pelas razões supra citadas, não deixa de ser o que sempre foi: o aproveitamento de uns à custa de outros. A este aspecto já aludia, em 1868, um insuspeito Antero de Quental quando afirmava que

“o funcionalismo é pois o triunfo da centralização, a sua expressão mais completa, e pode sem ironia dizer-se que uma nação centralizada não chega à sua plenitude, não é, por conseguinte, perfeita, enquanto uma metade dos cidadãos não estiver constantemente ocupada em vigiar, governar e corrigir a outra metade... Mas toda essa gente vive: vive, absorve... e não produz. A ruína das nações centralizadas começa por aqui. Não há relação entre o que sai do trabalho e o que exige o consumo. Para acudir às necessidades do dia é preciso hipotecar o futuro. Mas o futuro há uma hora em que chega a ser presente, e nessa hora aparece por tal forma enfraquecido e sobrecarregado, que já para viver precisa pedir a um outro futuro mais longínquo o dobro e o triplo do que lhe tinham pedido a ele. Eis a progressão terrível da dívida pública! ... É neste momento que o fisco, até ali simples organismo como os outros, se desmascara e deixa ver o monstro cruel, tirânico e disforme que é realmente. Nesse momento de brutal fraqueza, toda a política se resume numa única palavra: dinheiro!"[1]

Como se vê, a falência actual não significa apenas a falência de uma governação e de um modelo económico: significa a falência de todo um modelo filosófico, um modelo de organização social que nos últimos duzentos anos apenas foi bem sucedido em Portugal a expensas da democracia. Este é o verdadeiro perigo que enfrentamos hoje: que a insistência num paradigma errado ponha em causa, por força da pobreza generalizada, a própria natureza democrática do nosso regime. O problema é que é o paradigma que tem que ser mudado: mudar de dirigentes e manter o modelo estatista apenas evita, com maior ou menor eficácia, um colapso anunciado e inevitável.

            V
Aquilo que importa compreender na actual situação é que estamos numa circunstância circular: a crença inusitada na solução estatista, e o consequente reforço do papel e poder do Estado como instrumento de se atingir tal solução, leva a uma situação onde a cada precalço lá vem o Estado legislar e, a cada infortúnio, lá vem o Estado garantir que tal não se repita. Mas, na verdade, é o cada vez maior peso do Estado que configura a principal causa dos actuais problemas em que vivemos e, por esta razão, presos a um paradigma que interpreta de forma errada o mundo, abraçamos assim a verdadeira causa da falência na inocente busca da salvação. E os cidadãos assim o exigem porque os políticos assim lhes prometem. O político estatista, quer por interesse pessoal (em ser eleito), quer porque não sabe melhor (não compreende que os recursos do Estado não são mais do que os recursos da sociedade e, por essa razão, finitos) ou porque, apesar de o compreender, não consegue vencer as adversidades (os poderosos interesses que vivem à conta do Estado) é um político que apenas alimenta um perpétuo movimento de criação de dívida e de afundamento nacional.
O problema de Portugal é, pois, um problema de paradigma político. Paradigma esse que facilita que políticos habilidosos se utilizem do poderoso instrumento que é o Estado para servirem os seus interesses: hoje, em Portugal, devido a esta ontologia estatista, a ascenção social faz-se pelo Estado e pelos partidos políticos. Onde se arranjam meia dúzia de amigos para votar numa secção, arranja-se a respectiva colocação no aparelho do Estado. E uma vez lá, distribuindo lugares no aparelho do Estado, lá se vão angariando mais votos no partido político, e assim sucessivamente, até que se constroem carreiras políticas inolvidáveis cujos méritos mais não são do que um especial talento para gastar em benefício próprio os recursos do país, ou seja: o dinheiro dos contribuintes. Ao mesmo tempo, aproveitando o paradigma socialista, vendem esses políticos habilidosos sonhos ao eleitorado: sonhos que não custam nada a esses políticos e que saem caríssimos ao erário público. Sonhos que prometem facilidades na conquista da felicidade ao mesmo tempo que, pela mentira (e despesa) que configuram, implicam ainda mais dificuldades para o futuro. E tudo isto causa uma erosão gravíssima na defesa da democracia e das liberdades individuais por parte dos cidadãos.
Outra conclusão – e da qual Portugal é, infelizmente, exemplo – é que o paradigma socialista também conduz ao desleixo pela riqueza e valor da sociedade porque não sendo estes geridos por quem de facto trabalhou arduamente para os gerar (os cidadãos) mas sim por aqueles que, nada gerando,  em nome de todos tudo gerem, muitas vezes em proveito próprio, a gestão torna-se danosa, incompetente e, como no nosso caso, até mesmo criminosa. Já dizia Aristoteles que “por muito belo que pareça, que todos chamem ´meu´ao mesmo objecto, é impossível, e não conduz, de modo algum à concórdia. Por outro lado, esta fórmula apresenta uma dificuldade. Quanto mais uma coisa é comum a um maior número, menos cuidado recebe; cada um preocupa-se sobretudo com o que é seu, quanto ao que é comum, preocupa-se menos, ou apenas na medida do seu interesse particular. Aliás, desleixa-se ainda mais ao pensar que outros cuidam dessas coisas"[2].
Inapelavelmente, o paradigma socialista porque assenta em despesa e gastos ao mesmo tempo que não privilegia a criação de riqueza, leva à falência. E com esta à miséria e, pior, à consequente violência pois paz sem prosperidade – onde tudo é mais escasso – é coisa que a História não conhece. É por esta razão que a própria democracia está também em perigo: perdendo-se a prosperidade, perde-se inevitavelmente a liberdade.
Portugal encontra-se hoje nesta encruzilhada: ou prossegue no mesmo caminho e persiste num modelo de organização política que, prometendo o que não pode cumprir, obriga a gastar o que não se tem, muitas vezes naquilo de que não se precisa ou sequer serve os superiores interesses do país, ou assume uma imperiosa ruptura com o estatismo que nos encerra neste pernicioso ciclo vicioso e abre, dessa forma, portas a uma possibilidade para um futuro diferente. Insistir nas mesmas políticas implica insistir nos mesmo resultados e três falências em quarenta anos de democracia deveriam ensinar-nos alguma coisa.

            VI
No que consiste então uma ruptura com o estatismo socialista?
É assumir que os indivíduos são donos do seu próprio destino, que não há soluções perfeitas para a sociedade e que o Estado deverá ser meramente um instrumento dessa sociedade, não para a formar, dirigir ou controlar mas para a proteger e garantir o respeito pelos valores que essa mesma sociedade entende como fundamentais.
É assumir que o Estado não pode continuar a ser um monstro burocrático que, tudo controlando, se torna, como Burke muito bem avisava, demasiado poderoso e capaz de esmagar a frágil, porque individual, liberdade dos cidadãos.
É assumir que o motor da economia são as pessoas e que são estas apenas que, livremente, perseguindo os seus objectivos individuais, são capazes de gerar a riqueza.
É assumir que a igualdade de facto é impossível de ser atingida, quer no ponto de partida, quer no ponto de chegada da vida e que, como Rawls famosamente estabeleceu, apenas se pode garantir que quanto melhor estiverem os que mais têm, mais recompensados deverão ser também os que menos têm.
É assumir que tudo o que é humano é naturalmente falível e que, por essa razão, a responsabilidade das tentativas, dos sucessos e dos erros deverá ser dos cidadãos. Ao Estado, igualmente falível porque composto por pessoas, cabe apenas evitar no natural campo das disputas sociais abusos de uns indivíduos face aos outros. No fundo, assuma-se que liberdade é igual a responsabilidade e que a perda – ou recusa – da segunda implica a perda da primeira.
É assumir que o Estado não pode ser ele próprio instrumento de abuso de uns indivíduos sobre os outros e que, por essa razão, uma das principais obrigações da sociedade é garantir que o Estado é limitado, fiscalizado e controlado pelos cidadãos, e não o inverso.
Finalmente, é assumir que o caminho da felicidade reside no trabalho, no engenho e na perseverança individuais e não nos negócios, nas benesses, nas honrarias ou nas oportunidades que o Estado pode garantir.
São palavras simples aquelas que aqui se exprimem, mas revelam uma revolução tão difícil quanto fundamental. Na prática, implicam uma política que assuma estes valores, cortando com os interesses económicos poderosos que controlam o Estado, apelando aos eleitores para que lutem – eles próprios! – pela sua liberdade mostrando-lhes que aqueles que vendem facilidades e sonhos mais não oferecem do que uma mão cheia de nada e uma outra, escondida, cheia de uma dívida que nos agrilhoa o futuro. Trata-se de assumir com verdade e frontalidade que um futuro de bem estar e prosperidade apenas é possível se mudarmos de paradigma, se cortarmos de facto com o socialismo estatista.

            VII
         Os valores do PPD|PSD são fundamentalmente compatíveis com a mudança de paradigma que é necessária para Portugal. A social-democracia em Portugal afirmou-se não como o corolário de uma visão socialista para a sociedade mas, pelo contrário, como o contraponto liberalizante e ontologicamente conservador face ao socialismo moderado do Partido Socialista e ao socialismo radical da extrema-esquerda portuguesa. De facto, apesar de, como Maritheresa Fraín nos lembra, “os fundadores do PSD [terem adoptado] um programa não ideológico e pragmático”[3] onde “a designação do partido como social-democrata ajudou a reforçar as... credenciais «esquerdistas»[do PSD] no período em que ser de direita poderia significar um suicídio político”[4], não deixa de ser igualmente certo que o PSD, como representante da direita emergente no pós-25 de Abril, “procurou representar os interesses económicos e sociais dos homens de negócios, dos proprietários agrícolas, das profissões liberais, da classe média e dos trabalhadores não-marxistas das cidades e dos meios rurais”[5]. Ao mesmo tempo, o pragmatismo do PPD|PSD corresponde a uma coligação de valores que justificava o realismo pragmático que assumiu e que a imperiosa salvação nacional obrigava. Essa coligação de valores congregava sectores tradicionalmente social-democratas da oposição ao regime de Salazar e Caetano mas também, não menos importante, significativos elementos da burguesia liberal, principalmente nortenha, bem como elementos conservadores que muito facilmente poderiam ser descritos como defensores da democracia-cristã europeia. Marcelo Rebelo de Sousa resume: “É, pois, da confluência destes legados – social-cristão, social-liberal com afloramentos social-democráticos e social-tecnocrático – que nasce, ideologicamente o PSD”[6]. Em suma, a base ideológica do PPD|PSD congrega um ideário social-democrata (segundo Rebelo de Sousa em minoria), democrata-cristão e, naturalmente, liberal.
                Não será, portanto, extremanente polémico afirmar-se que a social-democracia portuguesa tem raízes, quer no campo dos valores, quer no campo das pessoas que visava representar, bem díspares das suas congéneres europeias que se identificam com o socialismo. Tal coisa também se revelou na prática. Primeiro, através de Sá Carneiro e a forma como visou libertar o país da influência militar; depois, com Cavaco Silva, no processo de liberalização – e o correspondente progresso material – que o PPD|PSD conseguiu implementar nos anos 80 e 90 do Século XX. Não será demais, nem despropositado, relembrar que foi precisamente nesses anos que – com a oposição feroz do PS e da extrema-esquerda – se conseguiram implementar reformas, na altura igualmente neo-liberais e heréticas para a esquerda, mas que eram tão evidentemente fundamentais, tais como os bancos, as seguradoras e os órgãos de comunicação social poderem exisitir fora da esfera do Estado. Não será igualmente demais, nem despropositado, relembrar que foram precisamente esses anos os de maior progresso material da democracia portuguesa.
                Atente-se que a mudança de paradigma político não visa acabar com o Estado-Social ou, muito menos, com o Estado. Passa apenas por ter um Estado limitado pelos cidadãos ao invés de ter os cidadãos ao serviço do Estado e dos indivíduos que o controlam.
Neste sentido, o que se exige é um esforço de libertação face aos constrangimentos herdados do salazarismo e do fervor revolucionário marxista, nomeadamente os constitucionais, que obrigam o país a ir vivendo no pântano estatista da perpétua criação de dívida. Acima de tudo, mais uma vez, aquilo que se pede do PPD|PSD é que seja capaz de implementar uma política séria, credível e eficaz para voltar a colocar Portugal na rota da prosperidade e do progresso material.

            VIII
Uma proposta política séria para Portugal passa, então, por perceber que a reforma do Estado não é apenas obrigatória porque imposta de fora ou necessária para reduzir o défice. É imperiosa porque é a melhor, e mais eficaz, forma de uma sociedade se gerir a si própria, e capaz de criar mais riqueza para ser melhor distribuída. Precisamos, portanto, de reduzir o peso do Estado na economia; de privatizar, extinguir ou reduzir serviços do Estado; de reformular a segurança social para fazer face às novas realidades económicas e sociais – como a quebra da natalidade e o envelhecimento da população; de reformar a educação visando a descentralização, a liberdade de escolha das famílias, a gestão autónoma, responsável e fiscalizada das escolas, bem como a noção de que o fundamental é o Estado garantir o acesso à educação e não forçosamente a gestão do ensino; de reformar a saúde onde, tal como noutras áreas do chamado Estado Social, é prioritário compreender que a defesa da gratuitidade dos sistemas gera  desigualdades brutais no acesso e que mais vale garantir um acesso gratuito apenas para quem não pode pagar, garantindo, dessa forma, mais equidade no acesso e a sustentabilidade de sistemas sociais fundamentais; de reformar a justiça e aceitar que as leis não podem prever tudo, que a norma não se pode substituir ao julgamento humano e que, por essa razão, mais valem códigos simplificados onde a interpretação do juiz seja clara – e por isso transparente – visando o fim de uma obssessão legislativa que tudo prevendo, tudo regulando e tudo regulamentando apenas degenera numa sociedade onde quem tem acesso a peritos interpretadores da lei (advogados) tudo pode e quem não tem esse acesso nada pode.
 Em suma: liberalizar, privatizar, desregulamentar, simplificar ao mesmo tempo que é imperioso garantir real acesso a quem menos tem aos bens fundamentais de uma sociedade: a saúde, a educação e a justiça. Este é o caminho que congrega a única justiça ao alcance dos homens com a exequibilidade da gestão pública. É uma reforma difícil que, para ser implementada, obriga a um debate que vá para além do mero discurso económico. Fundamental é também tornar transparente o embuste que tem sido a governação socialista das últimas décadas em Portugal e, ao mesmo tempo, cortar com esse paradigma. Tamanha tarefa obriga a uma força, a uma tenacidade e – também – a uma esperança que não são fáceis de econtrar.

            Conclusão
          O papel do PPD|PSD será, portanto, o de implementar uma verdadeira ruptura com o status quo socialista que trouxe o país à falência. É imperioso que se perceba que a corrupção generalizada, o clientelismo, o tráfico de influências e os negócios obscuros com o Estado apenas são possíveis num país que tem um Estado que é forte com os fracos e fraco com os fortes. É essa situação que urge modificar e tal mudança apenas será possível com políticas altruístas, certamente impopulares, que tenham a capacidade de afrontar os múltiplos interesses instalados, ao mesmo tempo que tenha a capacidade de chamar os cidadãos a assumirem maior responsabilidade no destino colectivo do país. Como já se disse atrás: a liberdade individual apenas persiste baseada e assente na fundamental responsabilidade individual. Assim, apenas dando mais poder aos cidadãos se pode limitar o Estado.  E apenas limitando o Estado se pode construir um país que não viva exclusivamente com o olho preso no défice do ano transacto mas que tenha a capacidade de gerar prosperidade e esperança para os seus cidadãos. Mais se afirma que apenas o PPD|PSD, por força das suas características únicas, poderá ser o agente catalizador da mudança necessária. E que se o PPD|PSD falhar na sua imperiosa missão, restará a manutenção do status quo e a consequente incapacidade de acção que levará a que o futuro colectivo dos portugueses se decida, não por nós próprios, mas por aqueles que, por enquanto, nos vão emprestando dinheiro (e juros). E dessa vergonha já chegou a altura de dizermos “basta!”.



[1] Antero de Quental, Portugal Perante a Revolução de Espanha, 1868, in: Pedro Calafate, Portugal Como Problema, Vol. III: Século XIX – A Decadência, FLAD\Público, 2006, pp. 219-20
[2] Aristóteles, Política, 1261 b 30-35
[3] Maritheresa Fraín, PPD\PSD e a Consolidação do Regime Democrático, Editorial Notícias, 1998, p. 243
[4] Ibidem, p. 243
[5] Ibidem, p. 14
[6] Marcelo Rebelo de Sousa, A Revolução e o Nascimento do PPD, Editora Bertrand, 2000, Volume I, p. 15