segunda-feira, 2 de junho de 2014
UM PROCESSO (V)
A felicidade como um processo é também uma libertação face à escravidão que é
aquela obrigação de ter que ser-se qualquer coisa que o nosso 'eu'
passado, e forçosamente mais ignorante, estabeleceu como um objectivo de
existência para o nosso futuro, condicionando-o. Se a isto juntarmos a
noção de que muitos destes "objectivos de felicidade" advêm de
marqueting comercial, pressão social, desígnios familiares, ou simples
devaneios mais infantis, percebemos então que a felicidade como um processo, e a consequente permanente revisão dos objectivos, é uma forma muito mais autêntica, e por isso também feliz, de viver a vida.
Etiquetas:
NADA
UM PROCESSO (IV)
Imaginar a felicidade como um resultado final estático, e permanente, tem ainda outra dificuldade: um sucesso é um passo na direcção certa, mas um insucesso é um fracasso e, por conseguinte, um passo na direcção oposta. Assim, os insucessos tornam-se motivos de grande angústia e impeditivos de viver o dia-a-dia com tranquilidade. Pior ainda, por vezes são motivo de vergonha, sentimentos de fracasso, derrota, etc.. Já para quem interpreta a vida feliz como um processo de aprendizagem, e porque aprendemos por tentativa e erro, então os insucessos são mais facilmente aceites porque implicam crescimento, mais sabedoria e, naturalmente, entendem-se como fazendo parte da vida feliz.
Etiquetas:
NADA
UM PROCESSO (III)
Outra dificuldade dos neuróticos e obsessivos perseguidores da felicidade futura consubstanciada num resultado final particular é a incapacidade de adaptação do próprio objectivo. Fará sentido um homem de quarenta anos perseguir uma imagem do seu 'eu' futuro que estabeleceu como seu objectivo final de felicidade quando tinha apenas vinte anos? Só se não tiver aprendido nada entretanto.
Etiquetas:
NADA
UM PROCESSO (II)
Como podem os jovens guiados pela mentalidade, e pelo desejo, do resultado final, que andam sempre em busca daquele momento futuro para onde correm sem parar, sempre a sonhar com o seu 'eu' futuro onde serão directores, chefes, presidentes, isto ou aquilo, sempre a ansiar pelo tempo em que os seus sonhos se concretizam, em que vivem de facto a vida perfeita, como podem esses jovens correr com tanta vontade para tamanhos desígnios, se a concretização desses mesmos sonhos significa, também, e inevitavelmente, que então serão velhos - porque só os velhos são directores, chefes, presidentes, isto ou aquilo - e que a maior parte da vida já terá passado por eles, significando isto que passaram a vida a acelerar apenas para chegarem mais rápido à proximidade do fim? Querer ser-se algo que não se é, e desejar que esse algo chegue rápido, apenas pode significar querer que a vida, e ela já é tão breve!, passe mais depressa. Uma estupidez, portanto. Uma estupidez própria de crianças, porque apenas as crianças vivem na ilusão de que a vida é eterna. A vida feliz, pelo contrário, é aquela que se contenta, e se satisfaz, com o processo de transformação, e não apenas com o resultado final. Aliás, de tudo o que há, aquilo que menos interessa será precisamente esse resultado final pois nele apenas consiste a morte e o fim de tudo o que nos faz, ou poderia ter feito, felizes.
Etiquetas:
NADA
quinta-feira, 29 de maio de 2014
UM PROCESSO
Jogar o jogo da vida, com afinco e perseverança, sempre sem desistir, quando se sabe que a inevitabilidade da morte espera, sempre serena e eternamente, no final de todo e qualquer caminho que se escolha é, ao mesmo tempo, uma loucura e a salvação. Loucura, porque todo e qualquer esforço encontrará sempre o mesmo resultado: considerando a inevitabilidade da morte a que a condição humana nos condena, nada, em última instância, sobreviverá. A única garantia será, então, que, no final, perdemos sempre e que todos os esforços de uma vida resultarão, ingloriamente, na inutilidade da irrelevância e do esquecimento. Salvação, porque é a única escolha que permite a felicidade: não pode ser feliz aquele que não aceita a sua condição. É preciso, no entanto, uma certa dose de sabedoria para que se entendam estas duas coisas simultaneamente: apenas aceitando a absoluta inutilidade objectiva de todo e qualquer esforço pode compreender-se que, se o resultado final é a morte, então a satisfação subjectiva terá que residir durante o jogo e nunca nesse resultado final. Assim, a felicidade será, forçosamente, um processo, um caminho e não um fim. Uma escolha do momento em que se vive, portanto, e não um objectivo sempre atirado para um futuro, que por ser futuro, e um pretenso resultado final, estará sempre longe demais, isto até ao dia em que simplesmente deixará de estar. Assim, atingir esse momento feliz não poderá nunca passar por um plano de vida, um
cardápio de bens materiais ou uma receita de químicos receitados (ou
não). Pelo contrário, o momento feliz é uma
escolha que, aceitando, e assumindo, a loucura da vida, a própria irrelevância e libertando-se de todas
essas receitas, cardápios ou planos, se realiza no imediato. E é ao gozar o momento feliz que todos os esforços, tal como a vida, apesar de inúteis, irrelevantes ou mesmo cómicos de tão estúpidos que são, passam a fazer sentido, e a serem motivo de satisfação, mesmo que em última instância seja um sentido para lado nenhum. O sentido encontrado, ou a felicidade experimentada, estão então numa satisfação presente e não num futuro inexistente, se bem que antecipado. No final, o único esforço verdadeiramente inútil será precisamente aquele que é efectuado em busca da felicidade: para ser-se feliz, basta viver-se com vontade. Ou seja, feliz está aquele a quem não lhe ocorre perguntar-se se é feliz.
Etiquetas:
NADA
domingo, 11 de maio de 2014
A CONDIÇÃO HUMANA
pelas palavras de Bertrand Russel, numa outra casa que também vou habitando: There Is No Spoon.
Etiquetas:
FILOSOFIA,
LITERATURA
sexta-feira, 9 de maio de 2014
SAFEM-SE OS CARACÓIS
Vou a Portugal para a semana durante mais ou menos quinze dias. Não me apetece. Não tenho vontade. É uma tristeza, mas é verdade. Sinto-me como se, mal ponha o pé no chão do aeroporto, vá dar imediatamente de caras com os lunáticos da extrema-esquerda que gritam, gritam, gritam sem parar, que querem tudo e mais umas botas mas desde que seja de borla, sem pagar, ou os outros, "os ricos", esses cabrões, que paguem. Depois desses, aparecem-me os aldrabões socialistas, aqueles que levaram o país à bancarrota e que agora assobiam para o ar. Pior, insistem eles, os socialistas, aos gritos, naturalmente, que as políticas que nos levaram à bancarrota estavam certas e que, pasme-se, serão aquelas que nos vão salvar agora (da bancarrota que essas mesmas políticas causaram). Aldrabões sem vergonha. A sério: que bando de salafrários. Depois, vem o governo assaltar-me de pistola em punho. Se lhes perguntar pela reforma do Estado, qual reforma do Estado pergunta o Passos Coelho?, e eu respondo: aquela que diziam que faziam e que, passados três anos, nem um vislumbre, ah, essa?, pergunta o Portas, essa é a seguir à eleições. O melhor é estar calado, penso eu, enquanto fujo desagradado pelos apalpões dos guardas fronteiriços, está calado Nuno, baixa a cabeça, passa despercebido, e dá graças a Deus por ainda te deixarem comer umas bifanas sem pagar taxa de gordura. A seguir, aparecem-me os senhores das repartições, cheios de carimbos e agrafadores, a exigir as taxas e os impostos que eu estou farto, fartinho de pagar (onde é que eu estava com a cabeça ao querer investir em Portugal?) e a explicarem-me tintim por tintim por que razão é que eu é que sou louco ao achar que três anos são mais do suficientes para se aprovar um projecto de investimento económico numa zona desfavorecida do país. A seguir a esses, aparecem os fiscais, os sub-fiscais e os para-fiscais das câmaras a demonstrar como tudo está mal feito, como assim não pode ser aprovado, onde é que já se viu tal coisa, nem pensar, pague lá taxa, a sub-taxa, a para-taxa, a da câmara, a da direcção regional, a da rede natura, a do parque natural, a do instituto de conservação da natureza, esta é a dobrar porque tem casa e tem anexo, e a seguir, calma lá, não pode pôr o anexo, diz o da câmara, mas o do instituto diz que o anexo pode ser, a casa é que não, pelo menos não ali. E aí, desesperado, eu, de rastos, ali no aeroporto, grito que se altera o projecto, só não me obriguem a voltar ao início do procedimento, o procedimento são mais dois anos, porra isso é que não, entretanto, passo ali no multibanco, saca da carteira, paga ao arquitecto, paga ao engenheiro, paga o certificado energético (e aquele bando de parasitas que vivem à conta da invenção estatal da obrigatoriedade do certificado energético), paga o certificado telefónico (mesmo que não tenha rede telefónica), paga o certificado de ruído (mesmo que não haja vizinhos), e depois, toma lá, agora espera mais seis meses pela resposta à tua última carta. E depois de todos esses, lá vêm os senhores do sindicato, e os senhores da função pública atrás, todos com bandeiras vermelhas e boinas do Ché Guevara, a explicar - aos gritos, claro - por que excelsa razão todos estes serviços, sub-serviços e para-serviços, mais os seus coordenadores, sub-coordenadores e para-coordenadores, devidamente acompanhados das taxas, das sub-taxas e das para-taxas, são absolutamente fundamentais para salvação da pátria, para a solidariedade, fraternidade e felicidade de todos, incluindo a minha. Finalmente, após três ataques de fúria e um de ansiedade, mais uma depressão e uma desesperada fuga à realidade rumo à esperança que no "futuro isto mude" (nunca vai mudar), talvez consiga aguentar até ao café mais próximo, mesmo que a roer as unhas e a falar sozinho porque já me sinto tão maluquinho quanto aqueles que para aí andam a falar nas televisões e a escrever nos jornais, mas dizia, talvez aguente até ao café mais próximo para comer uns caracóis e ver o Benfica. Talvez. Talvez. Pois. É como vos dizia: não me apetece. Mesmo nada. Acho que é uma espécie de alergia.
Etiquetas:
NADA
segunda-feira, 5 de maio de 2014
GUIA PRÁTICO PARA A COMPREENSÃO DA TUGARIA
Aqui, à distância de uns curtos milhares de quilómetros mas, igualmente à distância de um clique, proponho hoje um exercício que será capaz de explicar aos mais distraídos tudo o que se passa em Portugal, tim-tim por tim-tim. Ah-e-tal-eu-não-sou-muito-conhecedor-da-realidade-portuguesa-não-ligo-muito-acordei-agora-para-a-coisa-e-gostaria-de-perceber-mais-sobre-o-assunto-principalmente-as-razões-que-nos-levaram-à falência-e-que-nos-impedem-de-sair-dela é você? Então este guia prático é para si!
Muito fácil:
Primeiro passo é seguir até ao Diário de Notícias de hoje e começar a ler o artigo do João Luís César das neves (link). Mantenha o espírito aberto mesmo que não concorde com as opiniões religiosas, éticas ou morais do homem, afinal de contas, lembre-se, vivemos em Democracia e temos que respeitar as opiniões de todos.
Depois de começar a ler o artigo, carregue no play do vídeo que se segue.
Assim, enquanto lê as palavras de César das Neves, um economista respeitável, um académico de nomeada aliás, e que não precisa do seu voto, ou de um tacho governamental, para nada e, por isso, pode dizer a verdade tal como a vê (coisa rara em Portugal) pode igualmente apreciar a qualidade musical da Suzy, bem como a profundidade da letra de Emanuel. Num momento de maior perplexidade lembre-se que foi essa a música que uns quantos milhares de portugueses escolheram para o representar a si num festival de música internacional.
Mas, calma!, o guia não fica por aqui. Se está escandalizado com a eventual pacovice bardajona da música em questão a coisa fia mais fino: afinal, ao melhor estilo aí da tugaria, o festival da canção da RTP foi matraqueado e diz-se, contenha os risos, que o Emanuel andou a contratar call centers para garantir caciqueiramente, ao melhor estilo do Estado Novo, a vitória da sua obra prima. A estória é contada aqui (link).
Assim, para finalizar, até porque ler a estorieta da conspiração errtêpiano-emanuelina demora o seu tempo, pode entretanto carregar no play no vídeo que se segue e apreciar o esplêndido som da música que, aparentemente, de acordo com os boatos, deveria efectivamente ter ganho o festivalito da "canção".
Pois. Quando perceber que a música que deveria ter ganho é tão má quanto a que ganhou, a isso juntar o facto de nem num festivalito de música a pequena corrupção e o caciquismo nos deixarem em paz, que tudo se passou numa estação pública - paga, portanto, com os nossos impostos! - então volte ao início e leia o artigo do João Luís César das Neves outra vez. Pois é, não é?
Muito fácil:
Primeiro passo é seguir até ao Diário de Notícias de hoje e começar a ler o artigo do João Luís César das neves (link). Mantenha o espírito aberto mesmo que não concorde com as opiniões religiosas, éticas ou morais do homem, afinal de contas, lembre-se, vivemos em Democracia e temos que respeitar as opiniões de todos.
Depois de começar a ler o artigo, carregue no play do vídeo que se segue.
Assim, enquanto lê as palavras de César das Neves, um economista respeitável, um académico de nomeada aliás, e que não precisa do seu voto, ou de um tacho governamental, para nada e, por isso, pode dizer a verdade tal como a vê (coisa rara em Portugal) pode igualmente apreciar a qualidade musical da Suzy, bem como a profundidade da letra de Emanuel. Num momento de maior perplexidade lembre-se que foi essa a música que uns quantos milhares de portugueses escolheram para o representar a si num festival de música internacional.
Mas, calma!, o guia não fica por aqui. Se está escandalizado com a eventual pacovice bardajona da música em questão a coisa fia mais fino: afinal, ao melhor estilo aí da tugaria, o festival da canção da RTP foi matraqueado e diz-se, contenha os risos, que o Emanuel andou a contratar call centers para garantir caciqueiramente, ao melhor estilo do Estado Novo, a vitória da sua obra prima. A estória é contada aqui (link).
Assim, para finalizar, até porque ler a estorieta da conspiração errtêpiano-emanuelina demora o seu tempo, pode entretanto carregar no play no vídeo que se segue e apreciar o esplêndido som da música que, aparentemente, de acordo com os boatos, deveria efectivamente ter ganho o festivalito da "canção".
Pois. Quando perceber que a música que deveria ter ganho é tão má quanto a que ganhou, a isso juntar o facto de nem num festivalito de música a pequena corrupção e o caciquismo nos deixarem em paz, que tudo se passou numa estação pública - paga, portanto, com os nossos impostos! - então volte ao início e leia o artigo do João Luís César das Neves outra vez. Pois é, não é?
Etiquetas:
POLÍTICA,
PORTUGAL NO SEU PIOR
sexta-feira, 2 de maio de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
Uma das características fundamentais do progressismo é uma crença inabalável na infinita bondade humana aliada a uma profunda crítica ao sistema político-social que impede essa mesma bondade de naturalmente triunfar. O mito do bom selvagem, portanto: mude-se o sistema que as pessoas, libertas, serão melhores.
E pergunta o verdadeiro conservador: como queres tu, progressista, fazer um sistema novo se não tens mais com que trabalhar além das mesmas velhas pessoas?
E é por esta razão que os progressistas acabam sempre a chicotear aqueles ignorantes que não querem ser livres. Hoje em dia, ficam-se pelos insultos mas, tenham calma, a crise ainda não acabou e ainda há muito imposto para aumentar.
E pergunta o verdadeiro conservador: como queres tu, progressista, fazer um sistema novo se não tens mais com que trabalhar além das mesmas velhas pessoas?
E é por esta razão que os progressistas acabam sempre a chicotear aqueles ignorantes que não querem ser livres. Hoje em dia, ficam-se pelos insultos mas, tenham calma, a crise ainda não acabou e ainda há muito imposto para aumentar.
Etiquetas:
CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO,
POLÍTICA
segunda-feira, 28 de abril de 2014
DESVIO E NORMA
Dizia o Frank Zappa, e bem, que sem desvio da norma o progresso não é possível. Utilizada para explicar a rebeldia, mesmo aquela sem causa, esta frase bem tem servido como o hino dos progressistas supostamente contra os conservadores. Eu não vejo a coisa assim. O verdadeiro conservadorismo não reside em impedir o desvio contra a norma mas, muito mais importante, em compreender que sem norma não há nada do qual alguém se possa desviar. Ou seja, sem norma não há igualmente progresso, apenas sobra o caos.
Etiquetas:
NADA
quinta-feira, 24 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
DO ATAVISMO
A capacidade indígena de nos destruirmos uns aos outros em nome daquilo que se acredita ser uma qualquer razão que nos assiste é a principal causa para que este país não deixe de ser um país de terceira categoria. Agora são os Srs. polícias a alertar os turistas nos aeroportos para o facto de estes estarem inseguros devido aos cortes nos seus salários. Força nisso, vamos lá afugentar os pobres incautos que vêm cá largar umas coroas! Avante camaradas! Como diria alguém, no futuro deitaremos fogo a tudo, não é?
Etiquetas:
POLÍTICA,
PORTUGAL NO SEU PIOR
terça-feira, 22 de abril de 2014
DA SÉRIE: HÁ GAJOS QUE SABEM O QUE DIZEM
Pedro Picoito, no Nada os dispõe à acção:
"[Deixa-me] perplexo que a Associação 25 de Abril, autoproclamada herdeira do MFA, queira comemorar no inevitável Largo do Carmo os quarenta anos da revolução em festejos paralelos aos oficiais, a decorrer no Parlamento. Já sei que o motivo é que não os deixam discursar em S. Bento e que os militares de Abril, depositários da pureza da revolução, entendem não só ter mais legitimidade do que os partidos para falar em S. Bento como não terem os partidos do Governo legitimidade nenhuma para falar seja onde for. Mas isto, se me permitem, é um entendimento muito pouco democrático da democracia. Pode criticar-se o Governo por muitas razões, e eu próprio já o fiz, mas não se pode criticar os partidos do Governo por não terem legitimidade democrática. Ganharam as eleições, são apoiados por uma maioria parlamentar, estão a governar respeitando a Constituição e, se não estão, os checks and balances do regime funcionam. Ora, os supostos intérpretes do "espírito de Abril" dizem, no fundo, que a legitimidade democrática de quem fez a revolução pelas armas é maior do que a legitimidade democrática de quem ocupa o poder pelo voto. O que é uma contradição nos termos porque o 25 de Abril se fez exactamente para eleger quem está no poder". Aqui.
Etiquetas:
POLÍTICA
segunda-feira, 21 de abril de 2014
ELOGIO À GRANDEZA
Daqui
A enorme grandeza do Sport Lisboa e Benfica, apesar de não cessar de me surpreender, representa duas coisas: primeiro, um facto incontestável; segundo, uma inevitabilidade histórica. Quanto a ser um facto incontestável é algo que enche qualquer Benfiquista de orgulho e, naturalmente, os nossos adversários de uma miscelânea de sentimentos, nenhum deles particularmente agradável.
É factual e incontestável porque é empiricamente demonstrável: a cada jogo do Benfica, as bancadas enchem-se. Em Portugal, o Benfica lidera as assistências em casa, enche os estádios adversários e, na vitória, move e comove milhões espalhados, não apenas pelo país mas, também, por esse mundo fora como nenhum outro clube o consegue fazer. Na diáspora, a festa é tão intensa como em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou pelos Algarves. África, Ásia, Europa e América, por todo o lado, num domínio onde o sol nunca se põe, portugueses e estrangeiros, todos Benfiquistas e, por isso, também portugueses, unem-se num momento de comunhão mundial de um júbilo intenso, expansivo e, naturalmente, único.
Em Paris, ou em Bruxelas, fecham-se estradas e rotundas. Em Londres ouve-se fogo de artifício. Em África saem à rua milhões. E em Portugal atingem-se os píncaros da loucura, por vezes a insanidade pura, de quem sai para a rua a gritar e a saltar, mais ou menos vestido, com mais ou menos adereços (Jorge Jesus parece também nesse campeonato liderar em número de peças de vestuário Benfica), porque não consegue conter a alegria imensa de ver o Benfica campeão.
No entanto, entre o lunático que sobe às estátuas ou aos postes de electricidade para "ver melhor os campeões" e o adepto sereno que se contenta com umas postadas mais afoitas no Facebook, entre esses e todos os outros, uma coisa há em comum: um sentimento de amor a algo que os transcende. E, não entrando no campo da metafísica, não poderia deixar de ser transcendente a cada um pela simples razão de que é comum a milhões.
A grandeza do Benfica está, pois, nessa transcendência. No escape ao racional e no deixar-se cavalgar o fulgor das emoções, algo que não se faz, ou não se deve fazer, no trabalho, na família, no supermercado ou na igreja. É a transcendência face à vida comum. Face às obrigações. Face à realidade. E é o abraçar do sonho, da glória, da perfeição, lá está, o abraçar imenso da felicidade.
E é também a transcendência da condição humana: desde o existencialista deprimido com o facto de não conseguir lidar com a evidência inultrapassável de que um dia irá morrer até ao inválido que se encontra confinado a uma cadeira de rodas, no momento da comunhão benfiquista, ambos se transcendem, o primeiro porque sabe que morrerá mas o seu Benfica é eterno, e o Benfica é ele também, e por isso a eternidade o abraça a ele igualmente; e o segundo, porque naquele mesmo partilhado momento se sente inundado com a força invencível dos campeões, uma força que afugenta, pelo menos do seu espírito, as suas debilidades, elevando-o ao sentimento que apenas aqueles que se sentem campeões podem sentir - independentemente de cadeiras de rodas ou não. É o sentimento da invencibilidade. Da superioridade a todas as adversidades.
Finalmente, é ainda a transcendência da condição social: desde o snob pretencioso (que também os há) até ao humilde operário, ou desde o bem sucedido empresário até ao remediado funcionário público, todos eles, naquele momento são absolutamente iguais porque, naquele instante particular, naquele momento concreto, todos se definem pela mesma bitola, pelo mesmo sentimento, um sentimento que experimentam por igual: eles são campeões, eles são Benfica, eles são iguais. É a igualdade que utópicos como Rousseau ou More tanto sonharam e que, mesmo que por uns instantes fugazes, apenas se alcança em pleno no campo da transcendência benfiquista.
E aqui chegamos ao segundo ponto, o da inevitabilidade histórica. Era inevitável a grandeza do Benfica precisamente porque apenas o Benfica é capaz de fazer transcender. E apenas o Benfica tem essa capacidade devido às circunstâncias particulares que estiveram na sua génese. Nascido na humildade do povo português, apenas um clube que fosse genuinamente popular poderia almejar a grandeza que o Benfica tem. Ao contrário do FC Porto que se afirma como um clube de bairro contra o centralismo de Lisboa, ou seja, define-se pela negativa, ou do Sporting que, com o seu nome adequadamente estrangeiro, se afirma, e define, como o clube da elite, da nobreza ou dos ricos, o Benfica rejeita a negação, ou a limitação auto-imposta de uma pretensa elite, e afirma-se pela positiva, por si mesmo, pela sua identidade que sendo a do povo, em concreto a do povo português, não poderia deixar de ser Portugal. Para o Benfica, todos podem ser - e no fundo, no seu íntimo, todos são - benfiquistas porque é o único clube que se abre, sem pejos, limites ou vergonhas, a Portugal.
Como poderiam tais clubes como o Porto e o Sporting gerar a transcendência que aqui se referiu quando eles próprios rejeitam franjas importantes de portugueses, uns porque vivem mais a sul, outros porque não seriam da sua ilusória condição? Já o Benfica é verdadeiramente de todos e, por isso, todos podem ser também verdadeiramente Benfica. E, por esta inevitabilidade que lhe advém da génese, o Benfica não apenas é capaz de coisas únicas, como de uma adesão popular ímpar e, acima de tudo, de gerar uma relação de amor com os seus apoiantes que há-de permanecer um mistério para aqueles que, por infortúnio da vida, não tiveram a Graça de ser Benfiquistas.
O Benfica tornou-se campeão ontem, no entanto, na realidade, como todos os benfiquistas bem o sabem, o Benfica nunca é outra coisa além do que campeão. Daí, aliás, o fabuloso hino O Campeão Voltou que resume esse sentimento na perfeição. O Benfica é sempre campeão. Ontem apenas viu os seus adversários reconhecerem-lhe o título que, com naturalidade, os Benfiquistas sabem sempre ser seu por direito.
A enorme grandeza do Sport Lisboa e Benfica, apesar de não cessar de me surpreender, representa duas coisas: primeiro, um facto incontestável; segundo, uma inevitabilidade histórica. Quanto a ser um facto incontestável é algo que enche qualquer Benfiquista de orgulho e, naturalmente, os nossos adversários de uma miscelânea de sentimentos, nenhum deles particularmente agradável.
É factual e incontestável porque é empiricamente demonstrável: a cada jogo do Benfica, as bancadas enchem-se. Em Portugal, o Benfica lidera as assistências em casa, enche os estádios adversários e, na vitória, move e comove milhões espalhados, não apenas pelo país mas, também, por esse mundo fora como nenhum outro clube o consegue fazer. Na diáspora, a festa é tão intensa como em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou pelos Algarves. África, Ásia, Europa e América, por todo o lado, num domínio onde o sol nunca se põe, portugueses e estrangeiros, todos Benfiquistas e, por isso, também portugueses, unem-se num momento de comunhão mundial de um júbilo intenso, expansivo e, naturalmente, único.
Em Paris, ou em Bruxelas, fecham-se estradas e rotundas. Em Londres ouve-se fogo de artifício. Em África saem à rua milhões. E em Portugal atingem-se os píncaros da loucura, por vezes a insanidade pura, de quem sai para a rua a gritar e a saltar, mais ou menos vestido, com mais ou menos adereços (Jorge Jesus parece também nesse campeonato liderar em número de peças de vestuário Benfica), porque não consegue conter a alegria imensa de ver o Benfica campeão.
No entanto, entre o lunático que sobe às estátuas ou aos postes de electricidade para "ver melhor os campeões" e o adepto sereno que se contenta com umas postadas mais afoitas no Facebook, entre esses e todos os outros, uma coisa há em comum: um sentimento de amor a algo que os transcende. E, não entrando no campo da metafísica, não poderia deixar de ser transcendente a cada um pela simples razão de que é comum a milhões.
A grandeza do Benfica está, pois, nessa transcendência. No escape ao racional e no deixar-se cavalgar o fulgor das emoções, algo que não se faz, ou não se deve fazer, no trabalho, na família, no supermercado ou na igreja. É a transcendência face à vida comum. Face às obrigações. Face à realidade. E é o abraçar do sonho, da glória, da perfeição, lá está, o abraçar imenso da felicidade.
E é também a transcendência da condição humana: desde o existencialista deprimido com o facto de não conseguir lidar com a evidência inultrapassável de que um dia irá morrer até ao inválido que se encontra confinado a uma cadeira de rodas, no momento da comunhão benfiquista, ambos se transcendem, o primeiro porque sabe que morrerá mas o seu Benfica é eterno, e o Benfica é ele também, e por isso a eternidade o abraça a ele igualmente; e o segundo, porque naquele mesmo partilhado momento se sente inundado com a força invencível dos campeões, uma força que afugenta, pelo menos do seu espírito, as suas debilidades, elevando-o ao sentimento que apenas aqueles que se sentem campeões podem sentir - independentemente de cadeiras de rodas ou não. É o sentimento da invencibilidade. Da superioridade a todas as adversidades.
Finalmente, é ainda a transcendência da condição social: desde o snob pretencioso (que também os há) até ao humilde operário, ou desde o bem sucedido empresário até ao remediado funcionário público, todos eles, naquele momento são absolutamente iguais porque, naquele instante particular, naquele momento concreto, todos se definem pela mesma bitola, pelo mesmo sentimento, um sentimento que experimentam por igual: eles são campeões, eles são Benfica, eles são iguais. É a igualdade que utópicos como Rousseau ou More tanto sonharam e que, mesmo que por uns instantes fugazes, apenas se alcança em pleno no campo da transcendência benfiquista.
E aqui chegamos ao segundo ponto, o da inevitabilidade histórica. Era inevitável a grandeza do Benfica precisamente porque apenas o Benfica é capaz de fazer transcender. E apenas o Benfica tem essa capacidade devido às circunstâncias particulares que estiveram na sua génese. Nascido na humildade do povo português, apenas um clube que fosse genuinamente popular poderia almejar a grandeza que o Benfica tem. Ao contrário do FC Porto que se afirma como um clube de bairro contra o centralismo de Lisboa, ou seja, define-se pela negativa, ou do Sporting que, com o seu nome adequadamente estrangeiro, se afirma, e define, como o clube da elite, da nobreza ou dos ricos, o Benfica rejeita a negação, ou a limitação auto-imposta de uma pretensa elite, e afirma-se pela positiva, por si mesmo, pela sua identidade que sendo a do povo, em concreto a do povo português, não poderia deixar de ser Portugal. Para o Benfica, todos podem ser - e no fundo, no seu íntimo, todos são - benfiquistas porque é o único clube que se abre, sem pejos, limites ou vergonhas, a Portugal.
Como poderiam tais clubes como o Porto e o Sporting gerar a transcendência que aqui se referiu quando eles próprios rejeitam franjas importantes de portugueses, uns porque vivem mais a sul, outros porque não seriam da sua ilusória condição? Já o Benfica é verdadeiramente de todos e, por isso, todos podem ser também verdadeiramente Benfica. E, por esta inevitabilidade que lhe advém da génese, o Benfica não apenas é capaz de coisas únicas, como de uma adesão popular ímpar e, acima de tudo, de gerar uma relação de amor com os seus apoiantes que há-de permanecer um mistério para aqueles que, por infortúnio da vida, não tiveram a Graça de ser Benfiquistas.
O Benfica tornou-se campeão ontem, no entanto, na realidade, como todos os benfiquistas bem o sabem, o Benfica nunca é outra coisa além do que campeão. Daí, aliás, o fabuloso hino O Campeão Voltou que resume esse sentimento na perfeição. O Benfica é sempre campeão. Ontem apenas viu os seus adversários reconhecerem-lhe o título que, com naturalidade, os Benfiquistas sabem sempre ser seu por direito.
Etiquetas:
BOLA,
FOTOGRAFIA
domingo, 20 de abril de 2014
SANTOS & SALVADORES
O Dr. Assis afirma numa entrevista ao Público que as eleições europeias são uma boa "possibilidade de manifestarem não apenas a sua desconfiança, a sua
oposição, a esta maioria, mas também de contribuírem para a afirmação de
uma alternativa política em Portugal". Assim, além de vender a ideia de que com uma maioria de esquerda no Parlamento Europeu "vamos ter grandes mudanças políticas na Europa", não deixa de tentar cativar o votinho contra o Governo. Ambas as coisas são desonestas e só não apelido o Dr. Assis de aldrabão porque a última vez que andou por Bruxelas passou lá tão pouco tempo que deve perceber do assunto tanto como a Lili Caneças.
Em primeiro lugar, é profundamente irresponsável, e contribui claramente para o déficit democrático na UE, fazer de eleições - que decidem o rumo político da UE por cinco anos - um, plebiscito aos Governos nacionais. É democraticamente imaturo e um bom exemplo de confundir alhos com bogalhos, pior, de promover a confusão no eleitorado. Aliás, quando dos referendos que deitaram abaixo o projecto de constituição europeia era precisamente essa a ideia que se criticava.
Em segundo lugar, já que Hollande, para os socialistas, o anterior salvador da Europa, anda a fazer os inevitáveis cortes na despesa pública e a apregoar o contrário do que os senhores do PS apregoam, viram-se agora os socialistas para outros salvadores. Quem? A futura Comissão Europeia saída da tal "maioria de esquerda", ou seja, para aqueles que nos emprestaram o dinheiro que a dita austeridade anda a tentar pagar de volta. Está bom de ver que se for Martin Schulz o sucessor de Barroso, a Comissão vai deixar de querer orçamentos nacionais em ordem e equilibrados. É que é isso mesmo, então, ainda por cima, sendo Schulz alemão e de um partido que está coligado no Governo nacional - adivinhem com quem? - com a Chanceler Merckel, pois claro.
Mas a aldrabice do Dr. Assis não se fica por aqui. Às acusações de despesismo dos anteriores governos PS apelida-as de demogógicas como se, imagine-se lá, não tivessem sido precisamente esses governos a levar Portugal à bancarrota por haver um excesso de despesa pública face à receita. Demagógico é quem assume os seus erros ou quem transforma, pela retórica, erros em supostas virtudes? Está bem abelha, nesta já só cai quem quer.
Para finalizar, o Dr. Assis assume ainda, com satisfação, que o Sr. sócrates vai participar na sua campanha e anuncia a sua vontade para que, após as próximas eleições legislativas, haja um novo ciclo político que passe obrigatoriamente pelo PS. Quanto a isto nada de novo, é o PS do costume e de sempre. Agora, espremido, esprimidinho, o que sobra então do discurso do Dr. Assis? O PS merece ganhar porque nunca fez nada de mal nem tem qualquer tipo de responsabilidade no facto de ter governado um país até à bancarrota, a austeridade (termo que significa a incapacidade para não se gastar mais do que aquilo que se tem) é uma loucura da direita "radical" - faltou acrescentar do Hollande também - e o PS, esse bando de santos milagreiros, é que deve governar Portugal porque conhece a receita exacta para a "competitividade" (viu-se). Entretanto, na campanha lá teremos sócrates a perorar contra o governo e a afirmar descaradamente o contrário de tudo aquilo que dizia em 2011. A sério, esta gente não tem vergonha na cara?
*Também publicado aqui.
Em primeiro lugar, é profundamente irresponsável, e contribui claramente para o déficit democrático na UE, fazer de eleições - que decidem o rumo político da UE por cinco anos - um, plebiscito aos Governos nacionais. É democraticamente imaturo e um bom exemplo de confundir alhos com bogalhos, pior, de promover a confusão no eleitorado. Aliás, quando dos referendos que deitaram abaixo o projecto de constituição europeia era precisamente essa a ideia que se criticava.
Em segundo lugar, já que Hollande, para os socialistas, o anterior salvador da Europa, anda a fazer os inevitáveis cortes na despesa pública e a apregoar o contrário do que os senhores do PS apregoam, viram-se agora os socialistas para outros salvadores. Quem? A futura Comissão Europeia saída da tal "maioria de esquerda", ou seja, para aqueles que nos emprestaram o dinheiro que a dita austeridade anda a tentar pagar de volta. Está bom de ver que se for Martin Schulz o sucessor de Barroso, a Comissão vai deixar de querer orçamentos nacionais em ordem e equilibrados. É que é isso mesmo, então, ainda por cima, sendo Schulz alemão e de um partido que está coligado no Governo nacional - adivinhem com quem? - com a Chanceler Merckel, pois claro.
Mas a aldrabice do Dr. Assis não se fica por aqui. Às acusações de despesismo dos anteriores governos PS apelida-as de demogógicas como se, imagine-se lá, não tivessem sido precisamente esses governos a levar Portugal à bancarrota por haver um excesso de despesa pública face à receita. Demagógico é quem assume os seus erros ou quem transforma, pela retórica, erros em supostas virtudes? Está bem abelha, nesta já só cai quem quer.
Para finalizar, o Dr. Assis assume ainda, com satisfação, que o Sr. sócrates vai participar na sua campanha e anuncia a sua vontade para que, após as próximas eleições legislativas, haja um novo ciclo político que passe obrigatoriamente pelo PS. Quanto a isto nada de novo, é o PS do costume e de sempre. Agora, espremido, esprimidinho, o que sobra então do discurso do Dr. Assis? O PS merece ganhar porque nunca fez nada de mal nem tem qualquer tipo de responsabilidade no facto de ter governado um país até à bancarrota, a austeridade (termo que significa a incapacidade para não se gastar mais do que aquilo que se tem) é uma loucura da direita "radical" - faltou acrescentar do Hollande também - e o PS, esse bando de santos milagreiros, é que deve governar Portugal porque conhece a receita exacta para a "competitividade" (viu-se). Entretanto, na campanha lá teremos sócrates a perorar contra o governo e a afirmar descaradamente o contrário de tudo aquilo que dizia em 2011. A sério, esta gente não tem vergonha na cara?
*Também publicado aqui.
Etiquetas:
POLÍTICA
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Subscrever:
Mensagens (Atom)






