domingo, 5 de outubro de 2014

DO ESQUECIMENTO


Com mais mito ou menos mito, desde há muito que se convencionou que o acontecimento que de forma inequívoca marca o nascimento de Portugal foi o Tratado de Zamora, por sinal assinado a cinco de Outubro de mil cento e quarenta e três (e a primeira bandeira a da fotografia acima). Este singelo facto atesta que hoje, cinco de Outubro de dois mil e catorze, celebram-se oitocentos e setenta e um (871!!!) anos desde o nascimento de Portugal como nação independente. No entanto, e como todos os anos lá vou alertando neste blogue, a maior parte da população portuguesa encontra-se completamente alheada de que nesta data, muito mais do que uma revolução política cometida por meia dúzia de activistas citadinos nos idos de mil novecentos e dez, comemora-se, ou deveria comemorar-se, efectivamente, o nascimento de Portugal.

Algumas coisas muito simples saem daqui: primeiro, o carácter intrinsecamente autoritário da república de mil novecentos e dez que, através da propaganda, foi incansável na sua tentativa (bem sucedida) de afirmar-se como a única solução política para Portugal. Com esse intuito, e apenas dois anos após o bárbaro assassinato político do Rei D. Carlos - que chocou o mundo civilizado -, não se fizeram os republicanos rogados em substituir a bandeira nacional (tal como Hitler faria vinte e dois anos depois na Alemanha) pelas cores do partido político vencedor (o Partido Republicano Português) e da organização maçónica Carbonária (na fotografia abaixo).


Da mesma forma, não tiveram problemas em enviar milhares de portugueses para a morte nos campos da Flandres para ganharem o direito de sentarem-se à mesma mesa que os vitoriosos exércitos da Primeira Guerra Mundial, isto apenas para se afirmarem politicamente e perderem o estatuto de sanguinários assassinos que tinham morto um Rei legítimo. Tudo isto e muito mais, desde a polícia política da "formiga branca" até às maiores atrocidades eleitorais, bem como ao caos económico que lançaram com falência após falência que a libertinagem desmedida que quarenta cinco governos e nove Presidentes da República em apenas dezasseis anos permitiram, de tudo isto se fez um dos períodos mais tristes da história portuguesa, bem como se afirmou um regime que - nunca tendo sido sufragado! - de democrático apenas tem os dentes podres de quem nele se legitima para falar de democracia, um conceito que, obviamente, não compreendem ou, pior ainda, porque não dá jeito, não querem compreender.

Naturalmente, perante tamanho oportunismo político, para afirmar a legitimidade de quem não a tinha, a começar por aquela bandeira vergonhosa à qual hoje já nos habituámos, a negação do passado foi tarefa fundamental. E essa é a grande diferença de Portugal para a maior parte dos outros países civilizados ocidentais: as conveniências políticas do momento prevalecem sempre sobre os interesses pátrios de longo prazo. Também Oliveira Salazar, a quem o regresso da Monarquia nunca interessou verdadeiramente, não se deu ao trabalho de, como gritava o pateta Alegre aqui há uns tempos, "tocar no cinco de Outubro" porque, lá está, um rei é um rei e este teria sempre mais legitimidade política do que ele podendo colocar em causa o engenhoso equilíbrio político salazarista.

Como não poderia deixar de ser, também a democracia de forma em que vivemos vai buscar a sua legitimidade (cada vez menor) à ilusão mentirosa das virtudes da I República: desde a já nojenta "ética republicana" que serve para legitimar os piores comportamentos desde que não sejam ilegais, até às patéticas paradas e discursos do cinco de Outubro, tudo lá vai servindo para os decrépitos oportunistas políticos do momento lá se irem aguentando na cadeira do poder. Na prática, o grande feito da República parece ser o facto de, hoje de forma directa, elegermos o nosso Chefe de Estado. Se, primeiro, considerarmos que há países substancialmente muito mais democráticos do que nós que não elegem Chefe de Estado algum e estão muito satisfeitos com a Monarquia, tal como, segundo, se nos lembrarmos que nessa democrática eleição, na última ocasião, nem sequer metade dos eleitores inscritos se deram ao trabalho de participar, então, não colocando em causa os méritos do republicanismo, podemos, no mínimo, questionar-nos se tamanho poço de virtudes é suficiente para dar assim tanta legitimidade ao ponto de comemorar-se o facto de podermos ter essa eleição a expensas de comemorarmos, e esquecermos, o nascimento do país. Parece-me que não.

Outra questão que este esquecimento oportunista revela é a dependência pobrezinha do cidadão português face ao Estado, e a quem o governa. Fôssemos nós um país saudável, com uma sociedade civil forte e independente, capazes de pensar pela nossa própria cabeça, e talvez não precisássemos de decretos legislativos para decidir o que comemorar, ou o que esquecer. Mas em Portugal nada se faz fora do Estado: desde o foguetório autárquico que vai garantindo eleições, até à incapacidade (e preguiçosa falta de vontade) de organização social nem que seja para comemorar alguma data importante, lá nos vamos acomodando, em tudo como no resto, ao que nos dão, sendo que na maior parte dos casos nem nos perguntamos se aquilo que nos dão será mesmo aquilo que queríamos ou se, talvez, mais não será do que aquilo que dá jeito aos caciques do momento. É pobre, muito pobre.

Finalmente, e relembrando os anos da troika, da falência e do socialismo da terceira via, afundados num pântano de dívida e agarrados a um monstro estatal que ninguém parece conseguir controlar, parece-me bastante pertinente apontar que o Estado só é forte porque a sociedade é fraca. E a fraqueza da sociedade faz-se muito desta falta de memória que nos rouba a responsabilidade de honrar os oitocentos e setenta e um anos de história que temos, que nos leva os heróis do passado, as nossas tradições e os nossos orgulhos deixando-nos este deserto de memória pátria meramente assente nos feitos (e falhanços) do futebol indígena. A sério: que outra coisa além do que a falência seria de esperar de um país que não comemora o seu nascimento (porque já nem sequer o sabe)? Quem não honra a sua história não tem futuro e, no meio do vendaval que nos assola, a nossa brilhante história que, com a indiferença dos ignorantes, lá vamos renegando por entre patéticos encolheres de ombros, quanto mais longe vai desaparecendo mais nos sobra a boçalidade dos caciques de serviço que, pressurosos, lá vão convencendo os incautos de que eles são o melhor que alguma vez tivemos.

Pior: a quem se habituou a esquecer não custa, por exemplo, eleger de novo quem muito mal nos fez. Apenas no tal país da fraca memória o número dois do primeiro-ministro que, por entre escândalos de corrupção, levou o país à falência, três anos volvidos é já visto como o salvador da pátria. Mas, enfim, a quem se deixa roubar do seu passado não custa a acreditar que escolha sucessivamente esses mesmos ladrões para tratarem do seu futuro. E, lá está, como a história nos ensina, uma nação que não se dá ao respeito talvez não mereça melhor sorte.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

SOCIALIST PRANKS


A FOGUEIRA

Todo este espectáculo tolinho das eleições primárias do PS é capaz de deprimir o mais entusiasta dos optimistas e levar qualquer guru da vida feliz à beira do suicídio. Primeiro, os candidatos: às turras, ocupados a chamarem nomes um ao outro, sempre entretidos com as mais tristes banalidades e incapazes de apresentarem uma ideia com princípio, meio e fim. Depois, as estratégias: desde o oportunismo disfarçado de messianismo do Dr. Costa à inabilidade do Dr. Seguro (que pensava que controlava o aparelho e afinal nem isso), tudo foi muito, mas mesmo muito fraquinho. A seguir, a cobertura jornalística e comentadeira: nunca uma pergunta tão simples como "como vai implementar (que é como quem diz: onde vai financiar) esses desígnios fantásticos que tem para Portugal" foi feita, apenas atestando que, enquanto os Antónios se entretinham a inventar soluções mágicas para o país, não havia um jornalista com três neurónios capaz de chamar os demagogos à realidade. Aliás, realidade é uma coisa com a qual os portugueses lidam muito mal: para muitos mais vale irem agora eleger quem os levou à bancarrota apenas porque, mais uma vez, mentindo com quantos dentes têm, lhes continuam a vender meia dúzia de frases feitas. Resta saber quantos vão na cantiga do bandido. Finalmente, a fotografia da vitória: ver o pateta poeta Alegre, o chavista Soares, o Almeida "é-melhor-construir-uma-terceira-ponte-sobre-o-Tejo-que-um-túnel-pode-ser-alvo-de-terroristas Santos, todos a acompanhar o antigo número dois de Sócrates (sim, o António Costa),  e todos de punho bem levantado já a fazerem as contas a quantos dias faltam para irem para o poleiro que consideram deles, tudo isso foi tão mau que ia vomitando o pequeno almoço. É essa gente que querem de volta? Que país, irra, falido está, falido há-de continuar. Depois reclamem.

DAS TAXAS

Andei às compras na Amazon e, admito, foi por pouco que não mandei vir um novíssimo e gigantíssimo disco rígido cheio de terabytes para guardar ficheiros de música. Porquê? Apenas para demostrar o quão fácil é evitar a estúpida taxita que os socialistas de serviço agora inventaram para sustentar uma cambada de "artistas" sofríveis que vendem tanto ou tão pouco que precisam de um decreto legislativo para "sobreviver". Às nossas custas, pois claro.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

DOIS PESOS, DUAS ALEGRIAS

O Sr. "poeta" Alegre nos anos setenta exortou aos microfones de uma rádio em Argel à deserção dos soldados portugueses em África e, pugnando pela derrota militar do seu país face aos movimentos de libertação africanos, não se cansou de ajudar os guerrilheiros contra as forças militares do seu país. Este singelo facto histórico que o Sr. Alegre justifica pelo seu imenso amor à liberdade, uma liberdade que a ditadura de Salazar lhe negava, é do conhecimento público e, como tal, amplamente comentado e referido. Naturalmente, nem toda a gente concorda com o Sr. Alegre e muitos entendem, no seu julgamento pessoal, que ajudar guerrilheiros contra o seu próprio país é ser conivente com a morte de compatriotas, quer se concorde com os motivos da intervenção militar quer não. Expressou o Tenente-coronel João José Brandão Ferreira em diversos blogues a opinião de que tais comportamentos, factuais repita-se, do Sr. Alegre configuravam uma "traição à pátria" e, vai daí, o Sr. Alegre processa o Tenente-Coronel Brandão Ferreira por difamação. O Tribunal, naturalmente, rejeitou tamanho ensejo e absolveu o arguido. À saída do tribunal, após a leitura do veredicto, o Sr. Alegre comenta que "a liberdade de expressão não permite tudo" e, como tal, o veredicto deveria ter sido outro. Ou seja, para o Sr. Alegre, a liberdade de expressão deve incluir a ajuda a guerrilheiros contra o exército do seu país, no entanto, apelidar tal "liberdade" de traição à pátria é algo que, naturalmente, a liberdade de expressão não poderia aceitar. É um conceito de liberdade muito peculiar, o do Sr. Alegre. Duas coisas, bem evidentes nas diabruras do Sr. Alegre, saem como bons exemplos do atavismo nacional: a primeira, é a capacidade intrínseca dos portugueses prejudicarem os interesses pátrios em nome dos seus interesses pessoais; a segunda é a forma como os Srs. Alegres da vida mascaram os seus interesses, ou devaneios, pessoais de grandiosos princípios éticos e republicanos que eles, naturalmente, humildemente servem. Servisse o Sr. Alegre, de facto, o princípio da liberdade de expressão como diz que serve e seria ele o primeiro a respeitar quem pensa de maneira diferente da dele porque entenderia que a defesa intransigente da liberdade de expressão é maior do que o desagrado que as criticas que lhe são dirigidas lhe causam. Mas não. Para o Sr. Alegre a liberdade de expressão só serve quando é para ele dizer, e fazer, o que bem lhe apetece. No final, uma conclusão positiva: considerando que o que o Sr. Alegre fez envergonha qualquer português decente e que o que ele diz, normalmente, atenta contra o bom senso e o bem estar intelectual, não apenas da pátria mas de cada um de nós, o facto de o Sr. Alegre continuar por aí a pulular a declamar os devaneios mais idiotas apenas atesta que a Portugal faltam muitas coisas mas que liberdade de expressão não será uma delas. Mesmo apesar dos Srs. Alegres - e que os há tantos! -  desta vida.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

OPPOSITI

O novo ergue-se sempre das cinzas do velho. Dessa oposição decorre ainda uma outra: que o amor à novidade que se conquista é sempre devidamente acompanhado do luto pelo velho que se perde. A única, e verdadeira, constante do processo que é a vida será, portanto, a sua perpétua contenção pelos opostos que, a cada momento, a vão limitando.

CHAMEM OS ANTÓNIOS

Hoje atingi um patamar importante de maturidade e crescimento pessoal: contive todos os impulsos naturais do meu corpo e consegui, sem me impacientar, apesar de umas quantas gargalhadas, assistir ao debate dos Antónios socialistas do princípio ao fim. Não sei muito bem do que estava à espera, talvez apenas tenha sentido a necessidade de conhecer antes de criticar, mas - admito - até acabei por sair surpreendido: habituado que estou a julgar os líderes socialistas pelo que propõem ao país, algo entre o descalabro apocalíptico e a pura e simples demagogia mentirosa, fui apanhado de surpresa ao constatar que, de uma perspectiva meramente partidária, o António José Seguro é muito, mas mesmo muito, melhor do que o António Costa.

Então vejamos:

Primeiro, na pose. Enquanto o Dr. Seguro fala com aquele ar compungido, numa espécie de Conselheiro Acácio dos tempos modernaços, sempre na mesma pose séria de quem se imagina como um Estadista, um homem de Ideias e Princípios, tudo com letra grande, alguém de quem se espera que qualquer tirada proferida com solenidade terá que ser algo entre o genial e a mais pura das virtudes, enquanto de um lado está, portanto, a sapiência pura das convicções fortes e inabaláveis, já do outro lado, e talvez por estar pouco habituado a calcorrear os penosos caminhos do caciquismo aparelhista nacional, um subitamente emagrecido Dr. Costa titubeava algumas considerações que, nem na capacidade de resposta aos fortes ataques do adversário, nem na forma como se pretendia pôr acima do não carismático Dr. Seguro, em nada disso foi eficaz. À acusação de porquê não ter avançado há três anos atrás quando era o número dois de sócrates, o pequeno, e o PS andava nas ruas da amargura eleitoral, António Costa engasgou-se e não foi bem capaz de responder. Aliás, foi o Dr. Seguro, com o seu bem interiorizado ar de coitadinho, a quem parece sempre que lhe dói a barriga, que, vindo do nada, em duas penadas e com metade do tempo do adversário, conseguiu mostrar como a candidatura do Dr. Costa tresanda a oportunismo político e, pior ainda, representa um regresso mais ou menos disfarçado ao socretinismo, essa coisa peçonhenta que nos levou à falência. Um a zero.

Depois, na estratégia partidária. Se há uma coisa que sai evidente do debate é que discurso partidário ao Dr. Seguro não falta: desde evocar os mais variados e excelsos princípios políticos, todos eles obviamente quebrados, estilhaçados e atraiçoados pelo Dr. Costa, até aos argumentos comparativos dos resultados das sondagens e eleições, quer com o passado, quer com o presente europeu, em tudo isso o Dr. Seguro foi exímio. Ao Dr. Costa, como justificação para tamanhos crimes lesa-partido, sobrou-lhe o seu imperativo de consciência, um imperativo que visa salvar o país, e o partido, mas que, aparentemente, a dita salvação é apenas da liderança do Dr. Seguro e em nome de mais uns quantos pontos percentuais nas eleições europeias. Pior ainda, foi acusado de dizer uma coisa em público e outra no partido (algo que não desmentiu), bem como de ziguezagues, lá está, mais uma vez oportunistas, onde diz hoje o contrário do que disse no passado. A sua justificação soube a um cachorro sem salsicha e com muito pouca mostarda, pior ainda, na questão do Orçamento de Estado de 2012 passou mesmo por mentiroso. Dois a zero.

Finalmente, no que concerne às propostas para o país, aí temos uma diferença de estilos e uma coincidência em termos substanciais. Quanto ao estilo, por apresentar um discurso mais coerente, aparentemente mais organizado e bem preparado, o Dr. Seguro leva de novo vantagem sobre o conjunto de lugares-comum mais líricos e colados com cuspo do Dr. Costa. A vantagem de Seguro? No realismo da necessidade de colocar a economia a crescer e, mais importante, a urgente separação da política dos negócios, separação a qual, na prática, é aquela que ele, Seguro, pretende fazer em relação ao socretinismo. A desvantagem de Costa? Cabe a quem desafia o líder apresentar o que faria de diferente, algo que o Dr. Costa, talvez a pensar que a sua magnânime presença seria o suficiente, se esqueceu de fazer.

No final, na substância, seja o Dr. Costa ou o Dr. Seguro a liderarem o PS, para os portugueses não faz grande diferença: ambos querem o Eng.º Guterres na Presidência da República, ambos se preocupam muito com o emprego, o Dr. Costa acrescenta a cultura, a modernização da administração pública e mais igualdade, o Dr. Seguro pugna contra a privatização da TAP, da Caixa Geral de Depósitos e do estado-social em geral, ou seja: ambos querem manter, e ainda aumentar, a despesa do Estado ao mesmo tempo que, claro está, juram não querer aumentar a dívida ou os impostos, o que, houvesse uma moderação de jeito, apenas exigiria que se fizesse, a ambos, a mesma pergunta: onde contam eles encontrar dinheiro para essas despesas todas. Ficou, portanto, por esclarecer como pretende o Dr. Costa apostar nos recursos e no território, signifique o que isso significar, tal como por saber ficou como vai o Dr. Seguro reindustrializar o país. Ou seja, sumo, propostas sérias, profundas, algo mais do que reduzir o IVA na restauração e mais umas intenções vácuas e tristemente superficiais? Zero, nadica de nada.

Em conclusão, um debate que, apesar do cliché da imperiosa necessidade "de resolver os problemas concretos dos portugueses" ser aquilo que tem que nortear a conduta da acção política ter sido proferido logo aos trinta segundos (o Dr. Seguro leva a taça), contribuiu em zero para, precisamente, resolver os problemas concretos dos portugueses. Aliás, não acrescenta mesmo nada a não ser na perspectiva da politiquice partidária onde, sem o conforto da cadeira da Quadratura do Círculo, António Costa se saiu muito pior do que o actual Secretário-Geral socialista. Já o país, esse pode tirar uma conclusão: a de que dali não vem nada de novo, nem um caminho nem uma alternativa estratégica, pelo contrário, dali, venha quem vier, apenas virá mais do mesmo: desígnios vãos, palavras ocas e estratégias vazias de conteúdo. Entre o compungido Dr. Seguro e o já-não-tão-bonacheirão-nem-risonho Dr. Costa, bem podem os socialistas chamar pelos Antónios que o país, creio eu, não os ouvirá: de tretas já basta e, mal por mal, mais vale ficarem os que já lá estão. Quanto a quem vai ganhar as eleições, eu aposto no Dr. Seguro: um político, ainda para mais socialista, capaz de afirmar que se demite se se vir forçado a aumentar os impostos, só pelo que me fez rir, não merece castigo.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A ESCOLHA

Ao homem culto e verdadeiramente civilizado que compreende a completa inutilidade finalística da acção humana sobram duas hipóteses: a primeira é a da contemplação onde, de fora, enquanto espectador, se maravilha com a beleza e magnificência da obra universal; a segunda é a da acção onde se assume que o mundo é um lago de experiência onde, apesar da sua ilusória condição, vale a pena mergulhar. A serenidade da contemplação exige a pena da solidão; a partilha da condição humana exige a angústia da perenidade. A verdadeira chave da felicidade terrena talvez passe pela capacidade de conciliar dois caminhos tão distintos.

TEMPITE

Não há nada que o tempo não cure além do próprio tempo. Que é como quem diz: o tempo tudo cura menos a doença que com ele sempre vem. A consequência é a angústia humana pingada naquela gadanha sempre bem segura pela peçonha que, vestida de preto e escondida no escuro, paira sempre à espreita ali no fundo do corredor.

domingo, 29 de junho de 2014

OS MAIORES, OS PIORES E OS HERÓIS-VILÕES

Portugal é um país de ódios. E, para mal dos nossos pecados, um ódio que se volta constantemente contra aqueles que tentam fazer alguma coisa de muito bom, ou os outros que se revelam como muito bons a fazer alguma coisa. Um bom exemplo dos últimos dias é o ódio ao Ronaldo: porque não fez isto, porque não fez aquilo, porque não é o melhor do mundo, porque nunca será um mito, porque não passa de um vaidoso, disto ou daquilo. De facto, porque o Ronaldo é indiscutivelmente um grande jogador de futebol, a crítica acaba por ser que "não é o melhor do mundo". Como se ele tivesse a obrigação de ser o melhor do mundo.

Já os portugueses imaginam-se os maiores do mundo mas, veja-se lá a coisa, são injustiçados por uma espécie de conspiração internacional que insiste em assim não os considerar. E depois sobra o complexo de inferioridade (motivado por um megalómano complexo de superioridade): um comentário jocoso de um jornalista estrangeiro logo causa uma comoção nacional, uma reportagem internacional menos feliz logo deriva numa petição contra esses inimigos da pátria ou a derrota num torneio internacional despeja uma torrente de infelicidade no país. Já pelo contrário, tudo em Portugal é o maior e o melhor: desde cada condutor automóvel à melhor comida do mundo, ou ao melhor sol do mundo. Por Portugal igualmente abundam as melhores praias e mares do mundo, e agora: os melhores hotéis do mundo, as melhores cidades do mundo para turismo, a melhor, e maior, onda do mundo, e claro: o melhor jogador de futebol do mundo, o melhor treinador do mundo, etc. Com tanta coisa boa só admira que o povo que habita tremendo paraíso se entretenha a destruí-lo com betão, cimento e uma desorganização aterradora, essa seguramente das maiores do mundo.

Da mesma forma, especialmente na bola, qualquer talento ou colosso mundial logo é importado para mostrarmos que temos colossos ou talentos igualmente talentosos e colossais: o "Jardel" de Coimbra, o "Cruyft" da Reboleira ou o "Bekham" de Braga. Mas não só na bola: Aveiro, por exemplo, é a "Veneza" portuguesa, tal como o Estoril era a igualmente nacional "Riviera". Disso nem a, lá está, "primeira-dama" portuguesa, apenas por ser negra, se safou: Passos Coelho está casado, naturalmente, com a "Michele Obama" portuguesa. Já o desenrascado Joaquim de Almeida, que lá conseguiu aparecer em dois ou três filmes americanos de qualidade mais do que duvidosa mas de grande projecção, foi logo apelidado do "Banderas" português. Enfim, com tanto colosso apenas admira que somente os portugueses tenham ouvido falar de tais sumidades.

A isto já aludia um Eça Queiroz, esse autenticamente grande, e igualmente autenticamente português, ao dizer que em Portugal a civilização importa-se do estrangeiro mas que, infelizmente, por ser importada, fica-nos curta nas mangas: na verdade nem o Jardel de Coimbra marcou tantos golos como o original, nem Aveiro rivaliza no panorama internacional com a cidade de Marco Polo.

E depois vem o reverso da medalha: da ânsia irrealista de querer ser o melhor do mundo, quando embatemos na realidade de que não somos os campeões do mundo, então, logo nos transformamos nos piores do mundo. Se não podemos ser os melhores, somos os piores. E, sucumbindo ao ego invertido, por nos sentirmos os piores, ao vermos aqueles que, apesar de serem portugueses como nós, se evidenciam por aí fora, que se mostram como dos melhores do mundo, logo os tratamos como uma espécie de heróis caídos: se não nos levas à glória então não serves o propósito da redenção e, por essa razão, odiamos aquilo que de melhor temos, que nos frustra ainda mais, por não ser bom o suficiente. E vilipendia-se. E chama-se nomes. E desvaloriza-se. E o que era o melhor passa a ser o pior. E, tal como a turba que escolheu o ladrão Barrabás e vilipendiou Jesus, também os portugueses vilipendiam o que têm de melhor. Portugueses os quais, aliás, têm uma igual tendência para escolher por entre aclamações grandes ladrões, esses, também, dos maiores do mundo.

É uma espécie de tragédia esta glorificação irrealista, e idealista, consequentemente transformada em crucificação igualmente desmedida. Se é verdade que temos muita coisa boa não quer dizer que esta tenha que ser a melhor do mundo. Aliás, a necessidade de nos afirmarmos como os maiores tem muito de uma paroquial afirmação complexada em relação a algo (o mundo) que, por desconhecermos, imaginamos como extraordinário e que não queremos assumir como melhor do que o pouco que vamos conhecendo que, ao ser exagerado na sua dimensão e qualidade, amplia o pequeno mundo onde nos sentimos confinados.

No fim, como os complexados neuróticos que pululam por essas redes sociais fora, sobra a importância desmedida que damos ao que pensamos que os outros pensam de nós. E talvez, paradoxalmente, quando percebermos que o mundo, mesmo sendo nós os melhores disto e daquilo, continua a não querer saber de nós para nada, talvez então, livres do peso dos nossos próprios complexos, nos libertemos para viver uma vida que, não sendo a melhor de todas, seja  pelo menos agradável, responsável, auto-suficiente e capaz de apreciar as coisas boas que vamos tendo. E, já agora, com menos indignada gritaria.

sábado, 7 de junho de 2014

DAMN RIGHT


NA LIXEIRA

Tenho-me abstido, por puro decoro, de fazer grandes comentários sobre a triste vida política nacional e, principalmente, sobre a indigente ignorância do espaço público indígena. No entanto, há comentários que não se contêm nas guelas e passam mesmo para o papel - mesmo que virtual: então o Dr. Costa, o salvador, vem pugnar pela salvação do país (que o seu partido arruinou) a apelar ao espírito reformista do anterior salvador sócrates, o pequeno, precisamente aquele que nos empenhou o futuro num desvario de corrupção e incompetência? A julgar pelos relatos que me chegam das ruas de Lisboa, Costa gosta mesmo de chafurdar no lixo mas, atenção, há limites. Sobra, no entanto, uma vantagem: em ganhando os senhores da dívida, quando daqui por dois ou três anos tivermos cá o programa de ajustamento versão 2.0, ninguém pode dizer que não foi avisado. Nos entretantos, é tentar ficar à distância porque, ao que parece tal como Lisboa, o fedor que já exala dessas supostas primárias, e sempre com tendência a piorar, é verdadeiramente insuportável.

Addendum: Uma breve nota para quem ainda não percebeu o filme: a razão pela qual não há eleições para Secretário-Geral do PS e há apenas "primárias", mesmo assumindo Seguro que se demite se as perder, é para que os "simpatizantes" amigos dos caciques que controlam o aparelho possam todos ir votar e, sem sequer ter que pagar quotas (os tempos fora do Governo são mais difíceis), espetar uma vitória estrondosa no Costa. Senão, se Seguro admite demitir-se se perder as "primárias", por que não convocar logo eleições para Secretário-Geral? Porque acha que haveriam eleições antecipadas? Alguma vez Cavaco convocaria eleições a meio de um processo eleitoral no maior partido da oposição? Nunca na vida, e Seguro sabe isso muito bem. Então, naturalmente, a única diferença prática são os ditos "simpatizantes". Vai ser de arromba.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A VALUABLE LESSON


ILUSÕES

Poucas coisas me causam maior perplexidade do que ver por aí tantos e tantos a criticar os corruptos dos políticos e dos governantes, sempre a berrarem de punho cerrado o quão incompetentes e ladrões os políticos e governantes são para depois, como solução, apenas continuamente proporem mais e mais leis, mais e mais meios e organismos do e para o Estado, ou seja, querem combater a corrupção e a incompetência governativa através de dar mais poder, força e meios - leia-se dinheiro - aos tais incompetentes, ladrões e corruptos dos políticos governantes que tanto criticam. É uma coisa esperta, de facto.

TRADIÇÃO E COMUNIDADE VERSUS ESTADO E UTOPIA

"Pondo a questão de outra maneira, a tradição... condensa em si mesma os frutos de uma longa história de experiência humana: fornece saber que não pode conter-se numa fórmula nem estar confinado a uma única cabeça humana, mas que é disperso ao longo dos tempos pela experiência histórica da comunidade envolvente. Tal como os preços do mercado condensam em si mesmos informação que de outro modo fica dispersa na sociedade contemporânea, também as leis condensam informação que está dispersa pelo passado de uma sociedade...: o saber de que precisamos em circunstância imprevisíveis da vida humana nem deriva da experiência de uma única pessoa, nem se contém nela, nem pode ser deduzido a priori de leis universais. Esse saber é-nos legado pelos costumes, pelas instituições e pelos hábitos de pensamento que foram moldados eles próprios ao  longo de gerações, através de tentativas e erros de pessoas, muitas das quais pereceram enquanto o adquiriam. (...) Se essas coisas boas se desintegrarem, não há maneira... de a legislação as substituir. Porque ou surgem de forma espontânea ou não surgem, pura e simplesmente, e a imposição de instrumentos legislativos para a «boa sociedade» destrói o que resta do saber acumulado que torna possível essa sociedade. Não surpreende, por isso, que os pensadores conservadores britânicos - nomeadamente Hume, Smith, Burke e Oakeshot - tenham tido tendência para não ver tensão entre uma defesa do mercado livre e uma visão tradicionalista da ordem social. É que tinham fé nos limites espontâneos colocados ao mercado pelo consenso moral da comunidade. Talvez esse consenso esteja actualmente a ceder. Mas essa cedência é em parte resultado da interferência do Estado e é certamente improvável que seja curada por ele. foi precisamente o êxito da falácia do planeamento [central] na criação de enormes máquinas de poder e influência, a galopar descontroladas para o futuro, que levou à erosão do consenso que coloca um «nós» genuíno no centro da política".

Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (2011), pp. 124-6

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DAS PENAS E SACRIFÍCIOS

Duma coisa em que ando a trabalhar (outra vez) mas que está dentro do tópico dos últimos posts:

"... Mas não é esse o nosso caminho, não apenas porque a velocidade é inimiga da qualidade mas também porque andar a contar as coisas a correr prejudica, ou impede mesmo, a profundidade do relato. Afinal, depressa e bem, não há quem. Além disso, dirão ainda outros, o mais importante da vida é aceitar que é a viagem que vale as penas e os sacrifícios, e não o destino, ou o fim. Senão, fossem os resultados apenas aquilo que interessa, fossem os fins, e não os permeios, aquilo que contasse, e todos os leitores se voltariam logo para as páginas finais dos livros, afinal de contas, para quê perder tempo com tretas quando podemos ficar logo a conhecer o final da estória? Se dúvidas houvesse de que é no aproveitar o caminho, mesmo com as pedras onde vamos tropeçando, ou melhor, principalmente com as pedras que se nos vão atravessando pela frente, é na viagem, nos durantes, nos entretantos, na perseverança e na subsistência, em suma, na existência, para não dizer mesmo: na vivência, que se faz a vida e não, como os marquetistas tanto nos fazem acreditar, que é sempre com a próxima página, no capítulo seguinte, a correr, depressa, vamos lá, é sempre ali, no momento seguinte àquele em que estamos agora, que residirá a felicidade da vida ou, no que concerne a presente metáfora, o gozo de um relato literário. Assim fosse e, em última instância, para os pobres humanos, a felicidade residiria apenas na campa, talvez naqueles dizeres gravados na pedra que fazem companhia aos cadáveres em decomposição. Aí, no verdadeiro e triste fim, parece-nos a nós que a haver felicidade apenas esta existirá nos ecos recordadores dos entretantos que àqueles, agora ali finados, em dias passados lhes aconteceram. Por isso, lembremo-nos nós dos que já foram, guardêmo-los em mente, para que possamos, nem que seja por respeito à sua memória, aproveitarmos nós o luxo da existência, mesmo quando a malandra teima em não nos fazer as vontades todas".