terça-feira, 16 de dezembro de 2014

LÁ VAI MAIS UM... ARGUIDO

Num país decente, o quem é quem faz-se nas cerimónias de Estado, no mediatismo dos sucessos individuais, talvez nos prémios anuais que se distribuem. Em Portugal, faz-se no livro de visitas de uma cadeia.

DOS HÁBITOS

Temos sempre a capacidade de nos adaptar a novas realidades, mas devagarinho. Os portugueses, por exemplo, já se habituaram a um país onde é normal que um ex-primeiro-ministro, porque suspeito de corrupção, esteja preso preventivamente. Também já se habituaram a terem poderosos membros da oligarquia estatista que os governa a serem constituídos arguidos por falcatruas diversas - refira-se, a título de exemplo, o caso dos vistos gold. Da mesma forma, também já se habituaram os portugueses a verem um banco, que tendo estado metido em todos os casos mais complicados de promiscuidade entre poder político e económico, quedar-se prostrado na derrota da falência enquanto os seus antigos líderes, os intitulados donos disto tudo, se digladiam na praça pública que nem comadres caídas em desgraça rebolando pela lama da praça pública. A tudo isto, sem lhe dar o devido valor, já se habituaram os portugueses. Mas foi tudo muito rápido. Antes, também viviam como habitualmente num mundo onde o primeiro-ministro de então organizava por todos os meios intentonas contra os meios de comunicação, bancos ou pessoas que ousassem estar contra ele. Também se habituaram os portugueses a ver esbanjar o seu dinheiro, quer o recolhido por impostos, quer o desbaratado em emissão de dívida (que serão impostos futuros), a todo esse forró se habituaram os portugueses. Aliás, os portugueses tendem a habituar-se a tudo: entre mil novecentos e vinte e oito e mil novecentos e setenta e quatro também viveram como habitualmente sem liberdade política. São lixados, os hábitos antigos. Demoram a morrer. São como vícios: quando se acha que se mudou de vida lá vem a recaída e torna-se ao mesmo. E, infelizmente, talvez seja essa a razão pela qual o actual vislumbre de liberdade que assoma Portugal abalando de frente a oligarquia corrupta que tem governado o país não seja o suficiente para derrubar essa oligarquia de vez. Não, habituados a ela lá vão os portugueses eleger em dois mil e quinze quem vai tratar de pôr tudo como antes. Para, depois, como de costume, continuarem a passar a vida a reclamar com as falências, corrupções e desgraças diversas que os assolam -  e sem culpados, prisões ou justiça. Como habitualmente. E como se não tivessem nada a ver com isso.

AS NUVENS

A Rússia tem uma economia típica de terceiro mundo que alimenta uma oligarquia poderosa - parte dela ocupada a gerir clubes de futebol em Inglaterra - através da exploração de recursos naturais abundantes. Com a queda do preço do petróleo, aliada às sanções ocidentais causadas pela crise ucraniana, a economia russa está a ceder. Com taxas de juro a 17%, e a não estancarem o problema, a bancarrota estará ao virar da esquina. Algumas questões se colocam: primeiro, o que fará um déspota como Putin face ao descalabro económico? Imagino que faça o óbvio: que nem sócrates, o pequeno, culpará os "mercados" e o Ocidente pela situação, colocando-se no papel da vítima que, com abnegação, continua a defender o interesse dos russos oprimidos pela ganância capitalista da Europa e dos Estados Unidos. Depois, tal como o animal feroz aprisionado em Évora, passará ao ataque. A diferença é que Putin tem ao seu dispor, ao invés de dois submarinos comprados por Paulo Portas, um exército capaz de fazer muito mais, e muito pior, como forma de retaliação. Os países bálticos, a Ucrânia e demais antigas repúblicas soviéticas têm muito por onde temer. Outra questão que se coloca é como vai o Ocidente responder à subida de agressividade do discurso russo: será que vai recuar ou vai continuar firme "que nem uma barra de ferro" a encurralar o déspota russo ao canto onde se enfiou? E a opinião pública europeia? Saberá ela conviver com a ameaça à paz? Ou, vai continuar a clamar contra "os mercados" e, por consequência, dar razão a Putin? Finalmente, terão os líderes europeus a capacidade de agir com um bloco ou, como de costume, teremos cada um a tratar de si, e das suas eleições, ao invés de termos uma política europeia segura, estruturada e bem implementada? Como dizem os cascalenses, há nuvens na Serra de Sintra. Vamos ver no que isto dá.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PHILOSOPHY IN CANDYLAND

                                                                    Daqui.

domingo, 30 de novembro de 2014

ORA, PERMITAM-ME QUE PERGUNTE

Se fosse no congresso do PSD, durante o discurso de Passos Coelho, que se começasse a nomear mulheres mortas por violência doméstica também era "preocupação social" e um momento de "sublime faro político" ou já seria um caso vergonhoso de apropriação, sem autorização, da desgraça alheia em busca de benefícios populistas e eleitorais?

AS MOSCAS

Apenas para relembrar os mais distraídos: este Luís Patrão que aparece agora na direcção política do Dr. Costa é o mesmo Luís Patrão que era sócio do Sr. Armando Vara naquele esquema fantástico que era a Fundação para a Prevenção e Segurança que andou a financiar-se à grande no tempo dos governos do Eng.º Guterres. Aliás, só fica bem ao Dr. Costa: renovação, renovação é largar os arguidos dos governos socretinos para ir buscar os arguidos dos governos guterristas! Um chique.

MUDE-SE A DATA

A pouco e pouco fui vendo que o habitual BC (Before Christ) e AD (Anno Domini) como formas de designar, respectivamente, os anos anteriores e posteriores ao nascimento de Jesus Cristo têm vindo a ser substituídas pelas siglas 'BCE' e CE'. O 'CE' significa 'common era' e visa acomodar o incómodo que académicos mais seculares têm com a utilização da figura de Cristo como forma de marcar o nascimento da nossa Era. Ora,está bem de se ver que, na realidade, substituir a sigla não muda nada, a não ser a sigla. O que significa que não faltará muito para que esteja encontrado mais um cavalo de batalha dos suspeitos, ou revisores, do(s) costume(s). Há que modernizar a data, dirão uns. Há que limpar a cronologia de referências que discriminam quem não as aceita, dirão outros. E, depois, daqui por uns anos, quando se concordar que a data é para mudar, discutir-se-á se havemos de armar-nos em futuristas e saltarmos para o ano seis mil e tal, convencionando-se como ano zero o momento em que inventámos a roda, por exemplo, ou, por oposição, se queremos saltar para o passado, apagar de facto a pré-história e comemoramos, todos unidos, em alegre igualdade e fraternidade, o nascimento da Nova Era. Nova discussão aparecerá então, afinal, a partir de que ano haveremos nós de comemorar o nascimento do novo-homem? Talvez, fica a humilde sugestão, se possa convencionar o ano de mil novecentos e cinquenta e cinco como ano zero, o que nos transportaria para o ano cinquenta e nove Depois de Jobs. Seria apropriado. E aí, todos juntos, agarraríamos a maçã para partilharmos em camaradagem uma única dentada, afinal, lembre-se, foi  precisamente uma dentada numa maçã que num passado de sonho nos expulsou do paraíso e, por essa mesma razão, seria apenas justo que essa mesma maçã, num sonho do mesmo calibre, nos devolvesse o paraíso. Para trás, nos anos antes de Jobs (AJ), ficariam os omnívoros, os homens não-metrossexuais, todas as maiorias opressivas e todos os malandros que um dia mandaram um piropo a uma mulher. Desses não rezaria a História! E para um futuro de novos paraísos, plenos de novas felicidades e novos homens, para esse futuro só basta querer. Vá, vá: façam lá a associação. Mudar a data é a solução.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

TUDO BONS RAPAZES

A propósito da detenção do Sr. sócrates, a TSF pôs no ar um programa com dois comentadores isentíssimos para analisar a situação. E quem são os comentadores? O ex-advogado de sócrates, Proença de Carvalho, e a ex-ministra de sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues. Deve ser a tão propalada independência editorial. Mas a coisa melhora: Maria de Lurdes Rodrigues, relembremos, também anda a contas com a justiça, aliás, está mesmo a senhora com pena suspensa por ter sido condenada por crimes de prevaricação. E que prevaricação foi essa? Foi ter andado a financiar indevidamente o Dr. João Pedroso, também ele condenado, e sim, o apelido não é coincidência, trata-se mesmo do irmão do ex-ministro socialista Paulo Pedroso. A coisa fica ainda mais gira quando nos lembramos que, aquando do caso Casa-Pia, era precisamente a este João Pedroso que aludia então o Dr. António Costa, actual Secretário-Geral do PS, afirmando ao então deputado Paulo Pedroso - num telefonema que o Ministério-Público considerou como uma tentativa de influenciar o inquérito  - que quem ele deveria contactar para evitar a detenção era o próprio irmão porque "a coisa já ia no juiz". No mesmo dia, o Eng.º Ferro Rodrigues, actual porta-voz e presidente do grupo parlamentar do PS, dizia, com a elegância que lhe é reconhecida, que se estava "cagando para o segredo de justiça", isto ao mesmo tempo que lamentava que o almoço do exímio Dr. Jorge Sampaio, então Presidente da República, com o Procurador-Geral da República Souto Moura "não servisse para nada". Tudo isso pode ser visto, e lido, aqui. Sinceramente não sei o que é mais curioso: se a aptidão indescritível que o actual Secretário-Geral do PS, António Costa, e o actual presidente do grupo parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, mostraram para infringir o segredo de justiça e tentar influenciar processos de investigação para beneficiar companheiros de partido, se o facto de serem estes os líderes do partido que parece andar agora muito preocupado, e a clamar indignado mesmo, contra as fugas de informação e a quebra do segredo de justiça no caso sócrates. Já aqui disse e repito: sócrates não é nenhum demónio, pelo contrário, é o produto de um país, e de um povo. É esse o país onde é normal o ex-advogado e a ex-ministra condenada irem comentar, com a independência que se lhes reconhece, a detenção do ex-Primeiro-Ministro para quem ambos trabalhavam. É o país dos sem vergonha e dos inimputáveis. E é esse país das cunhas, dos esquemas e dos que "se estão a cagar" para isto e aquilo que se reflete que nem num espelho neste Partido Socialista que, segundo dizem, mesmo depois de levar-nos a todos à bancarrota, se prepara para regressar ao governo de Portugal. Entretanto, ironicamente, como um augúrio, Lisboa afoga-se imersa em inundações que, de acordo com o competente Dr. Costa, não têm solução. Mas, para mim, de facto, o que não parece ter solução é um país que consiga imaginar nesta pandilha medíocre um vislumbre de solução.

VAMOS A VER

Via o FNV, sou recordado desta preciosidade. Se um craque da construção civil oferece quarenta mil euros a um vereador por serviços extra-camarários, o dito vereador grava a conversa e a coisa vai para tribunal, seria de esperar que o tal craque acabasse atrás das grades, não? Ora, o Sr. Névoa ainda teve direito a ser indemnizado  em dez mil euros por lhe terem chamado "corruptor". Cuidado com o que chamam ao Sr. sócrates, é o que vos digo. O país não mudou porque um ex-Primeiro-Ministro com currículo académico fajuto, responsável por levar um país à bancarrota e que vive muito acima das suas possibilidades foi atirado para cadeia em prisão preventiva. Não, o país não mudou. E vinte milhões pagam muitos Proenças de Carvalho.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

FUGIR PARA ONDE SE ME FAZEM VISCONDE

A prisão preventiva de sócrates, o pequeno, junta com a queda do BES, o caso dos vistos gold, termos o Sr. Vara, alheiras & companhia na cadeia, tudo isso dá esperança de que em Portugal a impunidade diminua e que, a seu tempo e com vagar, se vá tornando o país numa sociedade mais saudável e, acima de tudo, mais respeitável? Sim, acho que sim, pelo menos - e já é alguma coisa - a ilusão disso. Agora, que a javardice comentarista, a bárbara ignorância alcoviteira e a pior boçalidade continuam a imperar por aí, isso também é verdade. Aliás, nunca foi tão evidente como hoje que sócrates, o pequeno, não é um demónio: pelo contrário, é apenas um pobre coitado deslumbrado com o dinheiro e o poder e a quem, para mal dos nossos pecados, um discurso manipulador de vendedor de automóveis de terceira categoria serviu para arregimentar grupos de votos cada vez maiores e ser Primeiro-Ministro de Portugal. Isso, infelizmente, diz muito mais de nós portugueses do que dele. E nada como este patético insurgimento contra os poderes conspirativos (dos quais sócrates usou e abusou quando tinha poder) para mostrar que, mais do que qualquer coisa, sócrates, o preso de curso fajuto que um dia foi Primeiro-Ministo, não é mais do que um subproduto de um país, e de um povo. É por isso que sócrates não morreu ainda politicamente. É que, para muitos, sócrates, o pequeno, representa o verdadeiro sonho português: enriquecer e mandar sem estudar nem trabalhar. E os sonhos não se prendem.

sábado, 22 de novembro de 2014

DAS ROLHAS

Desde que emigrei tenho tentado contribuir activamente para as exportações portuguesas. Por exemplo, por norma, tento sempre comprar vinho português. Aliás, gosto mesmo de pensar que, entre convidados para jantar cá em casa, oferendas quando sou convidado ou pelo mero passa-palavra, tenho, de forma modesta, ajudado a divulgar os produtos portugueses, em particular o vinho. No entanto, tenho vindo a verificar que os produtores de vinho branco, pelo menos aqueles que vendem aqui na Bélgica, estão todos aderir à cápsula de rosca e a abandonar a nossa rolha de cortiça. Ora, como eu já estou farto de aqui divulgar, a exportação de cortiça, em particular a sua utilização nas garrafas de vinho, é, para além de um importante recurso económico português, a razão pela qual o sobreiro é economicamente viável e, por isso mesmo, a forma como o montado alentejano vai conseguindo resistir aos ímpetos destrutivos dos caciques de serviço. É por isso que me recuso a comprar vinho que não seja enrolhado com cortiça. Muito menos português! Da mesma forma como, numa prova de vinhos de grande relevo nacional, já deixei um patetinha da Quinta do Côto de garrafa estendida (um grande escolha ainda por cima) por me recusar a provar tamanha zurrapa enquanto acusava a empresa de traição à pátria, não tenham dúvidas que deixar de comprar os míseros vinhos brancos portugas que por aqui aparecem é coisa fácil. Brancos novo mundo, aliás, tendem a ter muita qualidade e baixos preços, um argumento simpático para quem simpatiza com o mercado como eu. Já estes enólogos inimigos da pátria e armados em modernaços (era o que o idiota marquetista da Quinta do Côto balbuciava: que era mais moderno, melhor, novo, mais fácil, etc.) da cápsula de rosca, esses podem ir à merda. Eles e mais as suas garrafinhas pervertidas por insuportáveis cápsulas de plástico.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU


É hoje um lugar comum afirmar-se que as redes sociais são uma forma de devassa da vida privada. Neste âmbito, uma pergunta se coloca: o que leva alguém a publicitar a sua vida privada a todos os seus amigos? Por que razão, num restaurante, perante um prato mais requintado se ocupa o marido, ou a mulher, a tirar uma fotografia ao dito para publicar no Facebook, e logo se ocupa o cônjuge de fazer um like, tudo isto ainda antes de qualquer um deles ter apreciado a iguaria?


A resposta politicamente correcta, e que eu já ouvi e li,  é que o objectivo consiste em partilhar a minha felicidade com os meus amigos. Naturalmente a resposta politicamente correcta deixa muito a desejar. Primeiro, os amigos das redes sociais são muito mais distantes, e em muito maior número, do que os amigos da vida real. Ou seja, na realidade, a tal felicidade que se partilha não é bem com os amigos, é muito mais com um conjunto aleatório de pessoas, muitas das quais nem se conhece ou já não se vê há anos. A conclusão aqui é um enorme paradoxo: acaba-se a partilhar muito mais com estranhos, ou quase-estranhos, do que se partilha com os amigos de verdade. Desde as fotos das refeições, às imagens de férias em bikini, ou às fotografias dos filhos, tudo se esparrama pelas redes sociais fora, numa devassidão de vida privada a que nunca forçaríamos um amigo que convidássemos para jantar: por isso, a noção de que o acto de partilha é com os meus amigos é uma noção que dificilmente se pode aceitar como verdadeira.

Em segundo lugar, a presunção de que a partilha de felicidade gera felicidade nos outros é igualmente disputável. A maior parte das pessoas partilha os seus bons momentos, no entanto, como todos sabemos, a vida não é sempre assim. Pelo contrário, os receptores das fotografias dos grandes jantares ou das grandes férias são normalmente pessoas, em especial os mais solitários e remediados, que por ventura aquilo que mais desejariam ter, e não têm, são as tais refeições a dois, ou as férias em paraísos distantes, caros e, por isso mesmo, inacessíveis. Ou seja, muito mais do que partilhar felicidade, o que toda essa partilha acaba por fazer é causar inveja e, porque da inveja não vem nada de bom, uma garantida boa dose de infelicidade. Sobre este assunto, aliás, já existe um sem número de estudos (como este da Universidade do Michigan, 2013) que chegam à conclusão que uma utilização excessiva do Facebook causa depressão e baixa auto-estima ou que, pelo menos, diminui os níveis globais de bem-estar e satisfação com a vida.

No entanto, há um pormenor que vale a pena salientar: as pessoas que andam a sofrer por essas redes sociais fora são as mesmas que andam voluntariamente a partilhar as suas vidas. O que as levará, então, à partilha desmesurada das suas vidas privadas e à insistência, cada vez maior, numa actividade que, aparentemente, além dos óbvios riscos que em si mesma acarreta a devassa da vida privada, ainda por cima nem sequer causa bem-estar duradouro e, a longo prazo, está mesmo relacionada com a depressão? Numa palavra? Vaidade.

A vaidade e a obsessão com a imagem que se projecta para os outros dificilmente poderá ser uma coisa nova. Aliás, de nova não tem nada: desde o guerreiro que quer inspirar medo para sobreviver até à opulência do bem sucedido que se quer demarcar face aos restantes e inspirar respeito para mandar ou, mais básico ainda, o homem que quer seduzir a mulher, ou vice-versa, de tudo isso se faz a história do Homem e, em geral, as nossas vidas. A novidade consiste é no contexto social em que a obsessão com a imagem se propaga: enquanto antes esse natural vício humano se revelava na roupa que se vestia, nas histórias que se contavam em ocasiões sociais, nos meios de transporte e habitações que se cobiçava, já hoje em dia, com o triunfo hegemónico das redes sociais, a obsessão com a imagem transpõe-se para todo um quotidiano que se pode expor no Facebook: desde fotografar o pequeno almoço até à simples declaração "X está aqui ou acolá", tudo serve para mostrar aos outros o quão fantástica é a vida que se tem.

Mas a coisa piora. Não apenas, desde o brioche do pequeno almoço até às unhas dos pés recentemente pintadas, temos muito mais pelo que ser vaidosos, como os meios por onde a vaidade se espalha estão presentes em permanência. Com os smartphones e a internet sempre ligada, dá a ideia de que as interacções sociais transmigraram para o ciberespaço: desde o grupo de amigos que numa mesa de café olha mais para os ecrãs dos seus telefones do que para os outros convivas, até à nova moda feminina de andar com a mala no cotovelo e o telemóvel irritantemente espetado e em constante exibição na mão, ou até mesmo àqueles casais que postam, comentam e likam, as suas publicações sem saírem da sala ou do quarto enquanto falam via Facebook entre si - e para toda a gente.

A nossa realidade hoje em dia é que estamos sempre ligados, ligações as quais substituem cada vez mais as anteriores formas de interacção social. Como consequência, subitamente, as coisas mais triviais, e privadas, são assunto do foro comunitário: pelo Facebook, até arrufos entre namorados são públicos para centenas de pessoas: ou porque mudaram o estatuto relacional, ou porque fazem publicações irreflectidas que mostram o quão chateados estão com o outro, ou ainda através de inflamadas declarações amorosas pela parte rejeitada, de tudo isso se faz um mundo novo onde, na solidão de um quarto ou de uma sala, com a ilusão securitária que essa solidão imprime, se espalha pelo mundo inteiro aquilo que antes, no tempo do cara-a-cara, se teria vergonha de mostrar a alguém.

Ao mesmo tempo, aquilo que se transmite pelas redes sociais, porque é de ligações cibernéticas que falamos, é forçosamente muito superficial. Nos pixeis de um ecrã, o outro é uma imagem e, por essa razão, é tratada como tal: na vida real, por exemplo, amigos discutem, não se desamigam. Já no Facebook, basta um clique e aquela pessoa desaparece da vista: sem trabalho, sem chatice e sem problemas. Da mesma forma, como são imagens dos outros que recebemos também são apenas imagens nossas que transmitimos. E aí é que a obsessão com a imagem ganha ainda mais peso porque, sendo superficial, é muito mais fácil de controlar e manipular. Desde o compulsivo que publica tudo e nada da sua vida, até ao impostor que nada tendo para publicar inventa fotografias e acontecimentos, de toda essa gente se compõe o grupo dos nossos amigos, amigos dos quais apenas conhecemos as imagens que eles quiseram que nós conhecêssemos. E esse é o principal paradoxo da vida nova das redes sociais: quanto mais elas se enchem de partilhas, menos nós conhecemos de facto as personagens que compõem a nossa vida.

Mas ainda há um outro aspecto que é importante referir. De tanto se obcecar com aquilo que se quer mostrar aos outros, tal como aquilo que se quer descobrir nos outros, de repente, passam as pessoas a vida agarradas a uma torrente sem fim de trivialidades pela qual se avaliam: alguém que publica uma fotografia e recebe quatro ou cinco likes (ou nenhum) pode muito bem entrar em depressão porque ninguém gosta dela. Já aquela antiga colega da escola que publicou uma fotografia na praia e teve cento e quarenta likes e noventa comentários que oscilavam entre o "estás muita gira :) :) :)" e  o "quando vamos tomar um café" dum garanhão cibernético mais afoito, já essa malandra vai ser o alvo da cobiça e da inveja. E, repentinamente, lá estão as pessoas em busca de likes, likes os quais - como um espelho - nos dizem se somos bonitos ou feios, inteligentes ou burros, bem sucedidos ou uns desgraçados do pior.

No fundo é profunda a ironia: sofre aquele que se mede pelas redes sociais de uma profunda menorização do 'eu', porque passa a ter a profundidade de um pixel, e tudo em nome da glorificação desse mesmo 'eu', que se quer como granjeador do respeito, admiração (e inveja) dos outros. A tragédia é que estes poderosíssimos instrumentos de partilhas acabam por paradoxalmente gerar uma profunda exclusão do indivíduo face à comunidade a que julga pertencer: isto porque a dinâmica da interacção pelas redes sociais reduz os afectos a likes que, por um lado não dão trabalho nenhum a dar (e por isso nada oferecem a não ser uma ilusória auto-estima) mas que, por outro, são a única forma pública de ligação, e valorização, do indivíduo face ao colectivo: entre o vazio que configuram e a importância completamente desproporcional que se lhes atribui, nessa diferença se faz aquilo que todos ficamos a perder com a substituição do convívio social pelo convívio cibernético: a complexidade, o valor e a empatia que apenas o contacto real permite transmitir.

Assim, no vazio de uma auto-promoção vaidosa cuja recompensa consiste em vácuas demonstrações de aceitação social, não admira que o Facebook, e outros como tal, estejam ligados a fenómenos depressivos: isolados, os humanos, perdem o gosto pela vida. E na monotonia de uma constante repetição de modas, com todos a irem para os mesmos sítios jantar, almoçar ou de férias, naturalmente, a sensação de que algo fica por cumprir será uma consequência natural para quem viva agarrado às redes sociais. E se é verdade que para muitos dos que cresceram na era pré-internet a coisa é capaz de começar a fartar ao fim de um bocado, para muitos outros o vício das redes sociais tornou-se uma realidade, e ainda por cima uma realidade que separa, deprime a longo prazo e privilegia a superficial vaidade a expensas das mais fundamentais experiências humanas. A questão que então se coloca - e a para a qual não há resposta - é como será com os nossos filhos, esses sim já desde a maternidade esparramados em fotografias por essas redes sociais fora. Que consequências esta desmesurada exposição ao mundo - e a um mundo que não está lá - poderão ter nas capacidades de sociabilização dos nossos filhos? Nos seus valores? Na forma como veem, e sentem, os outros, e as empatias que conseguem, ou não, formar com os outros seres humanos? No fundo, que filhos serão esses que vamos criar se todas as famílias vivem agarradas, cada um por si, aos seus perfis virtuais?

Na ausência de resposta para estas importantes questões, talvez esteja na hora de começarmos a perceber que, se por um lado é verdade que as redes sociais são um instrumento fabuloso de partilha de ideias e acontecimentos, quer da nossa vida quer da vida comunitária, também não podemos esquecer que, tal como os espelhos, se dermos demasiada importância às imagens que lá vemos reflectidas acabaremos obcecados com ilusões, sejam elas de grandeza ou de tristeza, e incapazes de gozar a vida tal como ela é. Até porque esta é capaz de nos dar muito mais alegrias, e fazer muito mais felizes, do que uns likes no Facebook.

PRESUNÇÃO

Anda muita gente a gozar com a tomada de posição pública do Prof. Carrilho. Ora, eu que não gosto nada do homem tenho toda a legitimidade para o defender. Mas afinal não estão os dois, ele e a ex-mulher, em tribunal com acusações mútuas de violência doméstica? Não existe presunção de inocência até prova em contrário? A conferência não é organizada pela Secretaria de Estado? Não está subentendido que a Sra. Guimarães foi vítima de violência doméstica na origem do convite que lhe foi endereçado para participar na conferência? E, finalmente, não é também verdade que nenhum tribunal declarou um dois dois culpados e, por essa razão, ele tem tanto direito a arrogar-se de ser uma "vítima" quanto ela? Acrescento que eu não faço ideia sobre quem é que bateu em quem, não segui o caso sequer com atenção e, sinceramente, tanto me dá como me deu se o Prof. Carrilho for considerado culpado ou inocente, e vice-versa para a Sra. Guimarães. Agora, só porque um é homem e a contraparte é mulher (e bonita e famosa) presumir-se logo que ele é culpado e ela é vítima, isso é que não. Muito menos pela parte de uma Secretaria de Estado.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MEMÓRIA

Hoje, aqui na Bélgica, é feriado e comemora-se o Dia do Armistício de onze de Novembro de mil novecentos e dezoito. Nesse dia terminou a Primeira Guerra Mundial, uma guerra onde ninguém queria que Portugal participasse mas na qual, mesmo assim, um regime republicano recentemente imposto, para se legitimar, não se coibiu de se intrometer e mandar cerca de dez mil portugueses para a morte. É nesse regime que socialistas como o Dr. Costa e companhia não se cansam de dizer que assenta a sua famosa ética republicana. Diz tudo.

LÓGICA DO COSTA (III)

O Governo aumenta os impostos, é uma austeridade irresponsável; o Costa aumenta os impostos, é um aumento da justiça social e o criar condições para o enriquecimento futuro.

LÓGICA DO COSTA (II)

Se aumentarmos os impostos não é precisa mais austeridade.

LÓGICA DO COSTA

Se eu taxar os turistas que vêm a Portugal então eu posso construir um TGV para todos aqueles turistas que não vêm a Portugal.