quarta-feira, 8 de abril de 2015

O BAFIO

A minha filha de um ano vê-me muitas vezes a mexer no rato do computador. Naturalmente, sempre que a oportunidade lhe surge, lá está ela a mexer no rato e a olhar para a televisão, sempre com um ar importante e de grande felicidade. Claro está, a profundidade da minha acção, o que escrevo ou faço no ecrã, as consequências, e as razões, pelas quais mexo no rato, tudo isso escapa aos seus infantes olhos: apenas vê a superfície da coisa e logo se imagina a fazer tal como eu. A verdade é que o mundo tem sempre o tamanho que os nossos olhos alcançam e, por essa singela razão, quando mimetizamos os comportamentos daqueles que consideramos grandes logo os reduzimos à nossa dimensão. É o que se passa, de uma forma geral, com os agentes públicos da nossa praça. Jornalistas luminosos que se imaginam Bob Woodward ou Carl Bernstein, mas que mais não fazem do que copy paste das notícias encomendadas por agências de comunicação e postadas na Lusa; comentadores penetrantes que se imaginam resplandecentes e acutilantes mas mais não fazem do que papaguear o que ouviram alguém dizer ou, pior, o que interessa ao patrão ou aos seus próprios bolsos; e políticos tremendos que ambicionam o poder, sonham-se como Churchill ou Che Guevara (dependendo do quadrante político) mas que mais não fazem do que ir reproduzindo os comportamentos que sempre foram vendo, todos eles muito compenetrados do seu imenso valor, e todos eles, sempre sem pinga de originalidade, tratando-se por shotor ou senhor deputado tal como viram, desde pequeninos, os grandes a fazer. Já o conteúdo das notícias, da acção política e da governação, tudo isso se reduz a um conjunto pouco numeroso de chavões, lá está, repetidos sempre de forma a caberem no instante mediático que imaginam ser suficiente para convencer o povo, ou o patrão, da bondade da sua existência. No fundo, imaginam o povo tão estúpido como eles e, naturalmente, tratam-no como tal. Só assim se explica que uma personagem como o Dr. Costa, figura cimeira do Partido Socialista, número dois do PS quando o ex-Primeiro-Ministro que agora está preso em Évora fazia as tropelias todas que precisamente o levaram à cadeia, e o país à falência, ande agora por aí convencido que vai ser, também ele, Primeiro-Ministro. Fala como tal, declara, postula e anuncia o que fará quando formar o seu Governo mas, pasme-se o pagode, uma ideia, uma proposta concreta, balizada, discutida, analisada e criticada, tudo isto com contraditório, réplicas e tréplicas, imagine-se lá, nem uma. A sumidade fala quando lhe apetece, sobre o que lhe apetece, diz hoje o contrário do que disse ontem e a ninguém, a nenhum venerável jornalista ocorre o famoso interesse público de colocar uma perguntinha que obrigue o senhor a lidar, vá lá, com a realidade. E, assim sendo, naturalmente, lá vai o Dr. Costa andando, apregoando e anunciando-se como a salvação do país, e logo ele que tão prontamente se prestou a ajudar a afundá-lo ainda há pouco mais de quatro anos atrás. Sinceramente, nunca imaginei possível um tão grande desprezo e desrespeito pelo povo como aquele que vejo por parte do Partido Socialista e da sua clique que vai controlando o panorama mediático português: ninguém assume a responsabilidade por terem levado o país à falência, parece que nunca aconteceu, e o que aconteceu não teve nada que ver com eles; ninguém se incomoda com o facto do seu anterior Primeiro-Ministro ter sido apanhado pelas piores vigarices e estar agora na cadeia ao mesmo tempo que o povo vai tomando conhecimento da leviandade com que foi enganado; e todos eles, os dirigentes socialistas, se imaginam capazes, ou pior ainda, merecedores de irem de novo para o poder. E a pantomina lá vai continuando: jornalistas, comentadores e polítiqueiros, todos muito compenetrados, todos muito competentes, todos muito honrados e a darem ares de grandes coisas, a repetirem os mesmos slogans, a afirmarem as mesmas promessas, sempre, sempre com a tremenda impunidade que um espaço público incapaz de ter memória, ou de aprofundar uma proposta, oferece. É esse o garrote que asfixia o país. Cheira a bafio, esse espaço público português. Um bafio peçonhento que é do tamanho do mundinho dos pacóvios que se acham donos disto tudo.

domingo, 1 de março de 2015

MANGAS CURTAS

Infelizmente, nem a modernidade globalizante alterou os antigos hábitos portugueses, apenas que conseguiu estupidificá-los mais ainda: afinal, onde antigamente se importavam os mais finos costumes franceses e ingleses - os grandes pensadores alemães também lá encontravam a sua contraparte lusitana, mostrando que também por terras portuguesas se elevavam os finos pensamentos às maiores alturas do engenho humano - nos dias de hoje, com igual sorvidão por importar a mais recente moda, lá se vai debitando de forma acéfala os discursos dos revolucionários em voga. Hoje é o modernaço Tsipras, amanhã Iglesias e, se o ódio motivado por pacóvios complexos de inferioridade a isso obrigar, daqui por uns anos ainda dirão, como alguns - mais radicais - já dizem, que o Maduro é que é. Entretanto, enquanto por terras europeias os idiotas úteis vão bebendo da propaganda do Syrisa e do Podemos, propaganda bem paga com os petro-bolívares venezuelanos, já por terras do paraíso socialista tão citado pelos senhores do Podemos - e visionários como Mário Soares - vai faltando o papel higiénico. Um chique! Mas, precisamente por isso, e felizmente para os venezuelanos, papel pejado de asneiras publicadas, lá como cá, lá vai continuando a encontrar a sua utilidade. Naturalmente, talvez fosse apropriado lembrar uma coisa muito simples: que, a ter que escolher, será mil vezes preferível viver como se vive em Berlim do que em Caracas, ou sequer Atenas. Mas isso são coisas mundanas das quais a iluminada inteligência nacional não se ocorre preocupar. Já dizia o Eça que a civilização em Portugal, importada como tudo, ficava aos portugueses curta nas mangas. Infelizmente, a esses importadores de serviço, cegos pelos ódios bairristas e pelas conspirações imaginárias que, além de lhes tolherem os espíritos, os animam com a crença de que se "não fossem os malandros A ou B" Portugal seria o melhor dos mundos, a esses importadores de sonhos tão pobrezinhos quanto inverosímeis, não são apenas as mangas que ficam curtinhas, curtinhas: são as vistas também. E, de forma inversamente proporcional, ficam também as línguas: compridas, tão compridas como as cordas onde imaginam enforcar os demónios que os condenam a uma vida de pequenez. Infelizmente, tal como o cão em busca da sua própria cauda, tais demónios não passam de invenções das suas produtivas cabecinhas, limitadas por um deficiente conhecimento do mundo. E, como sempre, no final, da estulta inutilidade de todos esses esforços, e de tanto palavreado, sobram os gritos ruidosos e proclamados desse génio nacional, tão nacional quanto as bancarrotas em que periodicamente lá vamos caindo, e tão genial quanto as desculpas esfarrapadas que as procuram justificar. Já eu, animado por um pessimismo existencialista a que o ocasional contacto com tamanhos desideratos indígenas me vai forçando, quase que desejo uma vitória de Iglesias em Espanha, nem que fosse para termos aqui em Portugal um António Costa a importar um excelente rabo de cavalo, mesmo que muito encaracoladinho, para cavalgar a onda de "mudança" que se precisa para a Europa. Quase que valia a pena. Quase.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

JUDGING BIRDS



LIBERDADE (II): DUAS INTERPRETAÇÕES

Primeira parte aqui.

Depois de vermos como os conceitos, incluindo um conceito como a 'liberdade', são vazios de conteúdo, podendo, por isso, significar uma coisa e o seu contrário, concluímos que o conteúdo e o significado de cada conceito é atribuído, em última instância, pelos valores que cada intérprete transporta consigo mesmo. Ou seja, e trocando por miúdos, o que dá sentido a um conceito são os valores que os indivíduos têm e que presidem à interpretação subjectiva desse mesmo conceito.

A título de exemplo:



No caso do cartoon, o conceito de dominação masculina é interpretado de formas absolutamente opostas porque os valores de cada uma das mulheres representadas são também eles opostos: a mulher ocidental presa o valor da sua liberdade individual de se vestir como quer, a mulher muçulmana presa o valor comunitário do seu papel face à sua religião. Valores diferentes, racionalizações diferentes.

Com o conceito de liberdade política passa-se exactamente a mesma coisa. Recordando Isaiah Berlin e os seus dois tipos de liberdade, tanto se pode olhar para a comunidade política e advogar que ela apenas é livre quando os indivíduos têm um espaço de acção livre de interferência externa tanto maior quanto possível, e apenas limitado pelo igualmente soberano espaço de acção dos outros indivíduos (a minha liberdade termina onde começa a liberdade do próximo), como também se pode advogar que uma sociedade livre é aquela onde o Estado garante a cada momento que as diferentes interacções entre os indivíduos são justas, adequadas (ao que o Estado entende como adequado) e elevadas a um nível igualitário que é entendido como a verdadeira medida de liberdade. De que serve a liberdade de acção se morres de fome ou se não sabes ler? Pouco, muito pouco. Por isso muitos advogam que uma sociedade livre é uma sociedade que, entre outras coisas, garante acesso a comida, educação, saúde, etc., porque na ausência desses bens de nada serve a liberdade individual.

Temos, portanto, aqui dois valores diferentes que estão na base de diferentes interpretações do conceito de liberdade política: por um lado,  o valor da liberdade de acção individual; por outro lado, o valor da capacidade para se poder agir com liberdade. Ou seja: quantidade versus qualidade. À primeira, Berlin chamou de liberdade no seu sentido negativo (por definir-se pela ausência de interferência); à segunda, Berlin chamou de liberdade no seu sentido positivo (porque se define por algo que se afirma, que se postula).

Pondo as coisas em pratos limpos: a liberdade no seu sentido negativo parte da preocupação de garantir uma área dentro da qual o indivíduo é livre de interferência de terceiros. O inimigo da liberdade negativa é, portanto, a coacção: ser coagido implica ser impedido por outros seres humanos (falamos de uma coação intencional e não de actos naturais não controláveis pela espécie humana) de fazer algo que de outra forma o agora coagido poderia fazer. Ou, vice-versa: ser forçado a fazer algo que de outra forma a pessoa em questão não quereria fazer. A liberdade negativa é, portanto, ausência de coacção; é liberdade para cada um definir, de acordo com a sua própria vontade, aquilo que quer fazer com as possibilidades que tem pela sua frente.

Partindo desta interpretação do conceito, a liberdade no seu sentido negativo ao ser implementada vai ter impactos significativos na forma como vemos a comunidade. O principal pressuposto ontológico por detrás da liberdade negativa é a noção de que as actividades humanas, no decorrer da normalidade da vida comunitária, não formam um todo harmonioso, perfeito e integrado onde não existem conflitos de qualquer espécie entre os diferentes indivíduos que congregam essa comunidade. Pelo contrário: numa comunidade, os diferentes interesses e vontades que presidem às actividades humanas chocam e geram conflitos; as próprias actividades a que os indivíduos devotam as suas energias não são, muitas vezes, compatíveis entre si. Por esta razão, a acção de uns interfere de forma constante com as acções de outros pelo que, para garantir que todos usufruem da mesma liberdade, é necessária uma moderação, uma garantia que a liberdade de uns não destrói a liberdade dos outros. É por esta razão que se entende a lei como protecção das liberdades e garantias dos cidadãos; a lei protege e limita a liberdade de todos no interesse da liberdade de todos. No entanto, deverá ser respeitado a todo o momento a existência de um espaço de liberdade individual que não poderá ser violado: é a linha entre aquilo que é a vida privada, que está fora do alcance da autoridade pública, e aquilo que esta última regula: as interacções entre os diferentes indivíduos garantindo que ninguém abusa de ninguém.

A outra interpretação do conceito de liberdade, a positiva, é bem distinta da liberdade negativa: se para esta última conta a esfera de acção essencial a cada indivíduo, para a positiva conta a qualidade da acção e a origem do controlo dessa mesma acção dentro do próprio indivíduo. A questão aqui é saber se a acção do indivíduo corresponde a algo que é efectivamente bom para ele ou se, pelo contrário, seja por ignorância ou por que motivo for, a acção do indivíduo, apesar de ser livre de coacção exterior, se revela como perniciosa para ele próprio. Vejamos um exemplo prático: um automobilísta que, chegado a um entroncamento, decide voluntariamente virar à direita. Para a liberdade negativa, não havendo nada que o forçasse a tal decisão, o condutor é um homem livre. Mas imaginemos que o condutor em questão é um alcoólico e que à direita do entroncamento se encontra o bar mais próximo. Se para a liberdade negativa, a escolha do condutor continua a ser livre (ninguém o coagiu), já para a liberdade positiva ela não o é: é a necessidade e a dependência do álcool que levam o condutor a virar à direita; o controlo da decisão está numa dependência e não na livre vontade do condutor. Para a liberdade positiva, o condutor não é livre, é escravo da sua própria dependência.

Desta forma, é possível entender-se que acções livres de coacção poderão não ser verdadeiramente livres. Outra possibilidade é imaginarmos um indivíduo que não saiba ler nem escrever. Se a sua escolha face a alguma situação depender de informação escrita então a sua decisão será prejudicada pela sua ignorância. Assim, para a liberdade positiva, mais importante do que garantir que a acção individual seja livre de coacção (liberdade negativa) é garantir que a qualidade dessa acção seja livre, ou seja: que seja uma acção no interesse do próprio indivíduo. Através deste argumento torna-se possível, por oposição à noção negativa de liberdade, restringir certos comportamentos ou coagir indivíduos a, por exemplo, irem à escola, para garantir que a conduta deles seja “positivamente” livre.

O pressuposto ontológico por detrás da liberdade positiva é que há uma solução racional para os problemas da vida comum e cabe ao Estado descortinar essa solução e aplicá-la à sociedade por forma a torná-la mais harmónica e, consequentemente, mais (positivamente) livre.Da mesma forma, caberá também ao Estado garantir que cada um desempenha o seu papel na gigantesca engrenagem que é a comunidade política.

Assim, em suma, temos o conceito de liberdade política dividido em duas interpretações que se preocupam com questões distintas: a liberdade negativa com a protecção de um espaço individual livre de coacção, e a liberdade positiva com a imposição de um conjunto de requisitos morais, económicos e sociais que considera imprescindíveis a uma sociedade verdadeiramente livre.

As duas dimensões da liberdade geram, portanto, efeitos políticos distintos: a liberdade negativa tende a gerar políticas mais conservadoras e tendencialmente situadas no espectro ideológico da direita: Estado limitado, impostos mais baixos (devido a uma defesa mais intransigente do princípio da propriedade privada) e maior ênfase na responsabilidade, liberdade e direitos dos indivíduos. Já a liberdade positiva tenderá a gerar políticas mais progressistas e tendencialmente situadas no espectro ideológico da esquerda: Estado mais forte, grande ênfase na regulamentação, impostos mais elevados e um esforço muito grande dirigido para a educação e formação de uma cidadania comunitária que, assente em deveres para com a comunidade, se identifique com os valores veiculados pelo Estado. Por oposição, a liberdade negativa assume mais os valores comunitários como naturais e, por essa razão, superiores em relação ao Estado que deve ser limitado e dirigido por estes.

Naturalmente, ambas as interpretações têm virtudes e defeitos, razão pela qual ambas têm muitos partidários: no campo da liberdade negativa, sem uma forte defesa da liberdade individual tornar-se-ia possível gerar grandes abusos do Estado face aos cidadãos. Por outro lado, uma visão exclusivamente negativa da liberdade, tal como opções meramente utilitárias, libertárias ou anarco-sindicalistas têm, não leva em linha de conta elementos fundamentais de justiça e coesão social que garantam uma igualdade de oportunidades mínima, bem como condições de vida minimamente condignas para os estratos mais desfavorecidos da sociedade. Já no campo da liberdade positiva, pelas mesmas razões, a preocupação em garantir que os cidadãos tenham um conjunto mínimo de instrumentos sociais (educação, saúde, etc.) para enfrentar as vicissitudes da vida é igualmente importante. No entanto, também visões que se preocupem apenas fundamentalmente com a dimensão colectiva da liberdade tenderão a gerar abusos inadmissíveis na esfera privada dos cidadãos podendo mesmo, tal como a história o comprova, criar sociedades totalitárias extremamente violentas e mortíferas.

A clivagem entre estas duas interpretações do conceito de liberdade política assenta - como tenho defendido - no facto de aquilo que preside à interpretação de um mesmo conceito (liberdade política) serem valores distintos: para a interpretação negativa, aquilo que importa primeiro é o valor da liberdade individual; para a interpretação positiva, o importante é o valor da igualdade social, ou comunitária. Valores diferentes, interpretações diferentes.

Encontrar o equilíbrio entre estas duas interpretações, que é como quem diz: entre estes dois conjuntos de valores, seria a tarefa do sistema político democrático. E é essa a razão pela qual a pluralidade do sistema Ocidental permitiu encontrar um equilíbrio entre o Estado e os indivíduos que funcionou suficientemente bem para criar a sociedade mais rica e com maiores níveis de bem-estar da História da Humanidade. Mas para que essa sociedade se mantenha, é importante que se reconheça a verdadeira dinâmica por detrás do conceito de liberdade política: é que ao tornarmos absoluta a nossa interpretação e, consequentemente, ao demonizarmos as posições, interpretações e valores opostos, destruímos o pluralismo da nossa sociedade e impomos a todos uma visão particular de liberdade que, sendo livre para nós, não passa de opressão para os outros. E essa é a grande desvantagem de uma interpretação positiva: não dá espaço para mais nenhuma (presente ou futura).

A verdadeira liberdade política será, portanto, para nós Ocidentais, o sistema que permite o constante dialogar entre os defensores de diferentes valores que partilhamos (e as suas interpretações) e encontrar terrenos comuns que permitam uma acção comum. A nossa interpretação de liberdade é um compromisso entre o que de melhor as duas interpretações de liberdade têm para oferecer, é certo. Mas não nos iludamos: para nós, Ocidentais, a base da liberdade política, mesmo que negociada com valores importantes como a comunidade, a justiça social e a igualdade de oportunidades, é a liberdade individual. Esse é o valor fundamental, porque é aquele que permite o espaço público onde todos os outros valores são negociados. Sem a liberdade individual, a prazo, como a História o comprova, todos os outros valores acabam por soçobrar também: uns porque sem liberdade individual, e propriedade privada, não há prosperidade económica que permita a distribuição da justiça social; outros porque, sem ninguém a advogar por eles livremente, e sem condicionalismos, acabam por ser derrotados pela imposição da lógica de pensamento único.

Pretender, portanto - mesmo a coberto dos melhores e mais altos argumentos racionais ou a reboque de grandes exaltações de outros valores -, que a liberdade individual, a liberdade de pensarmos, de exprimirmo-nos ou agirmos como queremos, quando queremos e onde queremos, a liberdade de trocarmos, fazermos, construirmos ou criarmos o que quisermos, trocar esse valor pivotal da liberdade individual por outro valor qualquer, por mais belo e apelativo que seja, implica sempre pôr em prática uma interpretação comunitária de liberdade que não é a nossa liberdade. E é essa liberdade - a nossa - que, por força da ditadura do politicamente correcto, do triunfo quase totalizante no discurso político do valor da igualdade, bem como de um debate público onde a superficialidade panfletária impera e o fundamental campo dos valores está ausente, está a ser posta em causa.

(Continua)



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

TRUE SELF


DOS CENÁRIOS (III)

Uma boa dica é perceber que a vida feliz, porque preenchida, é então aquela que não obceca com a forma como quer viver a vida, ou seja, com os cenários que construiu a priori para si próprio mas, pelo contrário, é aquela que se liberta desses cenários para experimentar a vida tal como ela é, e não como gostaria que fosse. Mas também isso configura um cenário, apenas que não imaginado previamente por nós. E é nesse cenário não-idealizado que os homens constroem as suas vidas. Não é à toa que com menos de trinta e cinco anos não se pode ser candidato a presidente da república.

DOS CENÁRIOS (II)

Os pais, personagens dos avós, entretêm-se a encenar as vidas dos filhos, e assim sucessivamente.

DOS CENÁRIOS

É uma pena, mas não deixa de ser verdade, percebermos que os cenários que escolhemos para viver o filme da nossa vida são importantes, e justificam todos os esforços, meramente durante os momentos que antecedem a sua concretização. Após as congratulações pelos sucessos alcançados, apenas sobram os anseios por novos cenários, ou a fria realização de que estes que nos cenarizam agora não eram assim tão importantes.

PEREGRINOS

Para a criança, descobrir que aquilo que tinha como certo afinal não é assim tão certo representa uma angústia: as certezas fazem o mundo ancorar-se em terreno estável e permitem à criança a ilusão de que está protegida do caos. Já para o homem adulto, verdadeiramente adulto, o vislumbre, o simples vislumbre, de que uma anterior certeza afinal não se verifica representa um alívio: é sinal de que a vida continua e descobrir a verdade é apenas no fim do caminho, quando cai o pano.

LIBERDADE: DO CONCEITO À INTERPRETAÇÃO; DA RAZÃO AOS VALORES

Não é raro vermos pessoas a discordar profundamente acerca de um tema político sensível, mesmo quando ambos afirmam estar a lutar pela mesma coisa, por exemplo a liberdade. A razão para isto é que a forma como o conceito de liberdade é encarado pela generalidade das pessoas leva a que existam muitos equívocos: para uns liberdade é uma coisa, para outros é outra mas, normalmente, ambos concordam que a definição sobre o que é, de facto, a liberdade é possível de ser atingida; e, dessa forma, a discussão versa sobre quem tem razão sobre o que significa ser livre, e quem não tem. Ora, esta atitude não beneficia em nada a compreensão de todas as variáveis que estão em jogo quando falamos sobre o conceito de liberdade política.

A dificuldade de definir um conceito prende-se com a dificuldade em lidar com o abstracto: conceitos são termos vagos, latos, gerais e, principalmente, vazios. Estou ciente que esta afirmação é polémica por si só pois, para muitos, as ideias que nós formamos a propósito de conceitos derivam de uma metafísica ou espiritualidade que reside no absoluto e que oferece significado ao conceito. Por exemplo, para Platão, a ideia de 'cadeira' era anterior, e superior, à existência factual de uma cadeira: ou seja, tal como a pescada, qualquer coisa antes de o ser materialmente já o era. Da mesma forma, também o conceito de liberdade, puro, absoluto e perfeito, existiria antes das imperfeitas e limitadas interpretações humanas acerca do que esse conceito pudesse significar. Ou seja, o significado, o valor e a verdade de um conceito residiria na sua essência, sendo esta anterior, perfeita, imaculada, e até mesmo divina. Assim, num processo criador decadente onde se passa do divino e absoluto (que é anterior) para o material e imperfeito, os humanos, a muito custo, lá vão vislumbrando toscamente a verdade que está por detrás de cada objecto, ideia ou conceito e que, mesmo velada, não deixa de fazer parte dele, da sua génese e essência - uma essência que cumpre apreender como forma de descobrir o verdadeiro sentido e significado de um conceito. Para quem defende esta ideia, o conceito de liberdade é anterior, superior e pleno de conteúdo, isto já antes de ser sequer conhecido, ou sequer pensado, pelos homens.

Já no que diz respeito aos conceitos políticos, Kant será provavelmente o grande responsável pela abordagem racionalista e universalista que hoje temos perante eles. Para ele, do mundo em si mesmo, o verdadeiro e absoluto, nós conseguimos aceder a leis racionais, e por isso válidas para todos os agentes racionais, que nos transmitem a verdade que está por detrás de cada conceito: é pela razão que descodificamos a forma como devemos agir, ou seja, é pela razão que interpretamos os conceitos que regem as nossas vidas e, dessa forma, descobrimos a essência verdadeira que neles supostamente reside.

É esta visão racionalista que está por detrás da necessidade que temos hoje em dia de mostrar que o outro, aquele que defende um conceito de liberdade diferente do meu, está errado. Isto porque se ele está errado então pode passar a estar certo: eu posso conduzi-lo pela razão a um ponto onde ele finalmente se convença do seu erro e veja a solução racional, portanto verdadeira, para a problemática conceptual. Com a matriz Kantiana a problemática política tem uma solução racional porque, racionalmente, todos poderemos vir a concordar sobre qual a interpretação racional, e única porque verdadeira, de cada conceito.

Esta abordagem, no entanto, parece-me fraca - e a ausência de soluções e o perpétuo discutir acerca das mesmas coisas, incluindo o conceito de liberdade, parece que dão força a esta crítica. O erro parte do facto das duas premissas que acima enunciei, para mim, não se verificarem: primeiro, a noção que intuitivamente todos partilhamos que há uma essência verdadeira por detrás de um conceito não traduz a real complexidade que o mundo, a vida e, naturalmente, os conceitos de facto têm; segundo, apesar da forma como tomamos posição no debate conceptual ser formalmente racional não significa que seja a razão a causa de uma tomada de posição ou, neste caso, aquilo que preside e decide à interpretação do conceito.

Vamos por partes.

Nietzsche tem um ponto de partida para analisar o conceito que eu prezo muito. Diz-nos ele que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária" (Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral, 1873). Ou seja, ao contrário da ideia Platónica que reproduzi antes, Nietzsche advoga que o conceito não está na base dos objectos que o compõem, não sendo, por isso, anterior ao objecto, mas, pelo contrário, é dos objectos do mundo que por intermédio da abstracção nós conceptualizamos: ou seja, primeiro vêm os objectos e apenas depois, por intermédio da nossa acção, aparecem os conceitos.

Se Nietzsche tiver razão e, neste caso, parece-me que terá - esta tomada de posição, é certo, representa toda uma problemática filosófica e séculos de debate - bem poderemos passar as nossas vidas à procura da essência conceptual que poderá nortear as nossas interpretações que ficaremos inexorável e perpetuamente à espera do dia de S. Nunca. Já se aceitarmos esta perspectiva Nietzschiana, então apenas uma conclusão se pode tomar: se aquilo que forma um conceito é uma abstracção humana então não há uma verdade una por trás do conceito, pelo contrário, é da mitigação de várias verdades materiais num único ideal vazio de verdadeiro conteúdo efectivo que se faz o conceito. Sobra, naturalmente, a questão: como decidimos nesse vazio o que é a liberdade, então? Como podemos recusar uma ideia de liberdade como e aceitar outra como boa? E baseados em quê? Esta questão encerra dentro de si o cerne da filosofia moral.

Uma das consequências deste predicamento tem sido o relativismo moral e material que vai afligindo o Ocidente. Com o declínio da influência da Igreja, na ausência de uma solução superior, à espera de uma solução racional e material que não aparece, lá vai a civilização Ocidental definhando em lenta e inexorável decadência. No tempo da prova material e positiva, soçobram as soluções porque ninguém as consegue apresentar intersubjectivamente: os religiosos, porque a Fé não se demonstra matematicamente; os racionalistas, porque demonstrações igualmente racionais conseguem apresentar resultados opostos.

É aqui que convém recordar que nem tudo o que preside à conduta humana é racional. Pelo contrário: se duas pessoas igualmente racionais que discutem sobre um mesmo conceito podem tomar interpretações acerca do que esse conceito significa diferentes uma da outra então daí decorre que apenas uma de duas conclusões se pode tirar: ou um dos dois está a pensar mal e a tomar uma decisão não-racional ou, em alternativa, se ambos percorrem os caminhos formais da razão, algo mais para além da razão tem que fazer parte do processo decisor. Considerando que há doutos e venerandos racionalistas de todos os lados de todos os debates, se todos argumentam logicamente, sobra a segunda possibilidade. E, assim, parece-me, que o que diverge para causar conclusões divergentes é o ponto de partida do processo racional: agentes racionais que têm pontos de partida distintos no seu processo lógico geram conclusões racionais distintas.

Continuando a atalhar caminho, a conclusão aqui é que a razão, formal e fria, é vazia de conteúdo, pois apenas organiza de forma lógica, em causas e consequências, os pensamentos decorrentes das vontades criadas nos homens pelos seus pontos de partida. E é dessas vontades e desses pontos de partida que vem o conteúdo para o processo racional, o tal conteúdo que verdadeiramente oferece sentido, significado e valor à razão e, por consequência, aos conceitos que racionalmente tentamos interpretar.

E qual é o ponto de partida então? As coisas que são importantes para nós: os nossos valores.

Essa é a grande conclusão que as nossas sociedades, escravizadas pelo ideal racionalista, herdeiros de Platão, Aquino e Kant, deveriam aceitar: é por termos valores distintos que, mesmo utilizando mecanismos de racionalidade formal iguais, ao lhes imputarmos conteúdos valorativos distintos, atingimos conclusões racionais diferentes. Em suma: pensamos diferente porque temos valores diferentes.

E o que é um valor, então? Max Scheler explicar-nos-ia que valores são fenómenos, propriedades dos objectos, como as cores, e que são apreendidos por nós a priori, permitindo-nos interpretar e experienciar o mundo. Scheler, por oposição a Kant, explica que o que há de a priori no mundo são os valores que apreendemos, e não os pensamentos que fabricamos com base nesses mesmos valores. Mas, de forma mais simplista - e não entrando na metafísica - um valor é algo, como o próprio nome indica, que é valioso para nós. Que nos é querido. E é para o não perder, para o proteger ou para o conquistar que agimos: toda a acção, incluindo a intelectual, é motivada pela defesa, manutenção ou tentativa de aquisição de coisas que sentimos como valiosas, que queremos e desejamos como partes integrantes de quem somos.

Assim, com a noção que a conduta humana é guiada por valores (deixo a aquisição de valores de fora deste texto) e não por altíssimos julgamentos ou concepções racionais que são, afinal, meramente instrumentais,  somos forçados a olhar com novos olhos e redobradas cautelas para as consequências gravíssimas que a ilusão racionalista e progressista está a causar no Ocidente: ao não passarmos os valores que justificam a nossa acção política e social às novas gerações estamos a condenar a nossa sociedade ao vazio valorativo e, por consequência, ao desnorte e à impotência para agir. Sem valores comuns não há acção comum. E, sem valores partilhados, uma comunidade sucumbe porque não se consegue entender sobre a forma como interpretar os conceitos e as grandes questões da vida comum e, consequentemente, porque ninguém se entende, não é capaz de organizar-se de uma forma eficaz: sem uma interpretação comum da vida, não há vida comum. Pelo menos em paz.

É por isso que todo o debate acerca de qual é a melhor liberdade, no que consiste a liberdade, como podemos provar que manter esta ou aquela liberdade é fundamental, todos esses debates serão inúteis se não tivermos a capacidade de perceber que qualquer troca de argumentos pretensamente racionais não representa nada mais além do que um embate de valores. Isto desde a simples conversa de café até ao debate mais extenso sobre como acomodar a ameaça extremista islâmica nas sociedades Ocidentais. Ao contrário do que os liberais Rawlsianos pensam, o secularismo, a tolerância e a liberdade política não advêm de uma decisão racional tomada por todos numa reunião parlamentar, ou numa qualquer posição original Rawlsiana (uma versão pop do imperativo Kantiano). Não. Essas liberdades, essas tolerâncias, esses valores, são mantidos enquanto forem queridos pela população. E esse é o debate que se deveria ter: como voltar a fazer os Europeus acreditarem nos valores que estão na base da civilização tolerante, secular e livre que construímos - e a lutar por eles. Na ausência de uma resposta para esta questão sobrará inapelavelmente o declínio, a decadência civilizacional bem como a perda de todos esses valores fundamentais - e da vida tal como a conhecemos.

(Continua)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

LÁ VAI MAIS UM... ARGUIDO

Num país decente, o quem é quem faz-se nas cerimónias de Estado, no mediatismo dos sucessos individuais, talvez nos prémios anuais que se distribuem. Em Portugal, faz-se no livro de visitas de uma cadeia.

DOS HÁBITOS

Temos sempre a capacidade de nos adaptar a novas realidades, mas devagarinho. Os portugueses, por exemplo, já se habituaram a um país onde é normal que um ex-primeiro-ministro, porque suspeito de corrupção, esteja preso preventivamente. Também já se habituaram a terem poderosos membros da oligarquia estatista que os governa a serem constituídos arguidos por falcatruas diversas - refira-se, a título de exemplo, o caso dos vistos gold. Da mesma forma, também já se habituaram os portugueses a verem um banco, que tendo estado metido em todos os casos mais complicados de promiscuidade entre poder político e económico, quedar-se prostrado na derrota da falência enquanto os seus antigos líderes, os intitulados donos disto tudo, se digladiam na praça pública que nem comadres caídas em desgraça rebolando pela lama da praça pública. A tudo isto, sem lhe dar o devido valor, já se habituaram os portugueses. Mas foi tudo muito rápido. Antes, também viviam como habitualmente num mundo onde o primeiro-ministro de então organizava por todos os meios intentonas contra os meios de comunicação, bancos ou pessoas que ousassem estar contra ele. Também se habituaram os portugueses a ver esbanjar o seu dinheiro, quer o recolhido por impostos, quer o desbaratado em emissão de dívida (que serão impostos futuros), a todo esse forró se habituaram os portugueses. Aliás, os portugueses tendem a habituar-se a tudo: entre mil novecentos e vinte e oito e mil novecentos e setenta e quatro também viveram como habitualmente sem liberdade política. São lixados, os hábitos antigos. Demoram a morrer. São como vícios: quando se acha que se mudou de vida lá vem a recaída e torna-se ao mesmo. E, infelizmente, talvez seja essa a razão pela qual o actual vislumbre de liberdade que assoma Portugal abalando de frente a oligarquia corrupta que tem governado o país não seja o suficiente para derrubar essa oligarquia de vez. Não, habituados a ela lá vão os portugueses eleger em dois mil e quinze quem vai tratar de pôr tudo como antes. Para, depois, como de costume, continuarem a passar a vida a reclamar com as falências, corrupções e desgraças diversas que os assolam -  e sem culpados, prisões ou justiça. Como habitualmente. E como se não tivessem nada a ver com isso.

AS NUVENS

A Rússia tem uma economia típica de terceiro mundo que alimenta uma oligarquia poderosa - parte dela ocupada a gerir clubes de futebol em Inglaterra - através da exploração de recursos naturais abundantes. Com a queda do preço do petróleo, aliada às sanções ocidentais causadas pela crise ucraniana, a economia russa está a ceder. Com taxas de juro a 17%, e a não estancarem o problema, a bancarrota estará ao virar da esquina. Algumas questões se colocam: primeiro, o que fará um déspota como Putin face ao descalabro económico? Imagino que faça o óbvio: que nem sócrates, o pequeno, culpará os "mercados" e o Ocidente pela situação, colocando-se no papel da vítima que, com abnegação, continua a defender o interesse dos russos oprimidos pela ganância capitalista da Europa e dos Estados Unidos. Depois, tal como o animal feroz aprisionado em Évora, passará ao ataque. A diferença é que Putin tem ao seu dispor, ao invés de dois submarinos comprados por Paulo Portas, um exército capaz de fazer muito mais, e muito pior, como forma de retaliação. Os países bálticos, a Ucrânia e demais antigas repúblicas soviéticas têm muito por onde temer. Outra questão que se coloca é como vai o Ocidente responder à subida de agressividade do discurso russo: será que vai recuar ou vai continuar firme "que nem uma barra de ferro" a encurralar o déspota russo ao canto onde se enfiou? E a opinião pública europeia? Saberá ela conviver com a ameaça à paz? Ou, vai continuar a clamar contra "os mercados" e, por consequência, dar razão a Putin? Finalmente, terão os líderes europeus a capacidade de agir com um bloco ou, como de costume, teremos cada um a tratar de si, e das suas eleições, ao invés de termos uma política europeia segura, estruturada e bem implementada? Como dizem os cascalenses, há nuvens na Serra de Sintra. Vamos ver no que isto dá.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PHILOSOPHY IN CANDYLAND

                                                                    Daqui.

domingo, 30 de novembro de 2014

ORA, PERMITAM-ME QUE PERGUNTE

Se fosse no congresso do PSD, durante o discurso de Passos Coelho, que se começasse a nomear mulheres mortas por violência doméstica também era "preocupação social" e um momento de "sublime faro político" ou já seria um caso vergonhoso de apropriação, sem autorização, da desgraça alheia em busca de benefícios populistas e eleitorais?

AS MOSCAS

Apenas para relembrar os mais distraídos: este Luís Patrão que aparece agora na direcção política do Dr. Costa é o mesmo Luís Patrão que era sócio do Sr. Armando Vara naquele esquema fantástico que era a Fundação para a Prevenção e Segurança que andou a financiar-se à grande no tempo dos governos do Eng.º Guterres. Aliás, só fica bem ao Dr. Costa: renovação, renovação é largar os arguidos dos governos socretinos para ir buscar os arguidos dos governos guterristas! Um chique.

MUDE-SE A DATA

A pouco e pouco fui vendo que o habitual BC (Before Christ) e AD (Anno Domini) como formas de designar, respectivamente, os anos anteriores e posteriores ao nascimento de Jesus Cristo têm vindo a ser substituídas pelas siglas 'BCE' e CE'. O 'CE' significa 'common era' e visa acomodar o incómodo que académicos mais seculares têm com a utilização da figura de Cristo como forma de marcar o nascimento da nossa Era. Ora,está bem de se ver que, na realidade, substituir a sigla não muda nada, a não ser a sigla. O que significa que não faltará muito para que esteja encontrado mais um cavalo de batalha dos suspeitos, ou revisores, do(s) costume(s). Há que modernizar a data, dirão uns. Há que limpar a cronologia de referências que discriminam quem não as aceita, dirão outros. E, depois, daqui por uns anos, quando se concordar que a data é para mudar, discutir-se-á se havemos de armar-nos em futuristas e saltarmos para o ano seis mil e tal, convencionando-se como ano zero o momento em que inventámos a roda, por exemplo, ou, por oposição, se queremos saltar para o passado, apagar de facto a pré-história e comemoramos, todos unidos, em alegre igualdade e fraternidade, o nascimento da Nova Era. Nova discussão aparecerá então, afinal, a partir de que ano haveremos nós de comemorar o nascimento do novo-homem? Talvez, fica a humilde sugestão, se possa convencionar o ano de mil novecentos e cinquenta e cinco como ano zero, o que nos transportaria para o ano cinquenta e nove Depois de Jobs. Seria apropriado. E aí, todos juntos, agarraríamos a maçã para partilharmos em camaradagem uma única dentada, afinal, lembre-se, foi  precisamente uma dentada numa maçã que num passado de sonho nos expulsou do paraíso e, por essa mesma razão, seria apenas justo que essa mesma maçã, num sonho do mesmo calibre, nos devolvesse o paraíso. Para trás, nos anos antes de Jobs (AJ), ficariam os omnívoros, os homens não-metrossexuais, todas as maiorias opressivas e todos os malandros que um dia mandaram um piropo a uma mulher. Desses não rezaria a História! E para um futuro de novos paraísos, plenos de novas felicidades e novos homens, para esse futuro só basta querer. Vá, vá: façam lá a associação. Mudar a data é a solução.