terça-feira, 5 de janeiro de 2016

ALGUÉM VIU POR AÍ O PROFESSOR MARCELO?

Pelo que me vai chegando - e por mais que evite acaba mesmo por chegar - o Professor Marcelo encarna na perfeição, julgo que de forma deliberada, o espírito destes nossos tristes dias vazios: não se compromete, nada afirma que lhe possa custar um votinho que seja, apenas tenta passar pela chuva sem se molhar e, por essa razão - e apenas por ela - aspira legitimamente ao mais alto cargo da república. Fica, naturalmente, a lição que o professor exemplarmente nos ensina: nos dias de hoje, fala mas não digas nada, pensa mas não contes a ninguém, age mas despercebidamente. Que nem uma enguia, com o sorriso aberto, mostra-se amigo de todos, fiel a todos - que é como quem diz que não é amigo de ninguém, muito menos fiel, a alguém além dele próprio. Se algum eleitor mais incauto ainda achava que o comentador eleitoral traria alguma coisa para este país no seu primeiro mandato que se desengane: na busca da reeleição a sua estratégia no cargo de PR será a mesma: não fazer nada, não mexer, não ofender - mesmo que isso signifique afundar o país nos braços delirantes do Dr. Costa e da extrema-esquerda. Ora, se o Sr. Professor não se digna a representar-me no seu primeiro mandato pode muito bem ficar com a certeza que não leva o meu voto na primeira volta. Isso é garantido. E se por algum milagre do destino o seu adversário na segunda volta for o Henrique Neto, olha, é como diz o outro: azarito. Para vazio já bastava o Dr. Costa e as suas "torrentes" de asneiras.

ZOMBIES AND MODERNITY (AND MICHAEL JACKSON)

"Apart from zombie films, only pornography repeats the same plot, requires no acting skills, and is watched obsessively by a mass audience. The story is irrelevant, the dialogue pointless. The fascination lies in the image, not in the characters or a narrative arc. The act holds viewers’ attention, and continues to fascinate when one actor after another performs it. (...) The closest thing to an actual zombie among prominent Americans was, of course, Michael Jackson, whose face began to fall off after too many surgeries. Jackson’s 1983 zombie video, “Thriller,” gave us the defining image of late 20th-century America: Peter Pan as zombie, the perpetual youth as a walking corpse. (...) More than any figure of popular culture in the past century, Jackson embodied the burning desire of his generation never to grow up. Oscar Wilde’s Dorian Gray had a portrait that revealed his inner decay. Michael Jackson had a nose, which narrowed, shrank, shriveled, and finally fell in, perfectly reflecting the spirit of the times. In his self-disfigurement and ultimate self-destruction, this fey child-man fought and died in the service of the mad fantasy of eternal youth.(...)We define our life by how we view our eventual death. In the Christian past, life on earth was for most people a preparation for the eternal life promised by religion. In today’s America we strive instead to perpetuate life in our own skins. (...)No wonder so many American women have come to abhor their bodies. According to the National Eating Disorders Association, anorexia and bulimia threaten the lives of ten million American women.Psychology Today reports that these disorders “afflict 40% of women at some time in their college career.” More than a third of American women are obese. We live among hordes of female zombies—anorexic zombies on Manhattan’s Upper East Side, morbidly obese zombies in Des Moines, cosmetic-surgery zombies in Southern California, and Prozac-dependent zombies coast-to-coast. The sexual revolution has transformed a frightening number of American women into the walking dead, victims of a failed social experiment. We know that the object of our narcissism will look a little worse in the mirror each day no matter how much Botox we inject. The older we get, the harder we strive to stay young, and the less convincing we find our efforts. The aging metrosexual on his way out of the plastic surgeon’s knows that he is one day closer to joining the discarded elderly, subject to the same contempt with which he regards the last generation.(...)How quaint, how superstitious these ancient notions of eternal life seem to the secular modern world, and how strange and primitive the rituals that sustained the Psalmist’s conviction that God would not abandon his servants to the grave. Modernity tells that nothing in the universe cares whether we exist or not. Where the meaning of our lives is concerned, all of us are on our own. We are enthralled by the same images, but in reverse: the walking dead in place of the dead awaiting resurrection, decaying corpses instead of wholesome priests and uncorrupted saints, the zombie herd instead of the happy pilgrimage of God’s people to the holy courts of the Temple".
           David P. Goldman, no Asia Times

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

SKILL AND PRACTICE

"And yet so sensible were the Romans of the imperfection of valour without skill and practice, that, in their language, the name of an army was borrowed from the word which signified exercise".

Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (1788)

[Wordsworth Classics of World Literature, Ch 1, p. 16]


TETRASELFIE

                                                                                  Daqui.

THE MAGICAL SLUMBER

"Regarding everything, which we call by the proud metaphors “world history” and “truth” and “fame,” a heartless spirit might have nothing to say except:
“Once upon a time, in some out of the way corner of that universe which is dispersed into numberless twinkling solar systems, there was a star upon which clever beasts invented knowing. It was the most arrogant and mendacious minute of world history, but nevertheless only a minute. After nature had drawn a few breaths the star cooled and solidified, and the clever beasts had to die. The time had come too, for although they boasted of how much they understood, in the end they discovered to their great annoyance that they had understood everything falsely. They died, and in dying they cursed truth. Such was the nature of these desperate beasts who had invented knowing.”
This would be man’s fate if he were nothing but a knowing animal. The truth would drive him to despair and destruction: the truth that he is eternally condemned to untruth. But all that is appropriate for man is belief in attainable truth, in the illusion, which draws near to man and inspires him with confidence. Does he not actually live by means of a continual process of deception? Does nature not conceal most things from him, even the nearest things- his own body, for example, of which he has only a deceptive “consciousness”? He is locked within this consciousness and nature threw away the key. Oh, the fatal curiosity of the philosopher, who longs, just once, to peer out and down through a crack in the chamber of consciousness. Perhaps he will then suspect the extent to which man, in the indifference of his ignorance, is sustained by what is greedy, insatiable, disgusting, pitiless, and murderous- as if he were hanging in dreams on the back of a tiger.
“Let him hang!” cries art. “Wake him up!” shouts the philosopher in the pathos of truth. Yet even while he believes himself to be shaking the sleeper, the philosopher himself is sinking into a still deeper magical slumber. Perhaps he then dreams of the “ideas” or of immortality. Art is more powerful than knowledge, because it desires life, whereas knowledge attains as its final goal only- annihilation".

Friedrich Nietzsche, On the Pathos of Truth (1872) [link]

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

PAULO PORTAS

Tirando os mal-intencionados dificilmente se poderá dizer que Paulo Portas não é um homem cheio de qualidades. Tirando os ingénuos, ou os deslumbrados, não se pode dizer que Paulo Portas não é um homem igualmente cheio de defeitos. Nos primeiros: a garra, a tenacidade, a energia, a alegria, a inteligência prática - a força; nos segundos: o oportunismo, o populismo, a maleabilidade teórica e o malabarismo ideológico - a fraqueza que teve a virtude de transformar em arma política. Das virtudes, beneficiou acima de tudo o CDS, mas também o país. O primeiro porque se viu alçado de um partido arredado do poder para os mais altos vôos políticos. Toda uma geração, hoje bem conhecida dos portugueses, faz vida, participa, trabalha para, e da, vida pública do país - e tudo isso graças ao génio de Portas, não tenhamos dúvidas. Já o país beneficiou igualmente: com um PSD por culpa própria incapaz de chegar a uma maioria absoluta sozinho, apenas com o CDS de Portas foi possível, especialmente na segunda versão, obter uma maioria estável que num momento particularmente difícil conseguiu "safar a coisa" e, de caminho, mostrar a muitos - tanto que venceram as eleições - que, e especialmente face às alternativas que agora nos governam, a direita foi, é e será o único caminho de estabilidade, seriedade e alguma remota possibilidade de prosperidade futura para o país. Já os defeitos espelham-se na mediocridade dos resultados práticos: um político brilhante? Talvez. Um reformador? Nem por isso, basta relembrarmo-nos da reforma do Estado que nunca aconteceu - nem no  papel. Um dirigente partidário de gabarito? Sem dúvida. Um homem de rasgo para o seu partido? Também. Um homem com uma visão clara para o país? Não, não mesmo: Portas foi anti-europeu, e pró-europeu. Defendeu uma visão liberal, e boicotou reformas liberais. Promoveu e deu espaço a novos liberais (Mesquita Nunes) e promoveu e deu espaço a novos-socialistas (Assunção Cristas). Aliás, e esse é o seu grande falhanço, em dezasseis anos de liderança, Portas não foi capaz de definir com força e clareza o posicionamento ideológico do seu partido: foi nacionalista, europeísta, conservador, liberal, democrata-cristão, social-democrata, tudo e o seu contrário. Do mesmo modo, à imagem do seu líder, no CDS couberam todos, desde que de direita - seja o que for que cada um entenda o que isso é. E esse é agora o principal risco que o CDS corre: um CDS de Cristas nada tem que ver com um CDS de Mesquita Nunes; um CDS de Anacoreta Correia nada tem a ver com um CDS de Nuno Melo. E, por esta razão, os apoiantes de cada uma das possibilidades verão nas alternativas que se lhes opõem o fim do partido: muito provavelmente será demasiada heterogeneidade para um partido pequeno. É comum dizer-se que após uma liderança forte e longa vem alguma espécie de caos. Portas - diz-nos ele - para evitar tal coisa ocupou-se a rejuvenescer com qualidade (o termo é "renovar") os quadros políticos do CDS. É verdade. Mas o outro lado do legado é que aquilo que foi o ás de trunfo de Portas na partidarite indígena - a sua maleabilidade ideológica - representa agora uma mão cheia de nada para o seu sucessor. A primeira tarefa no CDS deverá ser então definir se quer ser o partido do reformismo liberal que Portugal precisa ou o partido do socialismo católico. Enquanto não o fizer, na ausência de uma contribuição ideológica clara para o futuro do país, apenas o fantasma de Paulo Portas pairará sobre o abismo da guerrilha fraticida. E não esqueçamos: o homem não desapareceu - longe disso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

25 CENTS


A GRANDE ILUSÃO

O grande erro que grassa na mentalidade europeia dos dias de hoje consiste em pensar-se que os europeus contemporâneos são melhores, e mais evoluídos, do que aqueles que há uns anos atrás se esfacelaram e estropiaram em guerras, ou purgas, causadas por ideologias que, precisamente, se consideravam também elas melhores e mais evoluídas. Por mais difícil que seja de aceitar, nem os homens de hoje são diferentes dos da primeira metade do Século XX - quer os de um lado quer os do outro -, nem as ideias salvadoras, progressistas, e igualmente redentoras, deixaram de andar por aí. Iludirmo-nos que, fruto de uma evolução positiva, ou do progresso, estamos todos, de alguma forma, mais próximos da solução, mais perfeitos ou, simplesmente, melhores, é o caminho mais acelerado para aprendermos que mundos perfeitos, ou simplesmente melhores, nunca se fazem com as mesmas pessoas. E que as pessoas, para o melhor e para o pior, são sempre as de sempre - e por isso o mundo é o que é. Precisamente por esta razão, e fruto de muita ignorância, ocupam-se agora aqueles que mais ilusões progressistas vendem a explicar que essas ilusões nunca se concretizam, não por serem irrealizáveis, mas por culpa dos malvados bandidos que rejeitam a redenção. E assim, aos gritos, a chamar nomes, a encontrar culpados e a personalizar o mal nos seus opositores, se dão os primeiros passos rumo às mesmas guerras, e às mesmas purgas, que agora, por mera soberba, parecem tão lá longe, já perdidas nas trevas de uma História julgada irrepetível. O infeliz resultado desta grande ilusão, desta enorme arrogância intelectual, é, por um lado, o síndrome do fim da História e a terrível ideia de que, uma vez alcançadas as luzes da democracia, da liberdade e da paz, estas se mantêm sem que alguém tenha que fazer algo para as manter; e, por outro lado, a rejeição progressivamente mais violenta desse mundo que é anunciado como final e que, naturalmente, como todos, estará muito longe de ser satisfatório. Deste modo, enquanto, dormentes e preguiçosos, nos refastelamos no remanescente conforto da modernidade, também nos damos ao luxo de reclamar pela perfeição, pela redenção - pela salvação -, esquecendo-nos que essa se alcança pela dedicação ao aperfeiçoamento constante, pelo diálogo aberto face a um futuro partilhado, e não pela perfeição adquirida num único passo redentor: o do estabelecimento de uma nova ordem, uma nova ordem que, precisamente, e daí a purga ser sempre necessária, não pode incluir os malvados que agora, aos olhos dos idealistas, a impedem. No entanto, como a todos os arrogantes, entre os indolentes e os conspiradores, todos ignorantes mas todos profundamente cheios de razão, aconchegados no manto ilusório da nossa orgulhosa superioridade, porque o mundo é o que é, de uma forma ou de outra, lá acabaremos todos por aprender a lição. Mais uma vez.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LECHEROUS FEVER

"The crux of the curious difficulty lies in the fact that our conscious views of what life is ought to be seldom correspondent to what life really is. Generally we refuse to admit within ourselves, or within our friends, the fullness of that pushing, self-protective, malodorous, carnivorous, lecherous fever which is the very nature of the organic cell. Rather, we tend to perfume, whitewash, and reinterpret; meanwhile imagining that all the flies in the ointment, all the hairs in the soup are the faults of some unpleasant someone else".

Joseph Campbell, The Hero With a Thousand Faces, 2008 pp. 101-2 [1949]

KEEPING THE DIVINITY WITHIN

"In man's life his time is a mere instant, his existence a flux, his perception fogged, his whole bodily composition rotting, his mind a whirligig, his fortune unpredictable, his fame unclear. To put it shortly: all things of the body stream away like a river, all things of the mind are dreams and delusion; life is warfare, and a visit in a strange land; the only lasting fame is oblivion. What then can escort us on our way? One thing, and one thing only: philosophy. This consists in keeping the divinity within us inviolate and free form harm, master of pleasure and pain, doing nothing without aim, truth, or integrity, and independent from others' action or failure to act".

Marcus Aurelius, Meditations, II,17

COOL HAT


sábado, 14 de novembro de 2015

A GUERRA

O mundo ocidental está em choque com os atentados de Paris mas, infelizmente, dificilmente pode estar surpreendido. Aliás, se há coisa certa é que o grau de probabilidade de eventos desta natureza se repetirem, seja em maior ou menor escala, é muito elevado: por cada dez, cem ou mil atentados que os serviços de segurança impeçam, basta um em que os assassinos sejam bem sucedidos. E eles não vão parar. Assim, a primeira lição que intuo, mesmo que a quente, é precisamente esta: numa sociedade livre e pacífica, envolvidos numa guerra onde o campo de batalha pode ser em qualquer local, é impossível impedir com cem por cento de eficácia a morte dos inocentes. Consequentemente, o primeiro desígnio deverá sempre ser a compreensão de que não podemos deitar fora as nossas liberdades em nome de uma segurança inatingível.

Vivemos hoje, costuma dizer-se, num mundo global. É, por isso, apenas natural que numa sociedade global - a chamada "aldeia" - as coisas que dela façam parte se tornem também elas globais: as modas, os produtos, as economias - e a violência. Ao entrarmos na idade do mundo global, as imagens da barbárie assassina que antes apenas incomodavam porque transmitidas pela televisão ao horário do Telejornal chegaram, por fim, até às nossas portas. Hoje, e amanhã, porque a circulação de pessoas, bens e informação é global, e incontrolável, temos que perceber que a violência daqueles que rejeitam o nosso modo de vida para connosco é uma inevitabilidade com a qual temos que lidar.

Assim sendo, a forma como o Ocidente deve lidar com o terrorismo terá que ser forçosamente, por um lado, global - porque se trata de uma questão global - e, por outro lado, corajoso na defesa intransigente da tolerância e das liberdades - porque são estas que compõem o nosso modo de vida. Uma acção global, implica compreender que a chave do problema não reside unicamente dentro das nossas fronteiras, muito pelo contrário. Uma defesa intransigente da tolerância, implica compreender que não pode haver complacência para com os intolerantes.

Ambas as linhas de acção apenas serão bem sucedidas havendo um consenso político e social que, consciente do diagnóstico, seja capaz de agir. E, na acção, que não hesite, tropece ou desista à primeira dificuldade, ou revés. Que não fique tolhido ao primeiro sinal de impopularidade eleitoral. Por isso mesmo, apenas uma concordância amplamente maioritária nos objectivos máximos que partilhamos permitirá alcançar o desígnio último da sobrevivência do nosso modo de vida tal como conhecemos, e assente nos valores de sempre: tolerância política, liberdade, bem como a correspondente responsabilidade, individual, respeito pelos direitos dos outros e noção dos deveres para com a comunidade.

O fundamental, então, seria precisamente a capacidade de compromisso político, moderação cívica e negociação prática por parte dos centros democráticos políticos que permitisse a edificação de amplos consensos sociais. No entanto, infelizmente, aquilo que temos vindo a assistir é precisamente o oposto: sempre em busca do discurso estilo sol-na-eira-e-chuva-no-nabal que permite a sobrevivência eleitoral, e por isso mesmo constantemente derrotados pela força inexorável da realidade, os centros políticos vão-se esboroando através da descredibilidade, da alienação e, como no caso português, através radicalização utópica. Assim, vemos o centro antigamente estável, porque maioritário, crescentemente ser substituído por uma pluralidade de franjas extremistas, quer à esquerda quer à direita, em que a única coisa que partilham é precisamente a rejeição dos valores que edificaram a nossa civilização.

Não sendo nós capazes de afirmar esses pivotais valores morais, e por isso políticos e sociais, perante nós próprios, perante as nossas famílias, perante as nossas comunidades, como poderemos nós esperar outra coisa além da lenta e ininterrupta decadência face a todos aqueles que mais não querem do que assistir, e causar, a nossa destruição? A guerra está às nossas portas. E a primeira batalha é compreendermos, e aceitarmos, que temos que ser nós a lutá-la: ninguém o fará por nós. Para isso, temos que compreender o que de facto permitiu à nossa civilização ser tão bem sucedida - e defender esse tesouro com todas as nossas forças.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O OUTONO MORNO DE 2015

Ao contrário da maioria das opiniões situadas mais à direita no espectro político que tenho ouvido, eu não partilho mesmo nada da ideia de que um governo de esquerda seria ilegítimo para Portugal. Quanto a mim, não há defraudação dos resultados eleitorais alguma, muito menos um golpe de estado. Que eu saiba, os portugueses elegem deputados, deputados esses que são donos dos seu mandato e que têm por tarefa aprovar ou reprovar um programa de Governo. Em momento algum os portugueses foram chamados a eleger um Primeiro-Ministro: isso é, e sempre foi, tarefa do Parlamento. Que a generalidade dos cidadãos pense dessa forma, isso já será uma outra questão. Agora, que não haja dúvidas: qualquer solução parlamentar que consiga aprovar o seu programa de Governo, e rejeitar todos os outros, resulta da acção democrática dos portugueses. Aliás, muito me espanta que à direita se critique tanto uma solução parlamentar PS/CDU/BE quando todos se indignaram (e bem) com a famosa dissolução de um parlamento estável, com um um Governo assente numa maioria absoluta, levada a cabo pelo Presidente Sampaio. Se os mandatos dos deputados serviam em 2005 para um Governo novo e um Primeiro-Ministro novo por que razão não haveriam de servir agora? Sejamos coerentes. Aliás, alguém terá que o ser uma vez que a esquerda certamente não o é. Senão vejamos: em 2005, a maioria de direita no Parlamento não tinha legitimidade porque os portugueses não tinham votado em Santana Lopes para PM; mas agora António Costa tem toda a legitimidade para ser PM, mesmo tendo perdido umas eleições. Porquê? Porque é de esquerda. Aliás, ainda há um ano atrás, o Governo maioritário de Passos Coelho já não tinha legitimidade democrática porque não tinha apoio nas sondagens e todos clamavam pela dissolução da AR; mas, agora, um Governo apoiado pelo PS/CDU/BE tem toda a legitimidade mesmo que tenha sido sufragado por ninguém. Porquê? Porque é de esquerda. A esquerda é incoerente por natureza: só a incoerência poderá desejar, como a esquerda dos dias de hoje deseja, ter sol na eira e chuva no nabal: querem os serviços sociais, mas não querem pagar por eles; querem os direitos todos para todos, mas sem os correspondentes deveres; querem a solidariedade europeia, mas sem prestar contas a ninguém; e, naturalmente, acham também que podem ter uma coligação política onde se misturam um bando de lunáticos revolucionários anti-euro, anti-UE, anti-NATO e, lá está, anti-realidade, com um conjunto de socialistas moderados, europeístas convictos e portadores - sendo certo que numa dose limitada - de alguma réstia de bom-senso. Naturalmente, como tudo o resto, tal projecto é impossível - mesmo que democrático. Isto porque nem tudo o que é democrático é bom, uma lição que apenas fará bem aos portugueses para que passem a pensar duas vezes antes de oferecer mais de 15% dos votos à extrema-esquerda radical. Deixemos, portanto, a loucura para os loucos. Que chafurdem nela à vontade porque, e isto vale sobretudo para o PS, quanto mais o fizerem mais reforçarão a votação da PAF nas próximas eleições. Aliás, já foi esse chafurdanço que os fez perder as eleições legislativas agora: ao quererem competir com a extrema esquerda pelos 5% que andam ali entre o PS e o BE, perderam os 20% que andam entre o PS e o PSD. Claro está que os socialistas não percebem isto, pelo menos os mais excitados - que são muitos. Nos entretantos, das duas uma: ou daqui por uns dias lá andará o Dr. Costa a viabilizar, que é como quem diz a emperrar, o Governo PAF ou, num cenário em que o PS entre na insanidade completa de se colocar nas mãos de radicais de extrema-esquerda (que nunca quererão por seus impolutos rabos em assentos ministeriais) para governar, lá assistiremos aos ratings, juros, bancarrotas diversas, tudo muito rápido, tudo coisas do campo do real, uma coisa com a qual a actual esquerda tem muita dificuldade em lidar. No final, apenas variará o grau de repúdio dos portugueses face ao Dr. Costa, o grau de descrédito do PS ao centro e, consoante o peso na carteira, o número de arrependidos por no passado dia 4 não terem ido votar na PAF. Se o Dr. Costa pensa que com este jogo assusta o impassível Passos Coelho, está muito enganado. O irrevogável Paulo Portas explica.

sábado, 19 de setembro de 2015

PARA OS ANTI-PARTIDOS

Antes, o problema era a monarquia e a utopia era a república. Depois, o problema era a república e a solução era a ditadura. A seguir, a ditadura era a vergonha e a democracia o futuro risonho. Agora, são os partidos que são maus e a salvação será um novo sistema. No meio disto tudo sobra uma dúvida: como fazer esse sistema novo funcionar se é feito com os mesmos monárquicos, republicanos, ditadores e democratas de sempre?

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

FARPAS (IV)

"Todos os jornaes, na epoca de eleições, teem os seus candidatos predilectos. Os jornaes franceses lançam os nomes d'esses á adesão publica, no alto da pagina, em typo enorme. Os jornaes portuguezes é n'uma prosa dormente que os aconselham, com recato".

[Junho 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

FARPAS (III)

"Na acção governamental as dissenções são perpetuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não ha remedio, é necessario pagar a religião, o exercito, a centralisação, a lista civil, a diplomacia... - propõe um imposto.
«Caminhamos para a ruina! exclama o presidente do conselho. O deficit cresce! O paiz está pobre! A unica maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespêro, reune o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se d'agonia, e cada um alarga o callarinho na attitude d'um homem que vê desmoronar-se a patria!
- Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam-se carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! Cae o ministério histórico!
E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triumphante, occupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuiram mais, a opinião descreu mais mais, a moralidade publica abateu mais - mas finalmente cahiu aquelle ministerio desorganisador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.
Abre a sessão parlamentar. O novo ministerio regenerador vae falar.
Os senhores tachygraphos aparam as suas pennas velozes. O telegrapho está vibrante de impaciencia, para comunicar aos governadores civis e aos coroneis a regeneração da patria. Os senhores correios de secretaria teem os seus corceis sellados!
Porque, emfim, o ministerio regenerador vae dizer o seu programma, e todo o mundo se assôa com alegria e esperança!
- Tem a palavra o sr. presidente do conselho.
- O novo presidente: «Um ministerio nefasto (apoiado, apoiado! exclama a maioria historica da vespera) cahiu perante a reprovação do paiz inteiro. Porque, senhor presidente, o paiz esta desorganisado, é necessario restaurar o crédito. É a única maneira de nos salvarmos...»
Murmurios. Vozes: Ouçam! Ouçam!
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (attenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)».
- «Meus senhores, diz o presidente, com voz cava - o paiz esta perdido! O ministerio regenerador ainda hontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarchia e da oppressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o paiz a esta ultima desgraça! - Guerra ao imposto!...»
Não, não! com divergencias tão profundas é impossivel a conciliação dos partidos!"

[Maio de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

FARPAS (II)

"Este caldo é o Estado. Toda a nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames do lyceu a mocidade vê n'elle o seu repouso e a garantia do seu futuro.  A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença; é uma multidão desoccupada que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira: é uma ociosidade organisada por conta do Estado. Os proprietarios procuram viver á custa do Estado, vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A propria industria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive tambem do Estado. A sciencia depende do Estado.  O Estado é a esperança das familias pobres e das casas arruinadas. Ora como o Estado, pobre, paga probremente, e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a industria ou para o commercio, esta situação perpetua-se de paes a filhos como uma fatalidade. Resulta uma pobreza geral".

[Junho de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

FARPAS

"O paiz perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por unica direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprêzo pelas ideias augmenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença, de cima abaixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína economica cresce, cresce, cresce... O commercio definha. A indústria enfraquece. O salário diminue. A renda diminue. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo".

[Junho de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

THE FIRST PHILOSOPHER

                                                                     Daqui.

terça-feira, 14 de julho de 2015

A GRÉCIA E O EURO: REALISMO VS IDEALISMO

Neste momento, existem, grosso modo, duas narrativas antagónicas que procuram justificar a realidade e, naturalmente, oferecer uma solução para os predicamentos que atravessamos, em particular, a crise do Euro, da Grécia e das dívidas públicas. A primeira narrativa, chamemos-lhe a realista, ocupa-se em dizer que existe um problema de desequilíbrio orçamental,  que é preciso colocar as contas em ordem, que não vale a pena chorar pelo leite derramado, e que não se pode ir contra a realidade dos factos. A segunda narrativa, chamemos-lhe a idealista, vê as coisas de outra forma: mais do que o problema dos desequilíbrios orçamentais, o que realmente conta é o bem-estar, ou a minoração das consequências negativas, das e para as populações. A vida, dirá um idealista, mais do que números ou gráficos de economia, são as pessoas. E a obrigação dos governantes é a de garantir a sua protecção, segurança e bem-estar. Depois, a cisão aprofunda-se quando instados a analisar as causas do problema. Para um realista é simples: a Grécia tem uma economia fechada, pouco competitiva, pejada de interesses particulares que controlam um Estado imenso, clientelar e corrupto. Dessa forma, utilizou o crédito barato que a pertença ao Euro permitia e, por forma a sustentar todos esses vícios, foi gastando mais do que podia, gerando dessa forma uma enorme dívida que num momento de crise se revelou grande demais para sustentar, levando à inexorável falência. Para um realista, o responsável pela situação é o Estado grego. Já o idealista tem uma visão mais complicada. Para ele, a dívida é criada pelo Estado grego, isso é certo, mas é criada para fazer face às diferenças económicas que permitiam a um alemão, por exemplo, viver muito melhor do que um grego, antes da adesão à moeda única. E, considerando que o Euro permitiu a criação de muita riqueza aos alemães (através da exportação de bens para os países que se endividavam a comprá-los) a expensas do aproveitamento da submissão económica da periferia, então, conclui essa perspectiva, a participação no Euro encerrou uma grande vantagem para os alemães, uma vantagem que deve justificar a solidariedade que se exige agora para que países como a Grécia não sucumbam à miséria. Desta forma, mesmo que resumido, é possível perceber-se que o ênfase das duas visões está centrado em valores muito diferentes: por um lado, o realista, coloca o ênfase na responsabilidade individual de cada Estado, neste caso o grego; já o idealista, por outro lado, coloca o ênfase no facto de o Euro ser um projecto Europeu e, como tal, considera que o valor da solidariedade europeia é o vector fundamental para ultrapassar a crise. Ora, não é à toa que a colisão se faz, não em ideias, mas em valores: de um lado o valor da responsabilidade individual de cada Estado está, naturalmente, ligado à noção de soberania nacional; já do outro lado, como evidente será, o valor da solidariedade europeia está directamente ligado à noção de uma Europa mais integrada, se não mesmo federal. O problema adensa-se quando muitos dos realistas se revelam federais e muitos dos idealistas, por ventura a maioria até, se assumem ferozes proponentes da soberania nacional (contra o Diktat de Bruxelas ou Berlim) - veja-se o discurso do PM grego Tsipras. A causa verdadeira para esta salgalhada é simples. A UE, e o Euro em particular, representam, neste momento, uma tensão entre soberania nacional e um sistema federal. E se é verdade que, até há alguns anos atrás, os dirigentes dos Estados-Membros pareciam saber para onde queriam ir, já no momento actual fica patente que, mais do que tudo, aquilo que falta à UE é precisamente a capacidade de saber dizer que rumo político pretende tomar. O Euro é a prova disso mesmo: por um lado, temos uma moeda única que, em si mesma, representa um instrumento federal. A moeda é uma condição de soberania e um país que não disponha de uma moeda própria que possa valorizar ou desvalorizar, imprimir ou trocar, é um país que não é inteiramente soberano. No entanto, e este é o cerne do problema, a UE tem uma moeda única, é certo, mas um enorme conjunto de instrumentos de governação altamente responsáveis por de facto oferecer, ou retirar, valor a essa mesma moeda única permaneceram nacionais - a começar pela possibilidade prática de geração de défices e de criação de dívida pública. Se, é certo, tanto realistas como idealistas têm razões válidas no seu argumentário, na minha visão muito mais os primeiros do que os segundos, não deixa de ser verdade também que a génese do problema se encontra neste desequilíbrio estrutural no seio da união monetária. A questão passa a ser, então, como resolver o impasse institucional. E, aqui, é que é preciso que se tenha a capacidade de gerar o verdadeiro compromisso - um compromisso para a próxima geração - que seja capaz de definir o rumo político da UE. Das duas, uma: ou seguimos o caminho da responsabilidade individual dos Estados - e aí o Euro será, consequentemente, um projecto falhado; ou, em alternativa, o caminho da integração europeia - e aí é preciso que se assuma que o custo da solidariedade europeia é o da integração política e o do abandono da soberania nacional em matérias orçamentais. Mas, como tudo na vida, a escolha impõe-se: sol na eira e chuva no nabal é coisa que não será possível. E, naturalmente, cada opção terá os seus custos e as suas necessidades. Aceitar que o Euro falhou e o caminho é o de regresso à CEE implica todo um processo gradual de governação europeia para garantir que os países com economias mais frágeis conseguem fazer uma transição tranquila rumo ao pós-Euro. Já o avanço para uma solução de integração económica mais profunda parece-me impossível no actual quadro institucional da UE, ou seja, e aqui tanto realistas como idealistas haverão de concordar, não poderão haver mais transferências de poder para os burocratas de Bruxelas: a haver mais integração política exige-se uma reformulação do sistema político europeu, uma reformulação que seja capaz de trazer para Bruxelas a legitimidade democrática dos povos que esta pretende governar. Nenhum dos dois caminhos se apresenta fácil.